Quando a Sociedade Brasileira de Física (SBF) celebrar seus 60 anos, na cerimônia especial que será realizada em 20 de agosto de 2026, no Auditório Abrahão de Moraes, no Instituto de Física da Universidade de São Paulo, em São Paulo, uma parte importante dessa história estará representada na trajetória do físico Francisco César de Sá Barreto.

Professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), presidente da SBF por dois mandatos consecutivos (entre 1993 e 1997), ex-reitor da UFMG, membro do Conselho Nacional de Educação, Secretário Nacional de Educação Superior e participante ativo de diferentes momentos decisivos da ciência brasileira, César testemunhou e ajudou a construir boa parte da evolução institucional da física no país. Daí ter sido um dos palestrantes da edição deste ano do Encontro de Outono da SBF, realizado em maio, em Cuiabá (MT).

Sua relação com a entidade começou ainda na década de 1960, nos primeiros anos de sua fundação. Ao longo do tempo, César ocupou funções como secretário regional, secretário-geral, vice-presidente, conselheiro e, posteriormente, presidente da SBF. Em seu discurso no EOSBF, ele revisitou memórias que se confundem com a própria história da ciência brasileira.

“Hoje, como sempre, a SBF são vocês”, afirmou ao encerrar sua fala, sintetizando uma visão que acompanha sua trajetória: a de que a força da entidade sempre esteve na mobilização de sua comunidade.

Momento turbulento

Graduado em Física pela UFMG em 1965, César pertence a uma geração que iniciou a carreira científica em um país onde a infraestrutura de pesquisa ainda era extremamente limitada. Após concluir o bacharelado, buscou alternativas para continuar sua formação acadêmica e chegou a considerar a recém-criada Universidade de Brasília (UnB), então um dos projetos universitários mais inovadores do país.

A visita à instituição ocorreu em meio a um momento turbulento da história brasileira. A ditadura militar havia sido instaurada dois anos antes e começava a aprofundar sua intervenção nas universidades. “Brasília era um ponto de referência para o país”, recorda. “Naquele momento a UnB tinha conseguido trazer de volta vários pesquisadores brasileiros que estavam trabalhando no exterior.”

O entusiasmo, porém, durou pouco. A crise provocada pela intervenção do regime militar levou à saída coletiva de centenas de professores da universidade, entre eles nomes fundamentais da ciência nacional. “Com isso, o mestrado praticamente desapareceu”, relembra. “Naquele momento, a autonomia foi desrespeitada completamente”, lamenta.

Enquanto a UnB atravessava sua crise, surgia em Belo Horizonte uma alternativa. Em 1966, o físico Ramayana Gazzinelli criou o primeiro programa de mestrado da UFMG, justamente um mestrado em física. A estrutura era incipiente, mas representava um passo decisivo para a formação científica fora dos grandes centros tradicionais. “Não tinha laboratórios, oficinas, biblioteca ou bolsas. Mesmo assim, o mestrado foi iniciado”, explica César, informando que, posteriormente, a pós-graduação em física da UFMG foi avaliada com o conceito A e depois com o conceito 7.

A partir desse programa, abriu-se uma oportunidade que mudaria a trajetória do ex-presidente da SBF. Graças a um convênio entre a Fundação Rockefeller e a UFMG, César recebeu uma bolsa para cursar o doutorado nos Estados Unidos, na Universidade de Pittsburgh.

Mesmo essa conquista, porém, esbarrou nas restrições políticas do período. Por estar submetido a um processo conduzido pela Justiça Militar, César não conseguia obter os documentos necessários para tirar passaporte. O episódio tornou-se uma das experiências mais marcantes de sua vida acadêmica. “Eu não podia sair do país”, recorda.

Após uma série de procedimentos burocráticos e articulações envolvendo diferentes órgãos, ele conseguiu finalmente obter a documentação necessária para viajar. Ainda assim, a sensação de insegurança permaneceu por muitos anos. “Eu ficava muito preocupado com a possível interferência da polícia política na minha vida pessoal”, lembra.

César não era, obviamente, o único a passar por tais dificuldades. Fundada em 14 de julho de 1966, em Blumenau (SC), a própria SBF nasceu em um contexto adverso. A comunidade científica convivia com aposentadorias compulsórias, perseguições políticas e limitações institucionais.

Durante sua fala no EOSBF, César lembrou que, em abril de 1969, o então presidente da Sociedade, José Leite Lopes, e o vice-presidente, Jayme Tiomno, foram aposentados compulsoriamente pelo regime militar.

Apesar dos desafios e empecilhos, César observa que a entidade ampliou sua atuação, passando a investir sobretudo em divulgação científica. A criação em 1971 da Revista Brasileira de Física (hoje Brazilian Journal of Physics – BJP), da Revista de Ensino de Física, em 1979, e da Revista de Física Aplicada e Instrumentação, em 1985, consolidou canais permanentes de comunicação da física brasileira.

Ao mesmo tempo, a SBF passou a exercer influência crescente na formulação de políticas públicas para ciência e tecnologia, indicando nomes para comitês assessores, participando de debates nacionais e atuando em defesa da autonomia acadêmica. “Ela sempre manteve sua independência e autonomia”, destacou.

