Em um período simbólico para a ciência mundial, marcado pelas celebrações do centenário da mecânica quântica e pelo Ano Internacional de Ciência e Tecnologias Quânticas, promovido pela ONU, a Sociedade Brasileira de Física (SBF) segue contribuindo para o debate internacional sobre o tema. Além da publicação de textos, posts, entrevistas e conteúdos especiais, incentivamos a produção de um número especial da Brazilian Journal of Physics (BJP), publicação científica da SBF com projeção internacional e reconhecida como uma das principais vitrines da produção brasileira em física. Nesta edição comemorativa, que está sendo finalizada, o BJP reunirá dezenas de artigos dedicados às múltiplas dimensões da física quântica contemporânea, incluindo seus fundamentos teóricos, tecnologias emergentes, além de questões históricas, éticas e sociais.

O número especial contou com a coordenação editorial de Rafael Chaves, do Instituto Internacional de Física da UFRN, Thereza Paiva, da UFRJ, e Marcelo Terra Cunha, professor do Instituto de Matemática, Estatística e Computação Científica (IMECC), da Unicamp. Doutor em Física Matemática pela UFMG, além de mestre e bacharel em Física pela Unicamp, Terra Cunha conversou com a SBF sobre os detalhes do processo de elaboração do número especial. E aproveitou para abordar o atual estágio das tecnologias quânticas no país, os desafios da diversidade na ciência e a crescente internacionalização da pesquisa brasileira na área.

“Foi uma tarefa bem bacana essa de ter sido chamado pela Brazilian Journal of Physics para fazer um número especial que foi parte das comemorações do Ano Internacional de Ciências e Tecnologias Quânticas”, afirmou, observando que a própria SBF teve papel ativo na mobilização internacional para a criação da celebração. “É bacana lembrar que a Sociedade Brasileira de Física foi uma das entidades que pressionaram para que houvesse esse Ano Internacional e, com isso, está participando de várias atividades ao longo desse ano.”

Além do número especial da Brazilian Journal of Physics, em nosso portfólio de publicações as comemorações incluíram uma edição temática da Revista Brasileira de Ensino de Física, outra renomada publicação científica do país. No caso da BJP, o resultado impressiona pelo alcance e pela diversidade temática. “Foram 33 artigos relacionados a esse número especial”, destacou Terra Cunha, que é considerado um dos mais ativos membros da comunidade de pesquisadores que desenvolvem tecnologias quânticas no Brasil. “A gente está fechando agora o editorial que apresenta o que tem ali, mas tivemos da ordem de 12 ou 13 trabalhos realmente novos, com resultados originais, além de cerca de 12 trabalhos de revisão.”

Para o pesquisador, os artigos de revisão desempenham um papel estratégico na consolidação e na difusão de áreas emergentes. “Eles são complexos para quem está escrevendo e costumam ser prazerosos para quem está lendo. Também são boas portas de acesso para algum assunto”, comentou.

Entre os temas abordados na edição, Marcelo citou o exemplo de um artigo de revisão sobre correção quântica de erros, lembrando que esta é uma área considerada central para o desenvolvimento de computadores quânticos funcionais. “Sem conseguir fazer correção de erros, você não vai ter computação interessante sendo executada a médio prazo”, explicou.

As comunicações quânticas também ganharam espaço relevante na publicação, especialmente em função de iniciativas recentes apoiadas pela Embrapii (Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial, formada por instituições de ciência e tecnologia credenciadas para atender às demandas de inovação da indústria). Citando o desenvolvimento de tecnologias de criptografia e distribuição quântica de chaves, Terra Cunha também destacou a participação de pesquisadores do projeto QuIIN (Quantum Industrial Innovation), sediado em Salvador (BA) e voltado ao desenvolvimento e à aplicação de tecnologias quânticas no Brasil. “Tem um trabalho de revisão para contar como se faz criptografia quântica com variáveis contínuas, que é o foco deles, e outro voltado às implementações”, revelou.

