{"id":3690,"date":"2014-08-28T12:10:29","date_gmt":"2014-08-28T15:10:29","guid":{"rendered":"https:\/\/sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/2014\/08\/28\/maryam-mirzakhani-a-primeira-mulher-a-ganhar-a-medalha-fields\/"},"modified":"2022-08-24T22:54:57","modified_gmt":"2022-08-25T01:54:57","slug":"maryam-mirzakhani-a-primeira-mulher-a-ganhar-a-medalha-fields","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/maryam-mirzakhani-a-primeira-mulher-a-ganhar-a-medalha-fields\/","title":{"rendered":"Maryam Mirzakhani, a primeira mulher a ganhar a Medalha Fields"},"content":{"rendered":"<p>Por Alaor Chaves<\/p>\n<p>&#8220;A beleza da matem\u00e1tica s\u00f3 se revela a quem a persegue mais pacientemente\u201d M. Mirzakhani<\/p>\n<p>Henri Poincar\u00e9 famosamente apontou que \u201cum homem n\u00e3o se faz matem\u00e1tico, nasce matem\u00e1tico\u201d. Sem considerar o que se pensava um s\u00e9culo atr\u00e1s sobre os dons femininos, pode estranhar o fato de que ele n\u00e3o ter falado \u201cuma pessoa\u201d, e sim \u201cum homem\u201d. Mas at\u00e9 o final do s\u00e9culo XIX, mulheres muito raramente eram sequer aceitas como estudantes em universidades, pois seus dons eram questionados antes de pelo menos se ter a ideia de submet\u00ea-los a um teste. No campo das ci\u00eancias, a primeira mulher a desafiar o preconceito foi a polonesa Marie Curie (1867 \u2013 1934). Educada precocemente em ci\u00eancias por seu pai, professor de matem\u00e1tica e de f\u00edsica, Curie cursou uma universidade clandestina que desafiava as leis da R\u00fassia, a cujo imp\u00e9rio a Pol\u00f4nia estava subjugada, e aceitava mulheres. Mais tarde mudou-se para a Fran\u00e7a e conquistou dois pr\u00eamios Nobel, primeiro o de f\u00edsica (1903) e depois o de qu\u00edmica (1911).<\/p>\n<p>A alem\u00e3 Emmy Noether (1882 \u2013 1935), quase contempor\u00e2nea de Curie, ingressou na matem\u00e1tica tamb\u00e9m pelo fato de seu pai ser professor dessa disciplina na Universidade de Erlanger, onde ela estudou at\u00e9 obter o doutorado em 1907. Mas viu-se obrigada a ensinar sem sal\u00e1rio no Instituto de Matem\u00e1tica de Erlanger at\u00e9 que em 1915 David Hilbert, o mais famoso matem\u00e1tico da \u00e9poca, a convidou para a Universidade de G\u00f6ttinger, onde ele era professor. Mas o departamento de filosofia negou-lhe ingresso \u00e0 doc\u00eancia em G\u00f6ttinger e por quatro anos ela viu-se obrigada a ministrar cursos sob o nome de Hilbert. \u00c9 comumente apontada como a maior matem\u00e1tica da hist\u00f3ria. Deu tamb\u00e9m uma contribui\u00e7\u00e3o seminal para a f\u00edsica, o teorema de Noether, segundo o qual h\u00e1 uma lei de conserva\u00e7\u00e3o associada a qualquer simetria cont\u00ednua de um sistema f\u00edsico, e que \u00e9 hoje um dos pilares da f\u00edsica te\u00f3rica.<\/p>\n<p>A partir de meados do s\u00e9culo XX, o n\u00famero de mulheres de destaque nos campos de ci\u00eancia e matem\u00e1tica tem crescido com velocidade crescente, em decorr\u00eancia tanto da redu\u00e7\u00e3o do custo da maternidade na vida das mulheres quanto do menor efeito dos estere\u00f3tipos feminino-masculino na cultura moderna. Mas se tomarmos o pr\u00eamio Nobel como um indicador de desempenho nessas \u00e1reas, veremos que o espa\u00e7o ocupado pelas mulheres ainda \u00e9 muito pequeno. At\u00e9 o presente, os n\u00fameros de ganhadoras do Nobel s\u00e3o 2 para a f\u00edsica, 4 para a qu\u00edmica e 10 para a medicina. Das 10 premia\u00e7\u00f5es a mulheres em medicina, 4 ocorreram no s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>N\u00e3o existe o pr\u00eamio Nobel de matem\u00e1tica. Por isso, foi criada a Medalha Fields, outorgada desde 1936 pela Uni\u00e3o Internacional de Matem\u00e1tica e considerada equivalente ao Nobel. Em 12 de agosto de 2014, no Congresso Internacional de Matem\u00e1tica, realizado em Seul, a Medalha Fileds foi outorgada pela primeira vez a uma mulher, a iraniana Maryam Mirzakhani, nascida em Teer\u00e3 em 1977.