{"id":3812,"date":"2016-09-08T07:11:04","date_gmt":"2016-09-08T10:11:04","guid":{"rendered":"https:\/\/sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/2016\/09\/08\/testes-internacionais-podem-levar-a-corrida-armamentista-educacional\/"},"modified":"2022-08-24T05:47:55","modified_gmt":"2022-08-24T08:47:55","slug":"testes-internacionais-podem-levar-a-corrida-armamentista-educacional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/testes-internacionais-podem-levar-a-corrida-armamentista-educacional\/","title":{"rendered":"Testes internacionais podem levar a \u201ccorrida armamentista educacional\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p>Um teste internacional unificado para verificar o n\u00edvel de aprendizado em diversos pa\u00edses \u2013 a exemplo do que faz a Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e o Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OECD) \u2013 pode parecer uma boa ideia a princ\u00edpio. Mas segundo Svein Sj\u00f8berg, professor da Universidade de Oslo, na Noruega, o resultado final tende a ser uma \u201ccorrida armamentista educacional\u201d, que age em detrimento do engajamento, da motiva\u00e7\u00e3o e da curiosidade dos alunos.<br><strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A OECD tem aplicado o teste PISA (Programa Internacional de Avalia\u00e7\u00e3o de Alunos, na sigla inglesa) e criado rankings entre mais de 70 pa\u00edses. Em 2015, o Brasil participou da avalia\u00e7\u00e3o, com provas aplicadas a cerca de 33 mil alunos na faixa dos 15 anos, distribu\u00eddos em 965 escolas. O \u00f3rg\u00e3o respons\u00e1vel pela prova no brasil \u00e9 o INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais An\u00edsio Feixeira), vinculado ao governo federal.<\/p>\n\n\n\n<p>Sj\u00f8berg apresentou suas cr\u00edticas e ideias sobre a iniciativa durante o Encontro de F\u00edsica de 2016, que ocorre entre 3 e 7 de setembro em Natal (RN), organizado pela Sociedade Brasileira de F\u00edsica. Confira a seguir uma entrevista em que ele explica sua posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>SBF &#8211; O sr. argumenta que rankings baseados em testes do PISA s\u00e3o mais um problema do que uma solu\u00e7\u00e3o para a educa\u00e7\u00e3o. Esse \u00e9 um problema ligado \u00e0 formula\u00e7\u00e3o do teste do PISA ou qualquer prova similar traria os mesmos problemas?<\/p>\n\n\n\n<p>Svein Sj\u00f8berg &#8211;&nbsp;Se o PISA \u00e9 a &#8220;solu\u00e7\u00e3o&#8221;, qual problema ele deveria resolver? O PISA \u00e9 muito diferente de todos os outros testes internacionais. Ele \u00e9, por natureza, normativo, ele define quais s\u00e3o os conte\u00fados de valor nas escolas, enquanto outros estudos (como o TIMSS) s\u00e3o mais descritivos, eles descrevem como alunos em diferentes pa\u00edses dominam diferentes partes do curr\u00edculo escolar, com quest\u00f5es que s\u00e3o similares a quest\u00f5es de provas escolares. (Contudo, o TIMSS tamb\u00e9m usa um curr\u00edculo que \u00e9 um meio-termo entre o que os pesquisadores acham que \u00e9 o conte\u00fado mais ou menos comum na maioria dos pa\u00edses.)<\/p>\n\n\n\n<p>O PISA explicitamente declara que N\u00c3O est\u00e3o testando conhecimento escolar, e eles n\u00e3o est\u00e3o testando curr\u00edculos escolares em pa\u00eds algum, eles testam de acordo com um &#8220;quadro&#8221; que \u00e9 decidido por um grupo de especialistas apontados pelo PISA\/OECD. Al\u00e9m disso v\u00eam todos os problemas com o desenvolvimento de quest\u00f5es do teste que respondem \u00e0s dimens\u00f5es no quadro de um modo que seja &#8220;justo&#8221; para alunos em todos os pa\u00edses (ou, melhor dizendo, em todos os pa\u00edses ricos da OECD). Pa\u00edses que n\u00e3o pertencem \u00e0 OECD n\u00e3o t\u00eam influ\u00eancia, e o PISA nem foi feito para ser usado nesses pa\u00edses.