
Ana Julia Ferreira Dos Santos tem 17 anos e acabou de entrar para o curso da Física da Universidade Federal do Paraná (UFPR). A menina, que fez Ensino Médio com especialização em Marketing, contou com uma série de iniciativas no Estado que lhe atraíram para a ciência. Ela chegou a fazer parte do Clube de Ciências da PUC em Curitiba, do projeto Futuras Cientistas da UFPR em Palotina, e do Simpósio de Licenciatura em Ciências Exatas e em Computação (SLEC) também da federal do Paraná. E tudo isso viajando sozinha o em companhia de amigas a partir de sua casa, em Campo Largo.
“Eu sou de Campo Largo e eu tenho 17 anos atualmente, certo? E agora eu sou caloura em Física na UFPR, Curitiba. Eu tô muito feliz com isso!”, comemora. A conquista representa o desfecho de uma trajetória que começou de forma quase imperceptível, ainda na infância. “Toda vez que eu ia ver meu boletim na escola, ou eu ia ver as minhas notas, eu sempre via que a maior nota era em ciências. E aí a gente sempre fazia uma brincadeira falando assim… eu falava, ah, eu acho que eu vou ser cientista, porque a minha maior nota é em ciências, né? Então eu sempre falava isso e eu nunca pensei em ser cientista.”

Apesar desse sinal precoce, o caminho até a física não foi direto. Durante anos, Ana Júlia acreditou que seguiria outra direção, para a área de adminstração, por exemplo. Durante o curso de Marketing, foi descobrindo sua aptidão. “Depois eu fui descobrindo a ciência, né, do decorrer dos anos. Então, no primeiro ano do ensino médio, a gente conseguiu aprender a parte da física, aprender química, né, e eu fui descobrindo que eu gostava.”
A descoberta não foi apenas racional, mas também emocional. “Eu fui descobrindo que eu tinha interesse, que aquilo era uma coisa legal, sabe? Porque eu nunca imaginei, tipo, como é que você descobrir como é que aquela, uma bolinha cair no chão ou descobrir como que um passarinho vai caindo, um avião vai voando, sabe? Então você descobrir essa parte pra mim foi tipo, nossa, que legal!”
Essa curiosidade a levou a buscar oportunidades além da sala de aula. Participou de um clube de ciências na Pontifícia Universidade Católica do Paraná e frequentou cursos que exigiam deslocamentos diários entre Campo Largo e Curitiba. Mas foi o projeto Futuras Cientistas, realizado pela UFPR em Palotina, que consolidou sua decisão e lhe exigiu coragem. “A maioria das meninas viajavam com o professor orientador. E no meu caso, eu fui sozinha com a minha colega. Então, a gente veio daqui de Curitiba, foi pra Palotina sozinha, né? A gente foi com o ônibus e tudo mais, mas com aquele medinho. E foi muito legal.”
A experiência teve um impacto profundo em sua vida. “Eu fiquei, tipo, muito animada. E quando eu foi pro projeto eu percebi que era realmente aquilo que eu queria: ficar a noite e dia estudando, ir pra faculdade todo dia, voltar tarde e fazer vários projetos diferentes, e eu vi que era aquilo que eu queria até porque o projeto em si mostrava muito da parte da física.”
Mais do que aprender, Ana Júlia passou também a ensinar. Em oficinas e eventos científicos, compartilhou seus conhecimentos com estudantes mais jovens, vivenciando pela primeira vez o papel de multiplicadora da ciência. “Na minha turma foi bastante gente e mesmo assim todo mundo conseguiu fazer foguete e a gente lançou no mesmo dia também e nossa era muito legal ver tipo o rosto de todo mundo vendo né porque não era só meninas tinha meninos também.”
A experiência reforçou sua vocação não apenas para estudar física, mas também para ensinar. “Eu tive certeza: eu quero ir para essa área, eu quero ir para a educação, e para poder mostrar para as crianças, e não só para crianças, as adolescents, tudo o que sei da física. Porque eu não tive muito acesso a isso no decorrer da minha vida, certo? E eu queria poder fazer com que outras pessoas tivessem acesso.”
A decisão de prestar o vestibular para física na UFPR veio acompanhada de medo, mas também de determinação. E o resultado transformou aquele receio em alegria. “Você tá torcendo pra tá ali e quando eu descobri o resultado, nossa, fui pro água abaixo só choro, choro, choro e alegria, pula de lá, pula de cá e muito feliz.”
Hoje, ao iniciar sua graduação, Ana Júlia representa o resultado concreto de políticas educacionais e projetos que ampliam o acesso das meninas à ciência. Sua trajetória mostra que o interesse científico pode surgir em diferentes momentos da vida, e que oportunidades de formação, incentivo e acolhimento podem transformar curiosidade em vocação. A sua aprovação simboliza o impacto de iniciativas que aproximam jovens da ciência e mostram que o caminho até a universidade é possível, mesmo quando começa com uma viagem de ônibus, um pouco de medo e uma grande curiosidade sobre o mundo.
(Colaborou Roger Marzochi)
Especial Meninas e Mulheres na Ciência 2026











