Há quem diga às jovens que, para ter sucesso na vida, é preciso abrir mão da família. Que o caminho da ciência exige solidão, dedicação exclusiva e ruptura com o cotidiano doméstico. Mas será mesmo? A trajetória da professora Alda Fontoura Rossetto, física e docente do Colégio Estadual Santo Agostinho em Medianeira, no oeste do Paraná, mostra que o problema talvez não seja a família em si, mas a forma como a sociedade ainda distribui as responsabilidades dentro dela, e como a educação familiar e as políticas públicas podem fazer a diferença para que mais meninas sigam o caminho da ciência.

“Desde 2018 a gente vem nessa caminhada. Eu sou uma pessoa, assim, que eu já venho trabalhando com a parte da astronomia há duas décadas, já que eu participo do OBA (Olimpíada Brasileira de Astronomia). O meu produto educacional é na área da astronomia, fruto do meu Mestrado. E, inclusive, a gente desenvolveu um jogo na área da astronomia para poder trabalhar com os alunos no Ensino Médio. E fomos desenvolvendo toda essa caminhada, essa característica de estar sempre com as meninas, sempre incentivando.”

Alda Fontoura Rossetto, física e docente do Colégio Estadual Santo Agostinho em Medianeira, no oeste do Paraná.

Alda construiu sua carreira ao longo de quase três décadas de magistério, sempre conectando o ensino da física à experiência concreta dos alunos. Para ela, a proximidade entre a escola e a universidade é um fator decisivo para transformar trajetórias. “Quando vieram os cursos de ciências exatas aqui, a escola abriu e a faculdade também, a universidade veio para dentro da escola. Então, isso favoreceu muito a nós, enquanto formadores, enquanto professores, e os alunos aprenderam. Tanto é que grande parte dos nossos alunos ingressa nos cursos aqui mesmo dentro do Federal, que a gente sempre costuma dizer assim, ‘vocês têm, está no canteiro de vocês a universidade, não tem por que vocês saírem e procurarem outra’.”

Os resultados desse trabalho aparecem de forma concreta. Em competições científicas, as alunas têm demonstrado talento e confiança. “As meninas foram maravilhosas no lançamento de foguetes com o vinagre e o carbonato de sódio, que era a categoria do nível 4 delas, e a gente foi conduzindo e levando, e sempre trabalhando nessa parte da astronomia.”

Para Alda, incentivar meninas a entrar na ciência é uma questão de oportunidade e de confiança. “Quando a professora Mara fala que a gente incentiva muito as meninas, não são só as meninas dentro do colégio, mas como nós temos programas meninas assim mais específicos para elas é claro que a gente vai levar as meninas porque elas têm também uma característica diferente né queira ou não queira nós temos uma parte muito diferenciada dos meninos quando a prof falou ali que eu para as escolas e os meninos eram os construtores os lançadores basicamente as meninas elas são assim mais delicadas, mas na hora que você  coloca elas para trabalhar, que você mostra, que você pede, que você fala, elas se sobressaem de uma forma maravilhosa.”

Mas a construção dessa trajetória não aconteceu sem desafios. Dentro de casa, Alda precisou negociar, dividir tarefas e esperar o momento certo para avançar academicamente. “Eu odeio cozinhar, não gosto de cozinhar. Eu falo isso para todo mundo. E o meu marido cozinha muito bem. Aí eu falo assim para ele, a gente tem os animais para tratar. Aí eu já falo assim para ele: “Ó, tu faz o almoço, que eu vou tratar os bichos. Eu não quero ficar fazendo comida de jeito nenhum.”

Essa divisão de responsabilidades foi fundamental para que ela pudesse prosseguir com sua formação. “Eu vejo assim, lá em casa, eu tive que esperar os meus filhos crescerem para realmente eu poder ir para o Mestrado, sabe? Para fazer algumas coisas. Hoje eu sou muito mais feliz porque eu tenho um filho de 29 e outro de 23 e eu não preciso ficar mais da conta.”

O apoio do companheiro foi decisivo nesse processo, mostrando que a corresponsabilidade dentro da família pode transformar destinos. “Mas o meu marido sempre foi assim. Ele ficava em casa, ele olhava as crianças pra mim quando eu tinha que fazer curso, tinha que sair pro mestrado, inclusive, porque a gente saía nas sextas, voltava sábado à noite só. Então, ele que sempre tomou conta de tudo isso, de mandar a criança para a escola, de atender, de fazer a comida e tudo mais.”

Hoje, com os filhos adultos, Alda vive uma fase que descreve com entusiasmo. “Eu não preciso me esquentar mais com nada, né? Mas, assim, realmente, a gente trabalha muito.” Essa experiência moldou sua visão sobre o papel das mulheres na sociedade e na ciência. Para suas alunas, ela transmite uma mensagem clara de autonomia e fortalecimento. “E eu falo para as minhas alunas sempre, vocês têm que aprender a fazer de tudo. Porque vocês não precisam depender realmente de uma pessoa, especificamente de um homem e tal. Vocês precisam saber fazer de tudo um pouco. Porque a vida vai cobrar de vocês isso e vocês vão ter muito mais chances de evolução se vocês souberem fazer certas coisas.”

Ao mesmo tempo, ela não vê a independência como uma ruptura com os vínculos afetivos, mas como uma forma de construir relações mais equilibradas. “Não que a gente vá excluir totalmente os homens na nossa vida, não. Pelo contrário, a gente precisa deles, eles são muito, assim, assim, a gente cresce com eles, no caso, mas a gente, tendo essa independência, sabendo fazer as coisas por si só, eu creio que nós conseguimos chegar muito, a gente já chegou muito longe e a gente vai chegar muito mais ainda.”

A história de Alda revela que o verdadeiro obstáculo não é a existência da família, mas a persistência de modelos que concentram nas mulheres a maior parte das responsabilidades domésticas. Quando há apoio, divisão de tarefas e políticas públicas que ampliem o acesso à educação e à formação científica, o caminho se torna possível. Mais do que ensinar física, Alda ajuda a redefinir o horizonte de suas alunas. Sua trajetória mostra que é possível construir uma carreira científica, formar uma família e, ao mesmo tempo, abrir caminhos para que outras meninas também encontrem seu lugar na ciência.

(Colaborou Roger Marzochi)

Especial Meninas e Mulheres na Ciência 2026