{"id":3790,"date":"2017-02-23T07:02:04","date_gmt":"2017-02-23T10:02:04","guid":{"rendered":"https:\/\/sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/2017\/02\/23\/mildred-spiewak-dresselhaus-a-fisica-perde-uma-mulher-brilhante\/"},"modified":"2022-08-24T05:04:52","modified_gmt":"2022-08-24T08:04:52","slug":"mildred-spiewak-dresselhaus-a-fisica-perde-uma-mulher-brilhante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/mildred-spiewak-dresselhaus-a-fisica-perde-uma-mulher-brilhante\/","title":{"rendered":"Mildred Spiewak Dresselhaus: A F\u00edsica perde uma mulher brilhante"},"content":{"rendered":"<div class=\"headline\">\n<p class=\"title\">A humanidade perdeu uma das mais influentes cientistas da f\u00edsica da mat\u00e9ria condensada nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Mildred Spiewak Dresselhaus nasceu no Brooklyn e teve uma inf\u00e2ncia pobre no Bronx. Seus estudos de m\u00fasica e violino lhe propiciaram uma bolsa para estudar no Hunter College, em NY, onde se formou em 1951. Em seguida ela ganhou uma bolsa para estudar na Universidade de Cambridge, Inglaterra, quando se iniciou na F\u00edsica. Ela se doutorou em 1958 na Universidade de Chicago, onde foi aluna de Enrico Fermi. O in\u00edcio de sua carreira foi marcado por dificuldades em encontrar uma universidade para trabalhar, em um ambiente que era essencialmente dominado por homens. Depois de alguns insucessos, Millie foi acolhida no MIT em 1960, onde trabalhou at\u00e9 10 dias antes de sua morte.<\/p>\n<\/div>\n<p>Sua carreira foi marcada pelo pioneirismo. As contribui\u00e7\u00f5es seminais no entendimento da estrutura eletr\u00f4nica do grafite utilizando experimentos de magneto-\u00f3ptica na d\u00e9cada de 60 projetaram Millie na f\u00edsica da mat\u00e9ria condensada.\u00a0 O interesse pelo entendimento das propriedades dos semimetais a fizeram tamb\u00e9m trabalhar com materiais de bismuto.<\/p>\n<div id=\"attachment_18912\" style=\"width: 414px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-18912\" class=\"size-full wp-image-18912\" src=\"https:\/\/sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/acontece-23022017-3.jpg\" alt=\"\" width=\"404\" height=\"449\" \/><p id=\"caption-attachment-18912\" class=\"wp-caption-text\">Boston 2010. Simp\u00f3sio de Comemora\u00e7\u00e3o do 80o anivers\u00e1rio de Millie. Maur\u00edcio Terrones, Ado J\u00f3rio, Gene Dresselhaus, Millie Dresselhaus, Antonio Gomes Souza Filho, Marcos A. Pimenta<\/p><\/div>\n<p>Nas d\u00e9cadas seguintes Millie contribuiu para a compreens\u00e3o das propriedades eletr\u00f4nicas e \u00f3pticas de materiais de grafite, como os compostos de intercala\u00e7\u00e3o de grafite e fibras de carbono, fulerenos, nanotubos de carbono, grafeno, e nos \u00faltimos anos seus trabalhos foram na \u00e1rea de diferentes tipos de materiais bidimensionais. Suas contribui\u00e7\u00f5es na f\u00edsica desses materiais estabeleceram os fundamentos que at\u00e9 hoje s\u00e3o amplamente utilizados em \u00e1reas de fronteira na f\u00edsica da mat\u00e9ria condensada. O pioneirismo de Millie no desenvolvimento da ci\u00eancia dos materiais carbonosos lhe rendeu a admira\u00e7\u00e3o e o reconhecimento internacional da comunidade, que ent\u00e3o lhe conferiu carinhosamente o t\u00edtulo de &#8220;rainha do carbono&#8221;. Al\u00e9m de toda sua contribui\u00e7\u00e3o para ci\u00eancia do carbono, seus trabalhos com heteroestruturas de bismuto s\u00e3o hoje de grande import\u00e2ncia na f\u00edsica dos isolantes topol\u00f3gicos e dos materiais termo-el\u00e9tricos.<\/p>\n<p>Millie recebeu 30 doutorados honor\u00e1rios de v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es mundiais e \u00e9 afiliada \u00e0s mais prestigiadas academias de ci\u00eancia e engenharia do mundo.\u00a0 Ela foi presidente da APS (American Physical Society) e da AAAS (American Association for the Advancement of Science) e dirigiu o Departamento de Energia (DOE).