
Quando o mundo celebrou ontem, dia 11 de fevereiro, o Dia Internacional das Meninas e Mulheres na Ciência, a trajetória e o pensamento da física Débora Peres Menezes ajudam a iluminar um dos desafios mais persistentes da sociedade contemporânea: garantir que meninas possam não apenas sonhar com a ciência, mas permanecer nela. Coordenadora do projeto Mulheres na Ciência desde 2019, Débora defende que ampliar a presença feminina nos espaços científicos é uma forma de fortalecer a sociedade, combater a desinformação e assegurar que o conhecimento seja divulgado de maneira mais diversa e justa.
Esse tema é debatido no artigo científico “Mulheres na ciência: panorama, desafios e inspirações”, publicado na revista A Física na Escola, revista da Sociedade Brasileira de Física (SBF), parte de um diagnóstico direto e preocupante. Diretora de Análise de Resultados e Soluções Digitais (DASD) do CNPq e professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), a cientista contextualiza a desigualdade de gênero não apenas como um problema acadêmico, mas como reflexo de estruturas sociais que, ao longo da história, limitaram o acesso das mulheres à educação e ao poder. Esse cenário se manifesta tanto em legislações e discursos contemporâneos quanto em heranças históricas que restringiram o ensino científico às meninas, reforçando estereótipos que ainda persistem.

“Infelizmente, nas áreas conhecidas como STEM (science, technology, engineering and mathematics), das quais a física faz parte, a presença das mulheres é muito pequena e é fruto de uma construção social que permeia suas vidas há muito tempo. A primeira Lei Educacional do Império, promulgada em 15 de outubro de 1827, alijava as meninas do ensino da matemática, uma vez que, para um dos parlamentares mais influentes da época, o Visconde de Cayru, as meninas só precisavam aprender o básico, uma vez que ‘Deus deu barbas aos homens’ [6]. Essa alegação é tão bizarra que me faz pensar que ele entendia que as pessoas pensavam com as barbas e não com os neurônios…”, argumenta Débora, no artigo científico.
Uma dessas heranças é a construção social que afeta a autoimagem feminina desde a infância. Estudos citados no artigo indicam que, enquanto meninas de cinco anos associam inteligência ao próprio gênero, aos sete já passam a se enxergar como menos inteligentes que os meninos. Em pesquisas realizadas na América Latina, 90% das meninas afirmaram acreditar que engenharia é “coisa de menino”, evidenciando o peso dos estereótipos na formação de escolhas profissionais.
Esse efeito se prolonga ao longo da carreira científica, onde as mulheres enfrentam o chamado “efeito tesoura”, explica a cientista, ex-presidente da SBF: a participação da mulher diminui progressivamente à medida que se avança para posições de liderança. A desigualdade torna-se visível em números simbólicos. Até 2024, apenas cinco mulheres haviam recebido o Nobel de Física, em contraste com 229 homens. Situações semelhantes se repetem em instituições brasileiras, onde a presença feminina em posições de poder ainda é rara.
A desigualdade também se reflete na formação científica. Dados educacionais mostram que, embora o Brasil forme mais de um milhão de graduados por ano, apenas uma pequena fração segue carreiras em áreas fundamentais para o desenvolvimento científico. O número de matemáticos e professores de física formados é extremamente baixo, e a evasão nesses cursos é elevada. Esse quadro revela não apenas um problema educacional, mas um desafio estrutural para o futuro científico e tecnológico do país.
Para Menezes, essa situação não é apenas injusta, mas também um desperdício de potencial. As mulheres representam mais da metade da população brasileira, e sua presença mais ampla na ciência contribuiria para aumentar a criatividade, a produtividade e a capacidade de inovação. A diversidade, segundo estudos citados pela autora, não é apenas uma questão de equidade, mas um fator que melhora o desempenho científico como um todo.
Mas com mulheres como Débora no CNPq, há melhorias. Cabe salientar que o CNPq tem adotado várias medidas buscando garantir maior participação das mulheres na ciência, como a possibilidade de prorrogação de várias modalidades de bolsas em caso de parto e a adoção e inserção no Currículo Lattes do campo Licença Maternidade e Adoção, além de recomendar aos comitês assessores do CNPq a admissão de medidas efetivas para a correção das possíveis lacunas de gênero e étnico-raciais existentes nas avaliações das chamadas”, explica a ex-presidente da SBF no artigo científico.
