
Dando prosseguimento à publicação de conteúdos especiais em celebração aos 60 anos da Sociedade Brasileira de Física (SBF), que serão comemorados em 20 de agosto, no Auditório Abrahão de Moraes, na USP, em São Paulo, nesta edição de nosso informativo publicamos um texto que resultou de uma rica conversa com a física nuclear Débora Peres Menezes.
Professora titular da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e presidente da SBF entre 2021 e 2023, Débora tem doutorado pela Universidade de Oxford e atuação destacada como diretora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Sua trajetória une produção acadêmica, atuação institucional e engajamento na divulgação da ciência, participando de iniciativas voltadas, inclusive, à ampliação da presença feminina nas áreas de exatas. Este é um dos principais propósitos do projeto Mulheres na Ciência, do qual ele participa e que regularmente publica vídeos na internet sobre o tema. Confira: Mulheres na Ciência – YouTube.
Embora não tenha vivido diretamente o momento da criação da SBF, a pesquisadora ressalta o caráter coletivo e mobilizador da iniciativa. “Em 1966 eu era bebezinha. Mas sei que eram poucos físicos e que eles estavam muito engajados e motivados para ter um fórum próprio”, afirma, lembrando que, quando foi presidente da SBF, coordenou a produção e apresentou uma série de vídeos sobre a história da entidade. Riquíssimo, o material está disponível no YouTube nesta playlist: A Física no Brasil e a SBF.

Segundo ela, a história que chegou às gerações seguintes evidencia um grupo comprometido em estruturar a física como comunidade científica no Brasil. Entre as contribuições mais marcantes da SBF, Débora destaca o lançamento de periódicos científicos e a organização de eventos. Segundo ela, as publicações tiveram papel essencial em um período em que a inserção internacional da ciência brasileira ainda era limitada. Hoje, no entanto, com a maior presença de publicações dos pesquisadores brasileiros em revistas estrangeiras, esse protagonismo talvez fosse menor. “Eu gostaria muito que houvesse um movimento contrário, para que os físicos de carreira consolidada voltassem a publicar nas revistas da SBF.”
A pesquisadora reconhece que a internacionalização ampliou horizontes, mas vê valor estratégico no fortalecimento das publicações nacionais, sobretudo no atual contexto da ciência aberta. “Fortalecer as publicações da Sociedade Brasileira de Física seria um passo importante para fortalecer a nossa comunidade também”, avalia, embora reconheça que “isso não é uma trivialidade”.

Por sua vez, os eventos científicos organizados pela SBF também marcaram sua trajetória pessoal. Débora relembra sua participação, ainda na graduação, em uma reunião de física nuclear em Itatiaia (RJ). “Eu era aluna de iniciação científica e eu tive a oportunidade de ir”, conta. A experiência foi marcante não apenas pelo ambiente científico, mas pela inserção precoce dos estudantes na prática da comunicação acadêmica. “Era uma coisa legal porque os estudantes já eram expostos a um ambiente de comunicação científica bem cedo.”
Nesse mesmo episódio, ela relembra, com humor, um momento curioso e outro formativo. “Eu me lembro de duas coisas muito interessantes desse evento. A primeira é que houve uma diarreia coletiva”, diz, em tom descontraído. Já o segundo momento foi uma pergunta feita durante sua apresentação: “Uma pessoa me perguntou… ‘esse teu trabalho vai dar certo?’”. A resposta, segundo ela, foi direta: “Isso você pergunta para o meu orientador, eu só estou fazendo as contas”.
Débora ressalta que a SBF também desempenhou um papel político relevante ao longo de sua história. Ela cita, por exemplo, a atuação de César Lattes na criação de instituições fundamentais para a ciência brasileira. “O CNPq existe por causa de um físico”, afirma, lembrando que Lattes tinha posições políticas ao defender a ciência.
Outro ponto destacado pela professora da UFSC é a participação, em geral, da comunidade científica e, em particular, da SBF, em discussões estratégicas para o país, como a adesão ao Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares. “A SBF teve um papel na discussão de avaliar prós e contras de se assinar um documento como aquele”, afirma.
