Este ano, a SBF comemora 60 anos de existência, mas desde o ano passado outra celebração marca as décadas de realizações e fomento à ciência nacional. Completando 45 anos em 2025, a Revista Brasileira para o Ensino de Física (RBEF),da SBF, trouxe uma série de artigos comemorativos, apresentando a história e a evolução deste que é o principal periódico científico da área, no Brasil. Ao longo de mais de quatro décadas, a revista acompanhou transformações profundas na educação, nas políticas científicas e nas formas de comunicar o conhecimento. O que inspirou o artigo “As capas da revista brasileira de Ensino de Física ao longo dos seus 45 anos: uma análise Semiótica”, de João Eduardo Fernandes Ramos (UFPE), Maria Teresa Lopes Ypiranga (UFPE) e Emerson Ferreira Gomes (IFSP).

REF. Fonte: Biblioteca da UNESP, Campus de Rio Claro.
Desde sua primeira edição, em 1979, ainda sob o nome Revista de Ensino de Física (REF), a publicação assumiu um papel ativo de mediação entre produção acadêmica e prática docente. As capas desse período inicial revelavam uma opção editorial ousada: cada edição apresentava uma identidade visual própria, fortemente ligada aos temas discutidos no interior da revista. Textos poéticos, grafites urbanos, fenômenos astronômicos, colagens de jornais e histórias em quadrinhos foram utilizados como elementos visuais capazes de provocar o leitor e ampliar as possibilidades de interpretação.
Tamanha diversidade inspirou os editores da revista comemorativa a levarem aos interessados a sugestão de abordar as transformações na identidade da RBEF, tema que despertou o interesse do professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) João Ramos, membro do Grupo de Pesquisa em Educação, História e Cultura Científica (GPEHCC) e pesquisador das possibilidades didáticas da aproximação entre a arte e a ciência. “Tenho em casa as versões impressas antigas e sempre chamou atenção a criatividade das capas no diálogo com a Física. A capa do ‘Galileu onde oce se meteu?’ é muito divertida, por exemplo. Então foi mais tentar trazer – por meio da Semiótica – esse olhar analítico para as capas”, explica Ramos.

REF e capa da edição número dois do segundo volume da
REF. Fonte: Biblioteca da UNESP, Campus de Rio Claro.
Para desenvolver o artigo, a equipe de pesquisadores optou por não conversar com os editores e diagramadores responsáveis pelas edições, deixando a cargo da análise teórica as conclusões que seriam entregues. De acordo com o professor, apesar do possível diálogo complementar a pesquisa, “parte da dinâmica da análise semiótica consiste em considerar o produto como um todo”.
O primeiro ciclo gráfico da RBEF, que se estende até o fim da década de 1980, caracteriza-se por uma comunicação visual aberta e experimental. As capas funcionavam como narrativas autônomas, convidando à reflexão. Em muitos casos, o significado pleno da imagem só se completava após a leitura dos artigos, estabelecendo uma relação direta entre forma gráfica e conteúdo científico.
Entre 1989 e 1991, a revista entrou em uma fase de transição. As capas passaram a adotar um padrão visual comum, marcado por composições geométricas em degradê e pela introdução do índice na contracapa. A mudança sinalizou a busca por maior objetividade informacional, reduzindo o protagonismo da imagem figurativa e direcionando a atenção do leitor para a organização interna da publicação. Um momento em que a RBEF começou a priorizar a clareza editorial em detrimento da experimentação visual.
A partir de 1992, com a adoção definitiva do nome Revista Brasileira de Ensino de Física, inaugurou-se a terceira fase gráfica da publicação. As capas tornaram-se minimalistas e padronizadas, centradas no letreiro do título e em cores de alto contraste. Nesse período, a identidade visual da revista passou a operar como uma marca reconhecível, reforçando sua presença institucional no cenário científico. “O que a análise nos indicou é que essas transformações têm muito a ver com a visão editorial mais formal, o que também vai pesar na internacionalização da revista que passava a acontecer”, coloca Ramos.
Sobre a escolha das cores, a pesquisa não se aprofundou a respeito da tomada de decisão do corpo editorial, mas mesmo não sabendo das motivações existentes, as escolhas atenderiam a um propósito claro. “Tendo a pensar que foi algo mais na linha do estético mesmo, mas ao mesmo tempo, ainda que de forma empírica, a escolha pode tangenciar a ideia do impacto das cores nos leitores”, reflete. “Esses dias encontrei algumas revistas na biblioteca da faculdade e elas se destacavam nas estantes justamente pela lombada vermelha. Então os elementos estéticos se juntam com essa praticidade e direcionamento na identificação da revista/marca, digamos”, complementa o professor.

