{"id":31474,"date":"2026-05-06T21:45:29","date_gmt":"2026-05-07T00:45:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/?p=31474"},"modified":"2026-05-06T21:50:46","modified_gmt":"2026-05-07T00:50:46","slug":"debora-menezes-relembra-trajetoria-e-aponta-desafios-da-fisica-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/debora-menezes-relembra-trajetoria-e-aponta-desafios-da-fisica-no-brasil\/","title":{"rendered":"D\u00e9bora Menezes relembra trajet\u00f3ria e aponta desafios da f\u00edsica no Brasil"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft size-full is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"571\" height=\"398\" src=\"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-content\/uploads\/2026\/04\/selo-site.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-31233\" style=\"aspect-ratio:1.4349775784753362;width:110px;height:auto\"\/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Dando prosseguimento \u00e0 publica\u00e7\u00e3o de conte\u00fados especiais em celebra\u00e7\u00e3o aos 60 anos da Sociedade Brasileira de F\u00edsica (SBF), que ser\u00e3o comemorados em 20 de agosto, no Audit\u00f3rio Abrah\u00e3o de Moraes, na USP, em S\u00e3o Paulo, nesta edi\u00e7\u00e3o de nosso informativo publicamos um texto que resultou de uma rica conversa com a f\u00edsica nuclear D\u00e9bora Peres Menezes.<\/p>\n\n\n\n<p>Professora titular da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e presidente da SBF entre 2021 e 2023, D\u00e9bora tem doutorado pela Universidade de Oxford e atua\u00e7\u00e3o destacada como diretora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico (CNPq). Sua trajet\u00f3ria une produ\u00e7\u00e3o acad\u00eamica, atua\u00e7\u00e3o institucional e engajamento na divulga\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia, participando de iniciativas voltadas, inclusive, \u00e0 amplia\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a feminina nas \u00e1reas de exatas. Este \u00e9 um dos principais prop\u00f3sitos do projeto Mulheres na Ci\u00eancia, do qual ele participa e que regularmente publica v\u00eddeos na internet sobre o tema. Confira: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/MulheresnaCiencia\/videos\">Mulheres na Ci\u00eancia &#8211; YouTube<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora n\u00e3o tenha vivido diretamente o momento da cria\u00e7\u00e3o da SBF, a pesquisadora ressalta o car\u00e1ter coletivo e mobilizador da iniciativa. \u201cEm 1966 eu era bebezinha.\u00a0 Mas sei que eram poucos f\u00edsicos e que eles estavam muito engajados e motivados para ter um f\u00f3rum pr\u00f3prio\u201d, afirma, lembrando que, quando foi presidente da SBF, coordenou a produ\u00e7\u00e3o e apresentou uma s\u00e9rie de v\u00eddeos sobre a hist\u00f3ria da entidade. Riqu\u00edssimo, o material est\u00e1 dispon\u00edvel no YouTube nesta playlist: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/playlist?list=PLHfzp-g-mA8X6i3HgmInduIUTO-4RRx0-\"> A F\u00edsica no Brasil e a SBF.<\/a><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"336\" height=\"188\" data-src=\"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Fisica-no-Brasil.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-31475 lazyload\" style=\"--smush-placeholder-width: 336px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 336\/188;width:466px;height:auto\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Segundo ela, a hist\u00f3ria que chegou \u00e0s gera\u00e7\u00f5es seguintes evidencia um grupo comprometido em estruturar a f\u00edsica como comunidade cient\u00edfica no Brasil. Entre as contribui\u00e7\u00f5es mais marcantes da SBF, D\u00e9bora destaca o lan\u00e7amento de peri\u00f3dicos cient\u00edficos e a organiza\u00e7\u00e3o de eventos. Segundo ela, as publica\u00e7\u00f5es tiveram papel essencial em um per\u00edodo em que a inser\u00e7\u00e3o internacional da ci\u00eancia brasileira ainda era limitada. Hoje, no entanto, com a maior presen\u00e7a de publica\u00e7\u00f5es dos pesquisadores brasileiros em revistas estrangeiras, esse protagonismo talvez fosse menor. \u201cEu gostaria muito que houvesse um movimento contr\u00e1rio, para que os f\u00edsicos de carreira consolidada voltassem a publicar nas revistas da SBF.