<\/p>\n\n\n\n<p>Um complicador adicional \u00e9 que o PISA n\u00e3o pode dizer nada sobre causa e efeito. Ele n\u00e3o pode explicar &#8220;sucesso&#8221; ou &#8220;fracasso&#8221; no PISA. O desenho da pesquisa (apenas um retrato de uma amostra de alunos de 15 anos) n\u00e3o abre nenhuma possibilidade de explica\u00e7\u00e3o causal. Ele pode, no m\u00e1ximo, estabelecer correla\u00e7\u00f5es entre placares no teste e algumas vari\u00e1veis de fundo. Mas, como todo mundo sabe, uma correla\u00e7\u00e3o n\u00e3o implica uma rela\u00e7\u00e3o de causa e efeito.<\/p>\n\n\n\n<p>SBF &#8211; \u00c9 poss\u00edvel entender que rankings podem levar a algo que voc\u00ea chama de &#8220;corrida armamentista global educacional&#8221;. Mas, tirando de lado o PISA, j\u00e1 n\u00e3o temos isso dentro do sistema, com rankings universit\u00e1rios e assim por diante? Isso se tornar um problema maior quando abarca estudantes pr\u00e9-universit\u00e1rios?<\/p>\n\n\n\n<p>Sj\u00f8berg &#8211;&nbsp;Sim, eu concordo, n\u00f3s j\u00e1 temos muitas corridas assim, em educa\u00e7\u00e3o, pesquisa e outros dom\u00ednios. Voc\u00ea menciona rankings universit\u00e1rios como um exemplo. Acad\u00eamicos de renome do mundo inteiro s\u00e3o extremamente cr\u00edticos com rela\u00e7\u00e3o a eles, e muitas vezes dizem que eles s\u00e3o enganadores. Tamb\u00e9m aqui vemos que o que voc\u00ea mede se torna o pr\u00f3prio objetivo. A escolha de um indicador determina o que &#8220;conta&#8221;, e outros aspectos s\u00e3o esquecidos ou negligenciados. A &#8220;lei de Campbell&#8221;, escrita uns 40 anos atr\u00e1s, \u00e9 ainda mais v\u00e1lida hoje. Ela diz: &#8220;Quanto mais qualquer indicador social quantitativo \u00e9 usado para tomada de decis\u00f5es sociais, mais sujeito ele estar\u00e1 a press\u00f5es de corrup\u00e7\u00e3o e mais apto ele se tornar\u00e1 para distorcer e corromper os processos sociais que ele tem como objetivo monitorar.&#8221; A escolha (ou constru\u00e7\u00e3o) de indicadores (re)define o que importa, e tamb\u00e9m distorce o que ele tem por objetivo medir. Isso pode ser prejudicial \u00e0 pesquisa e \u00e0 educa\u00e7\u00e3o superior, mas \u00e9 ainda pior quando o sistema educacional inteiro de um pa\u00eds \u00e9 medido de forma errada.<\/p>\n\n\n\n<p>SBF &#8211; Um dos seus argumentos mais fortes \u00e9 o de que os padr\u00f5es trazidos pelo PISA podem diluir peculiaridades nacionais e valores culturais no sistema educacional. O sr. v\u00ea exemplos disso acontecendo agora?<\/p>\n\n\n\n<p>Sj\u00f8berg &#8211;&nbsp;Eu n\u00e3o chamaria um sistema nacional de educa\u00e7\u00e3o e seus curr\u00edculos de &#8220;peculiaridades&#8221;. O sistema educacional de um pa\u00eds, com todos os seus componentes, \u00e9 a espinha dorsal da cultura e da heran\u00e7a comum no pa\u00eds: valores, ideais, conte\u00fado, mat\u00e9rias, treinamento de professores etc. Agora n\u00f3s vemos, tamb\u00e9m a partir da pr\u00f3pria pesquisa do PISA\/OECD, que eles est\u00e3o orgulhosos de terem tornado os placares PISA um padr\u00e3o ouro global para qualidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Num artigo