{"id":3949,"date":"2014-03-20T13:15:13","date_gmt":"2014-03-20T16:15:13","guid":{"rendered":"https:\/\/sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/2014\/03\/20\/artigos-da-rbef-discutem-presente-e-futuro-do-ensino-da-fisica\/"},"modified":"2022-08-24T23:11:03","modified_gmt":"2022-08-25T02:11:03","slug":"artigos-da-rbef-discutem-presente-e-futuro-do-ensino-da-fisica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/artigos-da-rbef-discutem-presente-e-futuro-do-ensino-da-fisica\/","title":{"rendered":"Artigos da RBEF discutem presente e futuro do ensino da f\u00edsica"},"content":{"rendered":"\n<p>A \u00faltima edi\u00e7\u00e3o da Revista Brasileira de Ensino de F\u00edsica, rec\u00e9m-publicada, traz dois artigos extremamente importantes para o futuro da forma\u00e7\u00e3o escolar nacional.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Um deles investiga o desempenho dos alunos em quest\u00f5es de f\u00edsica do ENEM (Exame Nacional do Ensino M\u00e9dio) e a formula\u00e7\u00e3o da prova em si. Outro vasculha a literatura em busca de refer\u00eancias sobre a integra\u00e7\u00e3o das mat\u00e9rias de ci\u00eancia (f\u00edsica, qu\u00edmica e biologia) numa \u00fanica disciplina, proposta recentemente defendida pelo MEC (Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o). Nos dois casos, as not\u00edcias preocupam os gestores do sistema educacional brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Em \u201cAs quest\u00f5es da f\u00edsica e o desempenho dos estudantes do ENEM\u201d, Wanderley P. Gon\u00e7alves Jr. e Marta Feij\u00f3 Barroso, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, analisam as quest\u00f5es e respostas&nbsp; ligadas \u00e0 f\u00edsica da prova de Ci\u00eancias da Natureza do ENEM de 2009, 2010 e 2011.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA an\u00e1lise qualitativa revela as caracter\u00edsticas da prova nestes anos: quest\u00f5es longas, com pouca exig\u00eancia de racioc\u00ednios mais complexos caracter\u00edsticos da resolu\u00e7\u00e3o de problemas, e uma tend\u00eancia de distribui\u00e7\u00e3o de quest\u00f5es por objetos de conhecimento diferentes do tradicional no Ensino M\u00e9dio\u201d, afirmam os pesquisadores.<\/p>\n\n\n\n<p>Contrastar isso com o desempenho dos alunos nas quest\u00f5es permite um diagn\u00f3stico preciso \u2013 e dram\u00e1tico \u2013 do ensino de f\u00edsica nas escolas brasileiras. \u201cO percentual de acertos nos itens quase sempre \u00e9 baixo, e quest\u00f5es que exigem algum tipo de conhecimento disciplinar ou que exigem utiliza\u00e7\u00e3o de racioc\u00ednios matem\u00e1ticos apresentam um desempenho sensivelmente mais fraco.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja, temos um debilitado ensino de f\u00edsica&nbsp; com baixo aproveitamento dos alunos&nbsp; no sistema educacional brasileiro, tal qual ele se desenha hoje.&nbsp; Mas isso pode piorar ainda mais, caso o MEC siga adiante com seus planos de integrar todas as disciplinas cient\u00edficas num \u00fanico curso, como discutido&nbsp; em \u201cIntegra\u00e7\u00e3o curricular por \u00e1reas com extin\u00e7\u00e3o das disciplinas no Ensino M\u00e9dio: Uma preocupante realidade n\u00e3o respaldada pela pesquisa em ensino de f\u00edsica\u201d, por Erika Regina Mozena e Fernanda Ostermann, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul curso no Ensino M\u00e9dio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNessa mudan\u00e7a, as disciplinas de f\u00edsica, qu\u00edmica e biologia seriam ministradas por um \u00fanico professor sob a denomina\u00e7\u00e3o de \u2018ci\u00eancias da natureza\u2019\u201d, escreve a dupla da UFRGS. A l\u00f3gica do MEC \u00e9 preparar os alunos para o futuro, onde a t\u00f4nica das pesquisas de ponta muitas vezes se encontra na interdisciplinaridade \u2013 no entrela\u00e7amento de conte\u00fados de diversas \u00e1reas.