Apesar das dificuldades, iniciativas institucionais têm buscado corrigir essa desigualdade. Prêmios científicos específicos para mulheres, programas de incentivo e mudanças nas políticas de fomento são parte desse esforço. O próprio Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), por exemplo, implementou medidas para apoiar pesquisadoras, incluindo a extensão de bolsas em caso de licença-maternidade e ações voltadas à equidade de gênero na avaliação científica.
Foi nesse contexto que surgiu o projeto Mulheres na Ciência, criado por Menezes com o objetivo de ampliar a visibilidade feminina e fortalecer o letramento científico da população. O projeto começou com um canal no YouTube em 2019, onde cientistas e estudantes passaram a apresentar temas científicos em linguagem acessível. Os vídeos abordam desde conceitos básicos, como o funcionamento de micro-ondas e celulares, até questões complexas relacionadas à saúde e às novas tecnologias.
A iniciativa rapidamente se expandiu para outras plataformas, como TikTok, Instagram e YouTube Shorts, alcançando milhares de pessoas. O canal no YouTube reúne milhares de inscritos, enquanto os vídeos nas redes sociais acumulam centenas de milhares de visualizações. Para Menezes, o objetivo nunca foi promover figuras individuais, mas criar um espaço coletivo de divulgação científica e formação de novas comunicadoras.
Além da divulgação científica, o projeto tem uma dimensão simbólica importante: mostrar que mulheres pertencem à ciência. Ao dar visibilidade a pesquisadoras de diferentes áreas, o projeto busca combater o estereótipo que associa competência científica exclusivamente aos homens. Ao mesmo tempo, contribui para aproximar a ciência da sociedade, fortalecendo a confiança no conhecimento científico em um cenário marcado pela disseminação de fake news.
A autora destaca que o letramento científico é essencial não apenas para formar novos cientistas, mas para capacitar a população a compreender o mundo contemporâneo. Em uma sociedade onde a ciência influencia decisões cotidianas da saúde à tecnologia, compreender seus princípios torna-se uma ferramenta de autonomia e cidadania.
No entanto, a mudança é lenta. Segundo estudos mencionados no artigo, se o ritmo atual continuar, a igualdade de gênero na autoria de pesquisas em física só será alcançada em 2158. Esse dado revela a dimensão do desafio e reforça a necessidade de ações contínuas e estruturais. “A falta de equidade de gênero deve ser um assunto recorrente nos ambientes acadêmicos, e o enfrentamento dos obstáculos por grupos sub-representados precisa ser lembrado e confrontado, se quisermos caminhar para uma ciência brasileira mais justa e diversa”, conclui a autora.
O combate à desigualdade de gênero exige não só políticas institucionais, mas igualmente transformação cultural. Isso inclui igualmente reconhecer os interesses e vieses existentes, valorizar o trabalho das mulheres e criar ambientes mais inclusivos. A ciência, como parte da sociedade, reflete suas contradições, mas também pode ser uma ferramenta poderosa de transformação. Ontem, dia 11 de fevereiro, o trabalho de Débora Peres Menezes e do projeto Mulheres na Ciência reforça uma mensagem fundamental: garantir a presença feminina na ciência não é apenas uma questão de justiça, mas uma condição para o próprio avanço do conhecimento. Ao inspirar meninas e dar voz a cientistas, iniciativas como essa ajudam a construir um futuro onde a ciência seja verdadeiramente plural, na qual cada menina possa olhar para o céu e saber que na cidade de São Paulo, um pôr-do-sol laranja e vermelho pode até ser bonito, mas revela o quanto o meio ambiente está cheio de partículas poluentes que criam todas essas cores que deveriam ser um alerta e não motivo de selfies apaixonadas.
A todas e todos que desenvolvem projetos, constroem pontes, enfrentam resistências e se empenham diariamente para incentivar meninas e mulheres na ciência, fica o nosso profundo agradecimento. Felizmente, hoje essas iniciativas já não são poucas, e é graças a esse esforço coletivo que a ciência avança, se diversifica e se torna mais justa, mais crítica e mais transformadora.
(SBF)