que escrevi recentemente, eu digo o seguinte: &#8220;Desde a primeira publica\u00e7\u00e3o dos resultados PISA em 2001, os resultados se tornaram uma esp\u00e9cie de &#8216;padr\u00e3o ouro&#8217; global para a qualidade da educa\u00e7\u00e3o &#8212; uma \u00fanica medida da qualidade do sistema escolar inteiro. Um relat\u00f3rio da OECD no impacto do PISA em pol\u00edticas declara orgulhosamente que &#8220;o PISA se tornou aceito como um instrumento confi\u00e1vel para avaliar desempenho de estudantes no mundo todo, e os resultados do PISA tiveram influ\u00eancia em reformas na maioria dos pa\u00edses\/economias participantes (Breakspear 2012).&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;De forma similar, Andreas Schleicher (2012), diretor do PISA e recentemente tamb\u00e9m do Diret\u00f3rio de Educa\u00e7\u00e3o e Habilidades na OECD, numa TED talk, come\u00e7a sua apresenta\u00e7\u00e3o ao afirmar que o PISA \u00e9 &#8216;realmente uma hist\u00f3ria de como compara\u00e7\u00f5es internacionais t\u00eam globalizado o campo da educa\u00e7\u00e3o que n\u00f3s usualmente trat\u00e1vamos como uma quest\u00e3o de pol\u00edtica interna.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>SBF &#8211; \u00c9 f\u00e1cil entender seu ponto de vista tendo a Noruega como exemplo, com um sistema educacional muito s\u00f3lido, de forma que quaiquer efeitos de uma mentalidade baseada no PISA possam ser prejudicial e diluir seus sucessos. Entretanto, quando usamos o ponto de vista de pa\u00edses menos desenvolvidos, como o Brasil, talvez o ranking do PISA possa fazer algum bem. Afinal, temos um longo caminho a percorrer aqui, e sabemos pela pr\u00f3pria hist\u00f3ria que &#8220;corridas armamentistas&#8221; tendem a nos levar l\u00e1 mais depressa, mesmo que possam ter efeitos delet\u00e9rios ao longo do caminho. O sr. n\u00e3o acha que o bem e o mal do PISA depender\u00e1 fundamentalmente de que pa\u00eds estivermos falando?<\/p>\n\n\n\n<p>Sj\u00f8berg &#8211;&nbsp;Eu concordo que o impacto do PISA ser\u00e1 (e de fato \u00e9!) diferente em diferentes pa\u00edses. O que eles t\u00eam em comum \u00e9 que o ranking do PISA cria uma esp\u00e9cie de p\u00e2nico, expresso e alimentado pela m\u00eddia e por pol\u00edticos. H\u00e1 um clamor para fazer &#8220;alguma coisa&#8221; para melhorar os placares (que s\u00e3o levados como indicadores v\u00e1lidos de qualidade, muitas vezes sem olhar o que est\u00e1 sendo medido!). Muito se procuram medidas de curto prazo que possam aumentar os placares, e h\u00e1 muita leitura imprecisa, em que pa\u00edses diferentes &#8220;inventam&#8221; suas pr\u00f3prias explica\u00e7\u00f5es para o fracasso e solu\u00e7\u00f5es para corrigir o problema. \u00c9 tamb\u00e9m importante lembrar que, no m\u00e1ximo, o PISA \u00e9 feito sob medida para pa\u00edses industrializados altamente desenvolvidos e ricos. Logo, nem o teste nem os rem\u00e9dios s\u00e3o feitos para outras na\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>A OECD certamente percebe isso, e eles est\u00e3o construindo um teste &#8220;PISA para desenvolvimento&#8221;. Com isso, a OECD, de m\u00e3os dadas com a ind\u00fastria da educa\u00e7\u00e3o comercial global, est\u00e1 entrando no mercado tamb\u00e9m em pa\u00edses de renda mais baixa, muitas vezes acompanhada por produtos e sistemas que implicam um tipo de neocolonialismo.