Professora Mariane Rodrigues Cortes, professora do Instituto Federal de Rondônia, Campus Guajará-Mirim.

Além de marcar um passo inédito na conexão entre o conhecimento científico avançado e a educação básica brasileira, a primeira edição do Programa Brasileiro de Professores no CERN (Conselho Europeu de Pesquisa Nuclear, na sigla em francês) impactou profundamente seus participantes, todos da rede pública de ensino do país. Fruto de parceria entre a Sociedade Brasileira de Física (SBF), o CNPq e a CAPES, a iniciativa selecionou 24 docentes, um de cada unidade da federação, para uma viagem, realizada no fim de abril, a um dos mais prestigiados centros de pesquisa científica do mundo, localizado na região de Genebra, na Suíça, próximo à fronteira com a França. Com critérios que garantiram diversidade regional e equidade de gênero, incluindo a reserva mínima de 50% das vagas para mulheres, a experiência é descrita pelos professores que conheceram o CERN com termos como “incrível” e “inspiradora”.

Para conhecer um pouco das estratégias pedagógicas que os participantes pretendem executar para levar conteúdos pertinentes à sala de aula, conversamos com 6 professores selecionados. Eles foram unânimes ao incluir o aprimoramento profissional e a geração de efeitos pedagógicos positivos nas salas de ensino médio em todo o país entre os grandes trunfos da iniciativa.

Foram ao CERN professores de todas as regiões do país.

Para Mariane Rodrigues Cortes, professora do Instituto Federal de Rondônia, Campus Guajará-Mirim, que fica perto da divisa com a Bolívia, a vivência no CERN ultrapassou qualquer expectativa. “Estar no CERN, para o professor, para o pesquisador, é como estar na Disney”, afirmou. “Cada detalhe do espaço é pensado para a divulgação científica. Desde os quadros na parede, luminárias, a forma que os prédios são organizados, as placas nas ruas, tudo é pensado, voltado para divulgação científica.” Segundo ela, a palavra que melhor define a experiência é “imersão”. “Ficamos envoltos pela ciência. Estamos todos inspirados a continuar fazendo divulgação científica e a impulsionar o trabalho em sala de aula.”

Sobre as formas de traduzir essa imersão em práticas pedagógicas, Mariane destaca um projeto de extensão. “Já estou planejando ir às escolas explicar o que eu fui fazer no CERN, dar palestras e fazer ações dentro do IFR, reproduzindo parte das atividades que eu aprendi lá”, disse. Dentre essas atividades, ela destaca a reprodução de experimentos simples, como circuitos elétricos, capazes de aproximar conceitos abstratos da realidade dos estudantes.

Outra frente central será a incorporação de metodologias em sala de aula, especialmente o trabalho em grupo, inspirado nas dinâmicas vivenciadas no CERN. “Ao longo de toda a programação, percebi o incentivo do trabalho em grupo, dividindo as funções. Um ia ser o mediador, outro ia buscar os materiais, outro ia explicar o produto, outro ia apresentar o resultado”, relatou. A proposta é replicar esse modelo com os alunos, promovendo maior engajamento e autonomia. “Acredito que esse método vai ser muito aplicável na sala de aula”, afirmou.

A percepção de que o ambiente do CERN articula ciência de ponta com comunicação acessível também aparece no relato de Tainã Laise de Melo e Silva, professora da rede estadual de Pernambuco. “Participar do programa foi uma experiência que ultrapassou qualquer expectativa, não apenas pelo conteúdo científico, mas pela forma como tudo foi vivido, compartilhado e sentido”, afirmou. Ela destacou o contato direto com experimentos como CMS e ATLAS e o impacto de trabalhar com dados reais. “Não era mais apenas compreender conceitos, era fazer ciência, ainda que em escala educacional. Isso muda completamente a forma como pensamos o ensino: torna tudo mais vivo, mais possível.”

Essa aproximação entre teoria e prática é um dos aspectos mais valorizados pelos docentes. Rafaela Medeiros de Souza, do Instituto Federal do Rio Grande do Norte, campus João Câmara, ressaltou o caráter acessível das atividades. “Foi uma experiência única e transformadora, não apenas pela imersão em um dos maiores laboratórios do mundo, mas pela forma acessível como a ciência de ponta foi apresentada”, disse. Para ela, as oficinas práticas são especialmente relevantes por sua adaptabilidade ao contexto escolar. “São atividades que podem ser facilmente levadas para a realidade do ensino médio e que tornam conceitos complexos mais acessíveis e estimulantes.”