No campo da soberania científica e tecnológica, Débora chama a atenção para a importância do Reator Multipropósito Brasileiro (RMB). O projeto, conduzido no âmbito da Comissão Nacional de Energia Nuclear e apoiado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), busca garantir autonomia na produção de radioisótopos utilizados em diagnósticos e tratamentos médicos. Tais insumos, ela explica, são essenciais para exames de imagem e para terapias oncológicas realizados no Sistema Único de Saúde (SUS).
Atualmente, porém, parte significativa desses materiais ainda depende de importação, o que torna o Brasil vulnerável a oscilações do cenário internacional, como interrupções de fornecimento, crises geopolíticas ou a desativação de reatores no exterior. Débora lembra que esse tipo de dependência já teve impactos concretos no atendimento à população. “Lá na ponta, a pessoa fala assim: ‘ah, eu precisava fazer o exame, mas não tem o remédio’. É mais complicado do que isso”, afirma.
Um dos principais desafios, segundo ela, está na própria natureza dos radioisótopos. Muitos deles possuem vida útil curta. “Esses elementos químicos precisam ser produzidos muito próximo do local onde vão ser utilizados”, explica. “Não dá para ser produzido hoje para ser utilizado amanhã.” Isso exige uma infraestrutura integrada, que envolve logística ágil, transporte especializado e coordenação entre centros produtores e hospitais.
Devido a tais fatores, Débora sublinha que o RMB cumpre dupla função estratégica: além de viabilizar um feixe de nêutrons dedicado à pesquisa científica, ampliando a capacidade nacional em áreas como ciência dos materiais e física nuclear, permitirá a produção regular de radioisótopos, reduzindo a dependência externa e ampliando a segurança do sistema de saúde.
Para Débora, a participação da SBF nesse debate é fundamental. Durante sua gestão à frente da entidade, ela fomentou reuniões com representantes do governo e da comunidade científica para reforçar a importância do projeto. “A gente participou de várias discussões para mostrar a necessidade de ter o nosso reator multipropósito”, relata.
Embora o projeto esteja incluído nas prioridades recentes de investimento em ciência e tecnologia, sua implementação exige continuidade de financiamento e planejamento de longo prazo. “Um projeto desses não fica pronto de um dia para o outro”, ressalta. Ainda assim, ela avalia que o avanço do RMB é um passo decisivo para consolidar a autonomia científica e tecnológica do país, com impactos diretos na pesquisa científica e na saúde pública.
Mestrado Nacional Profissional
Durante sua gestão à frente da SBF, outra pauta prioritária foi a articulação em torno do ensino de física, especialmente no âmbito do Mestrado Nacional Profissional. A iniciativa, voltada principalmente a professores em exercício na educação básica, muitos deles atuando em escolas públicas e, em diversos casos, sem formação específica em física, buscou enfrentar um dos gargalos históricos da área no país: a escassez de docentes qualificados.
“Eu acho que esse mestrado é um sucesso absoluto”, afirma Débora. Segundo ela, o programa ampliou significativamente o acesso à formação continuada ao permitir que professores se qualificassem sem se afastar de suas atividades profissionais. “Esse projeto formou uma quantidade enorme de pessoas que não teriam essa formação se elas fossem só pelos caminhos acadêmicos tradicionais.”
Na avaliação da pesquisadora, o impacto do programa vai além da titulação formal. Ao aproximar universidade e escola, o mestrado estaria contribuindo para a melhoria do ensino de física na ponta, pois leva para a sala de aula abordagens mais atualizadas e conectadas com a prática pedagógica. “Existe um vácuo nessa formação de professores”, observa, destacando que, frequentemente, conteúdos introdutórios de física são ministrados por profissionais de outras áreas, como biologia ou matemática.
Apesar dos avanços, a tentativa de expandir esse modelo para um doutorado profissional revelou tensões internas na comunidade. “As duas comunidades não se entenderam”, relata Débora. De um lado, ela descreve, estão pesquisadores dedicados ao estudo do ensino de física como área acadêmica consolidada. De outro, profissionais mais voltados à prática docente e à formação aplicada. “As visões não são antagônicas, mas eu diria que elas vão em paralelo.”
