Divulgados recentemente, os resultados das SOIFs (Seletivas Online Iniciais de Física) voltaram a evidenciar o impacto do Torneio de Física para Meninas (TFM) na formação de novos nomes femininos da ciência brasileira. A classificação de estudantes para essa etapa, responsável por selecionar jovens que poderão representar o Brasil em competições internacionais, reforça o papel da iniciativa, realizada em parceria com a Sociedade Brasileira de Física (SBF), no estímulo à presença feminina na Física.
Criado em 2023, o TFM surgiu com o objetivo de enfrentar a sub-representatividade feminina nas olimpíadas científicas mistas. Segundo a coordenadora-geral do projeto, Maria Luiza Miguez, professora da Universidade Estadual do Ceará (UFCE), a motivação surgiu da constatação de que “nas competições tradicionais, como a OBF e a OBFEP, o percentual de meninas premiadas costuma girar em torno de 20%, e muitas vezes com medalhas de bronze”. Para ela, o torneio busca “motivar meninas na Física, fortalecer uma rede de apoio e criar um ambiente olímpico mais acolhedor”.

Os números mostram que a proposta tem dado resultado. “Na primeira edição tivemos cerca de 1.700 inscritas e, na mais recente, mais de 4.000 meninas participaram”, destaca Maria Luiza. Ela lembra ainda que um projeto-piloto com aulas preparatórias reuniu mais de 700 estudantes em 2025. “Isso demonstra que há interesse real pela Física e que elas querem se desafiar, porque o TFM é uma competição exigente”, afirma.
Voltado a alunas do Ensino Médio de escolas públicas e privadas, o torneio é gratuito e ocorre em duas fases: uma online, com questões objetivas, e outra presencial, com provas discursivas. Um diferencial é a homenagem anual a cientistas que marcaram a história da área. Já foram celebradas figuras como Lise Meitner, Yvonne Mascarenhas e Donna Strickland. “Ao apresentar essas trajetórias, buscamos gerar representatividade. As meninas precisam se enxergar nesses espaços”, explica a coordenadora.
Entre as estudantes que avançaram nas seletivas deste ano está Letícia Laxmi Barbosa Pereira, medalhista de ouro no TFM 2025 e atualmente aluna do curso técnico em mecânica do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ), campus Paracambi. Ela conta que o interesse pela Física surgiu no início do Ensino Médio, incentivado pelo pai, professor da disciplina. “Fiquei sabendo do torneio pela escola e alguns professores sugeriram que eu participasse”, relata.

A experiência foi marcante. “As questões eram muito desafiadoras e, depois da prova, tive vontade de aprender mais sobre assuntos que eu não conhecia. Na segunda fase, consegui resolver a primeira questão aplicando a segunda lei de Newton. Depois de ver a correção, fui pesquisar mais sobre cálculo”.
Para Letícia, a participação no TFM ampliou sua visão sobre a carreira científica. “Sempre pensei em seguir na engenharia mecânica, mas percebi que ainda tenho muito a aprender e que a ciência oferece muitos caminhos”, afirma. Ela também destaca a importância do apoio familiar. “Minha mãe, professora de matemática, sempre me ajudou com a base que depois usei na Física”.
Na avaliação de Maria Luiza, iniciativas como o TFM são essenciais para transformar o cenário das ciências exatas. “Historicamente, esses cursos são vistos como ambientes masculinos. Projetos voltados ao protagonismo feminino ajudam a construir confiança e pertencimento”, diz. Ela lembra que algumas participantes já ingressaram na graduação em Física após passarem pelo torneio. “Nosso objetivo principal é apresentar a área de forma menos tradicional e mostrar que existem mulheres incríveis fazendo história.”
Por Leandro Haberli







