{"id":31673,"date":"2026-05-21T15:20:10","date_gmt":"2026-05-21T18:20:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/?p=31673"},"modified":"2026-05-21T15:20:11","modified_gmt":"2026-05-21T18:20:11","slug":"adalberto-fazzio-defende-reformulacao-dos-cursos-de-fisica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/adalberto-fazzio-defende-reformulacao-dos-cursos-de-fisica\/","title":{"rendered":"Adalberto Fazzio defende reformula\u00e7\u00e3o dos cursos de f\u00edsica"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft size-full is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"571\" height=\"398\" src=\"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/selo-site.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-31233\" style=\"aspect-ratio:1.4348082595870206;width:155px;height:auto\"\/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Presidente da Sociedade Brasileira de F\u00edsica por duas gest\u00f5es consecutivas (2003-2005 e 2005-2007), o f\u00edsico Adalberto Fazzio, que tem uma trajet\u00f3ria de mais de quatro d\u00e9cadas dedicadas ao estudo de materiais por meio de ferramentas computacionais, \u00e9 um dos personagens centrais na trajet\u00f3ria recente da entidade. Por isso, n\u00e3o poderia deixar de ser ouvido na s\u00e9rie de entrevistas sobre os 60 anos da SBF, que ser\u00e3o comemorados em 20 de agosto, no Audit\u00f3rio Abrah\u00e3o de Moraes, no Instituto de F\u00edsica da Universidade de S\u00e3o Paulo, em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n\n<p>Pioneiro no Brasil no uso de c\u00e1lculos empregados na investiga\u00e7\u00e3o das propriedades dos materiais, Fazzio, que \u00e9 graduado pela Universidade de Bras\u00edlia em 1972, concluiu o mestrado na mesma institui\u00e7\u00e3o em 1975 e obteve o doutorado na USP em 1978, destaca que a SBF teve papel decisivo em alguns dos principais debates cient\u00edficos e pol\u00edticos do pa\u00eds nas \u00faltimas d\u00e9cadas, incluindo a discuss\u00e3o sobre energia nuclear e a amplia\u00e7\u00e3o das universidades p\u00fablicas brasileiras. Ao analisar os 60 anos da SBF, ele defende que, hoje, a entidade precisa liderar uma profunda reformula\u00e7\u00e3o dos cursos de f\u00edsica no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cPara mim, j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para um curso de f\u00edsica que n\u00e3o ensine, por exemplo, toda a parte de ci\u00eancia de dados, intelig\u00eancia artificial, aprendizado de m\u00e1quina, LLM\u201d, diz, referindo-se \u00e0 sigla em ingl\u00eas para Modelo de Linguagem de Grande Escala, como s\u00e3o conhecidos os sistemas de IA treinados com enormes volumes de texto para aprender padr\u00f5es da linguagem humana.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 frente de pesquisas envolvendo materiais avan\u00e7ados como metais de transi\u00e7\u00e3o, filmes finos de ouro e prata, nanoestruturas de carbono, sil\u00edcio e isolantes topol\u00f3gicos, Fazzio, que tornou-se professor do Instituto de F\u00edsica (IF) da Universidade de S\u00e3o Paulo em 1979, alcan\u00e7ando o posto de professor titular em 1991, lembra que uma das marcas de suas gest\u00f5es como presidente da SBF foi a celebra\u00e7\u00e3o, em 2005, do Ano Mundial da F\u00edsica.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cN\u00f3s promovemos 180 eventos no Brasil. Cada regional tinha um conjunto de eventos\u201d, insere Fazzio. As iniciativas, ele observa, inclu\u00edram palestras, atividades educacionais e encontros especiais voltados \u00e0 populariza\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia. \u201cN\u00e3o eram os eventos do calend\u00e1rio normal. Eram ocais\u00f5es realmente para comemorar o Ano Mundial da F\u00edsica, que foi declarado pela Unesco naquela \u00e9poca\u201d, rememora, acrescentando que a Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) destinou, na ocasi\u00e3o, cerca de R$ 2 milh\u00f5es para tais atividades.<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre a funda\u00e7\u00e3o da SBF, ocorrida em 1966 durante a 18\u00aa Reuni\u00e3o Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci\u00eancia (SBPC), realizada em Blumenau (SC), Fazzio lembra que ela se deu em um contexto de forte tens\u00e3o pol\u00edtica e cient\u00edfica.