No imaginário popular, a Física costuma ser associada a nomes masculinos que se tornaram símbolos universais da ciência, como Einstein e Newton. Ao mesmo tempo, a história registra casos emblemáticos de reconhecimento tardio ou contestado de mulheres que se dedicaram à Física. Possivelmente o mais conhecido tenha ocorrido quando o nome de Marie Curie quase ficou de fora do Prêmio Nobel de Física de 1903, apesar de suas descobertas fundamentais sobre a radioatividade.

Ao longo das últimas décadas, no entanto, mulheres cientistas vêm ampliando sua presença e trabalhando duro para deixar contribuições fundamentais para esta área do conhecimento. Todavia, a equidade de gênero permanece distante de se concretizar plenamente na Física brasileira.

Publicada em setembro de 2025 no Brazilian Journal of Physics, a pesquisa Women in Theoretical Quantum Physics in Brazil: Demographics, Career Profiles, Recognition, and Leadership (Tatiana Pauletti et al.), oferece um retrato detalhado dessa persistente realidade.

O levantamento indica que as mulheres representam apenas 24% do corpo docente em Física no país. Na Física Quântica, a proporção é ainda menor. Nesse campo específico, foram identificadas somente 93 pesquisadoras em atuação no Brasil. O grupo ficou conhecido como SheQ, junção do pronome she (‘ela’, em inglês) com a letra inicial da palavra Quantum.”

Trata-se de um contingente pequeno, mas com trajetórias acadêmicas altamente qualificadas, ampla experiência internacional e produção científica robusta. Não obstante, a pesquisa indicou que tais cientistas ocupam poucos cargos de liderança, recebem menos convites para conferências do que colegas homens e nem sempre conquistam as bolsas de maior prestígio.

Na Semana Internacional da Mulher, a Sociedade Brasileira de Física buscou retomar o debate sobre a falta de equidade de gênero na ciência brasileira. Para isso, conversou com cientistas inspiradoras de diferentes gerações.

Uma delas é a física Thereza Paiva, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisadora na área de matéria condensada, que sempre buscou incentivar meninas a seguirem carreira nas ciências exatas. Com esse objetivo, ela fundou, em conjunto com as colegas de profissão Elis Sinnecker e Tatiana Rappoport, o projeto de extensão “Tem menina no circuito”, que começou em 2013 por meio de um edital do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e em 2022 foi o vencedor do Nature Awards for Inspiring Women in Science, promovido pela revista científica Nature como forma de reconhecer iniciativas voltadas justamente a estimular o interesse de meninas por ciências exatas.

Thereza Paiva, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisadora na área de matéria condensada.

O foco é em estudantes de escolas públicas, principalmente na região metropolitana do Rio de Janeiro. “Quando começamos, queríamos incentivar meninas a considerar carreiras nas exatas. Mas percebemos que em muitas dessas escolas o ensino médio é terminal. Por esse motivo, o nosso papel passou a ser também fazer inclusão social pela ciência. Trazer essas meninas para o ensino superior já é uma grande vitória.”

Segundo ela, o impacto do projeto vai além da sala de aula. Muitas das alunas nunca haviam tido contato com espaços científicos. “Uma vez perguntamos quantas meninas já tinham ido a um museu de ciência ou a um planetário. Nenhuma tinha ido. Às vezes, o acesso a tais locais é gratuito, mas eles ficam longe ou elas nem sabem que existem. Por isso a gente também tenta proporcionar esse acesso cultural.”

Thereza lembra que a sua própria curiosidade científica surgiu muito cedo, ainda que inicialmente direcionada para outra área. “Eu acho que sempre quis ser cientista. Quando eu era mais nova, eu queria ser o Indiana Jones menina, queria ser arqueóloga, escavar pirâmide no Egito”, conta. A mudança para a Física ocorreu no ensino médio, quando um professor teve papel decisivo ao incentivar leituras além do conteúdo tradicional das aulas. “Ele me sugeriu livros extras, como o ABC da Relatividade. Acho que isso foi bem determinante na minha escolha pela Física.”

A importância desse tipo de estímulo aparece na trajetória profissional de outra figura inspiradora da ciência brasileira, a física Yvonne Mascarenhas. Nascida em 1931, em Pederneiras (SP), ela se graduou em Química pela Universidade do Brasil — atual Universidade Federal do Rio de Janeiro — e em Física pela Universidade do Estado da Guanabara, hoje Universidade do Estado do Rio de Janeiro. A própria cientista atribui o desejo de atuar na área à influência de um professor marcante do antigo Curso Clássico, atual ensino médio. “O meu interesse por exatas teve início quando tive aulas de química com o excelente professor Albert Ebert, no Colégio Mello e Souza, no Rio de Janeiro”, recorda.

