Adalberto Fazzio, diretor da Ilum Escola de Ciência (Divulgação: CNPEM)

Presidente da Sociedade Brasileira de Física por duas gestões consecutivas (2003-2005 e 2005-2007), o físico Adalberto Fazzio, que tem uma trajetória de mais de quatro décadas dedicadas ao estudo de materiais por meio de ferramentas computacionais, é um dos personagens centrais na trajetória recente da entidade. Por isso, não poderia deixar de ser ouvido na série de entrevistas sobre os 60 anos da SBF, que serão comemorados em 20 de agosto, no Auditório Abrahão de Moraes, no Instituto de Física da Universidade de São Paulo, em São Paulo.

Pioneiro no Brasil no uso de cálculos empregados na investigação das propriedades dos materiais, Fazzio, que é graduado pela Universidade de Brasília em 1972, concluiu o mestrado na mesma instituição em 1975 e obteve o doutorado na USP em 1978, destaca que a SBF teve papel decisivo em alguns dos principais debates científicos e políticos do país nas últimas décadas, incluindo a discussão sobre energia nuclear e a ampliação das universidades públicas brasileiras. Ao analisar os 60 anos da SBF, ele defende que, hoje, a entidade precisa liderar uma profunda reformulação dos cursos de física no Brasil.

“Para mim, já não há espaço para um curso de física que não ensine, por exemplo, toda a parte de ciência de dados, inteligência artificial, aprendizado de máquina, LLM”, diz, referindo-se à sigla em inglês para Modelo de Linguagem de Grande Escala, como são conhecidos os sistemas de IA treinados com enormes volumes de texto para aprender padrões da linguagem humana.

À frente de pesquisas envolvendo materiais avançados como metais de transição, filmes finos de ouro e prata, nanoestruturas de carbono, silício e isolantes topológicos, Fazzio, que tornou-se professor do Instituto de Física (IF) da Universidade de São Paulo em 1979, alcançando o posto de professor titular em 1991, lembra que uma das marcas de suas gestões como presidente da SBF foi a celebração, em 2005, do Ano Mundial da Física.

“Nós promovemos 180 eventos no Brasil. Cada regional tinha um conjunto de eventos”, insere Fazzio. As iniciativas, ele observa, incluíram palestras, atividades educacionais e encontros especiais voltados à popularização da ciência. “Não eram os eventos do calendário normal. Eram ocaisões realmente para comemorar o Ano Mundial da Física, que foi declarado pela Unesco naquela época”, rememora, acrescentando que a Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) destinou, na ocasião, cerca de R$ 2 milhões para tais atividades.

Sobre a fundação da SBF, ocorrida em 1966 durante a 18ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), realizada em Blumenau (SC), Fazzio lembra que ela se deu em um contexto de forte tensão política e científica.

“Naquele tempo, a entidade que falava pela comunidade brasileira era a SBPC”, pontua. “Os principais físicos da época, como Amélia Hamburger, Ernesto Hamburger, José Goldemberg, Mário Schenberg e Fernando de Souza Barros, tinham muita voz lá. Mas a gente já estava num regime complicado. E também havia a Guerra Fria, uma grande discussão sobre física nuclear, usinas nucleares, desenvolvimento tecnológico.”

Naquele contexto, ele avalia, surgiu a percepção de que os físicos precisavam de uma entidade própria para defender pautas específicas da área. Para Fazzio, a SBF teve papel importante nas discussões envolvendo o programa nuclear brasileiro e também pautas externas de destaque, a exemplo da aproximação científica entre Brasil e Argentina durante o governo de José Sarney.

“Havia um dissenso muito grande entre os dois países. Os argentinos tinham um olhar de que nós íamos fazer a bomba, e nós achávamos que eles iriam fazer”, conta. “A SBF teve uma articulação muito boa com a Argentina, que até hoje perdura.”

Segundo Fazzio, tal cooperação científica ajudou a reduzir as desconfianças bilaterais e resultou na criação de mecanismos conjuntos de acompanhamento da área nuclear. “Hoje, Brasil e Argentina são irmãos nessa área. Os pesquisadores trocam informações, cooperam uns com os outros. A SBF teve papel fundamental e conclusivo de terminar com essa divergência.”