Outro destaque é a participação da Rede Quântica do Recife, que apresentou pesquisas sobre fontes ópticas para a distribuição quântica de chaves e redes quânticas. Para o coordenador deste número especial do BJP, os artigos contribuem para consolidar uma fotografia evolutiva da pesquisa brasileira em tecnologias quânticas. “Tem esse aspecto histórico interessante de marcar bem em qual estágio de desenvolvimento o Brasil está nesse instante das tecnologias quânticas de segunda geração.”

O número especial também abriu espaço para reflexões históricas e sociais sobre a física quântica. Um dos artigos, assinado pelo próprio Terra Cunha e por alguns colegas, analisa o impacto do tradicional evento de Paraty na formação da comunidade brasileira de informação quântica.

“Desde 2007, a cada dois anos, temos um evento casado, uma escola seguida de um workshop, e claramente isso impactou imensamente a nossa história de comunidade”, afirmou. “O foco é exatamente esse: como fazer um evento caprichado, com algumas escolhas essenciais, pode significar a construção de uma comunidade para aquela área.”

Segundo ele, o crescimento da comunidade brasileira de tecnologias quânticas não pode ser compreendido apenas pelos resultados científicos, mas também pelas redes de colaboração e pelos espaços de formação coletiva. “Isso impactou bastante no formato em que essa comunidade se constrói.”

A edição trará ainda artigos voltados a análises éticas e de diversidade. Um deles discute as responsabilidades sociais dos cientistas a partir de episódios da história da física quântica. Outro apresenta um mapeamento da chamada comunidade SheQ, composta por mulheres que atuam em física quântica teórica no Brasil.

O nome vem da junção de “She” (ela, em inglês) e da primeira letra da palavra “Quantum”. Utilizando dados da Plataforma Lattes, o texto destaca os resultados do levantamento “Women in Theoretical Quantum Physics in Brazil: Demographics, Career Profiles, Recognition, and Leadership”, que buscou mapear as mulheres que atuam em física quântica no Brasil, identificando 93 cientistas. Em comparação com os homens, o número ainda é pequeno, indicando uma sub-representação feminina significativa na física quântica teórica do país.

Para Terra Cunha, o trabalho tem importância estratégica. “É um ponto de partida. A foto do momento é essa. Agora o levantamento vai poder ser atualizado, acompanhado”, conta, ressaltando que a diversidade de gênero é essencial para a qualidade da ciência produzida. “A gente perde muito quando qualquer ambiente fica com um perfil muito definido. Em princípio, boas ideias aparecem em quaisquer cabeças”, afirmou.

Terra Cunha observou que o Brasil possui uma diversidade significativa na base social, mas enfrenta dificuldades históricas para mantê-la ao longo da carreira acadêmica. “A gente tem muita diversidade, só que, historicamente, perde essa diversidade conforme os passos vão sendo dados.”

Ao comentar especificamente sobre a presença feminina na física, o pesquisador destacou que ainda persistem situações hostis e excludentes. “Precisamos de ambientes saudáveis, de estímulos para que tenhamos realmente essa presença diversa e esse ambiente aberto a trocas”, pontuou, lamentando que a universidade frequentemente reproduz problemas estruturais da sociedade. “A academia traz para dentro de si problemas que a própria sociedade tem. A gente deveria ser capaz de atuar mais ativamente, ser mais proativo e exemplo para o restante da sociedade.”

Terra Cunha também ressaltou a importância de discutir abertamente esses problemas. “Ainda precisamos aprender muito mais sobre isso e, para isso, tem que discutir, tem que expor, tem que fazer as pessoas refletirem sobre atitudes que eventualmente elas mesmas já tenham cometido.”

O professor também analisou a distribuição geográfica da pesquisa em ciência quântica no Brasil. Embora reconheça a predominância histórica do Rio de Janeiro e de São Paulo, ele avalia que o cenário nacional se tornou significativamente mais descentralizado nas últimas décadas. Minas Gerais, segundo ele, segue como um dos principais polos históricos da área. O Nordeste também ganhou destaque crescente, com grupos consolidados em Pernambuco, Paraíba, Ceará e Alagoas, além da expansão recente do Instituto Internacional de Física (IIF), em Natal.

“O IIF é hoje uma das lideranças no assunto nacionalmente e tem adequadamente usado seu papel de internacionalização”, afirmou. “É um dos destinos interessantes para brasileiros e para pessoas que vêm de fora e querem ter contato com a ciência quântica desenvolvida no Brasil.”