Anos depois, Yvonne participaria da construção do Instituto de Física e Química da USP em São Carlos (a separação da Física e da Química só viria depois), ajudando a estruturar um dos polos de pesquisa mais importantes do país. “Viemos eu e meu marido, Sergio Mascarenhas, para a cidade de São Carlos, SP, em 1956, para lecionar Física na Escola de Engenharia de São Carlos. As condições de pesquisa no Brasil eram bastante incipientes naquela época. Trabalhar em pesquisa no Rio ou em São Carlos dependia muito do nosso entusiasmo”, lembra. Segundo ela, o grupo contou com o apoio do professor Joaquim da Costa Ribeiro, que cedeu um eletrômetro Wulff, essencial para o estudo do efeito Costa Ribeiro, ao qual os pesquisadores já se dedicavam na FNFi, e conseguiu montar um pequeno laboratório de cristalografia ao trocar um equipamento médico de raio X, recém adquirido pelo professor que os antecedeu, por um aparelho de difração de raio X. Isso permitiu iniciar as pesquisas e atrair novos colaboradores.

Pioneira da cristalografia no Brasil, Yvonne aprofundou seu interesse pela área após um curso ministrado pelo professor Elisiário Távora e realizou estágios de pesquisa no exterior, como na University of Pittsburgh e na Princeton University. Doutora pela Universidade de São Paulo em 1963, ajudou a estruturar o grupo de cristalografia em São Carlos e foi uma das fundadoras da Sociedade Brasileira de Cristalografia, em 1971. Professora titular a partir de 1981 e diretora do Instituto de Física de São Carlos da USP de 1994 a 1998, orientou dezenas de pesquisadores e publicou mais de 150 artigos científicos. Membro da Academia Brasileira de Ciências, recebeu diversas honrarias, entre elas a Ordem Nacional do Mérito Científico, e permanece ativa na pesquisa e na divulgação científica mesmo após a aposentadoria.

Número baixo

A despeito de role models como Yvonne Mascarenhas, a baixa presença feminina em diferentes áreas da Física surpreende até quem acompanha o tema de perto. Quando participou do estudo sobre equidade de gênero na Física Quântica, Thereza Paiva conta que os resultados ficaram abaixo das expectativas. “Quando as meninas me chamaram para participar desse artigo, eu pensei que a gente não ia conseguir nomear todas as mulheres da área. E o fato de termos conseguido identificar essas pesquisadoras já foi espantoso. São 93 mulheres trabalhando com teoria nas áreas que usam mecânica quântica. Menos de cem. Eu acho um número muito baixo.”

Para chegar a esse levantamento, a pesquisa utilizou diferentes bases de dados acadêmicas e uma análise detalhada dos currículos disponíveis na plataforma Lattes. “O CNPq liberou recentemente uma base de dados da qual você consegue extrair muita informação, como número de bolsistas por gênero. Mas, para identificar uma área específica, foi preciso olhar os currículos e usar marcadores e palavras-chave relacionadas à mecânica quântica”, explica Paiva.

Além do número reduzido de pesquisadoras, alguns resultados curiosos apareceram no estudo. “Tem um período ali por volta de 2000 em que há um aumento grande no número de teses nessas áreas. A gente conversou com várias pessoas tentando entender o motivo, mas ninguém encontrou uma explicação que satisfizesse completamente.”

Apesar da desigualdade persistente, Thereza percebe mudanças importantes em relação ao início de sua carreira. Para ela, um dos avanços mais significativos é a presença maior de mulheres nos espaços de decisão da comunidade científica. “Quando eu comecei, era muito mais raro ver mulheres sentadas à mesa da discussão. Hoje a gente começa a ter mulheres em posições importantes. Isso muda o olhar sobre várias questões.” Um exemplo citado por ela são mudanças recentes nas avaliações de bolsas de produtividade científica. “Agora, quando a pessoa teve filhos no período analisado, o tempo de avaliação pode ser ampliado. A cada filho se acrescentam dois anos. Esse tipo de cuidado faz muita diferença na carreira das mulheres, porque evita que elas sejam penalizadas.”

Mas a desigualdade de gênero na ciência não pode ser compreendida apenas a partir das estruturas acadêmicas. Segundo Thereza, ela está profundamente ligada à forma como meninas e meninos são educados desde cedo. “A gente vive num país onde ainda existe um machismo estrutural muito forte. As meninas são educadas para o cuidado. Você dá para uma menina uma boneca, uma cozinha, ensina a cuidar da casa. Isso se reflete nas escolhas profissionais mais tarde.” Ela observa que esse padrão aparece, inclusive, nas estatísticas das bolsas de pesquisa. “Se você olha o total de bolsas do CNPq, o número de homens e mulheres é parecido. Mas, quando divide por área, nas áreas da saúde tem mais mulheres. Nas exatas, elas são minoria.”

A ausência de referências femininas na ciência é outro fator que influencia a trajetória de jovens estudantes. Thereza lembra que uma das figuras decisivas em sua formação foi a física Belita Koiller, que é especialista em teoria da matéria condensada e foi a primeira mulher eleita membro titular da Academia Brasileira de Ciências na área de Ciências Físicas, em 1995. “Eu tive aula com ela na graduação e aquilo foi determinante para eu escolher minha área. Foi a primeira vez que eu olhei para uma mulher e vi que ela não era só uma professora dando aula, mas uma grande pesquisadora.” Para ela, essa visibilidade é essencial. “Se você não vê uma coisa, você não acha que pode ser essa coisa. As meninas sabem quem é Einstein ou Newton, mas quase nunca conhecem cientistas mulheres.”