<\/p>\n\n\n\n<p>SBF &#8211; Independentemente do PISA, n\u00f3s aqui no Brasil vivemos num sistema que \u00e9 mais e mais focado em testes, de modo geral. N\u00e3o dever\u00edamos estar encorajando nossos estudantes a pensar em vez de treinando-os para ser realizadores de provas?<\/p>\n\n\n\n<p>Sj\u00f8berg &#8211;&nbsp;Provas sempre t\u00eam um papel central em qualquer sistema educa\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea precisa saber quais s\u00e3o suas metas e objetivos, e precisa saber at\u00e9 que grau voc\u00ea atinge as metas. Isso opera em todos os n\u00edveis: autodidata, classe, escola, comunidade e pa\u00eds (e tamb\u00e9m com uma perspectiva internacional mais ampla). Todos os professores usam algum tipo de teste como instrumento formador assim como sintetizador em seu ensino. E os formuladores de pol\u00edticas e pol\u00edticos tamb\u00e9m precisam saber como seu sistema escola funciona. Al\u00e9m disso, eu n\u00e3o acho que essa inst\u00e2ncia seja controversa &#8212; a alternativa \u00e9 realmente trabalhar sem saber se voc\u00ea est\u00e1 atingindo as metas que voc\u00ea quer atingir.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso significa que precisamos de professores, l\u00edderes escolares e formuladores de pol\u00edtica que saibam bastante sobre testes, suas vantagens, perigos e limita\u00e7\u00f5es. Essa especialidade est\u00e1 ausente em muitos pa\u00edses, inclusive em pa\u00edses ricos. Isso os torna vulner\u00e1veis a press\u00f5es de programas como o PISA, assim como de fornecedores comerciais de sisteams de testes e &#8220;gerenciamento de qualidade&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Bem, tudo isso provavelmente tangencia a sua pergunta. Deixe-me ser mais direto na sua pergunta.<\/p>\n\n\n\n<p>Pa\u00edses demais s\u00e3o obsecados com testes e rankings. Os &#8220;vencedores do PISA&#8221; asi\u00e1ticos s\u00e3o exemplso claros. A hist\u00f3ria por tr\u00e1s disso \u00e9 longa e conectada com a heran\u00e7a de Conf\u00facio de trabalho duro, respeito e obedi\u00eancia, lealdade \u00e0 autoridade. Como todos os cientistas sabem, esses valores v\u00e3o na dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria do que valorizamos na ci\u00eancia de verdade (assim como em uma sociedade democr\u00e1tica!). A contenda para encontrar &#8220;respostas certas&#8221; em testes pode contradizer uma tentativa de encorajar a fantasia, a criatividade e o pensamento cr\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p>O equil\u00edbrio correto entre algum tipo de teste\/monitoramento da qualidade e o desenvolvimento do indiv\u00edduo para se tornar um cidad\u00e3o forte, empoderado e crit\u00edco (e alguns desses bons cientistas) n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil de encontrar.<\/p>\n\n\n\n<p>Assessoria de comunica\u00e7\u00e3o da SBF<\/p>\n\n\n\n<p>Salvador Nogueira<\/p>\n\n\n\n<p>Tel: +55 11 99178-9661<br>E-mail: <a href=\"mailto:comunicacao@sbfisica.org.br\">comunicacao@sbfisica.org.br<\/a><br>Twitter: <a href=\"http:\/\/twitter.com\/sbfisica\">http:\/\/twitter.com\/sbfisica<\/a><br>Facebook: <a href=\"http:\/\/www.facebook.com\/sbfisica\">http:\/\/www.facebook.com\/sbfisica<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um teste internacional unificado para verificar o n\u00edvel de aprendizado em diversos pa\u00edses \u2013 a exemplo do que faz a Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e o Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OECD) \u2013 pode parecer uma boa ideia a princ\u00edpio. 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