A vencedora do Carolina Bori, na categoria Exatas e Ciências da Terra, professora Iris Concepcion Linares de Torriani (Unicamp). (Foto:Unicamp)

A maior alegria na vida da física Iris Concepción Linares de Torriani é inspirar pessoas, especialmente seus alunos e alunas. Nascida em Buenos Aires, na Argentina, em 1934, se formou em física na Universidade de Buenos Aires, doutorado na Universidade da Pensilvânia na mesma época em que Donald Trump lá estudava, deu à luz aos seus dois filhos nos Estados Unidos e imigrou para Campinas, no interior de São Paulo, em 1974, contratada como professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), numa época em que tudo estava em construção nessa grande casa do conhecimento. Especializada em estrutura de membranas biológicas e cristalografia, ela teve um papel muito importante na instrumentação de êxito das primeiras duas linhas de luz síncroton do Laboratório Nacional de Luz Síncroton (LNLS) antes do surgimento do Sirius.

Avessa à autopropaganda, no dia 16 de janeiro de 2026 recebeu um comunicado que lhe parecia mais um trote: recebera o Prêmio Carolina Bori, concedido pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), na categoria Exatas e Ciências da Terra. “Eu não sou pessoa de se preocupar com prêmios, nunca liguei para isso. Pensei que era até uma brincadeira comigo”, conta Iris, em entrevista por telefone ao Boletim SBF, feliznão apenas com o prêmio, mas porque tinha acabado de receber a visita de Márcia Carvalho de Abreu Fantini, professora do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (IFUSP), que atua no Laboratório de Cristalografia dessa universidade.

Mesmo com o prêmio, pelo qual Iris agradece de coração, sua maior alegria na vida é ter inspirado e se inspirado em tantos alunos e alunas. Ela lembra que há hoje aluno seu que chegou a ser até diretor, outros estão na Noruega, outros na França. Com todos seus alunos e alunas, ele afirma que conseguiu estimular o gosto pela pesquisa científica, especialmente nas áreas de polímeros e o estudo de materiais biológicos, membranas biológicas e estudo de estrutura de proteínas. “É como dizem: a carreta não anda sem os bois (risos!) Então eu fui puxando sempre para frente. E fico muito feliz de ver quando eles ainda estão todos em contato comigo, fico muito feliz com isso.”

Para ela, o Carolina Bori é um prêmio que pode servir de estímulo para as jovens que pretendem ser cientistas, mas ela também lembra que inspirou muitos meninos, e que nunca se sentiu menor por ser mulher, frente a uma área na qual a maioria é do sexo masculino. “Eu nunca me senti deixada de lado, todos me deram um lugar e eu ocupei o lugar com tudo que podia. Além do que, segui criando esse mesmo estilo com meus alunos. Então, eu acredito em que muitas mulheres são assim tímidas com referência ao que elas podem fazer. Eu sempre me considerei que era completamente impermeável a qualquer estúpida crítica de que, por ser mulher, não podia fazer tal coisa ou outra.”

Maria Cristina Nonato, presidente da Sociedade Brasileira de Cristalografia, entidade da qual Iris teve atuação marcante, também afirmou estar muito feliz com a escolha. Essa sociedade organizou todo o material de defesa do nome de Iris para receber esse prêmio. Além do histórico invejável, consta da argumentação uma palestra que a cientista realizou em Madrid, na Espanha, em 2011, em congresso da União Internacional de Cristalografia (IUCr, na sigla em inglês). “Foi uma palestra muito bem sucedida”, rememora Iris.

A partir das linhas de luz síncroton do LNLS, muito antes do lançamento das linhas do Sirius, Iris comandou estudos de Espalhamento de Raios X a Baixo Ângulo (SAXS) e Espalhamento de Raios X a Alto Ângulo (WAXS) que possibilitam estudo aprofundado de materiais complexos. Se fosse possível fazer uma analogia com a fotografia, é como se esses experimentos conseguissem enxergar cadeia de moléculas dos materiais, o que na área biológica é extremamente importante na busca de novos medicamentos, por exemplo, como fez o Sirius anos depois ao estudar moléculas da SARS-Cov-2, a partir de 2020. Na apresentação em Madrid em 2011, Iris relatou o estudo “Structural characterization of applied organic materials and soft matter”, a partir de pesquisa feita com frutos nativos da Amazônia semelhantes ao cacau. O trabalho pode ser encontrado no Research Gate.

“Como resultado de novas técnicas tomográficas de raios X, a estrutura de diversos materiais orgânicos naturais e sintéticos, bem como de materiais macios, passou a ser apresentada por meio de reconstruções de imagens atrativas em espaço-volume. No entanto, para compreender a agregação molecular e o fenômeno de formação de fases sólidas, a caracterização estrutural quantitativa e os experimentos in situ em tempo real continuam sendo indispensáveis para o design de materiais. A plataforma experimental SAXS/WAXS está hoje bem estabelecida como uma ferramenta essencial para o desenvolvimento dos materiais do futuro”, informou a cientista à época.

Quando o Sirius começou a ser construído, Iris já estava se aposentando, mas atuando como professora da Unicamp, feliz em ver seus alunos com um novo e gigantesco equipamento que pode avançar ainda mais as pesquisas com as quais ela se dedicou a vida inteira, com fôlego para continuar. Mas ela afirma que agora os desafios estão nas mãos dos jovens. “Eu deixo para os jovens. Eu deixei muitos jovens, meus alunos. Alguns deles são até diretores”, diz Iris. “Eu me dediquei muito à formação de pessoas, então é tudo através do que meus alunos, que conseguiram avançar.” Há quem diga que sucesso não é o que conseguimos construir no presente, mas sim o legado para as próximas gerações. Por esse ângulo, o Prêmio Carolina Bori não deixa de ser apenas uma pontinha do sucesso dessa grande professora-cientista.

(Colaborou Roger Marzochi)