{"id":4351,"date":"2019-08-01T14:42:16","date_gmt":"2019-08-01T17:42:16","guid":{"rendered":"https:\/\/sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/2019\/08\/01\/a-corrida-espacial-e-o-ensino-de-fisica\/"},"modified":"2022-05-25T18:42:38","modified_gmt":"2022-05-25T21:42:38","slug":"a-corrida-espacial-e-o-ensino-de-fisica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/a-corrida-espacial-e-o-ensino-de-fisica\/","title":{"rendered":"A Corrida Espacial e o ensino de F\u00edsica"},"content":{"rendered":"<p><strong style=\"background-color: inherit; color: inherit; font-family: inherit; font-size: 1rem;\"><em><span style=\"background-color: inherit; color: inherit; font-family: inherit; font-size: 1rem;\">Por Regina Pinto de Carvalho, do Departamento de F\u00edsica da UFMG<\/span><\/em><\/strong><\/p>\n<p><span style=\"background-color: inherit; color: inherit; font-family: inherit; font-size: 1rem;\"><\/span>Na d\u00e9cada de 1960, quando entrei para o ensino m\u00e9dio (que na \u00e9poca se chamava &#8220;colegial&#8221;), fui apresentada a uma &#8220;mat\u00e9ria&#8221; muito esquisita. A F\u00edsica, \u00e1rida e cheia de f\u00f3rmulas, n\u00e3o me atraiu nem um pouco. Eu tinha a inten\u00e7\u00e3o de estudar Medicina. Por\u00e9m, no segundo ano do curso, o professor adotou um livro diferente, resultado de um projeto de ensino norte-americano, que cham\u00e1vamos \u2018o PSSC\u2019 \u2013 (Physical Science Study Committee). O texto nos levava a observar a Natureza e tentar interpret\u00e1-la usando conceitos f\u00edsicos, com exemplos e ilustra\u00e7\u00f5es que abrangiam desde assuntos corriqueiros at\u00e9 pesquisas recentes e sofisticadas.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><span style=\"background-color: inherit; color: inherit; font-family: inherit; font-size: 1rem;\">Mudei logo de ideia, decidida a estudar F\u00edsica. O terceiro ano do meu curso aconteceu no Col\u00e9gio Universit\u00e1rio, um projeto da UFMG onde alunos do \u00faltimo ano do colegial estudavam todas as disciplinas de acordo com a proposta americana de reforma do ensino. T\u00ednhamos um grupo de professores que trabalhavam em conjunto, aulas de exposi\u00e7\u00e3o, discuss\u00e3o e de laborat\u00f3rio; estas usavam equipamentos constru\u00eddos em uma oficina dentro do col\u00e9gio. Para mim, foi realmente um ano muito proveitoso, em que aprendi a estudar e confirmei meu encantamento pela F\u00edsica.<\/span><\/p>\n<p>Mais tarde conheci um pouco da hist\u00f3ria do projeto de ensino: durante a Guerra Fria, os Estados Unidos estavam perdendo a corrida espacial para a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Para resolver a situa\u00e7\u00e3o, precisavam aumentar o quadro de pesquisadores nas \u00e1reas cient\u00edficas. Por isso, era necess\u00e1rio incentivar os jovens a seguir carreiras cient\u00edficas.<\/p>\n<p>Na mesma \u00e9poca, um grupo de professores de Berkeley estava insatisfeito com o n\u00edvel dos estudantes que ingressavam em seus cursos, e pensava em uma forma de modificar o ensino de ci\u00eancias no curso m\u00e9dio. Juntando os dois interesses, o governo americano investiu numa reforma geral no ensino de Ci\u00eancias nas escolas: foram produzidos textos, roteiros de laborat\u00f3rio, manuais de utiliza\u00e7\u00e3o para os professores, esquemas para a fabrica\u00e7\u00e3o de equipamento de laborat\u00f3rio; a reforma contemplava, al\u00e9m da F\u00edsica, a Qu\u00edmica, a Biologia e a Matem\u00e1tica.<\/p>\n<p>No in\u00edcio da implanta\u00e7\u00e3o, o projeto foi um fracasso: a porcentagem de alunos que escolhiam cursar F\u00edsica, por exemplo, baixou de 5% para 3%. A causa foi logo detectada: os professores das escolas n\u00e3o sabiam aquela F\u00edsica! Imediatamente foram criados cursos de capacita\u00e7\u00e3o para os professores e a reforma come\u00e7ou a render frutos.<\/p>\n<p>Quando as modifica\u00e7\u00f5es estavam bem estabelecidas, o material foi traduzido e os cursos foram ofertados a professores da Am\u00e9rica Latina. O grupo que atuou no Col\u00e9gio Universit\u00e1rio, em Belo Horizonte, fez uma capacita\u00e7\u00e3o no Chile e trouxe o projeto para ser implementado aqui.<\/p>\n<p>A partir dessa \u00e9poca, o ensino de F\u00edsica no Brasil adotou diversas ideias provenientes do PSSC. Nossa querida professora Beatriz Alvarenga, autora do best-seller entre os livros de F\u00edsica para ensino m\u00e9dio, foi aluna dileta do prof. Jearl Walker, um dos mentores do PSSC, e na primeira vers\u00e3o de seu livro reconhec\u00edamos claramente a influ\u00eancia do projeto. A exemplo dos americanos, seu livro, que ficou conhecido como \u2018o livro da Beatriz\u2019, foi modificado ao longo de mais de 40 anos, para atender \u00e0s necessidades locais e incluir resultados recentes de pesquisas em F\u00edsica. Outros professores mais jovens seguiram os passos da grande mestra, produzindo material que atrai os estudantes muito mais do que os antigos livros, cheios de f\u00f3rmulas e ilustra\u00e7\u00f5es carrancudas.<\/p>\n<p>Hoje podemos dizer que a mudan\u00e7a na forma de ensinar F\u00edsica foi alavancada pela necessidade de desenvolver pesquisa cient\u00edfica. Em particular, eu sou um subproduto da Corrida Espacial!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Regina Pinto de Carvalho, do Departamento de F\u00edsica da UFMG Na d\u00e9cada de 1960, quando entrei para o ensino m\u00e9dio (que na \u00e9poca se chamava &#8220;colegial&#8221;), fui apresentada a uma &#8220;mat\u00e9ria&#8221; muito esquisita. A F\u00edsica, \u00e1rida e cheia de f\u00f3rmulas, n\u00e3o me atraiu nem um pouco. Eu tinha a inten\u00e7\u00e3o de estudar Medicina. 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