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A pesquisadora reconhece que a internacionaliza\u00e7\u00e3o ampliou horizontes, mas v\u00ea valor estrat\u00e9gico no fortalecimento das publica\u00e7\u00f5es nacionais, sobretudo no atual contexto da ci\u00eancia aberta. \u201cFortalecer as publica\u00e7\u00f5es da Sociedade Brasileira de F\u00edsica seria um passo importante para fortalecer a nossa comunidade tamb\u00e9m\u201d, avalia, embora reconhe\u00e7a que \u201cisso n\u00e3o \u00e9 uma trivialidade\u201d.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" data-src=\"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/SBF-debora-peres-menezes.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-30305 lazyload\" style=\"--smush-placeholder-width: 1024px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 1024\/576;width:627px;height:auto\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Professora titular da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e presidente da SBF entre 2021 e 2023, D\u00e9bora tem doutorado pela Universidade de Oxford e atua\u00e7\u00e3o destacada como diretora do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico (CNPq).<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Por sua vez, os eventos cient\u00edficos organizados pela SBF tamb\u00e9m marcaram sua trajet\u00f3ria pessoal. D\u00e9bora relembra sua participa\u00e7\u00e3o, ainda na gradua\u00e7\u00e3o, em uma reuni\u00e3o de f\u00edsica nuclear em Itatiaia (RJ). \u201cEu era aluna de inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e eu tive a oportunidade de ir\u201d, conta. A experi\u00eancia foi marcante n\u00e3o apenas pelo ambiente cient\u00edfico, mas pela inser\u00e7\u00e3o precoce dos estudantes na pr\u00e1tica da comunica\u00e7\u00e3o acad\u00eamica. \u201cEra uma coisa legal porque os estudantes j\u00e1 eram expostos a um ambiente de comunica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica bem cedo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse mesmo epis\u00f3dio, ela relembra, com humor, um momento curioso e outro formativo. \u201cEu me lembro de duas coisas muito interessantes desse evento. A primeira \u00e9 que houve uma diarreia coletiva\u201d, diz, em tom descontra\u00eddo. J\u00e1 o segundo momento foi uma pergunta feita durante sua apresenta\u00e7\u00e3o: \u201cUma pessoa me perguntou\u2026 \u2018esse teu trabalho vai dar certo?\u2019\u201d. A resposta, segundo ela, foi direta: \u201cIsso voc\u00ea pergunta para o meu orientador, eu s\u00f3 estou fazendo as contas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>D\u00e9bora ressalta que a SBF tamb\u00e9m desempenhou um papel pol\u00edtico relevante ao longo de sua hist\u00f3ria. Ela cita, por exemplo, a atua\u00e7\u00e3o de C\u00e9sar Lattes na cria\u00e7\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es fundamentais para a ci\u00eancia brasileira. \u201cO CNPq existe por causa de um f\u00edsico\u201d, afirma, lembrando que Lattes tinha posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas ao defender a ci\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro ponto destacado pela professora da UFSC \u00e9 a participa\u00e7\u00e3o, em geral, da comunidade cient\u00edfica e, em particular, da SBF, em discuss\u00f5es estrat\u00e9gicas para o pa\u00eds, como a ades\u00e3o ao Tratado de N\u00e3o Prolifera\u00e7\u00e3o de Armas Nucleares. \u201cA SBF teve um papel na discuss\u00e3o de avaliar pr\u00f3s e contras de se assinar um documento como aquele\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>No campo da soberania cient\u00edfica e tecnol\u00f3gica, D\u00e9bora chama a aten\u00e7\u00e3o para a import\u00e2ncia do Reator Multiprop\u00f3sito Brasileiro (RMB). O projeto, conduzido no \u00e2mbito da Comiss\u00e3o Nacional de Energia Nuclear e apoiado pelo Minist\u00e9rio da Ci\u00eancia, Tecnologia e Inova\u00e7\u00e3o (MCTI), busca garantir autonomia na produ\u00e7\u00e3o de radiois\u00f3topos utilizados em diagn\u00f3sticos e tratamentos m\u00e9dicos. Tais insumos, ela explica, s\u00e3o essenciais para exames de imagem e para terapias oncol\u00f3gicas realizados no Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS).