
Ao longo de seis décadas, a Sociedade Brasileira de Física (SBF) tem acompanhado a formação, o desenvolvimento e a consolidação de gerações de pesquisadores que ajudaram a construir a física e a ciência de ponta no país. Entre eles está o físico Rogerio Rosenfeld, professor do Instituto de Física Teórica da Unesp. Com graduação (1982) e mestrado (1984) pelo Instituto de Física da Universidade de São Paulo, Rosenfeld obteve o título de doutor pela Universidade de Chicago em 1990.
Autor de mais de uma centena de artigos científicos e de livros de divulgação científica como Feynman e Gell-Mann: Luz, quarks, ação e O cerne da matéria, o pesquisador construiu uma relação estreita com a SBF desde os primeiros anos de sua formação acadêmica. Essa trajetória o levaria, décadas mais tarde, à presidência da entidade, exercida no biênio 2019-2021.
“A SBF foi muito importante para mim desde o início da minha carreira”, recorda o pesquisador. Embora não tenha participado da criação da entidade, em 1966, nem tenha testemunhado sua importante atuação no cenário político e científico dos anos de 1970, Rosenfeld assinala que a influência da entidade sobre sua trajetória foi profunda.
“A SBF foi e é fundamental com a organização dos Encontros Nacionais de Partículas e Campos, hoje dentro dos Encontros de Primavera, das Escolas Jorge André Swieca de Partículas e Campos e da Comissão de Partículas e Campos”, destaca o pesquisador, que desenvolveu sua carreira científica justamente na área de Física de Partículas e Campos.
Uma das lembranças mais marcantes do físico remonta ao início de 1981, quando o acesso à informação científica era muito mais restrito do que hoje. “Nesse ano participei da I Escola de Verão Jorge André Swieca de Partículas e Campos”, lembra Rosenfeld. Entre as aulas que mais o marcaram naquele encontro estavam as de “Integrais de Trajetória”, ministradas pelo físico Moysés Nussenzveig. “Usei essas aulas várias vezes na minha própria trajetória”, revela.
Dois anos depois, ele retornaria para a segunda edição da Escola. Mais de quatro décadas após aquele encontro, os materiais daquele período continuam preservados em sua biblioteca pessoal. “Guardo até hoje os dois volumes editados pela SBF com as notas dos cursos das duas Escolas, realizadas no Instituto de Física da USP”, relata.
Para Rosenfeld, a importância dessas iniciativas só pode ser plenamente compreendida quando se considera o contexto histórico. “Essas Escolas, pioneiras em uma época pré-internet, foram muito importantes para que uma geração de físicos em formação tomasse contato com as áreas de pesquisa de ponta”, afirma.
O vínculo criado naquele período acabou se transformando em uma contribuição ativa à própria Escola Swieca. Em 1999, ele participou da organização da décima edição do evento, cujos cursos foram posteriormente publicados pela editora World Scientific. Também atuou como docente em diferentes edições, ministrando cursos em 2011, na XVI Escola realizada em Campos do Jordão (SP), e em 2017, na XIX edição, em Maresias, litoral paulista. “Fiquei muito contente de, anos mais tarde, poder contribuir com essa Escola”, resume.
A relação de Rosenfeld com a SBF não se limitou às escolas avançadas. Seu primeiro congresso científico também foi organizado pela entidade. Em setembro de 1984, ainda no início da carreira, ele participou do V Encontro Nacional de Física de Partículas e Campos, realizado no Hotel Simon, então localizado no Parque Nacional de Itatiaia. “O primeiro evento científico que participei também foi organizado pela SBF”, lembra.
Com o passar dos anos, o participante transformou-se em organizador. Rosenfeld integrou diferentes comissões organizadoras dos encontros nacionais da área e chegou a coordenar o XXVII Encontro Nacional de Física de Partículas e Campos, realizado em 2006, em Águas de Lindóia.
Sua trajetória acompanhou o crescimento da própria comunidade científica brasileira. Segundo ele, a expansão do número de pesquisadores tornou necessária a criação de estruturas permanentes de representação dentro da SBF.
