
A história da Sociedade Brasileira de Física (SBF) se confunde com a própria consolidação da pesquisa científica no país. Ao longo de seis décadas, a entidade atuou como elo entre gerações, regiões e áreas do conhecimento, contribuindo para estruturar uma comunidade que hoje se estende por todo o território nacional. Para marcar esse percurso, a SBF segue publicando uma série especial em celebração aos nossos 60 anos, que serão comemorados em 20 de agosto, no Auditório Abrahão de Moraes, no Instituto de Física da USP, em São Paulo. Assim como a cerimônia, os conteúdos homenageiam profissionais que ajudaram a construir a trajetória da instituição. Entre eles, destaca-se a física Belita Koiller.
Professora titular do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Belita construiu uma carreira marcada por contribuições à Física da matéria condensada e por uma atuação institucional relevante dentro da SBF, da qual foi conselheira, vice-presidente e presidente. Ao analisar sua relação com a entidade, ela rememora sua associação, ainda nos anos 1970, pouco depois da conclusão do doutorado. “Foi quando terminei minha formação e passei a me aproximar mais da comunidade científica organizada”, recorda.
Embora não tenha acompanhado diretamente a fundação da SBF, em 1966, a pesquisadora oferece uma leitura clara sobre o contexto e os impactos da criação da entidade. Segundo ela, a Física brasileira já dava sinais de recuperação e crescimento, mas permanecia concentrada em poucos polos. Ante essa necessidade de expansão, a SBF teve um papel decisivo. Nas palavras de Belita, a entidade “ajudou a espalhar a Física pelo Brasil”, permitindo que diferentes regiões estruturassem seus próprios centros de pesquisa. “Sem esse movimento, o país provavelmente teria mantido uma produção científica restrita ao eixo Rio-São Paulo”, avalia.
Além da maior capilaridade da pesquisa científica nacional, Belita atribui à SBF o mérito de aproximar pessoas. Para ela, a entidade cumpriu e continua cumprindo uma função agregadora, conectando pesquisadores que, de outra forma, dificilmente interagiriam. “Ela reuniu muita gente e estimulou colaborações importantes. Esse espírito de integração se manifesta de forma especialmente clara nos encontros científicos promovidos ao longo do ano.”
Ao relembrar um episódio marcante, a física narra uma cena que, para ela, traduz com precisão esse papel agregador da SBF. Durante o 38º Encontro Nacional de Física da Matéria Condensada, realizado em 2015, em Foz do Iguaçu (PR), ela testemunhou um grupo de jovens estudantes que cercou o físico Herch Moysés Nussenzveig em busca de autógrafos. Motivo: muitos reconheciam nele o autor de livros e artigos fundamentais em suas formações. “Era uma chance rara de aproximação direta entre quem está começando e uma referência da área. Esse tipo de interação dificilmente aconteceria fora do ambiente proporcionado pela SBF, cujos encontros reúnem pessoas de diferentes gerações, áreas e trajetórias, todas movidas pelo mesmo interesse pela Física”, observa Belita.

Tal diversidade humana, ela prossegue, também se reflete nas atividades de divulgação científica associadas aos encontros, que frequentemente envolvem a comunidade local. Para a pesquisadora, esse aspecto é essencial em um país onde a carreira científica ainda não figura entre os principais sonhos da juventude. “Ao abrir espaço para o diálogo com a sociedade, a SBF contribui para ampliar o alcance da ciência e despertar vocações.”
Por outro lado, Belita lembra que, ao longo de sua trajetória, a entidade também enfrentou momentos desafiadores, especialmente durante o período da ditadura militar, quando a defesa da comunidade científica se tornou uma questão central. “Houve um esforço importante de proteção e apoio a pesquisadores”, aponta. Ao mesmo tempo, ela ressalta a necessidade de preservar o caráter institucional da SBF, evitando sua associação a disputas político-partidárias. Para a física, a entidade deve se posicionar em defesa da ciência, especialmente diante de cortes de investimento, mas sem assumir alinhamentos que não representem o conjunto de seus associados. “Um documento da SBF tem peso e precisa refletir um consenso amplo”, pondera.
No campo internacional, a contribuição da entidade também é significativa. Belita cita iniciativas de cooperação com instituições estrangeiras, como acordos com a American Physical Society, que possibilitaram intercâmbios de pesquisadores e estudantes. Ainda que algumas dessas parcerias tenham se transformado ao longo do tempo, ela avalia que a SBF permanece atuante na promoção de colaborações globais. Congressos, missões científicas e articulações multilaterais fazem parte desse esforço contínuo de inserção internacional.
Para a pesquisadora, o Brasil alcançou um nível de maturidade científica que permite sua participação em igualdade de condições nos principais ambientes de pesquisa do mundo. “O país já atingiu um patamar próximo ao de nações mais desenvolvidas”, afirma, ressaltando a qualidade da produção nacional. Ainda assim, desafios persistem, especialmente no que diz respeito à articulação entre diferentes áreas do conhecimento.
Nesse ponto, Belita chama atenção para a necessidade de fortalecer a conexão entre Física e Engenharia. Em sua avaliação, há uma lacuna na formação de engenheiros no Brasil, que muitas vezes não têm contato suficiente com a Física moderna. “Existe uma cadeia que vai do físico teórico até a indústria, passando por experimentais e engenheiros”, explica. Em sua visão, quando essa cadeia não funciona de forma integrada, a transformação do conhecimento em aplicações tecnológicas se torna mais difícil.
Para ilustrar essa dinâmica, ela recorre a exemplos históricos de descobertas fundamentais, que não surgiram com aplicações imediatas em mente. “O criador do laser não imaginava os usos que viriam depois. Algo semelhante ocorre hoje em áreas como a computação quântica, onde avanços teóricos ainda estão distantes de aplicações concretas.” Por isso, a pesquisadora defende que não se deve cobrar dos Físicos e das Físicas, uma aplicação direta de seus estudos, mas sim fortalecer os elos que permitem essa transição ao longo do tempo.
Dentro desse ecossistema, a SBF pode desempenhar um papel relevante, especialmente por meio de sua atuação na área de ensino e na interlocução com órgãos governamentais. “A inclusão de conteúdos mais atualizados nos currículos, por exemplo, poderia aproximar diferentes campos e favorecer a inovação. Se houver espaço para diálogo com instituições como o MEC, podemos alcançar avanços importantes”, vislumbra.
No entanto, Belita avalia que o maior legado da SBF continua sendo sua capacidade de reunir a comunidade científica. Os encontros nacionais, em especial, funcionam como momentos-chave para a troca de ideias e a apresentação de resultados. “Eles orientam os pesquisadores, mostram o que está sendo feito no país e destacam trabalhos de excelência”, afirma, lembrando que, para estudantes, esses eventos também representam um percurso de formação, que vai desde a apresentação de pôsteres até palestras convidadas.
Ao dar voz a nomes como Belita Koiller, o informativo da SBF busca resgatar não apenas memórias individuais, mas também a construção coletiva de uma comunidade científica que, ao longo de décadas, ajudou a consolidar a Física no Brasil. Como resume a própria pesquisadora, trata-se de uma instituição que “coloca em contato os Físicos e Físicas de todo o país, permitindo que afinidades se transformem em colaborações”.
Por Leandro Haberli