<\/p>\n\n\n\n<p>As pesquisadoras mostram, contudo, que unificar as disciplinas com base nisso \u00e9 falacioso. \u201cMostramos nesse trabalho, a partir de revis\u00e3o bibliogr\u00e1fica, que a interdisciplinaridade tem sido estudada e defendida pela pesquisa em ensino de f\u00edsica\/ci\u00eancias apenas em momentos espec\u00edficos na sala de aula e n\u00e3o de maneira integrada, evidenciando que a mudan\u00e7a proposta pelo MEC n\u00e3o tem qualquer respaldo cient\u00edfico.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Para ler os dois artigos na \u00edntegra, clique\u00a0<a href=\"\/rbef\/indice1.php?vol=36&amp;num=1\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">aqui<\/a>\u00a0(sum\u00e1rio do vol. 36, n. 1 da RBEF). Abaixo, entrevistas-rel\u00e2mpago com autoras dos trabalhos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Jogo r\u00e1pido com Marta Feij\u00f3 Barroso (UFRJ)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>SBF &#8211; \u00c9 interessante esse levantamento porque mostra que f\u00edsica j\u00e1 \u00e9 um elo fraco no ensino de ci\u00eancias nas escolas brasileiras. O que explicaria isso?<br>Barroso<\/strong>&nbsp;&#8211; Eu n\u00e3o fiz levantamento similar em todas as provas para avaliar se qu\u00edmica ou biologia s\u00e3o piores. Na prova de 2009, as quest\u00f5es de f\u00edsica foram problem\u00e1ticas. O que explicaria isso? N\u00e3o sei exatamente. Posso fazer uma considera\u00e7\u00e3o: a forma como a f\u00edsica v\u00ea a natureza pressup\u00f5e uma esp\u00e9cie de interc\u00e2mbio entre conceitos e operacionaliza\u00e7\u00e3o desses conceitos; num exemplo muito simples, n\u00e3o basta repetir que velocidade \u00e9 deslocamento por intervalo de tempo, \u00e9 necess\u00e1rio entender que esse conceito significa que o aumento do intervalo de tempo com o mesmo deslocamento faz com que a velocidade seja menor. Em outras palavras, trabalhar com &#8220;contas&#8221; amplia nosso conhecimento sobre os conceitos e vice-versa. \u00c9 absolutamente necess\u00e1rio que o aluno fa\u00e7a conex\u00f5es mentais, resolva problemas etc. Uma quest\u00e3o de tr\u00eas minutos n\u00e3o avalia se o aluno tem as compet\u00eancias m\u00ednimas para resolver problemas, por exemplo.<br>Ali\u00e1s, eu j\u00e1 conclu\u00ed a an\u00e1lise das provas de 2010, 2011 e 2012. O quadro \u00e9 o mesmo. N\u00e3o \u00e9 a f\u00edsica, exclusivamente, o problema &#8211; \u00e9 a capacidade (ou habilidade, ou compet\u00eancia) de resolver problemas, de raciocinar com base em evid\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>SBF &#8211; A proposta de integrar todas as disciplinas cient\u00edficas no Ensino M\u00e9dio tende a agravar esse problema?<br>Barroso<\/strong>&nbsp;&#8211; Considero que sim. A proposta de uma disciplina \u201cCi\u00eancias da Natureza\u201d no Ensino M\u00e9dio descaracterizar\u00e1 completamente as disciplinas. (E isso daria uma longa conversa.)<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Jogo r\u00e1pido com Erika Regina Mozena (UFRGS)<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>SBF &#8211; O trabalho de voc\u00eas mostra que a integra\u00e7\u00e3o das disciplinas cient\u00edficas n\u00e3o tem respaldo cient\u00edfico. A preocupa\u00e7\u00e3o da integra\u00e7\u00e3o torna-se mais grave quando descobrimos que h\u00e1 falta de professores de f\u00edsica e de qu\u00edmica e maior n\u00famero de bi\u00f3logos?