A dificuldade de diálogo entre esses grupos, segundo ela, evidencia o desafio de integrar diferentes maneiras de formar professores e de produzir conhecimento na área de ensino. Durante sua gestão, houve esforços para aproximar essas visões, inclusive com a tentativa de criar comissões mais amplas de discussão, mas o consenso nem sempre foi alcançado.
Ainda assim, Débora avalia que o saldo é positivo. Para ela, o Mestrado Nacional Profissional representa uma ação estratégica da SBF, com impacto direto na qualidade do ensino de física no Brasil. O desafio, agora, é avançar na construção de pontes entre as diferentes comunidades envolvidas, de modo a fortalecer a pesquisa e a prática pedagógica.
Outro desafio de sua gestão esteve ligado à administração de um plano de saúde oferecido aos associados da SBF. Embora não diretamente relacionado à física, o tema exigiu atenção. “Eu olhava para aqueles números e eles me deixavam desconfortável”, diz, referindo-se à complexidade dos dados atuariais. A experiência, ela diz, ilustra como a gestão de uma sociedade científica envolve também questões administrativas e financeiras.
Integração ao cenário global
Ao analisar a inserção internacional da física brasileira, Débora ressalta que “ela já nasceu internacionalizada”, com a presença de cientistas estrangeiros que vieram ao país nas primeiras décadas de consolidação da pesquisa. Nomes estrangeiros, ela observa, ajudaram a estruturar grupos de pesquisa e a formar gerações de físicos, estabelecendo, desde cedo, pontes com centros científicos no exterior.
Com o amadurecimento do sistema de pós-graduação, Débora lembra que o Brasil passou a formar seus próprios pesquisadores em maior escala, reduzindo a dependência de formação integral no exterior. Ainda assim, essa autonomia não significou isolamento. Ao contrário, a conexão com instituições estrangeiras manteve-se como elemento central da produção científica, por meio de colaborações, projetos conjuntos ou da circulação de estudantes e pesquisadores.
Dessa forma, os programas de mobilidade acadêmica ganharam um papel estratégico. Para Débora, o chamado doutorado sanduíche, modalidade em que o estudante realiza parte da pesquisa no exterior, é um dos exemplos mais bem-sucedidos dessa política. “Não sai tão caro para o país, mas o estudante vivencia uma realidade diferente e bastante enriquecedora”, afirma. A experiência internacional, segundo ela, vai além do acesso à infraestrutura ou a técnicas específicas: trata-se também de uma imersão em outras culturas científicas e da construção de redes de contato que tendem a se manter ao longo da carreira.
Esse tipo de intercâmbio, acrescenta, contribui para a circulação de ideias e para a inserção da física brasileira em agendas globais de pesquisa. Mesmo nos casos em que o pesquisador opta por permanecer no exterior, Débora não vê necessariamente uma perda. “Se ele mantiver vínculos com o Brasil, isso também é muito positivo”, sugere, ao destacar o potencial de cooperação, de formação de novos estudantes e acesso a fontes internacionais de financiamento.
Para o futuro, Débora avalia que a física brasileira enfrenta desafios estruturais importantes. Um deles é a criação do Conselho Federal de Física, que permitiria regulamentar a atuação profissional em áreas como a física médica. “Os físicos médicos não assinam os laudos”, observa. “Isso fica a cargo de um médico que, às vezes, não entende absolutamente nada.”
Outro desafio central é a diversidade. “A maioria absoluta são homens brancos do Sudeste”, afirma, com base em dados do CNPq. Para ela, ampliar a inclusão é essencial não apenas por justiça social, mas também pela qualidade da ciência. “Uma ciência diversa é uma ciência mais produtiva e melhor.”
Ao final, Débora reforça a importância das sociedades científicas como espaços de construção coletiva. Ela arremata citando um provérbio africano. “Se você quiser ir rápido, vá sozinho, mas se você quiser ir longe, vá acompanhado”. Para a pesquisadora, essa é a essência da SBF. Uma instituição que, ao longo de 60 anos, tem reunido gerações de físicos em torno do desenvolvimento da ciência no Brasil.
Por Leandro Haberli