“Com o crescimento da comunidade, foi importante a criação das diferentes Comissões de Área para congregar sócios de diferentes áreas, seguindo o modelo da American Physical Society”, explica.
Atualmente, a SBF conta com 12 comissões de área. A Comissão de Partículas e Campos foi uma das pioneiras, e Rosenfeld participou de suas atividades desde os primeiros anos. Posteriormente, assumiria sua coordenação, no período de 2015 a 2016.
Apesar de décadas de envolvimento com as atividades científicas promovidas pela SBF, Rosenfeld não imaginava que acabaria presidindo a entidade. “Foi uma surpresa quando o físico Marcos Pimenta me convidou para participar de uma chapa”, recorda, referindo-se à chapa eleita para o biênio 2017-2019. Rosenfeld permaneceu na diretoria e acabou assumindo a presidência da SBF. “Fiquei muito contente em ter a oportunidade de retribuir para uma Sociedade que tanto fez por mim”, afirma.
Durante sua gestão, uma das iniciativas que considera mais importantes foi a valorização da divulgação científica. “A criação em 2019 do Prêmio Ernesto Hamburger para o reconhecimento de atividades de divulgação científica levou a uma valorização desse importante aspecto da atuação do cientista”, avalia, ressaltando que o prêmio homenageia o legado de um dos principais defensores da comunicação pública da ciência no país.
Outro marco apontado por Rosenfeld foi o lançamento do programa “Física ao Vivo”, cuja primeira transmissão ocorreu em outubro de 2019. A iniciativa, ele avalia, ampliou o alcance das atividades da SBF para além dos eventos presenciais. “Penso que a SBF se aproximou mais de seus sócios em todo o país com o ‘Física ao Vivo’”, afirma. “Hoje, os 93 vídeos disponibilizados online constituem um acervo valioso que discute uma enorme quantidade de tópicos relacionados à Física.”
Rosenfeld também inclui entre os destaques de sua gestão o lançamento do Verifísica, serviço criado pela entidade para a checagem de informações relacionadas à Física. “É uma iniciativa importante, oferecida pela SBF a partir de 2020, mas pouco utilizada”, lamenta, lembrando que o serviço funciona por demanda.
Mas o maior desafio da gestão de Rosenfeld foi sem dúvida a pandemia de Covid-19, que causou a suspensão repentina dos encontros presenciais e exigiu uma rápida adaptação da entidade. Segundo o pesquisador, a experiência acumulada com o Física ao Vivo ajudou a reduzir o impacto da crise. “A resiliência da equipe da SBF foi incrível”, destaca. “Como o ‘Física ao Vivo’ havia começado no ano anterior, estávamos acostumados a usar ferramentas como o Zoom, que na época ainda não era bem conhecido.”
Essa familiaridade com os ambientes digitais permitiu que a SBF mantivesse suas atividades e preservasse o contato entre pesquisadores durante um dos períodos mais difíceis da história recente. “Isso permitiu uma transição mais rápida para a organização de eventos online, o que manteve a comunidade ativa e participante”, afirma. O resultado, segundo ele, foi positivo. “Felizmente superamos essa fase com uma SBF forte e atuante.”
Ao olhar para os 60 anos da SBF, que serão comemorados em 20 de agosto, no Auditório Abrahão de Moraes, no Instituto de Física da Universidade de São Paulo, em São Paulo, Rosenfeld vê uma instituição que continua crescendo e ampliando sua relevância para a comunidade científica. “As gestões seguintes trouxeram e continuam trazendo grandes avanços”, afirma. Para ele, a entidade chega à sexta década de existência fortalecida e preparada para novos desafios. “Nos seus sessenta anos de história, mostra-se cada vez mais pujante como representante de nossa comunidade.”
Ao final de seu depoimento, Rosenfeld deixa uma mensagem simples, mas carregada de significado para milhares de pesquisadores brasileiros: “Parabéns à Sociedade Brasileira de Física nessa efeméride!”
Por Leandro Haberli