Entre as contribuições de César para a comunidade científica está sua participação na criação do Encontro Nacional de Física da Matéria Condensada (ENFMC), realizado pela primeira vez em 1978, em Cambuquira (MG). A iniciativa surgiu em uma época sem internet, celulares ou comunicação digital. Assim, os contatos entre pesquisadores eram feitos principalmente por cartas. “A gente escrevia carta com papel e caneta e mandava para frente”, lembra com bom humor.

O objetivo, nas palavras do físico, era simples e ambicioso: aproximar pesquisadores de diferentes regiões do país. “Nós sentíamos falta de uma série de coisas, e uma delas eram esses encontros.” A experiência foi tão bem-sucedida que inspirou a criação de diversos outros eventos científicos nacionais. Décadas depois, o ENFMC daria origem ao atual EOSBF. “Uma das intenções era exatamente promover o encontro de pessoas de tal forma que as interações científicas e de educação superior pudessem ocorrer de forma mais rápida”, assinala.

Quando assumiu a presidência da SBF, em 1993, o Brasil vivia o desafio de consolidar suas instituições democráticas e reorganizar o sistema nacional de ciência e tecnologia após décadas de instabilidade econômica.

Segundo César, uma das principais preocupações era a sustentabilidade financeira da própria Sociedade. “Nós tínhamos dificuldades econômicas muito grandes”, recorda.

A gestão anterior, conduzida por Fernando Souza Barros, enfrentara problemas para manter as atividades básicas da entidade. Já durante a vice-presidência de Fernando Zawislak, o foco principal havia sido a internacionalização do Brazilian Journal of Physics. Na presidência de César, a prioridade passou a ser fortalecer a estrutura financeira da instituição.

“O ponto principal foi uma mudança do ponto de vista da economia e do financiamento”, afirma. Entre as iniciativas implementadas naquele período estiveram a criação do cartão de crédito da SBF e de um convênio de seguro-saúde destinado a estudantes e associados. “O convênio foi um destaque do nosso projeto”, salienta.

O período também coincidiu com dificuldades mais amplas enfrentadas pela ciência brasileira. “Nós tínhamos uma certa dificuldade de financiamento das bolsas e da pesquisa de uma maneira geral”, relembra.

Segundo ele, as políticas de contenção econômica adotadas pelo governo federal para enfrentar a inflação acabaram afetando investimentos em educação e pesquisa. “Não era só a física. Todas as áreas educacionais tinham dificuldade de financiamento.”

Ainda assim, sua avaliação é que o diálogo institucional com o governo permaneceu relativamente estável. “Não tive, naquele momento, nenhum desgaste sério com o governo”, afirma.

A conquista da sede própria

Uma das marcas mais duradouras de sua gestão foi a construção da sede própria da SBF, no campus da USP, inaugurada em 1997. Até então, a entidade havia funcionado por aproximadamente três décadas em salas cedidas pelo Instituto de Física da universidade.

A nova sede foi construída com recursos próprios e simbolizou uma nova etapa de maturidade institucional. “Muita gente apoiou a ideia”, recorda. Para ele, a escolha da USP fazia sentido porque o campus já funcionava naturalmente como um ponto de encontro da comunidade científica brasileira. “Era bom porque o pesquisador chegava lá e encontrava colegas das diferentes áreas. Interagia cientificamente sem ser um lugar burocrático.”

Embora reconheça que houve quem defendesse alternativas como Rio de Janeiro ou Brasília, César considera que a decisão foi acertada. “O fato de ter uma sede própria deu uma certa autonomia para a SBF.”

Ao olhar para os 60 anos da entidade, o professor emérito da UFMG demonstra preocupação com a preservação da memória institucional da ciência brasileira. Ele destaca o histórico da SBF escrito pelo físico Silvio Salinas, por ocasião da inauguração da sede própria, como uma referência importante para compreender a trajetória da entidade até o final dos anos 1990. Ao mesmo tempo, acredita que muitos desafios permanecem atuais. Entre eles, César destaca a persistência das desigualdades regionais e institucionais no sistema científico brasileiro. “Eu acho que ainda existem assimetrias no nosso país”, afirma.

Para ele, políticas públicas uniformes nem sempre conseguem responder adequadamente às diferentes realidades encontradas nas universidades brasileiras. “É preciso ter uma atitude assimétrica para atender às assimetrias.”

A defesa dessa ideia o acompanhou mesmo após deixar a presidência da SBF. Como reitor da UFMG e posteriormente em projetos nacionais voltados à pós-graduação, buscou mecanismos que levassem em consideração as diferenças de desenvolvimento entre instituições e regiões.

Hoje, já aposentado, continua refletindo sobre o futuro da educação superior. Um dos projetos aos quais ainda se dedica é um livro provisoriamente intitulado Universidade do Amanhã. A escolha do título não se deu ao acaso. “Futuro é uma coisa muito distante”, explica. “O amanhã é mais próximo.” A ressalva resume uma característica recorrente de sua trajetória: a preocupação constante em transformar desafios estruturais em projetos concretos.

A história de Francisco César de Sá Barreto ajuda, em suma, a iluminar um percurso que vai muito além de uma entidade científica. É a trajetória de uma geração que construiu programas de pós-graduação praticamente do zero, enfrentou as limitações impostas pela ditadura, participou da redemocratização do país e consolidou instituições que hoje sustentam a pesquisa brasileira. Uma história que, como a própria SBF, continua sendo escrita.

Por Leandro Haberli