
Há quem goste excessivamente de números. Não deixa de ser importante acompanhar as curvas que os dados podem mostrar e suas tendências, especialmente quando se fala sobre a participação da mulher na ciência. No entanto, durante muito tempo, o que mais se vê na mídia são dados mostrando o que parece óbvio dentro de uma sociedade ainda fortemente influenciada pelo machismo e pela visão da mulher como cuidadora da casa, dos filhos e até dos pais. Perdoe Pitágoras, que quando decidiu parar de comer carne e usar a matemática para criar até uma seita fortemente ligada à música, talvez não tenha entendido que, apesar de a física determinar as escalas musicais e o chamado temperamento dos instrumentos musicais, a única razão da música existir é a de expressar sentimento e emoção por meio do som.
É por isso que nessa matéria especial da Sociedade Brasileira de Física (SBF) para o Dia Meninas e das Mulheres na Ciência de 2026, comemorado em 11 de fevereiro, esta reportagem abordará emoções e sentimentos que se transformaram em uma ação, visandoreverter dados que parecem muralhas intransponíveis numa sociedade que precisa de políticas públicas para reduzir as distâncias entre homens e mulheres. E esse exemplo também vem da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Setor Palotina, com o projeto Rocket Girls- Meninas na Ciência, que teve início em 2018, com a professora Paola Ponciano e Mara Parisoto.

A professora Mara Fernanda Parisoto, da UFPR Setor Palotina, lembra que “em 2018 a professora Alda Fontoura Rossetto, hoje no Colégio Estadual Santo Agostinho, já começou como uma das bolsistas para atrair mais meninas para as áreas das exatas, por exemplo”. A motivação para o projeto nasce de uma constatação persistente. “A minha área, que é a física, tem poucas mulheres. A ciência precisa de mais mulheres para conseguir resolver os problemas, e precisamos de mais físicos também, porque há uma ausência de professores e de pesquisadores na área”, explica Mara.
A origem do projeto remonta a experiências práticas que revelaram desigualdades já presentes nas primeiras etapas de formação científica. “Quando criamos esse projeto, ele contou com financiamento do CNPq, porque nós tínhamos aqui uma equipe de minifoguetes, denominada de Palorocket, que era só da universidade, voltado para a construção e competição usando minifoguetes. Fomos para o Festival Brasileiro de Foguetes e recebemos algumas premiações. Então voltamos para Palotina e começamos a formar nas escolas, alunos e professores. E percebemos que a maioria das meninas ficavam muito na parte estética, deixavam bonito o foguete, colocavam glitter e os meninos realmente construíam os foguetes e lançavam. Então, constatamos que isso era um problema. O que poderíamos fazer? Porque gostaríamos que as meninas também construíssem e os meninos também ficassem com a estética, não é verdade?”
Desde então, o projeto não apenas continuou como ampliou sua atuação e seu alcance institucional. “Tivemos financiamento da Inglaterra, do British Consul, e em conjunto com o professor Bruno Garcia Bonfim, professor do IFPR conseguimos adquirir o Planetário, que nos seus três anos de funcionamento, já atendeu mais de 30 mil pessoas, em 24 municípios do Paraná, divulgando as cientistas brasileiras, onde se faz ciências e divulgando as universidades públicas e seus cursos. Conseguimos mais de 4 milhões de reais em financiamento, da CAPES, CNPQ, ITAIPU, CETENE, British Consul, SBPC e recursos da UFPR, em bens de consumo, permanente e bolsas. Em 2025 conseguimos o financiamento do CNPQ por mais três anos. Desde 2018, início do projeto, atendemos mais de 400 mil pessoas”.
A formação científica oferecida pelo projeto também inclui experiências pedagógicas que integram saberes tradicionais e conhecimentos acadêmicos. Uma das oficinas realizadas trouxe elementos da cultura indígena para o ensino de matemática e física, por meio do ensino de relatividade geral e trigonometria, por meio do filtro dos sonhos. Além da formação inicial, o projeto promove o protagonismo das próprias estudantes, que passam a atuar como multiplicadoras do conhecimento científico em suas comunidades, por meio de Clubes de Ciências. Essa iniciativa também atua no combate a equívocos persistentes sobre o ensino superior no Brasil. Como destaca a professora, “muitos acham que a Universidade Pública é paga e não viável a pessoas de baixa renda”, e por isso o projeto atua diretamente na divulgação das universidades e das possibilidades de acesso.
A dimensão simbólica da representatividade é outro eixo central da iniciativa. Nesse sentido, o projeto também atua diretamente na valorização de cientistas brasileiras, muitas vezes invisibilizadas na memória coletiva. “Então, o projeto também promove a divulgação de onde se faz ciência, das universidades públicas e das mulheres brasileiras cientistas”.
Essa estratégia tem um objetivo claro: criar referências que inspirem novas gerações. “Por isso queremos que elas participem de competições e que a gente divulgue bastante para que outras meninas consigam se inspirar… ‘ah, tem meninas indígenas conseguindo prêmios, olha que legal’… Então, nós que estamos lá na aldeia também podemos conseguir alcançar isso. A representatividade é muito importante.”
O compromisso do projeto com a inclusão social se estende a diferentes contextos e comunidades. Ao longo de sua trajetória, a iniciativa atuou junto a escolas indígenas, comunidades quilombolas e até mesmo em uma unidade prisional feminina até o ano passado. Como relata a professora, “infelizmente, a gente não conseguiu mais continuar por fatores burocráticos dentro da instituição, mas então a gente tem bastante essa preocupação e vamos continuar tentando abarcar esse público. E tem um clube de ciências de uma das escolas que também está trabalhando com imigrantes”.
Mais do que alterar estatísticas, o projeto Meninas na Ciência busca transformar trajetórias. Ao criar espaços de formação, inspiração e pertencimento, ele mostra que a ciência não é apenas um conjunto de números ou equações, mas também uma experiência humana, social e coletiva. Ao ampliar a presença feminina nas ciências exatas, o projeto contribui não apenas para reduzir desigualdades históricas, mas também para enriquecer a própria ciência com novas perspectivas, vozes e possibilidades.
Como perspectivas futuras a professora Mara menciona que “um dos meus sonhos é que esse projeto seja permanente, que vire lei, e que as crianças possam ter contato cada vez mais cedo com as ciências, em vários espaços, como nas casas de cultura, assistência social, contraturno escolar, por meio de clubes de ciências e contratando de modo permanente, professoras para atuarem nesses espaços, levando a ciência de modo interessante a comunidade e aumentando a empregabilidade dos licenciados, valorizando mais a ciência e a licenciatura. Além disso, internacionalizar o projeto”.
(Colaborou Roger Marzochi)









