1º Encontro Nacional de Física do Estado Sólido e Ciência dos Materiais.
À esquerda, em pé, está o Prof.Sergio Resende e no meio, sentado, o Prof. Luiz Guimarães Ferreira.

No próximo dia 14 de julho, a Sociedade Brasileira de Física (SBF), que foi fundada em 1966, durante uma reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), realizada em Blumenau (SC), completa 60 anos. O evento oficial de comemoração será realizado no dia 20 de agosto, no Auditório Abrahão de Moraes, no Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP), reunindo diferentes gerações de físicos.

Com forte peso simbólico, a data marca a consolidação de uma comunidade que ajudou a estruturar a Física no Brasil, a ampliar sua presença institucional e a defender a ciência em momentos decisivos da história nacional.

A SBF está preparando uma série de conteúdos com o objetivo de resgatar a trajetória da entidade, destacar seu papel no desenvolvimento da ciência nacional e refletir sobre seus desafios e perspectivas futuras.

A ideia é reunir depoimentos de físicos que acompanharam, de diferentes formas, a evolução da SBF, ajudando a construir um panorama que dialogue com a memória institucional e com as transformações mais amplas da Física no país.

Iniciamos esse trabalho entrevistando o professor titular aposentado do Instituto de Física da USP, Silvio Salinas, que se debruçou sobre a história da entidade ao lançar, em maio de 2001, o artigo “Formação e desenvolvimento da Sociedade Brasileira de Física (SBF)”. Uma das principais referências em Física Estatística do país, Salinas também foi secretário e membro do Conselho da SBF.

Professor Sílvio Salinas, discursando em um evento. Idoso de cabelos e barba branca, usando óculos, terno cinza e gravata vermelha.
Conhecedor da história da SBF, o professor Silvio Salinas relembra a “cassação branca”, quando auxílios do CNPq à pesquisadores poderiam ser negados pela Casa Civil, e a aposentadoria compulsória de grandes cientistas, como o físico José Leite Lopes.

Ele ressalta que, para entender o papel da SBF ao longo dessas seis décadas, é preciso voltar ao contexto de sua fundação em 1966. À época, pontua Salinas, a Física brasileira começava a se organizar como campo profissional, impulsionada pelo crescimento de grupos de pesquisa e pela expansão da pós-graduação. Ainda assim, faltava uma instituição que articulasse esses esforços.

“Não havia uma entidade de Física nacional, embora já houvesse um número razoável de pessoas trabalhando com Física no Brasil”, relembra Salinas, acrescentando que a criação da sociedade acompanhou um movimento mais amplo de institucionalização da ciência no país. “Houve um estímulo, naquela época, para a criação de sociedades científicas”, afirma.

De fato, até meados do século XX, a pesquisa em Física no Brasil era fragmentada e concentrada em iniciativas isoladas, sobretudo nos eixos Rio–São Paulo. A fundação da USP, em 1934, e a criação de instituições como o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), em 1949, e o CNPq, em 1951, foram decisivas para mudar esse cenário. A SBF surge, portanto, como um passo natural no processo de profissionalização da área.

Desde o início, a entidade teve forte ligação com a universidade pública, especialmente com a USP. “O papel da USP foi muito importante”, destaca Salinas. “Foram os primeiros grupos que estruturaram a Física no país que também ajudaram a erguer e consolidar a SBF.” Ao mesmo tempo, a Física brasileira começava a se expandir para outras regiões, como o Rio Grande do Sul e, posteriormente, o Nordeste, com destaque inicial para Pernambuco.

A SBF na ditadura

Salinas lembra que, poucos anos após sua fundação, a SBF se viu diante de um dos períodos mais difíceis da história brasileira: a ditadura militar iniciada com o golpe de 1964. O contexto político teve impacto direto na comunidade científica, com perseguições, aposentadorias compulsórias e restrições à atividade acadêmica.

“Aquilo foi um período duro”, resume Salinas, que, antes de cursar simultaneamente as graduações de Engenharia, na Escola Politécnica (Poli-USP), e de Física, na então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL-USP, atual FFLCH), foi aluno do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos, de onde saiu expulso pelos militares, poucos dias após o golpe, junto com outros estudantes e professores, todos acusados de subversão.

No período da ditadura militar, ele lembra que, mesmo quando projetos eram aprovados por mérito, havia barreiras políticas. “Você conseguia, normalmente, um auxílio do CNPq, mas tinha que passar pela Casa Civil, e às vezes era negado. O pessoal chamava isso de ‘cassação branca’.”

Casos emblemáticos marcaram a época, como a aposentadoria compulsória de físicos renomados, entre eles José Leite Lopes, Jayme Tiomno e Mario Schenberg. Muitos deixaram o país. Outros permaneceram, enfrentando dificuldades para seguir com suas pesquisas.

Nesse cenário, a SBF assumiu um papel que ia além da promoção científica. A entidade se posicionou publicamente contra arbitrariedades, organizou debates e buscou preservar os espaços de encontro da comunidade. O Boletim da SBF, criado em 1969, tornou-se um importante instrumento de comunicação e resistência.