Rigor matemático

Primeira mulher a assumir a diretoria do Instituto de Física (IF) da USP, a professora Kaline Coutinho, que é graduada em Física pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), mestre pela mesma instituição e possui doutorado em Física pela USP, lidera o IF desde dezembro de 2023. Para ela, a baixa presença feminina na Física Quântica Teórica pode estar relacionada à própria natureza da área. “Ela é basicamente teórica, existe uma parte muito forte de rigor matemático. E se a gente olha o percentual de mulheres na matemática no Brasil, ele também é baixo”, afirma. Atuando em áreas como efeito solvente, propriedades eletrônicas e estruturais, interfaces, misturas líquidas, materiais porosos, agregados moleculares e nanotecnologia, Kaline corrobora a ideia de que tal cenário pode ter relação com fatores culturais e com a formação escolar. “As meninas muitas vezes são estimuladas desde pequenas a irem para áreas mais criativas ou de relações humanas. Talvez essa área mais dura, que envolve mais teoria e matemática, acabe afastando um pouco.”

A diretora do Instituto de Física (IF) da USP, professora Kaline Coutinho.

Por outro lado, Kaline lembra que as pesquisadoras que atuam na área apresentam forte produção científica e elevada experiência internacional, ainda que o reconhecimento institucional nem sempre acompanhe esse desempenho. “No início da carreira, a avaliação é muito baseada em indicadores quantitativos, como número de publicações, citações e orientação de alunos. Mas quando você chega às etapas mais altas da carreira, entra um elemento importante que é a visibilidade. E nesse aspecto as mulheres acabam sendo prejudicadas.” Segundo ela, a própria formação histórica da comunidade científica contribuiu para isso. “No início da área no Brasil, ela era composta basicamente por homens. Então, a tradição de convidar homens para conferências, comitês científicos e bancas acabou se perpetuando.”

Nos últimos anos, no entanto, ela acredita que essa situação começou a mudar. “Houve um movimento muito forte para exigir representatividade feminina em bancas de concursos, comitês científicos e conferências. E isso tem aumentado a visibilidade das mulheres”, afirma Kaline. Ela própria faz parte desse movimento de mudança: além de ser a primeira mulher a dirigir o IF, ocupa cargos importantes em agências de avaliação e fomento à pesquisa.

Outro ponto importante apontado por Kaline é o impacto das responsabilidades familiares na trajetória das cientistas. “A internacionalização da carreira, por exemplo, muitas vezes depende da disponibilidade do marido ou do companheiro e também da questão dos filhos”, explica, acrescentando que períodos prolongados no exterior podem se tornar difíceis de conciliar com a vida familiar. “No meu caso, o processo de internacionalização aconteceu antes de eu ter filha. Depois que tive, passei cerca de sete anos com atividade internacional bastante reduzida.”

Esse tipo de interrupção temporária pode influenciar diretamente o ritmo da carreira científica. “Muitas mulheres acabam sentindo também uma cobrança social maior em relação à presença na vida dos filhos”, observa. “Existe até um sentimento de culpa que muitas cientistas relatam, de estar trabalhando demais.” Ainda assim, Kaline acredita que as novas gerações já apresentam mudanças importantes nesse aspecto. “Hoje a gente já vê mais casos de casais em que o marido fica em casa enquanto a esposa está no exterior. Isso está mudando.”

Além das mudanças institucionais, redes de apoio entre pesquisadoras têm desempenhado papel cada vez mais relevante. Para Kaline, compartilhar experiências é fundamental para enfrentar as dificuldades da carreira científica. “Conhecer outras mulheres e conversar com outras pesquisadoras, mais jovens ou mais experientes, são atitudes que ajudam muito. Às vezes você tenta explicar uma angústia para alguém que nunca passou por aquilo e a pessoa nem consegue entender.”

Na avaliação de Yvonne Mascarenhas, houve progressos importantes na participação feminina na ciência brasileira, embora desafios ainda permaneçam. “Creio que avançamos bastante em termos de igualdade de gênero. Mas persistem problemas relacionados principalmente à diferença na educação dos meninos e das meninas, que não favorece o surgimento do interesse das mulheres pelas ciências exatas, afirma.

Para as novas gerações de cientistas, as três pesquisadoras deixam conselhos semelhantes. A persistência é um deles. “A ciência não é fácil e não é trivial”, diz Thereza Paiva. “Quem desiste de primeira perde a oportunidade de fazer grandes descobertas depois.”

Kaline Coutinho destaca a importância de cada pesquisadora compreender seus próprios objetivos e construir sua trajetória de forma consciente. “O que foi sucesso para mim não quer dizer que será sucesso para outra pessoa. O importante é entender quem você é e correr atrás dos seus sonhos.”

Yvonne Mascarenhas, que atravessou décadas da história da ciência brasileira, resume a mensagem em poucas palavras dirigidas às meninas interessadas pela carreira científica: “Não desistam e trabalhem mantendo o foco, apesar das dificuldades que poderão ter que superar.”

Por Leandro Haberli