<\/p>\n<p>Desde menina, Mirzakhani lia avidamente tudo que lhe ca\u00eda \u00e0s m\u00e3os. Tinha um gosto distinto pelas obras de fic\u00e7\u00e3o e por biografias de mulheres famosas, como Marie Curie e Helen Keller, e tamb\u00e9m uma imagina\u00e7\u00e3o inquieta. J\u00e1 aos oito anos, ao deitar-se inventava para si mesma hist\u00f3rias de uma menina extraordin\u00e1ria que a cada noite vivia um papel distinto, mas sempre admir\u00e1vel, fato sugestivo de que sua mente j\u00e1 urdia grandes sonhos para a pr\u00f3pria vida. Pensava talvez em tornar-se romancista. Seu interesse pelas ci\u00eancias foi despertado pelo irm\u00e3o mais velho, que lhe narrava o que tinha aprendido na escola. Fascinou-a especialmente a explica\u00e7\u00e3o de como Gauss inventou em um lampejo como poderia obter a soma dos n\u00fameros inteiros de 1 a 100. No segundo ano do gin\u00e1sio, por volta dos 12 anos, um professor estimulante e perceptivo despertou seu interesse definitivo pela matem\u00e1tica. J\u00e1 cursava a Escola Farzanegan para meninas, em Teer\u00e3, administrada pela Organiza\u00e7\u00e3o Nacional para o Desenvolvimento de Talentos Excepcionais. Desde ent\u00e3o se tornou a estrela da escola, segundo sua grande amiga e colega de turma Roya Beheshti, hoje professora de matem\u00e1tica na Universidade de Washington em St. Louis. Em 1994, j\u00e1 no ensino m\u00e9dio, participou pela primeira vez de uma Olimp\u00edada Internacional de Matem\u00e1tica, na qual ganhou uma medalha de ouro. Era a primeira que uma mulher iraniana participava das OIM. No ano seguinte, foi a outra OIM. Novamente, medalha de ouro, dessa vez com um escore perfeito, feito in\u00e9dito para qualquer iraniano.<\/p>\n<p>Fez o bacharelado em matem\u00e1tica na Universidade Sharif de Tecnologia (Teer\u00e3) e o doutorado em Harvard. Logo ao ingressar em Harvard, passou a comparecer aos semin\u00e1rios informais de Curtis McMullen, medalhista Fields em 1998. Segundo uma sua narrativa posterior dessa experi\u00eancia, pouco entendia do que o professor estava dizendo. Mas no final fazia perguntas e admirava-se com a clareza (sic) e a eleg\u00e2ncia da sua explica\u00e7\u00e3o. Suas perguntas tamb\u00e9m deveriam revelar uma mente arguta, dados o esfor\u00e7o de McMullen em dar-lhe uma explica\u00e7\u00e3o mais clara e o fato de t\u00ea-la aceitado como orientada de tese. Terminou o doutorado em 2004 e ap\u00f3s est\u00e1gio de um ano no Instituto Clay de Matem\u00e1tica e uma posi\u00e7\u00e3o de professor assistente em Princeton, ingressou em 2008 em Stanford como professora titular. Tem realizado pesquisa em topologia e geometria de superf\u00edcies abstratas. Seu trabalho \u00e9 de matem\u00e1tica pura, mas tem aplica\u00e7\u00f5es diversas, desde sistemas din\u00e2micos \u00e0 estrutura do especulado multiverso.<\/p>\n<p>Sua personalidade combina grande autoconfian\u00e7a com uma postura modesta. Certa vez, indagada sobre o que tinha feito de mais importante em um dado campo da sua pesquisa, ela gargalhou, hesitou um pouco e respondeu: \u201cPara ser honesta, n\u00e3o creio ter feito nada realmente muito not\u00e1vel\u201d. Quando recebeu um email comunicando que receberia a Medalha Fields em Seul, imaginou que o site de onde partira o email tinha sido hackeado. Ao receber a Medalha, disse que aquilo era uma grande honra e esperava que muitas outras mulheres iriam alcan\u00e7ar a mesma distin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No romance Terra dos Homens, Saint-Exup\u00e9ry descreve uma cena de um trem, vazando o breu da noite, em que oper\u00e1rios exaustos dormem empilhados nas poltronas e at\u00e9 nos corredores, em vag\u00f5es de terceira classe. A contempla\u00e7\u00e3o da cena provocou-lhe a reflex\u00e3o sobre quantos talentos para as artes, a literatura, a ci\u00eancia ou a inven\u00e7\u00e3o, um ou outro talvez genial, n\u00e3o estariam diante dos seus olhos, mas que n\u00e3o tinham realizado os seus dons pelas conting\u00eancias das suas vidas. Essa narra\u00e7\u00e3o \u00e9 citada de mem\u00f3ria e de forma imprecisa, mas creio que n\u00e3o ao ponto de roubar-lhe o realismo e a profundidade. Os ventres maternos s\u00e3o generosos em gerar pessoas com os mais variados dons. Mas na maioria das vezes esses dons, alguns not\u00e1veis e preciosos, nunca florescem por falta de cultivo. Um aspecto dessa perda merece men\u00e7\u00e3o especial: ao longo da hist\u00f3ria, a humanidade deixou de lado quase inteiramente, at\u00e9 tempos bem recentes, o diversificado dom das mulheres. Embora esse tremendo desperd\u00edcio esteja sendo corrigido, h\u00e1 ainda um longo caminho a percorrer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Alaor Chaves &#8220;A beleza da matem\u00e1tica s\u00f3 se revela a quem a persegue mais pacientemente\u201d M. Mirzakhani Henri Poincar\u00e9 famosamente apontou que \u201cum homem n\u00e3o se faz matem\u00e1tico, nasce matem\u00e1tico\u201d. 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