A divulgação, em 19 de março, do resultado final do Programa Brasileiro de Professores no CERN (Conselho Europeu de Pesquisa Nuclear, na sigla em francês) marca uma nova etapa na aproximação entre a educação básica pública e a ciência de ponta. Fruto de parceria entre a Sociedade Brasileira de Física, o CNPq e a CAPES, a iniciativa selecionou 24 docentes, cada um representando um estado do país, para uma imersão em um dos mais prestigiados centros de pesquisa científica do mundo.

O edital, publicado em janeiro de 2026, estabeleceu critérios que buscaram garantir diversidade regional e equidade de gênero, com limite de uma vaga por unidade da federação e reserva mínima de 50% para mulheres. Embora a proposta previsse contemplar todas as unidades federativas, ficaram de fora professores do Amapá, Roraima e Tocantins. Mesmo assim, o resultado final evidenciou uma representatividade nacional ampla, ainda que não integral, sinalizando um investimento estratégico na formação continuada de professores da rede pública, com potencial de impacto direto nas salas de aula de ensino médio em todo o Brasil.

A SBF conversou com três professores de Física selecionados: Joerbed dos Santos Gonçalves, do Maranhão; Tainã Laise de Melo e Silva, de Pernambuco; e Dayane Benicio Moraes, do Amazonas. Com trajetórias distintas, mas unidos pelo compromisso com o ensino de Física, eles exemplificam a diversidade de experiências e contextos que o programa pretende alcançar.

Tainã Laise de Melo e Silva (E), de Pernambuco; Dayane Benicio Moraes, do Amazonas; e Joerbed dos Santos Gonçalves, do Maranhão são três dos 24 professores que irão participar do Programa Brasileiro de Professores no CERN.

Professor da rede pública estadual do Maranhão desde 2006, Joerbed dos Santos Gonçalves é licenciado pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), com especialização e mestrado na área de ensino. Ele também atua na formação de professores e em iniciativas como a Olimpíada Brasileira de Física das Escolas Públicas. Para Joerbed, a participação no programa representa uma oportunidade de aprofundamento científico. “Minha motivação está na possibilidade de vivenciar um ambiente de pesquisa científica de excelência e compreender, de forma mais aprofundada, como o conhecimento em Física de partículas é produzido e aplicado”, afirma.

Joerbed também destaca o potencial de transformação pedagógica: “O contato com o CERN permite aproximar o ensino de Física da ciência contemporânea, favorecendo abordagens mais investigativas, contextualizadas e conceitualmente integradas”. Sua proposta é multiplicar o conhecimento adquirido por meio de palestras, oficinas e projetos escolares, ampliando o alcance da experiência para além de sua própria sala de aula.

De Pernambuco, a professora Tainã Laise de Melo e Silva também vê no programa uma oportunidade de integração entre pesquisa avançada e ensino básico. Licenciada pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), com mestrado e doutorado em Física da Matéria Condensada pela Universidade Federal de Alagoas, ela leciona há três anos na Escola de Referência em Ensino Médio Joaquim Távora, situada em Recife.

“Meu desejo de participar do Programa Brasileiro de Professores no CERN está diretamente ligada ao interesse pela Física de Partículas e pela pesquisa científica de ponta”, explica. “Minhas expectativas envolvem não apenas o aprendizado conceitual, mas também a vivência de uma cultura científica baseada na cooperação internacional, inovação e produção coletiva de conhecimento.”

Tainã também destaca a importância de traduzir esse conhecimento para o contexto escolar. “Pretendo incorporar conceitos da Física de Partículas ao ensino médio, articulando-os com conteúdos já presentes no currículo”, afirma, ressaltando ainda o uso de dados reais ou simulados em atividades didáticas. Ao avaliar o impacto da iniciativa, ela destaca que “iniciativas como o Programa Brasileiro de Professores no CERN são fundamentais para o fortalecimento do ensino de Física no Brasil, especialmente na educação pública”.

Por sua vez, a professora Dayane atua na rede estadual do Amazonas, na Escola Estadual de Tempo Integral Cid Cabral da Silva, em Manaus. Ela desenvolve projetos que vão da sustentabilidade à robótica com Arduino. Licenciada pela Universidade Federal de Rondônia e mestra em Ciências da Educação, Dayane iniciou sua carreira em 2017 e, desde então, tem se dedicado à inovação pedagógica.

“Minha principal motivação foi o desejo de aprender mais sobre a Física na prática para transpor esse conhecimento aos meus alunos. O CERN é uma referência mundial e estar lá é uma oportunidade única”. A expectativa é trazer novas abordagens para a sala de aula. “Essa vivência ajudará a tornar minhas aulas mais dinâmicas, interessantes e próximas da realidade científica atual”.

Dayane também vislumbra formas de reforçar a experiência com seus estudantes. “Pretendo compartilhar o aprendizado por meio de aulas temáticas, projetos práticos, vídeos e apresentações das atividades realizadas no CERN”, afirma, observando que o impacto vai além do conteúdo. “Iniciativas como essa são essenciais porque valorizam o papel do professor e elevam a qualidade do ensino”.

Ao reunir professores de diferentes estados e realidades educacionais, o Programa Brasileiro de Professores no CERN reforça a importância da formação docente para o desenvolvimento científico do país. A experiência internacional, aliada ao compromisso desses educadores com a escola pública, aponta para um movimento de renovação do ensino de Física, tornando-o mais conectado com os desafios e descobertas da ciência contemporânea.

Resultado

Por Leandro Haberli