\u00a0 Recebeu diversas honrarias de grande prest\u00edgio, merecendo destaque os Pr\u00eamios &#8211; Kavli 2012 de Nanoci\u00eancia, a &#8220;Medal of Freedom&#8221;, maior homenagem do governo americano a civis, a &#8220;Medal of Science&#8221; dada aos maiores cientistas do pa\u00eds, e a &#8220;Medal of Honor&#8221; da IEEE por sua lideran\u00e7a e contribui\u00e7\u00f5es em v\u00e1rios campos da ci\u00eancia e engenharia.<\/p>\n<p>As dificuldades enfrentadas na carreira impulsionaram Millie a atuar nas quest\u00f5es de g\u00eanero, e suas a\u00e7\u00f5es no MIT rapidamente ganharam proje\u00e7\u00e3o internacional. V\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es adotaram medidas em favor de igualar as condi\u00e7\u00f5es de trabalho e oportunidades de carreira cient\u00edfica para as mulheres. Em todos os cargos ocupados por Millie ao longo de sua carreira, esse aspecto esteve sempre relacionado \u00e0 sua atua\u00e7\u00e3o. Ela coordenou v\u00e1rias comiss\u00f5es nacionais encarregadas de estimular e dar suporte \u00e0s mulheres nas \u00e1reas de f\u00edsica e engenharia. Os estudos e relat\u00f3rios gerados s\u00e3o at\u00e9 hoje usados como refer\u00eancias para pol\u00edticas e a\u00e7\u00f5es nesse setor.<\/p>\n<p>Millie contribuiu significativamente para o desenvolvimento da f\u00edsica no Brasil iniciando na d\u00e9cada de 70, quando veio ministrar um curso na Unicamp. A partir do final da d\u00e9cada de 90, ela acolheu v\u00e1rios pesquisadores, p\u00f3s-docs e estudantes brasileiros de diferentes institui\u00e7\u00f5es, e os iniciou na nanoci\u00eancia do carbono. Nos \u00faltimos anos ela visitou o Brasil in\u00fameras vezes, em v\u00e1rias miss\u00f5es de colabora\u00e7\u00e3o na UFMG e na UFC, participando de confer\u00eancias, bancas de tese e miss\u00f5es cient\u00edficas. Millie era membro correspondente da Academia Brasileira de Ci\u00eancias desde 1976.<\/p>\n<p>Millie foi uma cientista brilhante, mas acima de tudo um ser humano incr\u00edvel, e como professora e orientadora, inspiradora. Ela sempre estava dispon\u00edvel para auxiliar e dava \u00f3timos conselhos. Por tr\u00e1s de pilhas de papel e livros na sua mesa, sempre aparecia Millie, que com voz e sorriso caracter\u00edsticos pronunciava um convidativo e acolhedor &#8220;hi there!&#8221;; mesmo estando sempre com uma quantidade enorme de estudos, artigos, reports, cartas de recomenda\u00e7\u00e3o para revisar. A aten\u00e7\u00e3o e dedica\u00e7\u00e3o de Millie\u00a0 aos trabalhos de pesquisa dos estudantes e p\u00f3s-docs eram impressionantes, e sempre tratados como uma prioridade.<\/p>\n<p>Millie faleceu com 86 anos deixando o esposo e colaborador Gene Dresselhaus, os filhos Marianne, Carl, Paul e Eliot, e cinco netos. Ela faria uma apresenta\u00e7\u00e3o com o sum\u00e1rio da confer\u00eancia NT17, que ocorrer\u00e1 em Belo Horizonte de 25 a 30 de junho pr\u00f3ximo (<a href=\"http:\/\/nt17.org\/\">http:\/\/nt17.org<\/a>), mas o destino nos deixou apenas a possibilidade de um memorial; momento em que a comunidade internacional celebrar\u00e1 a brilhante trajet\u00f3ria cient\u00edfica e humana de uma estrela do seu tempo!<\/p>\n<p>Entrevista com Millie MIT 150th<br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=nQRc9W5hFQ4\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=nQRc9W5hFQ4<br \/>\n<\/a><\/p>\n<p>Antonio Gomes Souza Filho<br \/>\nAdo J\u00f3rio<br \/>\nMarcos A. Pimenta<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A humanidade perdeu uma das mais influentes cientistas da f\u00edsica da mat\u00e9ria condensada nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Mildred Spiewak Dresselhaus nasceu no Brooklyn e teve uma inf\u00e2ncia pobre no Bronx. Seus estudos de m\u00fasica e violino lhe propiciaram uma bolsa para estudar no Hunter College, em NY, onde se formou em 1951. 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