Na prática, Rafaela pretende estruturar suas aulas a partir de metodologias que coloquem os estudantes no centro do processo de aprendizagem. Entre as ações previstas, ela destaca a oficina dos “tubos misteriosos”, descrita como uma atividade que “estimula o trabalho em equipe e faz com que os alunos desenvolvam o pensamento científico ao formular hipóteses, testar ideias e interpretar padrões”. Outra proposta é a construção de um modelo didático que simule o funcionamento dos aceleradores de partículas, utilizando materiais sustentáveis e de baixo custo, envolvendo também estudantes da licenciatura como multiplicadores do conhecimento.

O professor Joerbed dos Santos Gonçalves, da rede pública do Maranhão, enfatizou o impacto conceitual e pedagógico da experiência. “Foi possível perceber, de forma concreta, como o conhecimento científico é produzido, validado e comunicado em escala internacional”, afirmou. Segundo ele, esse contato “amplia significativamente o repertório do professor da educação básica e o reposiciona o ensino de física como prática que dialoga com problemas reais e contemporâneos”.

Sequências didáticas

No retorno às atividades, Joerbed pretende promover palestras de divulgação científica em instituições de ensino da cidade de Pinheiro (MA), com o objetivo de despertar o interesse dos estudantes por temas da física contemporânea e identificar alunos que possam atuar como monitores em atividades futuras. A proposta inclui ainda a realização de oficinas formativas voltadas a graduandos que atuam no ensino de Ciências, ampliando o alcance das ações. Em sala de aula, o professor planeja aplicar sequências didáticas inspiradas nas experiências do CERN, com situações-problema que abordem a modelagem do processo de aceleração de partículas e o papel dos detectores na produção de evidências experimentais.

Por sua vez, Felipe de Lemos Cabral, professor da rede pública do Distrito Federal, destacou a importância do contato com pesquisadores e colegas de diferentes origens. “A vivência internacional, a imersão cultural e o contato com o pensamento científico de alto nível foram uma parte muito importante dessa viagem”, afirmou. Para ele, a experiência reforça a necessidade de ampliar o espaço da física moderna no ensino médio. “Espero contribuir para a difusão da física de partículas, que ainda é pouco debatida na educação básica, apesar de sua importância para a compreensão do mundo contemporâneo.”

Felipe também pretende utilizar exemplos concretos do funcionamento do LHC e dos detectores ATLAS, CMS e LHCb para contextualizar conceitos da física clássica trabalhados no ensino médio. Além disso, quer desenvolver atividades que estimulem o interesse dos estudantes pela ciência. A expectativa é que, ao aproximar esses conteúdos da realidade dos alunos, seja possível despertar maior engajamento e curiosidade em relação à física.

Dayane Benicio Moraes, professora da rede estadual do Amazonas, também ressaltou o caráter transformador da formação. “Participar da formação no CERN foi um marco na minha carreira. Eu estava há cerca de nove anos sem realizar uma formação específica em Física desde a graduação, e esse retorno ao contato direto com o que há de mais moderno na ciência foi extremamente revigorante”, afirmou. Segundo ela, a experiência abriu novas possibilidades de atuação pedagógica. “Estar lá me permitiu enxergar caminhos para aproximar esse universo da realidade dos meus alunos.”

Entre as ações pedagógicas planejadas por Dayane, está a realização de atividades sobre campos eletromagnéticos, radiação e campos elétricos em situações do dia a dia. Ela também quer empregar recursos como bússolas e limalha de ferro para ajudar os estudantes a visualizar linhas de campo, tornando conceitos abstratos mais concretos. Outra iniciativa é o uso da impressora 3D para construir modelos de aceleradores de partículas, permitindo que os alunos compreendam, de forma mais tangível, o funcionamento dessas estruturas e sua relação com tecnologias presentes no cotidiano.

Em comum, os relatos indicam que a primeira edição do Programa Brasileiro de Professores no CERN irá reverberar em projetos, aulas, oficinas e iniciativas pedagógicas que prometem aproximar a ciência de ponta do cotidiano de muitos estudantes do ensino público nacional.

Por Leandro Haberli