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNaquele tempo, a entidade que falava pela comunidade brasileira era a SBPC\u201d, pontua. \u201cOs principais f\u00edsicos da \u00e9poca, como Am\u00e9lia Hamburger, Ernesto Hamburger, Jos\u00e9 Goldemberg, M\u00e1rio Schenberg e Fernando de Souza Barros, tinham muita voz l\u00e1. Mas a gente j\u00e1 estava num regime complicado. E tamb\u00e9m havia a Guerra Fria, uma grande discuss\u00e3o sobre f\u00edsica nuclear, usinas nucleares, desenvolvimento tecnol\u00f3gico.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Naquele contexto, ele avalia, surgiu a percep\u00e7\u00e3o de que os f\u00edsicos precisavam de uma entidade pr\u00f3pria para defender pautas espec\u00edficas da \u00e1rea. Para Fazzio, a SBF teve papel importante nas discuss\u00f5es envolvendo o programa nuclear brasileiro e tamb\u00e9m pautas externas de destaque, a exemplo da aproxima\u00e7\u00e3o cient\u00edfica entre Brasil e Argentina durante o governo de Jos\u00e9 Sarney.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cHavia um dissenso muito grande entre os dois pa\u00edses. Os argentinos tinham um olhar de que n\u00f3s \u00edamos fazer a bomba, e n\u00f3s ach\u00e1vamos que eles iriam fazer\u201d, conta. \u201cA SBF teve uma articula\u00e7\u00e3o muito boa com a Argentina, que at\u00e9 hoje perdura.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Fazzio, tal coopera\u00e7\u00e3o cient\u00edfica ajudou a reduzir as desconfian\u00e7as bilaterais e resultou na cria\u00e7\u00e3o de mecanismos conjuntos de acompanhamento da \u00e1rea nuclear. \u201cHoje, Brasil e Argentina s\u00e3o irm\u00e3os nessa \u00e1rea. Os pesquisadores trocam informa\u00e7\u00f5es, cooperam uns com os outros. A SBF teve papel fundamental e conclusivo de terminar com essa diverg\u00eancia.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Durante sua gest\u00e3o, ele afirma que a SBF retomou a discuss\u00e3o sobre a expans\u00e3o da energia nuclear no pa\u00eds. \u201cN\u00f3s criamos novamente uma comiss\u00e3o nuclear\u201d, informa, lembrando que o debate reunia f\u00edsicos com posi\u00e7\u00f5es divergentes. \u201cO professor Goldemberg j\u00e1 defendia continuar com hidrel\u00e9tricas ou energias alternativas\u201d, diz, referindo-se ao f\u00edsico Jos\u00e9 Goldemberg, que foi presidente da SBF por duas gest\u00f5es consecutivas, de 1975 a 1979, e teve papel central na pr\u00f3pria funda\u00e7\u00e3o da entidade, em 1966, ao presidir a assembleia da SBPC realizada em Blumenau.<\/p>\n\n\n\n<p>Fazzio ressalta que a discuss\u00e3o n\u00e3o se restringia \u00e0 capacidade tecnol\u00f3gica brasileira. \u201cO Brasil domina todo o ciclo do ur\u00e2nio. Ent\u00e3o n\u00e3o era esse o problema. A quest\u00e3o era: vale a pena ter usinas nucleares depois dos acidentes que ocorreram?\u201d, pergunta.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre os epis\u00f3dios lembrados por ele est\u00e1 o acidente radiol\u00f3gico de Goi\u00e2nia, ocorrido em 1987. \u201cA SBF atuou de forma muito forte naquele evento, criticando a parte de fiscaliza\u00e7\u00e3o da CNEN\u201d, afirma, em refer\u00eancia \u00e0 Comiss\u00e3o Nacional de Energia Nuclear.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar das preocupa\u00e7\u00f5es, o pesquisador n\u00e3o demoniza o uso da energia nuclear. \u201cUtilizada da forma correta e por gente correta, ela \u00e9 important\u00edssima. O problema \u00e9 que sempre tem um \u2018gente\u2019 no meio.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda sobre os usos pac\u00edficos da tecnologia nuclear, ele cita o papel estrat\u00e9gico dos radiois\u00f3topos na medicina e o avan\u00e7o da f\u00edsica m\u00e9dica no Brasil. \u201cA gente necessita disso para a cura de c\u00e2ncer e outras doen\u00e7as\u201d, diz, destacando a import\u00e2ncia dos cursos de f\u00edsica m\u00e9dica. \u201cGra\u00e7as a eles, temos profissionais que v\u00e3o, por exemplo, at\u00e9 consult\u00f3rios dent\u00e1rios verificar se os equipamentos est\u00e3o com a dosagem correta.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Fazzio tamb\u00e9m acredita que a fus\u00e3o nuclear poder\u00e1 revolucionar a matriz energ\u00e9tica mundial no futuro. \u201cOs f\u00edsicos v\u00e3o resolver o problema da energia quando a gente tiver a fus\u00e3o nuclear. Vai ser segura, barata e gerar muita energia. Mas isso ainda est\u00e1 longe\u201d, vislumbra.