Durante sua gestão, ele afirma que a SBF retomou a discussão sobre a expansão da energia nuclear no país. “Nós criamos novamente uma comissão nuclear”, informa, lembrando que o debate reunia físicos com posições divergentes. “O professor Goldemberg já defendia continuar com hidrelétricas ou energias alternativas”, diz, referindo-se ao físico José Goldemberg, que foi presidente da SBF por duas gestões consecutivas, de 1975 a 1979, e teve papel central na própria fundação da entidade, em 1966, ao presidir a assembleia da SBPC realizada em Blumenau.

Fazzio ressalta que a discussão não se restringia à capacidade tecnológica brasileira. “O Brasil domina todo o ciclo do urânio. Então não era esse o problema. A questão era: vale a pena ter usinas nucleares depois dos acidentes que ocorreram?”, pergunta.

Entre os episódios lembrados por ele está o acidente radiológico de Goiânia, ocorrido em 1987. “A SBF atuou de forma muito forte naquele evento, criticando a parte de fiscalização da CNEN”, afirma, em referência à Comissão Nacional de Energia Nuclear.

Apesar das preocupações, o pesquisador não demoniza o uso da energia nuclear. “Utilizada da forma correta e por gente correta, ela é importantíssima. O problema é que sempre tem um ‘gente’ no meio.”

Ainda sobre os usos pacíficos da tecnologia nuclear, ele cita o papel estratégico dos radioisótopos na medicina e o avanço da física médica no Brasil. “A gente necessita disso para a cura de câncer e outras doenças”, diz, destacando a importância dos cursos de física médica. “Graças a eles, temos profissionais que vão, por exemplo, até consultórios dentários verificar se os equipamentos estão com a dosagem correta.”

Fazzio também acredita que a fusão nuclear poderá revolucionar a matriz energética mundial no futuro. “Os físicos vão resolver o problema da energia quando a gente tiver a fusão nuclear. Vai ser segura, barata e gerar muita energia. Mas isso ainda está longe”, vislumbra.

Voltando às suas gestões à frente da SBF, ele enfatiza que a entidade nunca atuou privilegiando uma área específica da física, mas sim fortalecendo a comunidade científica por meio de encontros e articulações coletivas. “A grande importância da sociedade foram as reuniões. Reuniões de partículas, física nuclear, matéria condensada. Era lá que as coisas fluíam.”

Na área de física computacional e ciência dos materiais, em que é especialista, ele destaca a relevância dos encontros científicos para a consolidação de grupos de pesquisa no país. “Os eventos eram o lugar em que os físicos se reuniam para discutir e acompanhar o que era feito no exterior.” Segundo Fazzio, isso contribuiu para o desenvolvimento de áreas como semicondutores e epitaxia molecular no Brasil. “A comunidade de semicondutores se aproveitou muito desses eventos para o seu crescimento.”

Outro ponto que ele considera fundamental em suas gestões como presidente da SBF foi o fortalecimento das publicações científicas e educacionais da entidade. Durante sua gestão, houve debates sobre a continuidade da Revista Brasileira de Ensino de Física e da revista Física na Escola. “Dei força para manter e fortalecer as duas publicações, que foram e continuam sendo muito importantes para nossa comunidade”, afirma.

Nas palavras de Fazzio, essas publicações cumprem um papel essencial na formação de professores e estudantes. “A gente precisa olhar para o outro lado da publicação científica. A Física na Escola tem impacto direto na formação dos nossos professores e alunos.”

Ao projetar o futuro da SBF, no entanto, ele insiste que o maior desafio está na modernização do ensino de física. Em sua avaliação, os cursos permanecem excessivamente tradicionais, pouco conectados às transformações tecnológicas contemporâneas e distantes da experimentação prática.

“O curso de física, para usar uma expressão antiga, é muito careta”, brinca. “Você vê um monte de coisas, obviamente importantes, mas o tempo é muito grande, as aulas são longas e há pouco experimento.”

Ele defende que, para mudar tal quadro, a SBF lidere um debate nacional envolvendo pesquisadores experientes, docentes e especialistas em ensino. “A SBF tem que ter coragem de abrir uma grande discussão. Precisamos pensar um curso conectado com o mundo moderno e também com as necessidades do Brasil.”

Fazzio argumenta que os problemas científicos atuais são cada vez mais interdisciplinares e exigem novas competências dos futuros físicos. “Hoje você usa inteligência artificial para tudo. Incluindo na física nuclear, cosmologia, materiais.” Para ele, insistir em modelos tradicionais de formação pode afastar a física das transformações aceleradas do século XXI. “Quem olhar o mundo hoje e disser que o nosso curso de física está ok, estará errado”, afirma. “O mundo inteiro está mudando. E rápido.”

Por Leandro Haberli