
O filtro dos sonhos, usado pelos povos originários há milênios como proteção durante o sono, atravessou o tempo e chegou à sala de aula como instrumento científico. No Colégio Estadual Aldeia Teko Ñemoingo, em São Miguel do Iguaçu, no Paraná, ele passou a ser também um caminho para despertar o interesse de meninas indígenas da etnia Avá Guarani pela matemática e pela física, sem que isso significasse abandonar ou subordinar os conhecimentos ancestrais que moldam sua relação com o mundo. Marline Takua Ponhy Rivarola, de 16 anos, vê nessa aproximação entre ciência e cultura uma possibilidade de fortalecimento, e não de substituição. “Bom, eu acho que pode contribuir sim para a nossa cultura, por conta que a ciência envolve a natureza. A gente precisa da natureza também.”
Essa percepção nasce de uma relação direta com o aprendizado. Na aldeia, a ciência não é apresentada como algo distante ou abstrato, mas como uma forma de compreender melhor o que já faz parte da vida cotidiana, como o céu, a terra e os ciclos naturais. O interesse pela ciência, especialmente pela astronomia, surge cedo em algumas das estudantes.
“Eu já gostava muito desde o nono ano. Eu gostava muito de ciências, principalmente na área da astronomia. E quando apareceu essa oportunidade, eu gostei muito. E eu sempre gostei da ciência”, diz Kely Daniele Jera Venega, 17 anos, aluna da mesma escola indígena. O entusiasmo não se limita à observação do céu. A experiência prática, por meio de oficinas e atividades experimentais, amplia o campo de interesse das estudantes.
“Aprendi coisas novas, tipo, também gostei muito de fazer um mini foguete”, diz Kely. “E eu não gostava muito de ciência, sabe? Não era a minha praia. Eu gostava mais de matemática. Mas agora que eu fui lá em Palotina conhecer as meninas também, elas eram muito legais, e gostei muito de trabalhar com elas.” A convivência, o trabalho coletivo e a possibilidade de experimentar fazem com que o aprendizado deixe de ser uma obrigação escolar e se transforme em uma experiência significativa. “Eu gostei muito de participar desse Meninas na Ciência.”



Mas o aspecto mais profundo dessa experiência não está apenas no conteúdo científico, e sim na forma como ele é ensinado. A professora Midiã Barbosa, formada em licenciatura em matemática pela Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), atua na comunidade desde 2023 e destaca que o respeito aos saberes indígenas é um princípio central do trabalho pedagógico.
“Sobre a interculturalidade, acho que quando você fala com as meninas sobre as ciências e se respeita a cultura, a interculturalidade vem com essa proposta de estabelecer um diálogo respeitoso entre as diferentes formas de conhecimento. Aqui na escola, a gente tenta trabalhar com essa diretriz: os conhecimentos da comunidade são tão importantes quanto os conhecimentos científicos.”
Essa postura representa uma mudança importante em relação a modelos educacionais que, historicamente, tentaram substituir os saberes tradicionais por um único modelo de conhecimento. Na escola indígena, o ensino de matemática e física não apaga a cultura originária, mas dialoga com ela.
O uso do filtro dos sonhos como instrumento pedagógico simboliza essa convergência. O objeto, que carrega significados espirituais e culturais profundos, torna-se também uma ferramenta para compreender conceitos matemáticos, mostrando que a ciência não precisa ser imposta de fora, mas pode emergir do interior da própria cultura.
Para as estudantes, essa experiência abre novas possibilidades. A ciência deixa de ser um território distante e passa a ser uma linguagem que pode ser apropriada sem que isso implique abandonar suas raízes. Ao aprender a construir minúsculos foguetes, estudar astronomia ou compreender conceitos matemáticos, elas ampliam suas perspectivas sem perder o vínculo com a natureza e com a cultura que lhes dá identidade.
Nesse encontro entre tradição e ciência, o filtro dos sonhos continua cumprindo sua função simbólica de proteção. Mas agora, além de guardar o sono, ele ajuda também a proteger o futuro, ao mostrar que o conhecimento científico pode caminhar lado a lado com os saberes ancestrais.
(Colaborou Roger Marzochi)