<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, por\u00e9m, parte significativa desses materiais ainda depende de importa\u00e7\u00e3o, o que torna o Brasil vulner\u00e1vel a oscila\u00e7\u00f5es do cen\u00e1rio internacional, como interrup\u00e7\u00f5es de fornecimento, crises geopol\u00edticas ou a desativa\u00e7\u00e3o de reatores no exterior. D\u00e9bora lembra que esse tipo de depend\u00eancia j\u00e1 teve impactos concretos no atendimento \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. \u201cL\u00e1 na ponta, a pessoa fala assim: \u2018ah, eu precisava fazer o exame, mas n\u00e3o tem o rem\u00e9dio\u2019. \u00c9 mais complicado do que isso\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos principais desafios, segundo ela, est\u00e1 na pr\u00f3pria natureza dos radiois\u00f3topos. Muitos deles possuem vida \u00fatil curta. \u201cEsses elementos qu\u00edmicos precisam ser produzidos muito pr\u00f3ximo do local onde v\u00e3o ser utilizados\u201d, explica. \u201cN\u00e3o d\u00e1 para ser produzido hoje para ser utilizado amanh\u00e3.\u201d Isso exige uma infraestrutura integrada, que envolve log\u00edstica \u00e1gil, transporte especializado e coordena\u00e7\u00e3o entre centros produtores e hospitais.<\/p>\n\n\n\n<p>Devido a tais fatores, D\u00e9bora sublinha que o RMB cumpre dupla fun\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica: al\u00e9m de viabilizar um feixe de n\u00eautrons dedicado \u00e0 pesquisa cient\u00edfica, ampliando a capacidade nacional em \u00e1reas como ci\u00eancia dos materiais e f\u00edsica nuclear, permitir\u00e1 a produ\u00e7\u00e3o regular de radiois\u00f3topos, reduzindo a depend\u00eancia externa e ampliando a seguran\u00e7a do sistema de sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p>Para D\u00e9bora, a participa\u00e7\u00e3o da SBF nesse debate \u00e9 fundamental. Durante sua gest\u00e3o \u00e0 frente da entidade, ela fomentou reuni\u00f5es com representantes do governo e da comunidade cient\u00edfica para refor\u00e7ar a import\u00e2ncia do projeto. \u201cA gente participou de v\u00e1rias discuss\u00f5es para mostrar a necessidade de ter o nosso reator multiprop\u00f3sito\u201d, relata.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora o projeto esteja inclu\u00eddo nas prioridades recentes de investimento em ci\u00eancia e tecnologia, sua implementa\u00e7\u00e3o exige continuidade de financiamento e planejamento de longo prazo. \u201cUm projeto desses n\u00e3o fica pronto de um dia para o outro\u201d, ressalta. Ainda assim, ela avalia que o avan\u00e7o do RMB \u00e9 um passo decisivo para consolidar a autonomia cient\u00edfica e tecnol\u00f3gica do pa\u00eds, com impactos diretos na pesquisa cient\u00edfica e na sa\u00fade p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Mestrado Nacional Profissional<\/h2>\n\n\n\n<p>Durante sua gest\u00e3o \u00e0 frente da SBF, outra pauta priorit\u00e1ria foi a articula\u00e7\u00e3o em torno do ensino de f\u00edsica, especialmente no \u00e2mbito do Mestrado Nacional Profissional. A iniciativa, voltada principalmente a professores em exerc\u00edcio na educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, muitos deles atuando em escolas p\u00fablicas e, em diversos casos, sem forma\u00e7\u00e3o espec\u00edfica em f\u00edsica, buscou enfrentar um dos gargalos hist\u00f3ricos da \u00e1rea no pa\u00eds: a escassez de docentes qualificados.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEu acho que esse mestrado \u00e9 um sucesso absoluto\u201d, afirma D\u00e9bora. Segundo ela, o programa ampliou significativamente o acesso \u00e0 forma\u00e7\u00e3o continuada ao permitir que professores se qualificassem sem se afastar de suas atividades profissionais. \u201cEsse projeto formou uma quantidade enorme de pessoas que n\u00e3o teriam essa forma\u00e7\u00e3o se elas fossem s\u00f3 pelos caminhos acad\u00eamicos tradicionais.