No Dia Internacional das Meninas e Mulheres na Ciência, celebrado em 11 de fevereiro, a revista Forbes divulgou a lista “10 Brasileiras que Transformam a Ciência no Brasil e no Mundo”, reunindo pesquisadoras que vêm ampliando as fronteiras do conhecimento e abrindo caminhos para novas gerações. Entre os nomes estão a física Marcia Barbosa, reitora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e a física Sônia Guimarães, primeira mulher negra doutora em física no Brasil e também a primeira a lecionar no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). “Eu fico muito contente com esses prêmios, porque eles sinalizam a potência que é a ciência que a gente faz aqui no Brasil, e principalmente aqui na nossa UFRGS”, explica Marcia Barbosa, em entrevista ao Boletim SBF.
Apesar da importância de prêmios como esse, a desigualdade de gênero é ainda muito forte no Brasil. Marcia contou que na UFRGS, uma das frentes recentes de ação, é o enfrentamento ao assédio no ambiente acadêmico. A universidade prepara a reaplicação de um questionário institucional sobre o tema, já utilizado em 2019, que será disponibilizado para outras instituições interessadas em aderir à iniciativa. Segundo a reitora, a ideia é ampliar o diagnóstico nacional e compreender melhor o impacto desse tipo de violência na permanência de estudantes e profissionais.
“Todo mundo vai responder e nós vamos descobrir se assédio é um instrumento importante para as pessoas quererem ir embora da universidade”, explica a cientista, que lembra que há geralmente homens machistas, seja professores ou alunos, que sugerem que as mulheres frequentam a universidade para casar, que não são tão boas quanto os homens na profissão, além de assédio sexual.
Embora as mulheres já sejam maioria entre estudantes universitários, ela observa que a presença feminina diminui nos níveis mais altos da carreira científica. “Hoje, no Brasil, as mulheres já são mais da metade dos estudantes nas universidades. Mas quando eu vou subindo na carreira, esse número decai.”
Apesar dos avanços, a física alerta para obstáculos persistentes na formação científica de meninas. Ela menciona resultados preliminares de um estudo educacional que mostram que, hoje, na escola do Ensino Fundamental e Médio, o conservadorismo extremo de governantes impede a discussão sobre temas de extrema importância. “Ninguém fala de assédio, ninguém fala de violência contra a mulher, virou um tabu por causa da ideologia de gênero. Então, assim, isso é um problema, um grande obstáculo.”
Para a pesquisadora, o cenário internacional também influencia o debate nacional, sob a pressão do governo de extrema-direita de Donald Trump nos Estados Unidos. “Isso nos contamina aqui. Passa a ser considerada uma bobagem a gente falar sobre esse assunto. Então é um problema. E é um problema bastante sério.”
A consequência, segundo ela, aparece cedo: “tem um estudo bem importante que mostra que já aos sete anos as crianças identificam a inteligência como um atributo masculino.” Esse é, por exemplo, o tema do artigo científico “Gender stereotypes about intellectual ability emerge early and influence children’s interests”, publicado em 2017 na revista Science, cuja primeira autora é Lian Bian, do Departamento de Psicologia das universidades de Illinois e de Nova York.
De acordo com o artigo científico, estereótipos como brilhantismo, genialidade, entre outros, associados à capacidade intelectual de alto nível são atribuídos mais aos meninos do que às meninas a partir dos seis anos. “Esses estereótipos desencorajam a busca das mulheres por muitas carreiras prestigiadas; isto é, as mulheres estão sub-representadas em áreas cujos membros valorizam o brilhantismo (como física e filosofia). Aqui mostramos que esses estereótipos são endossados por crianças e influenciam seus interesses já aos 6 anos. Especificamente, meninas de 6 anos têm menos probabilidade do que meninos de acreditar que membros de seu próprio gênero são ‘muito, muito inteligentes’. Também aos 6 anos, as meninas começam a evitar atividades descritas como destinadas a crianças que são ‘muito, muito inteligentes’. Esses achados sugerem que noções de genialidade associadas ao gênero são adquiridas precocemente e têm um efeito imediato sobre os interesses das crianças”, informa o resumo do artigo.
Barbosa defende que a resposta precisa começar na base educacional. “A gente precisa, na escola, falar sobre assédio, sobre violência contra a mulher, e precisamos mostrar que as meninas podem ser consideradas inteligentes.” A mudança dessa visão, avalia a cientista, depende também de uma profunda mudança dos valores atribuídos às mulheres na sociedade em que vivemos, além de uma conscientização importante sobre o peso do voto nas eleições, pois são prefeitos, governadores, vereadores, deputados e senadores os mais responsáveis pela criação de leis na área de educação.
No entanto, a sociedade não pode permanecer passiva. Por isso, a iniciativa da UFRGS de realizar um novo questionário institucional surge como uma ferramenta estratégica de pressão e reflexão. “Todo mundo vai responder e nós vamos descobrir se assédio é um instrumento importante para as pessoas quererem ir embora da universidade”, explicou a reitora. A proposta é que professores, estudantes e servidores participem da pesquisa, permitindo um retrato mais amplo do ambiente acadêmico.
Ao figurar na lista da Forbes, Marcia Barbosa se soma a outras cientistas brasileiras que vêm ganhando projeção internacional, enquanto nomes como Sônia Guimarães seguem abrindo caminhos históricos dentro e fora das salas de aula. Em comum, as trajetórias reforçam que ampliar a presença feminina na ciência passa não apenas pelo incentivo às vocações, mas também pela transformação estrutural das instituições onde o conhecimento é produzido.
(Colaborou Roger Marzochi)