“Havia uma certa tradição dos físicos de serem favoráveis à discussão racional”, afirma Salinas. “E foi justamente esse ambiente de discussão que ajudou a examinar essas questões com mais rigor.”

Assuntos prioritários

Salinas também salienta a importância da atuação da SBF em temas estratégicos, como o debate sobre o programa nuclear brasileiro. Nas décadas de 1970 e 1980, ele observa que a SBF promoveu discussões amplas sobre política energética, tecnologia e soberania científica, defendendo a participação ativa da comunidade científica nas decisões nacionais.

Ao longo das décadas seguintes, prossegue Salinas, a SBF consolidou suas principais linhas de atuação: a organização de reuniões científicas e a publicação de periódicos. Esses dois pilares foram fundamentais para integrar a comunidade e dar visibilidade à produção nacional.

Salinas também destaca a importância de eventos como o Encontro Nacional de Física da Matéria Condensada (ENFMC), criado em 1978, que cresceram até se tornarem os maiores encontros da área no país, reunindo centenas e, posteriormente, milhares de participantes. Outro marco, em termos de eventos, foi o Simpósio Nacional de Ensino de Física, concebido para consolidar a formação de redes e a troca de conhecimento.

Na área editorial, Salinas lembra a importância da criação de dois periódicos que até hoje se mantêm como referências na divulgação e no registro da produção científica em Física no país: a Revista Brasileira de Física — posteriormente transformada no Brazilian Journal of Physics — e a Revista Brasileira de Ensino de Física. Embora tais produtos editoriais tenham ajudado a estruturar canais próprios de divulgação científica, Salinas pondera que a questão da visibilidade da produção nacional permanece um desafio.

“É preciso ampliar a divulgação da atividade científica no país. O que se produz aqui ainda carece de maior visibilidade”, afirma. Para ele, o trabalho editorial também deve vir acompanhado de reconhecimento institucional mais consistente. “Hoje, é uma atividade essencialmente voluntária. Falta uma contrapartida mais ampla da própria sociedade.”

Em sua visão, o próprio boletim da SBF ilustra a transformação da entidade ao longo do tempo. “Hoje está mais profissional. Antes era muito amador. Quando fui secretário da sociedade, eu mesmo editava o boletim. Não tínhamos jornalista, absolutamente nada.”

A despeito dos desafios que ainda se fazem presentes, os números ajudam a dimensionar o impacto da SBF na consolidação da Física no Brasil. De pouco mais de uma centena de físicos ativos nos anos 1960, o país passou a contar, nas décadas seguintes, com milhares de doutores, dezenas de programas de pós-graduação e uma produção científica crescente e robusta.

Esse avanço, reconhece Salinas, está diretamente ligado à existência de uma estrutura que articule a comunidade. “Nós sempre achávamos que era importante ter a SBF, que era uma estrutura que garantiria isso”, diz Salinas, sublinhando o papel histórico da entidade em promover encontros, aproximar pesquisadores de diferentes regiões e criar um ambiente propício à troca de ideias, condição indispensável para o desenvolvimento científico consistente no país. “É importante que haja intercâmbio. A internet por si só não resolve isso. O intercâmbio pessoal é fundamental.”

Salinas também avalia positivamente a ampliação da atuação da SBF para áreas como ensino e divulgação científica. Neste caso, merecem destaque iniciativas como a Olimpíada Brasileira de Física, que aproxima a ciência de estudantes e professores.

Desafios contemporâneos

Se o passado da SBF é marcado pela construção e pela resistência, o presente impõe novos desafios, entre eles, ampliar sua influência nas políticas científicas e estimular debates sobre transformações no próprio sistema de avaliação acadêmica. É nesse contexto que, para Salinas, a entidade pode exercer um papel mais ativo e articulador dentro da comunidade.

“A maneira de avaliar as pessoas mudou muito. Precisamos rever essa história de ficar contando papers sem discutir o conteúdo. Esse tipo de discussão precisa haver na comunidade”, diz Salinas, ressalvando que, embora se trate de um problema global, ele exige posicionamento da SBF, para que a entidade contribua na construção de critérios mais qualitativos e alinhados à realidade da pesquisa no país.

Outro ponto destacado por Salinas é a necessidade de maior participação nas decisões de órgãos como CNPq e Capes. “Tem que discutir essas coisas”, diz.

Apesar de reconhecer que não acompanha de perto a atuação recente da SBF, Salinas expressa um desejo claro: “Eu gostaria que a SBF fosse bem mais ativa do que tem sido.” Para ele, a entidade deve continuar sendo um espaço de articulação, debate e defesa da ciência.

Como sugere Salinas, olhar para o passado pode ser o primeiro passo para pensar o futuro. Mesmo que, como ele próprio admite, essa seja “uma questão difícil”.

Mas se há uma lição clara ao longo dessas seis décadas de existência da SBF, é a importância de manter viva a articulação coletiva. Em um cenário de transformações rápidas na ciência e na sociedade, o papel de uma entidade como a SBF permanece essencial: garantir espaços de encontro, fomentar o debate crítico e dar visibilidade à produção científica nacional. Como sintetiza o próprio Salinas: “A SBF cumpre um papel. É importante que a gente tenha uma estrutura que garanta isso.”

Por Leandro Haberli