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o da pesquisadora, o impacto do programa vai al\u00e9m da titula\u00e7\u00e3o formal. Ao aproximar universidade e escola, o mestrado estaria contribuindo para a melhoria do ensino de f\u00edsica na ponta, pois leva para a sala de aula abordagens mais atualizadas e conectadas com a pr\u00e1tica pedag\u00f3gica. \u201cExiste um v\u00e1cuo nessa forma\u00e7\u00e3o de professores\u201d, observa, destacando que, frequentemente, conte\u00fados introdut\u00f3rios de f\u00edsica s\u00e3o ministrados por profissionais de outras \u00e1reas, como biologia ou matem\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar dos avan\u00e7os, a tentativa de expandir esse modelo para um doutorado profissional revelou tens\u00f5es internas na comunidade. \u201cAs duas comunidades n\u00e3o se entenderam\u201d, relata D\u00e9bora. De um lado, ela descreve, est\u00e3o pesquisadores dedicados ao estudo do ensino de f\u00edsica como \u00e1rea acad\u00eamica consolidada. De outro, profissionais mais voltados \u00e0 pr\u00e1tica docente e \u00e0 forma\u00e7\u00e3o aplicada. \u201cAs vis\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o antag\u00f4nicas, mas eu diria que elas v\u00e3o em paralelo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A dificuldade de di\u00e1logo entre esses grupos, segundo ela, evidencia o desafio de integrar diferentes maneiras de formar professores e de produzir conhecimento na \u00e1rea de ensino. Durante sua gest\u00e3o, houve esfor\u00e7os para aproximar essas vis\u00f5es, inclusive com a tentativa de criar comiss\u00f5es mais amplas de discuss\u00e3o, mas o consenso nem sempre foi alcan\u00e7ado.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda assim, D\u00e9bora avalia que o saldo \u00e9 positivo. Para ela, o Mestrado Nacional Profissional representa uma a\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica da SBF, com impacto direto na qualidade do ensino de f\u00edsica no Brasil. O desafio, agora, \u00e9 avan\u00e7ar na constru\u00e7\u00e3o de pontes entre as diferentes comunidades envolvidas, de modo a fortalecer a pesquisa e a pr\u00e1tica pedag\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro desafio de sua gest\u00e3o esteve ligado \u00e0 administra\u00e7\u00e3o de um plano de sa\u00fade oferecido aos associados da SBF. Embora n\u00e3o diretamente relacionado \u00e0 f\u00edsica, o tema exigiu aten\u00e7\u00e3o. \u201cEu olhava para aqueles n\u00fameros e eles me deixavam desconfort\u00e1vel\u201d, diz, referindo-se \u00e0 complexidade dos dados atuariais. A experi\u00eancia, ela diz, ilustra como a gest\u00e3o de uma sociedade cient\u00edfica envolve tamb\u00e9m quest\u00f5es administrativas e financeiras.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Integra\u00e7\u00e3o ao cen\u00e1rio global<\/h2>\n\n\n\n<p>Ao analisar a inser\u00e7\u00e3o internacional da f\u00edsica brasileira, D\u00e9bora ressalta que \u201cela j\u00e1 nasceu internacionalizada\u201d, com a presen\u00e7a de cientistas estrangeiros que vieram ao pa\u00eds nas primeiras d\u00e9cadas de consolida\u00e7\u00e3o da pesquisa. Nomes estrangeiros, ela observa, ajudaram a estruturar grupos de pesquisa e a formar gera\u00e7\u00f5es de f\u00edsicos, estabelecendo, desde cedo, pontes com centros cient\u00edficos no exterior.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o amadurecimento do sistema de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, D\u00e9bora lembra que o Brasil passou a formar seus pr\u00f3prios pesquisadores em maior escala, reduzindo a depend\u00eancia de forma\u00e7\u00e3o integral no exterior. Ainda assim, essa autonomia n\u00e3o significou isolamento. Ao contr\u00e1rio, a conex\u00e3o com institui\u00e7\u00f5es estrangeiras manteve-se como elemento central da produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, por meio de colabora\u00e7\u00f5es, projetos conjuntos ou da circula\u00e7\u00e3o de estudantes e pesquisadores.