A Bahia, por meio do projeto QuIIn, também foi destacada pelo professor como um polo nacional de tecnologias quânticas. No Sul, ele lembrou a atuação de grupos em Florianópolis (SC), Curitiba (PR) e Santa Maria (RS). Já no Centro-Oeste, mencionou iniciativas em Goiânia (GO). Sobre a região Norte, Terra Cunha reconheceu que a presença de tecnologias quânticas ainda é tímida. “Mas há um interesse mais recente de um pessoal em Belém”, ponderou, citando a capital paraense.

Um dos pontos centrais da fala de Terra Cunha, e, segundo ele, da própria edição especial do BJP sobre ciência quântica, é justamente a defesa da diversidade e da interdisciplinaridade como elementos relevantes para o avanço dessas tecnologias. Nesse sentido, ele ressaltou que esse campo de conhecimento deixou de estar ligado exclusivamente à física teórica.

“Não é só físico que faz essas coisas”, afirmou. Segundo ele, áreas como engenharia, matemática e ciência da computação se tornaram fundamentais para o desenvolvimento de soluções quânticas concretas. “A ideia de que, para trabalhar com tecnologias quânticas, é preciso fazer todos os cursos de quântica com os físicos, perdeu um pouco de força”, disse, ressaltando a importância da interdisciplinaridade. De acordo com o pesquisador, equipes mistas e colaborativas tendem a produzir resultados mais robustos e inovadores. “Essa hibridização pode ser muito rica, muito relevante. Quando esse trabalho é feito seriamente pelas várias partes, ele é muito útil e prolífico.”

Terra Cunha observou ainda que já existem profissionais atuando em tecnologias quânticas sem formação aprofundada em física quântica tradicional. Ou mesmo que não entendem como funciona exatamente um semicondutor. Na avaliação do pesquisador, o Brasil também vive um momento importante de inserção internacional nas tecnologias quânticas. Se, no passado, o país possuía forte presença científica, mas pouca atuação tecnológica, esse cenário começa a mudar, conforme será possível observar no número especial do BJP. “Felizmente passou essa fase. Agora a gente já vê o Brasil atuando adequadamente do ponto de vista tecnológico.”

Terra Cunha destacou que o BJP especial sobre ciência quântica também vai mostrar a projeção internacional dos pesquisadores brasileiros. “Historicamente é reconhecido que as pessoas formadas aqui são muito competentes quando comparadas com pessoas formadas em outros lugares.”

Essa diáspora acadêmica, segundo ele, também apareceu no número especial do BJP. “Alguns trabalhos são em colaboração com pessoas de fora e outros têm autoria 100% internacional, mas quando você vai olhar o histórico, metade dos autores ou mais são brasileiros ou tiveram alguma etapa de formação feita aqui.”

Ao discutir o futuro da área, Terra Cunha observou que o desenvolvimento das tecnologias quânticas depende de um equilíbrio delicado entre cooperação e competitividade internacional. Ele defende que o país amplie a autonomia tecnológica e a capacidade de estabelecer colaborações estratégicas. “A gente precisa saber ter parcerias e conseguir fazer coisas aqui que ainda não são feitas em outros lugares.”

Por fim, o professor lembrou que a SBF criou recentemente sua área oficial de Ciência e Tecnologias Quânticas, que é atualmente coordenada por ele. O reconhecimento institucional, frisa Terra Cunha, representa um marco importante para a consolidação do campo no país e para ampliar o diálogo da física quântica com outros setores da física e da ciência brasileira. “Ao sermos reconhecidos pela SBF como área específica, ganhamos mais chance de conversar mais e mais, também internamente, com colegas de outras áreas.”

Em suma, Terra Cunha acredita que o centenário da mecânica quântica não representa apenas uma efeméride histórica. Mas também um momento estratégico para pensar os rumos futuros da ciência brasileira, para que o país viva um período de expansão e reorganização de sua ciência quântica. Todo esse panorama de transformação poderá ser acompanhado neste número mais do que especial da BJP, revista da SBF que reforça seu papel no incentivo e na divulgação da pesquisa científica nacional.

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Por Leandro Haberli