<br>Mozena&nbsp;<\/strong>&#8211; Pelo menos na pr\u00e1tica sim. Os professores, a partir de uma perspectiva integracionista, podem livremente se fixar em suas disciplinas de base e tratar superficialmente o conte\u00fado das outras disciplinas, a exemplo do que acontece em grande escala no ensino de Ci\u00eancias da Natureza no Fundamental, em que a maioria dos professores s\u00e3o bi\u00f3logos e deixam de ministrar as outras disciplinas at\u00e9 mesmo por desconhecimento da mat\u00e9ria. Dessa maneira, com a falta que temos de professores de f\u00edsica (sendo esta disciplina o maior problema, pois os dados mostram que apenas 25% que lecionam f\u00edsica t\u00eam forma\u00e7\u00e3o espec\u00edfica) e qu\u00edmica, n\u00e3o nos parece exagero supor que o ensino de f\u00edsica e qu\u00edmica sejam prejudicados, pelo menos na pr\u00e1tica cotidiana.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>SBF &#8211; Um argumento interessante apresentado por voc\u00eas \u00e9 o de que a interdisciplinaridade s\u00f3 \u00e9 boa quando \u00e9 criteriosa. Como saber quando integrar e quando n\u00e3o integrar?<br>Mozena&nbsp;<\/strong>&#8211; Nosso trabalho aponta que uma integra\u00e7\u00e3o total por \u00e1reas, como aquela defendida pelo MEC, n\u00e3o deveria ser adotada pelo menos por enquanto, j\u00e1 que n\u00e3o h\u00e1 pesquisas nem evid\u00eancias cient\u00edficas que respaldem essa mudan\u00e7a ou mesmo o fato de que a integra\u00e7\u00e3o por \u00e1reas seja garantia de melhor resultados de aprendizagem. No entanto, a interdisciplinaridade em momentos espec\u00edficos no ensino tem sido bastante estudada e apresenta resultados promissores. Em tese, sempre que um conhecimento engloba v\u00e1rias disciplinas, ele pode ser ensinado de maneira interdisciplinar. A escola, equipe pedag\u00f3gica e professores s\u00e3o aqueles que devem escolher quando e de que maneira realizar essa integra\u00e7\u00e3o, pois o ensino interdisciplinar depende do conte\u00fado a ser ministrado, do p\u00fablico-alvo, do contexto do ensino e dos objetivos pedag\u00f3gicos envolvidos numa aula. Vamos usar um exemplo. Vamos supor que um professor de f\u00edsica quer ensinar sobre som. Se ele leciona numa escola cuja \u00fanica preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 preparar para o vestibular e tem um cronograma apertado, provavelmente esse professor vai apenas usar seus livros e ensinar sobre som pelo vi\u00e9s da f\u00edsica. Por outro lado, se sua proposta de ensino tem um cunho mais cultural, ele n\u00e3o poder\u00e1 deixar de trabalhar em sala de aula as rela\u00e7\u00f5es entre o som e a m\u00fasica (perspectiva interdisciplinar que ele pode tanto fazer sozinho em sua aula, como trabalhar em conjunto com o professor de m\u00fasica\/arte da escola). Tamb\u00e9m n\u00e3o faz muito sentido aprender sobre som e m\u00fasica sem compreender os mecanismos da audi\u00e7\u00e3o: por que n\u00e3o ensinar o tema som sob o vi\u00e9s da biologia tamb\u00e9m? E se por acaso os alunos da comunidade escolar frequentem bailes espec\u00edficos com m\u00fasica muito alta? Por que n\u00e3o se discutir no ensino a rela\u00e7\u00e3o entre intensidade sonora e sa\u00fade? Quais s\u00e3o as leis acerca do sil\u00eancio? Quais as quest\u00f5es \u00e9ticas e de cidadania envolvidas? E aquelas relativas ao n\u00edvel m\u00e1ximo de decib\u00e9is permitidos? \u00c9 importante que fique claro que as possibilidades de usar a interdisciplinaridade no ensino s\u00e3o vastas, o que determina a forma e a necessidade desse uso s\u00e3o os objetivos pedag\u00f3gicos da escola\/professor que necessariamente devem estar atrelados ao contexto s\u00f3cio-hist\u00f3rico em que a escola e seus alunos est\u00e3o inseridos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00faltima edi\u00e7\u00e3o da Revista Brasileira de Ensino de F\u00edsica, rec\u00e9m-publicada, traz dois artigos extremamente importantes para o futuro da forma\u00e7\u00e3o escolar nacional.&nbsp; Um deles investiga o desempenho dos alunos em quest\u00f5es de f\u00edsica do ENEM (Exame Nacional do Ensino M\u00e9dio) e a formula\u00e7\u00e3o da prova em si. 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