A American Physical Society (APS), Sociedade norte-americana de Física, optou por uma ação inovadora para ampliar o alcance da ciência no mundo e angariar apoio contra os ataques da administração de Donald Trump à ciência: em carta assinada por John M. Doyle, presidente da APS, e Jonathan A. Bagger, diretor-executivo da APS, enviada às associações científicas do mundo, a entidade promete acesso gratuito ou de baixo custo à coleção de periódicos Physical Review, um dos mais prestigiados veículos de divulgação de artigos científicos no mundo. “Fizemos parceria com o Research4Life para oferecer a milhares de universidades, escolas, órgãos governamentais e ONGs acesso gratuito ou de baixo custo à coleção de periódicos Physical Review”, afirmam Doyle e Bagger na carta recebida também pela Sociedade Brasileira de Física (SBF).

“A ciência desenvolvida nos Estados Unidos tem uma longa história de sucesso e inspirou o mundo ao longo dos anos. Os centros de pesquisa e as universidades americanas formaram um importante centro de atração para cientistas e estudantes de todos os continentes. E, reciprocamente, a participação de cientistas estrangeiros dá uma grande contribuição para seu próprio desenvolvimento”, explica o atual presidente da SBF, o físico Sylvio Canuto.

“Colocar isso em risco, afeta o desenvolvimento da ciência como um todo e desequilibra as ótimas relações de parceria. Essa preocupação reverbera também dentro das instituições de pesquisa americanas. Assim, essa manifestação da APS mostra o esforço interno para lidar com a situação dramática vivida recentemente e, interessante, ela se dirige à comunidade mundial. É um reconhecimento que o avanço da ciência é feito em colaboração internacional e que não deve prescindir dessa natureza em troca de uma paroquialidade”, afirma Canuto. Em março deste ano, a entidade já havia obtido apoio da SBF em uma de suas primeiras manifestações contra o desmonte da ciência nos Estados Unidos.

Questionada pela reportagem do Boletim SBF, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), responsável pelo Portal de Periódicos, informou: “O Portal de Periódicos mantém contrato ativo com a American Physical Society (APS), garantindo o acesso à coleção científica da editora para mais de 150 instituições de ensino superior no Brasil. Esse contrato é independente da parceria da APS com o programa Research4Life, que oferece acesso gratuito ou de baixo custo a países de renda baixa ou média-baixa, critério que exclui o Brasil. Assim, o acesso aos periódicos da APS no país continua sendo viabilizado por meio do contrato firmado pela CAPES, sem qualquer alteração recente que implique em redução de custos ou ampliação de acesso por meio do Research4Life.”

Em defesa da ciência

A nova carta da APS, divulgada no dia 14 de agosto, explica que o “presidente Trump divulgou em maio sua proposta de orçamento de 2026, incluindo cortes de aproximadamente 50% em ciência”. “Estamos reagindo com uma campanha de defesa direcionada ao Congresso, onde o orçamento final é definido. Até agora, a campanha envolveu mais de 3.000 defensores, resultou em reuniões presenciais com legisladores e gerou mais de 10.000 cartas a membros do Congresso, alcançando todos os senadores e mais de 300 representantes”, pontua o comunicado da APS, lembrando que senadores de nove Estados “estariam mais abertos a ouvir nossa mensagem”.

A partir desses legisladores, a APS organizou reuniões entre seus membros e equipes nos escritórios locais daqueles políticos; ajudou membros a escrever cartas e artigos de opinião publicados em jornais locais; criou materiais de defesa personalizados para cada Estado, detalhando como os cortes propostos afetariam seus constituintes. “A APS continuará defendendo a ciência junto aos comitês de apropriações da Câmara e do Senado, que determinam os níveis de gastos anuais do governo.”

A entidade também submeteu testemunhos escritos em apoio ao financiamento de entidades como Fundação Nacional de Ciências (NSF), Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia (NIST), Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço (NASA), Departamento de Energia – Escritório de Ciência (DOE). “Enfatizamos a importância da pesquisa fundamental financiada pelo governo e suas contribuições para a ciência, tecnologia, inovação e economia dos EUA. Acreditamos que esses esforços ajudaram a influenciar o subcomitê do Senado a propor financiamento aproximadamente estável para NSF e NASA, em contraste com a proposta do presidente, que reduzia pela metade.”