Fonte: Biblioteca da UNESP, Campus de Rio Claro.

Fonte: Biblioteca da UNESP, Campus de Rio Claro.

digital da Revista Brasileira de Ensino de Física.
Ainda assim, edições especiais romperam pontualmente essa padronização, incorporando imagens comemorativas, como nas celebrações do Ano Internacional da Física ou em homenagens a figuras históricas da ciência. Esses momentos reafirmam o vínculo entre a revista, sua memória e os marcos simbólicos da Física.
A análise das capas ao longo desses 45 anos revela que a RBEF construiu sua identidade visual em diálogo constante com seu público. De uma comunicação imagética aberta e provocadora à consolidação de uma marca editorial, a revista acompanhou as transformações do próprio campo do ensino de Física no Brasil. Mais do que elementos gráficos, suas capas constituem um arquivo visual que documenta escolhas editoriais, concepções pedagógicas e modos de pensar a ciência em diferentes épocas.
Para o professor, a pesquisa despertou um interesse maior pelo conteúdo gráfico-editorial e um olhar apurado sobre as ideias em torno do conjunto imagem-texto-ciência-cultura, a ponto de ‘ousar’ dizer que veria como positivo se a RBEF retornasse a veicular capas temáticas, que entregassem mais ao leitor e abrissem espaço à exploração visual. “Pensando em revistas como um todo, capas diferentes são muito interessantes. Até imaginei a possibilidade de colecionar as capas, sabe?”, compartilha.
Poder ter artistas convidados para capas variadas”… “Como consumidor – conjectura o físico –, artistas poderiam ser convidados a criar capas variadas, o que poderia até gerar expectativas pelo próximo volume com a nova capa, mas, entendo que tudo isso envolveria custos e outras dificuldades num processo que já é muito trabalhoso”. Como alternativa, o professor da UFPE sugere a adoção de uma capa temática ao ano, “quem sabe para retomar essa história das capas das edições iniciais”. O foco, continuaria no conteúdo da publicação, mas não se fechariam as portas para mais esse elemento de atração do leitor. “Observando esse percurso histórico das capas na RBEF, ela perde na apresentação em detrimento da padronização. Particularmente preferia as capas diferentes”, confessa.
A Revista Brasileira de Ensino de Física é uma publicação de fluxo contínuo. A edição comemorativa da RBEF – volume 47, suplemento 1, de 2025 –, pode ser acessada no site da SciElo, gratuitamente. Manuscritos podem ser submetidos por meio da página da revista na plataforma.
Algumas teorias abordadas
As teorias que ajudaram os autores a tirar conclusões na pesquisa foram baseadas na abordagem semiótica de linha peirceana e no modelo de análise proposto por Martine Joly, apresentado em seu livro “Introdução à análise da imagem” (página 2). Essa abordagem permitiu investigar os signos e significados das mensagens visuais das capas da Revista Brasileira de Ensino de Física (RBEF), dividindo a significação em três tipos de significado: plástico, icônico e linguístico (p1). Além disso, os autores mencionam a semiosfera de Iuri Lotman como referência teórica para compreender a produção de sentido das capas ao longo dos 45 anos da revista.
Referência
RAMOS, João Eduardo Fernandes; YPIRANGA, Maria Teresa Lopes; GOMES, Emerson Ferreira. As capas da Revista Brasileira de Ensino de Física ao longo dos seus 45 anos: uma análise semiótica. Revista Brasileira de Ensino de Física, v. 47, supl. 1, e20240431, 2025. DOI: 10.1590/1806-9126-RBEF-2024-0431.
Por Frederico S. M. de Carvalho







