Em plena Ditadura Militar (1964-1984), físicos reunidos na 18ª Reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) em Blumenau, Santa Catarina, tomaram uma das mais importantes decisões para a Física: a criação da Sociedade Brasileira de Física. O ato da fundação ocorreu em 14 de julho de 1966, na Biblioteca Municipal Fritz Muller.
A reunião foi presidida pelo professor José Goldemberg, à época secretário da Comissão de Física da SBPC. O encontro contou ainda com a participação de outros grandes físicos. No total, o evento reuniu cerca de cem pesquisadores, professores e estudantes de física. Foi nesse encontro histórico no qual foi lido e aprovado em Assembleia o anteprojeto de Estatuto para a SBF. Na época, a comunidade brasileira de física tinha cerca de 300 profissionais. “Eu não era uma das figuras principais, mas estava lá”, disse ao Boletim SBF a cientista Alinka Lépine-Szily, que faleceu em setembro de 2025. Após a Segunda Guerra Mundial, deixou a Hungria e, após um périplo pela Europa, sua família buscou refúgio no Brasil e ela se tornou uma das referências em Física Nuclear no país e foi sócia efetiva da SBF desde o início.
“Durante a assembleia, foi discutida e votada uma proposta de estatuto da sociedade, elaborada por uma comissão de físicos designada durante a XVI Reunião Anual da SBPC, realizada em Ribeirão Preto, em 1964, incorporando sugestões que haviam sido apresentadas durante a reunião anual da SBPC de 1965, realizada em Belo Horizonte. O estatuto aprovado em Blumenau, redigido principalmente por Jayme Tiomno, Amélia Império Hamburger, Ross Alan Douglas e Sérgio Mascarenhas de Oliveira, incorporando algumas modificações aprovadas no ano seguinte, continua sendo o documento básico da sociedade. Goldemberg, Amélia Hamburger e Douglas eram físicos nucleares de São Paulo; Tiomno, um dos fundadores do CBPF, havia estagiado em São Paulo; Mascarenhas, originário do grupo de dielétricos do Rio, estava dando início às pesquisas em física dos sólidos em São Carlos, no interior do estado de São Paulo”, conta o professor Silvio R. A. Salinas, no texto Formação e desenvolvimento da Sociedade Brasileira de Física (SBF), publicado em edição do CBPF de 2001, organizada por Antonio A. P. Videira e Anibal Bibiloni, baseado em palestra apresentada num “Encontro de História da Ciência, realizado em Buenos Aires, em setembro de 2000.
“Na assembleia de Blumenau, os Membros Fundadores também elegeram a diretoria provisória, sob a presidência de Oscar Sala, responsável pela instalação de um acelerador do tipo Van de Graaf no Departamento de Física da antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, e escolheram a cidade de São Paulo para sede da SBF. Como primeira contribuição ao país, a diretoria da nova sociedade deveria realizar um ‘estudo sobre a situação e as necessidades da física no Brasil a fim de apresentar às autoridades competentes’.”, explica o professor Salinas no texto.
“A criação dessa sociedade atendia a um desejo antigo e nunca concretizado, devido, entre outros fatores, ao pequeno tamanho da comunidade de físicos. Para alguns físicos – entre eles, o austríaco Guido Beck (1903-1988), que chegou ao Brasil no início da década de 1950 –, não fazia sentido criar uma sociedade profissional enquanto a física estivesse concentrada no eixo Rio-São Paulo. Aqueles poucos físicos podiam se reunir nas sessões da Academia Brasileira de Ciências e nas reuniões periódicas do CNPq, então Conselho Nacional de Pesquisas (hoje, Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico)”, conta Antonio A. P. Videira no texto “SBF: 50 anos de conquistas”, capítulo do livro 50 Anos SBF.
“Ainda que pequena, com pouco mais de 300 profissionais – o que não significa dizer que todos eram pesquisadores em física, pois muitos se dedicavam só à docência – , a comunidade brasileira de físicos, em 1966, já não se restringia às cidades do Rio e de São Paulo. Havia grupos de pesquisa e ensino em Belo Horizonte, Porto Alegre, São Carlos (SP), Brasília, Salvador e Recife”, escreve o divulgador científico.
Durante o Regime Militar a SBF teve físicos perseguidos e afastados de suas atividades, e se posicionou em diversas oportunidades contra o regime. Também houve momentos de interlocução e diálogo com os militares, quando o assunto foi organizar um sistema federal de apoio à ciência e à tecnologia.
De acordo com a linha do tempo que há no site da SBF, em 1970, a SBF começou a promover os Simpósios Nacionais de Ensino de Física. Em 1971, criou a revista Brasileira de Física (ainda hoje publicada, com o título Brazilian Journal of Physics). Em 1985 é criado o Ministério de Ciência e Tecnologia, antiga reivindicação da SBF. Vinte anos depois, Sérgio Machado Rezende, membro da SBF, se tornou Ministro da pasta.
E a atuação da SBF se estendeu por muitas outras lutas, como a regulamentação dos conselhos federal e regional de física, a defesa da livre docência e a busca por prestigiar cientistas que promovem a divulgação científica no País. Para celebrar essa marca histórica dos 60 anos, a SBF divulgará ao longo dos meses uma reportagem especial sobre os feitos e pessoas que até hoje influenciam os caminhos da ciência, como o próprio Boletim SBF, que segundo o professor Salinas, teve o seu primeiro número divulgado em 1969, editado pelo então secretário-geral Ernst W. Hamburger, físico nuclear que também se notabilizou por uma marcante atuação na divulgação e na educação científica.
(SBF)