Autor de mais de 400 artigos científicos, o físico Anderson Stevens Leonidas Gomes, que construiu sua carreira em torno do estudo da interação entre luz e matéria, foi laureado com a edição 2026 do Prêmio Joaquim da Costa Ribeiro. Uma das mais importantes distinções da física no país, o prêmio é promovido pela Sociedade Brasileira de Física (SBF) e faz referência a um dos pioneiros da ciência moderna brasileira, reconhecido por suas contribuições à física experimental e ao estudo de materiais dielétricos.
Em entrevista à SBF, Gomes, que concluiu a graduação e o mestrado em física na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), fez doutorado no Imperial College London e pós-doutorado na Brown University, conta que recebeu com “muita satisfação e grata surpresa” a notícia. “É uma homenagem que muito me orgulha, pois é a primeira que recebo vindo da comunidade científica, e leva o nome de um dos maiores cientistas brasileiros”, afirmou. Segundo ele, o prêmio “adiciona um reconhecimento importante” à sua carreira e pode “servir de exemplo para jovens pesquisadores”.
Desde o mestrado, Gomes, que foi professor titular do Departamento de Física da UFPE entre 1990 e 2023 e atualmente atua como membro permanente dos programas de pós-graduação em Física e Odontologia da universidade, além de colaborar com o Programa de Pós-Graduação em Ciência dos Materiais da Universidade Federal do Vale do São Francisco, desenvolve pesquisas envolvendo lasers, óptica não linear, nanofotônica e materiais avançados.
“Inicialmente, o objetivo era entender fenômenos de óptica não linear usando, por exemplo, átomos de sódio, íons de terras raras, materiais bidimensionais, metamateriais, entre outros”, explicou. Ao longo das décadas, porém, sua atuação se expandiu para pesquisas envolvendo materiais e saúde, incluindo aplicações de diagnóstico óptico na odontologia. Entre os destaques estão pesquisas odontológicas envolvendo o uso da tomografia por coerência óptica, tecnologia empregada também em oftalmologia.
Ele conta que um dos momentos marcantes de sua carreira ocorreu durante o pós-doutorado, em 1993, quando trabalhou com um novo tipo de emissão laser conhecido como “laser aleatório”. O tema se transformou em uma linha de pesquisa internacionalmente reconhecida. “Os lasers aleatórios, dos quais sou coautor na publicação original em 1994, criaram uma nova área no mundo e também no Brasil”, conta Gomes, lembrando que o trabalho ganhou ainda mais projeção ao ser citado pelo físico italiano Giorgio Parisi, vencedor do Nobel de Física de 2021.
Outro ponto relevante de sua trajetória foi a colaboração com a física francesa Anne L’Huillier, laureada com o Nobel de Física de 2023. “Eu participei e sou coautor de um dos três trabalhos pioneiros dela”, ressaltou.
Não obstante o reconhecimento internacional, Gomes observa que sua caminhada acadêmica também foi marcada por obstáculos. “Primeiro, não passei no primeiro vestibular em 1973, para engenharia elétrica, mas passei no ano seguinte para física”, contou. Durante a graduação, enfrentou dificuldades acadêmicas. “Tive três reprovações, que recuperei depois. Fiz muita prova final. Mas nada disso me fez desistir, pelo contrário.”
Segundo ele, a transposição de tais desafios foi fundamental para sua formação. “Eu tinha que superar essas deficiências com outras habilidades. Descobrir essas habilidades, com a ajuda dos orientadores de mestrado, foi muito importante para consolidar minha atuação na área.”
Perguntando sobre as transformações recentes da física da matéria condensada e de materiais, o pesquisador destaca o impacto da nanotecnologia e da nanofabricação. “A preparação e caracterização de novos, e também de materiais já conhecidos, fez toda a diferença, particularmente os nanomateriais”, pontua. Para ele, o avanço da área exigiu “a invenção de novos equipamentos e novas técnicas de medida”, impulsionando aplicações que vão “da medicina às comunicações ópticas”.
Acima de artigos científicos e indicadores acadêmicos, Gomes considera a transmissão de conhecimento sua principal missão. “A formação de pessoas é a parte mais importante do legado. O resto é valor agregado. Indicadores”, comparou. “Eu me orgulho de ter ajudado a formar as pessoas que trabalharam comigo, pois é muito bom vê-las crescendo e formando outras pessoas em diversas partes do mundo.”
Sobre os desafios atuais da ciência brasileira, ele reforça a necessidade de perseverança. “A primeira coisa que quero dizer é: nunca desista.” Embora reconheça dificuldades como o financiamento “baixo ou irregular”, ele ressalta a capacidade da ciência nacional de produzir resultados relevantes. “Com o que temos conseguimos fazer muito”, afirmou. Entre os desafios futuros, ele insere a necessidade de aproximar universidade e indústria e ampliar o pluralismo na pesquisa científica brasileira. “Ter mais diversidade entre os pesquisadores é um grande desafio.”
Por Leandro Haberli







