(Luiz Carlos Murauskas/Folhapress)

Como parte da série de entrevistas com nossos ex-presidentes, que temos publicado para celebrar nossos 60 anos de fundação, que serão comemorados em 20 de agosto, no Auditório Abrahão de Moraes, no Instituto de Física da Universidade de São Paulo, em São Paulo, nesta edição do informativo da Sociedade Brasileira de Física trazemos um depoimento especial: o do físico Gil da Costa Marques.

Ele presidiu a SBF entre 1987 e 1991, período marcado pela redemocratização do país, pela promulgação da Constituição de 1988 e pela reorganização das instituições científicas nacionais após o fim do regime militar.

Professor titular aposentado do Instituto de Física da USP, Marques, que também já foi prefeito do campus São Paulo da USP, possui graduação, mestrado e doutorado em Física pela instituição, concluídos em 1969, 1972 e 1975, respectivamente. Ao longo de sua carreira, publicou artigos científicos e diversos livros, atuando principalmente nas áreas de teoria geral de partículas e campos, com pesquisas voltadas a partículas, spin arbitrário, transições de fase, quantização e campo de radiação.

Ao analisar o cenário da física brasileira no final dos anos 1980, Marques destaca que a comunidade científica vivia um período de alto dinamismo. “A física, a partir dos anos 70, passou por uma fase de crescimento impressionante e de consolidação no Brasil. Não é exagero dizer que a física estava a pleno vapor”.

O físico Gil da Costa Marques presidiu a SBF entre 1987 e 1991, período marcado pela redemocratização e pela reorganização das instituições científicas nacionais após o fim do regime militar.

Apesar desse momento especial, o ex-presidente da SBF inclui entre os principais desafios da física na época um problema persistente e bastante conhecido. “Os desafios, talvez como hoje, eram sempre de financiamento da pesquisa”, relembra. Por isso, explica Marques, a atuação institucional da SBF concentrava-se sobretudo junto aos órgãos de fomento federais, em especial a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). “A SBF atuou fortemente junto à Finep, que financiava instituições. Ela não era como o CNPq, que financia pesquisadores. Ela era o órgão financiador mais importante para as entidades.”

Durante sua gestão, Marques aponta como principal iniciativa da SBF o projeto Física no Brasil na Próxima Década, concebido como uma ampla reflexão sobre o futuro da área no país. “A gente queria, na verdade, chamar a atenção para aquilo que seria necessário, considerando os objetivos das instituições de física do país.” Em suas palavras, foi “um projeto muito grande, que envolveu muita gente” e buscava discutir estratégias de expansão e fortalecimento institucional da física brasileira.

O projeto foi concebido pela SBF em 1987 e finalizado no início dos anos 90, sendo hoje considerado um estudo prospectivo fundamental para analisar o estado da pesquisa física brasileira e traçar diretrizes para infraestrutura, recursos humanos e financiamento.

Ao comentar a inserção internacional da pesquisa em física do país naquele período, Marques observa que o tema ainda não ocupava espaço central no debate das entidades científicas brasileiras. Segundo ele, o foco das instituições era prioritariamente interno, voltado à consolidação da infraestrutura científica nacional. “A gente estava procurando, em primeiro lugar, criar instituições fortes no nível daquelas que existem no Brasil e na Europa”, diz. “Essa era a principal preocupação das instituições, antes de procurar parcerias internacionais.”

Para o físico, o objetivo principal era estruturar uma comunidade científica sólida, capaz de sustentar posteriormente relações internacionais mais robustas. Ele lembra ainda que nem mesmo a SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), principal entidade científica do país à época, priorizava a internacionalização.

Sobre a expansão da formação científica no Brasil ao longo das últimas décadas, Marques elogia a reforma universitária da década de 1970, apontada por ele como um divisor de águas para a ciência brasileira. “Ela foi o grande marco da ciência brasileira”, afirma, lembrando que a partir da reforma surgiram os institutos de física nas universidades brasileiras, incluindo o Instituto de Física da USP, do qual Marques foi diretor em duas oportunidades. 

Ele destaca que a reorganização universitária provocou uma expansão sem precedentes no corpo docente e na estrutura acadêmica da física do país. “Com a criação dos institutos, houve a necessidade de contratar docentes para o ensino de física nas engenharias”, explica. “Enfim os docentes com formação de física passaram a ser responsáveis pelo ensino de física nas universidades brasileiras.”

Os números apresentados pelo ex-presidente revelam a dimensão desse crescimento. “Éramos 30 docentes antes da reforma universitária e depois dela passamos a ser 150. Foi um crescimento realmente fabuloso.” Para ele, esse processo consolidou as bases da pesquisa científica brasileira moderna.

Ao longo da entrevista, um dos temas mais enfatizados por Gil da Costa Marques é a questão do aporte de recursos para a ciência. Ele avalia que o cenário atual é diferente daquele enfrentado nas décadas passadas. “O nosso problema ainda é o financiamento à pesquisa. Mas se for uma pesquisa de grande qualidade, acho que não existe falta de financiamento”, diz, destacando a atuação de agências estaduais, especialmente a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), como elemento de sustentação da pesquisa científica.

Na sua avaliação, o principal desafio atualmente estaria relacionado à formulação de projetos científicos de excelência. “Eu tenho a impressão que, no momento, o que falta mesmo são bons projetos. Talvez o financiamento não venha a irrigar o sistema como um todo. Mas, pontualmente, isso acontece.” Ao revisitar momentos decisivos da consolidação da física brasileira, o depoimento de Gil da Costa Marques ajuda a iluminar parte importante da trajetória da SBF e da própria ciência nacional. Sua entrevista compõe um retrato de transformações que atravessaram diferentes gerações de físicos brasileiros. Em meio às comemorações dos 60 anos da SBF, o relato reforça o papel histórico da entidade na articulação da comunidade científica e na defesa da física como área estratégica para o desenvolvimento do país.

Por Leandro Haberli