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa forma, os programas de mobilidade acad\u00eamica ganharam um papel estrat\u00e9gico. Para D\u00e9bora, o chamado doutorado sandu\u00edche, modalidade em que o estudante realiza parte da pesquisa no exterior, \u00e9 um dos exemplos mais bem-sucedidos dessa pol\u00edtica. \u201cN\u00e3o sai t\u00e3o caro para o pa\u00eds, mas o estudante vivencia uma realidade diferente e bastante enriquecedora\u201d, afirma. A experi\u00eancia internacional, segundo ela, vai al\u00e9m do acesso \u00e0 infraestrutura ou a t\u00e9cnicas espec\u00edficas: trata-se tamb\u00e9m de uma imers\u00e3o em outras culturas cient\u00edficas e da constru\u00e7\u00e3o de redes de contato que tendem a se manter ao longo da carreira.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse tipo de interc\u00e2mbio, acrescenta, contribui para a circula\u00e7\u00e3o de ideias e para a inser\u00e7\u00e3o da f\u00edsica brasileira em agendas globais de pesquisa. Mesmo nos casos em que o pesquisador opta por permanecer no exterior, D\u00e9bora n\u00e3o v\u00ea necessariamente uma perda. \u201cSe ele mantiver v\u00ednculos com o Brasil, isso tamb\u00e9m \u00e9 muito positivo\u201d, sugere, ao destacar o potencial de coopera\u00e7\u00e3o, de forma\u00e7\u00e3o de novos estudantes e acesso a fontes internacionais de financiamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Para o futuro, D\u00e9bora avalia que a f\u00edsica brasileira enfrenta desafios estruturais importantes. Um deles \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o do Conselho Federal de F\u00edsica, que permitiria regulamentar a atua\u00e7\u00e3o profissional em \u00e1reas como a f\u00edsica m\u00e9dica. \u201cOs f\u00edsicos m\u00e9dicos n\u00e3o assinam os laudos\u201d, observa. \u201cIsso fica a cargo de um m\u00e9dico que, \u00e0s vezes, n\u00e3o entende absolutamente nada.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Outro desafio central \u00e9 a diversidade. \u201cA maioria absoluta s\u00e3o homens brancos do Sudeste\u201d, afirma, com base em dados do CNPq. Para ela, ampliar a inclus\u00e3o \u00e9 essencial n\u00e3o apenas por justi\u00e7a social, mas tamb\u00e9m pela qualidade da ci\u00eancia. \u201cUma ci\u00eancia diversa \u00e9 uma ci\u00eancia mais produtiva e melhor.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Ao final, D\u00e9bora refor\u00e7a a import\u00e2ncia das sociedades cient\u00edficas como espa\u00e7os de constru\u00e7\u00e3o coletiva. Ela arremata citando um prov\u00e9rbio africano. \u201cSe voc\u00ea quiser ir r\u00e1pido, v\u00e1 sozinho, mas se voc\u00ea quiser ir longe, v\u00e1 acompanhado\u201d. Para a pesquisadora, essa \u00e9 a ess\u00eancia da SBF. Uma institui\u00e7\u00e3o que, ao longo de 60 anos, tem reunido gera\u00e7\u00f5es de f\u00edsicos em torno do desenvolvimento da ci\u00eancia no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por Leandro Haberli<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dando prosseguimento \u00e0 publica\u00e7\u00e3o de conte\u00fados especiais em celebra\u00e7\u00e3o aos 60 anos da Sociedade Brasileira de F\u00edsica (SBF), que ser\u00e3o comemorados em 20 de agosto, no Audit\u00f3rio Abrah\u00e3o de Moraes, na USP, em S\u00e3o Paulo, nesta edi\u00e7\u00e3o de nosso informativo publicamos um texto que resultou de uma rica conversa com a f\u00edsica nuclear D\u00e9bora Peres [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":12,"featured_media":31478,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[127],"tags":[332,444,255,1659,294],"class_list":["post-31474","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-acontece-na-sbf","tag-cnpq","tag-debora-peres-menezes","tag-sbf","tag-sbf-60-anos","tag-ufsc"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31474","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/users\/12"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=31474"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31474\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":31477,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31474\/revisions\/31477"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/media\/31478"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=31474"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=31474"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=31474"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}