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltando \u00e0s suas gest\u00f5es \u00e0 frente da SBF, ele enfatiza que a entidade nunca atuou privilegiando uma \u00e1rea espec\u00edfica da f\u00edsica, mas sim fortalecendo a comunidade cient\u00edfica por meio de encontros e articula\u00e7\u00f5es coletivas. \u201cA grande import\u00e2ncia da sociedade foram as reuni\u00f5es. Reuni\u00f5es de part\u00edculas, f\u00edsica nuclear, mat\u00e9ria condensada. Era l\u00e1 que as coisas flu\u00edam.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Na \u00e1rea de f\u00edsica computacional e ci\u00eancia dos materiais, em que \u00e9 especialista, ele destaca a relev\u00e2ncia dos encontros cient\u00edficos para a consolida\u00e7\u00e3o de grupos de pesquisa no pa\u00eds. \u201cOs eventos eram o lugar em que os f\u00edsicos se reuniam para discutir e acompanhar o que era feito no exterior.\u201d Segundo Fazzio, isso contribuiu para o desenvolvimento de \u00e1reas como semicondutores e epitaxia molecular no Brasil. \u201cA comunidade de semicondutores se aproveitou muito desses eventos para o seu crescimento.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Outro ponto que ele considera fundamental em suas gest\u00f5es como presidente da SBF foi o fortalecimento das publica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas e educacionais da entidade. Durante sua gest\u00e3o, houve debates sobre a continuidade da Revista Brasileira de Ensino de F\u00edsica e da revista F\u00edsica na Escola. \u201cDei for\u00e7a para manter e fortalecer as duas publica\u00e7\u00f5es, que foram e continuam sendo muito importantes para nossa comunidade\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas palavras de Fazzio, essas publica\u00e7\u00f5es cumprem um papel essencial na forma\u00e7\u00e3o de professores e estudantes. \u201cA gente precisa olhar para o outro lado da publica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. A F\u00edsica na Escola tem impacto direto na forma\u00e7\u00e3o dos nossos professores e alunos.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Ao projetar o futuro da SBF, no entanto, ele insiste que o maior desafio est\u00e1 na moderniza\u00e7\u00e3o do ensino de f\u00edsica. Em sua avalia\u00e7\u00e3o, os cursos permanecem excessivamente tradicionais, pouco conectados \u00e0s transforma\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas contempor\u00e2neas e distantes da experimenta\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO curso de f\u00edsica, para usar uma express\u00e3o antiga, \u00e9 muito careta\u201d, brinca. \u201cVoc\u00ea v\u00ea um monte de coisas, obviamente importantes, mas o tempo \u00e9 muito grande, as aulas s\u00e3o longas e h\u00e1 pouco experimento.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Ele defende que, para mudar tal quadro, a SBF lidere um debate nacional envolvendo pesquisadores experientes, docentes e especialistas em ensino. \u201cA SBF tem que ter coragem de abrir uma grande discuss\u00e3o. Precisamos pensar um curso conectado com o mundo moderno e tamb\u00e9m com as necessidades do Brasil.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Fazzio argumenta que os problemas cient\u00edficos atuais s\u00e3o cada vez mais interdisciplinares e exigem novas compet\u00eancias dos futuros f\u00edsicos. \u201cHoje voc\u00ea usa intelig\u00eancia artificial para tudo. Incluindo na f\u00edsica nuclear, cosmologia, materiais.\u201d Para ele, insistir em modelos tradicionais de forma\u00e7\u00e3o pode afastar a f\u00edsica das transforma\u00e7\u00f5es aceleradas do s\u00e9culo XXI. \u201cQuem olhar o mundo hoje e disser que o nosso curso de f\u00edsica est\u00e1 ok, estar\u00e1 errado\u201d, afirma. \u201cO mundo inteiro est\u00e1 mudando. E r\u00e1pido.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por Leandro Haberli<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Presidente da Sociedade Brasileira de F\u00edsica por duas gest\u00f5es consecutivas (2003-2005 e 2005-2007), o f\u00edsico Adalberto Fazzio, que tem uma trajet\u00f3ria de mais de quatro d\u00e9cadas dedicadas ao estudo de materiais por meio de ferramentas computacionais, \u00e9 um dos personagens centrais na trajet\u00f3ria recente da entidade. 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