Que aluno da Licenciatura de Física da Universidade de São Paulo (USP), das décadas 1980 a 2000, não se lembra com carinho do professor Tex, que na disciplina “Instrumentação para o Ensino” apresentava os experimentos criativos e extremamente desafiadores? Ou, que caminhava pelos corredores do Instituto de Física da USP com uma nova montagem experimental que surpreendia a todos e passava horas dialogando com os alunos?
Professor excepcional, criativo e amável deixou um legado pelo conceito de ludicidade experimental na história do Ensino de Física.
Norberto Cardoso Ferreira, mais conhecido pelo apelido “Tex”, Mestre em Ensino de Física, Doutor em Educação e Pesquisador do Ensino de Física, que influenciou gerações de docentes, faleceu no dia 1º de fevereiro de 2026, aos 88 anos completados em janeiro de 2026.
A produção acadêmica do Professor Norberto foi notável na área de Ensino de Física que se denomina “Instrumentação para o Ensino de Física”, com a elaboração de recursos didáticos experimentais, com dispositivos de baixo custo, com características que ao longo do tempo foram denominadas de lúdicas, pela criatividade, simplicidade de construção artesanal, apresentação surpreendente e arrebatamento que proporcionavam.
Dentre vários exemplos de sua produção de conhecimento, um dos mais notórios foi um conjunto de engenhosos experimentos de eletrostática baseado em materiais simples e acessíveis (como canudinhos plásticos de refrigerantes, pequenas bases de copinhos de café preenchidos com gesso, papel de seda de bala e grampo de pasta), que encantaram e surpreenderam até mesmo colegas europeus durante seu pós-doutorado na França, no início da década de 1980.
Mas há muitos, muitos, muitos, muitos outros. Incontáveis exemplos de habilidade artesanal, simplicidade de construção e precisão conceitual, como uma balança analítica de grande fidedignidade, feita com madeira balsa.
Essa memorável produção não foi a única contribuição relevante na profícua carreira de professor e pesquisador.
Tex atuou como professor de Física na Educação Básica, no Ensino Público Estadual de São Paulo, na Escola Estadual Alberto Levy e no Ginásio Vocacional Oswaldo Aranha. Também atuou em etapas posteriores da Educação, como na Escola de Belas Artes e no Ensino Superior na graduação da Licenciatura em Física, e na orientação na Pós-graduação Interunidades em Ensino de Ciências da Universidade de São Paulo.
Assessorou projetos de prefeituras (como a de São Paulo), de secretarias de Educação (como a do Estado de São Paulo, inclusive com contribuições para a Proposta Curricular da década de 1980) e apoiando outras iniciativas como a Estação Ciência da USP.
Foi colaborador e autor de livros como o projeto de ensino FAI (Física Auto-Instrutiva), o Telecurso 2000, além de artigos acadêmicos, bem como publicações em veículos como a Revista Ciência Hoje das Crianças, da SBPC.
Coordenou projetos como a “Experimentoteca-Ludoteca” e o “RIPE” (Rede de Instrumentação para o Ensino de Física), com financiamento federal, no âmbito do Sub-Programa de Ensino de Ciências (SPEC BID MEC).
Sua alegria se materializou também em programas de computador, desenhos, artigos, participação em encontros científicos e na convivência cotidiana com amigos, alunos, orientandos e colegas.
Sua criatividade e trabalho de bom gosto artístico apareceram em outras situações, como nas greves de professores, em que criava cartazes como aquele com dizeres “a vida de professor é um quadro negro!”, exprimindo com criativa ironia o cotidiano da profissão e as dificuldades financeiras.
Com seu conhecimento e criatividade Tex inspirou professores, outros pesquisadores e estudantes, colaborando de maneira relevante para o Ensino de Física e para a divulgação da Física.
Deixa a esposa, Maria Denise Saul Ferreira, a irmã, Maria Isabel Cardoso Ferreira e o sobrinho, Robson Lourenço Cardoso Ferreira.
Tex, prof. Norberto, será lembrado com saudades e admiração pelos amigos, colegas, ex-alunos, ex-orientados, pelo privilégio que tiveram em ter convivido com ele.
Para professoras e professores de Física que não tiveram essa oportunidade, têm sua presença eternizada em seus materiais didáticos, em suas várias produções experimentais, muitas delas originais e outras criativamente readaptadas ou redesenhadas.
São Paulo, 19 de fevereiro de 2026
Por Arnaldo Vaz, Eugenio Maria de França Ramos e Yassuko Hosoume