Perseguições e demissões

Em reação à demissão pelo governo dos Estados Unidos em milhares de cargos em agências científicas federais, a APS está “profundamente preocupada com a forma como as demissões foram conduzidas e com as consequências que terão para o empreendimento científico global”. “Em resposta, a APS entrou com uma série de petições judiciais em defesa de funcionários de agências como DOE, NSF, NIST, NASA e NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica). Muitos desses servidores são colegas físicos, cujas carreiras e contribuições são vitais para o progresso da ciência. Nossas petições argumentam que não há evidências de que essas demissões atendam aos objetivos declarados do governo de restaurar a eficiência e reduzir desperdícios; pelo contrário, afirmamos que as demissões prejudicam o interesse público.”

Segundo a APS, outras entidades se uniram nessa batalha, como a Sociedade Americana de Astronomia, a Associação Americana de Ciência Política, a Sociedade Americana de Matemática, a ACA (Associação de Ciências Estruturais), a Sociedade Ecológica da América, a Sociedade de Matemática Industrial e Aplicada e a SPIE, sociedade internacional de ótica e fotônica. “Os casos estão atualmente nos tribunais”, informa.

A entidade está realizando uma mobilização em defesa da liberdade dos cientistas e estudantes em trabalhar e estudar no País da Estátua da Liberdade, que está deportando milhares de imigrantes, entre eles, físicos e físicas. “Estamos alarmados com políticas de visto cada vez mais restritivas sendo usadas como moeda de troca em negociações comerciais. A APS está agindo em várias frentes, incluindo: Reuniões com congressistas para assegurar o tratamento justo de estudantes e cientistas internacionais; Preparação de petições legais contra revogações injustas de vistos e ações que coloquem nossa comunidade em risco; Oposição a novas regras que criariam barreiras adicionais para estudantes internacionais que desejam estudar nos EUA.”

A APS afirma que já foram enviadas mais de 600 cartas ao Congresso pedindo que mudanças nas políticas de vistos sejam feitas de forma cuidadosa, com espaço para discussão pública e participação. “Ao mesmo tempo, estamos facilitando a participação global em nossos encontros, tornando mais fácil para cientistas de todo o mundo se conectarem a seus colegas. Continuaremos dialogando com legisladores sobre o valor de estudantes e pesquisadores internacionais e os danos causados por medidas excludentes ou punitivas. Nosso objetivo é não apenas proteger os direitos individuais, mas preservar as oportunidades de mobilidade científica internacional: o sangue vital da descoberta científica. A saúde do empreendimento científico está em jogo.”

Engajamento global

A APS também está se solidarizando com organizações científicas parceiras em todo o mundo. “Em particular, trabalhamos com uma mesa-redonda internacional de líderes de sociedades de física para desenvolver a declaração ‘Princípios e Políticas para a Colaboração Científica Internacional’. Até agora, 35 sociedades assinaram o documento, que insta formuladores de políticas a adotar medidas que favoreçam a mobilidade científica, promovam colaborações internacionais e ampliem oportunidades para jovens cientistas, com base nos valores compartilhados de integridade, transparência e reciprocidade.”

Além da defesa política, a APS está tomando medidas para garantir que o intercâmbio científico global continue prosperando, incluindo a expansão do acesso ao Global Physics Summit por meio de eventos-satélite locais. “Assim, físicos ao redor do mundo podem se reunir em encontros patrocinados pela APS em suas comunidades locais e compartilhar suas pesquisas com colegas globais por meio da plataforma virtual.”

Em 2025, mais de 1.100 cientistas em 16 países participaram do Global Physics Summit através desses eventos-satélite, apoiados pela coalizão Purpose-Led Publishing. “Para 2026, estamos ampliando essa rede para permitir que mais comunidades locais se engajem”, afirma. “Queremos que saibam que a APS permanece comprometida em defender o empreendimento científico, expandir a cooperação internacional e apoiar físicos em todo o mundo”, finaliza a entidade em sua carta.

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(Colaborou Roger Marzochi)