{"id":31201,"date":"2026-04-16T14:56:07","date_gmt":"2026-04-16T17:56:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/?p=31201"},"modified":"2026-04-16T14:56:08","modified_gmt":"2026-04-16T17:56:08","slug":"vortices-de-centro-podem-ajudar-a-desvendar-o-misterio-da-massa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/vortices-de-centro-podem-ajudar-a-desvendar-o-misterio-da-massa\/","title":{"rendered":"V\u00f3rtices de centro podem ajudar a desvendar o mist\u00e9rio da massa"},"content":{"rendered":"\n<p>Um dos problemas mais persistentes da F\u00edsica contempor\u00e2nea, a origem da massa das part\u00edculas que comp\u00f5em a mat\u00e9ria vis\u00edvel, ganhou um novo avan\u00e7o te\u00f3rico a partir de um trabalho de um grupo de f\u00edsicos do Instituto de F\u00edsica Te\u00f3rica da Unesp (IFT-Unesp) ) e da Universidade Federal Fluminense (UFF). Publicado em mar\u00e7o, o artigo <a href=\"https:\/\/journals.aps.org\/prl\/abstract\/10.1103\/fs1k-rjbg\"><em>\u201cStudy of the Emergence of a gluon Mass Scale from Center Vortices Using a Wave-Functional Formalism\u201d<\/em><\/a> investiga como os gl\u00faons, part\u00edculas fundamentais respons\u00e1veis pela intera\u00e7\u00e3o forte, passam a exibir um comportamento t\u00edpico de part\u00edculas massivas, mesmo sendo descritos como sem massa na formula\u00e7\u00e3o fundamental da teoria.<\/p>\n\n\n\n<p>Desenvolvida por Davi Rosa J\u00fanior (p\u00f3s-doutorando no IFT), Gast\u00e3o Krein (Pesquisador Titular do IFT), Luiz Oxman (Professor Associado da UFF) e Bruno Soares (doutorando no IFT), a pesquisa se baseia em um funcional de onda do v\u00e1cuo desenvolvido anteriormente por Rosa Jr. e Oxman, especialistas no tema de v\u00f3rtices de centro. \u201cO objetivo \u00e9 entender por que quarks e gl\u00faons permanecem confinados e como surgem as escalas de massa na cromodin\u00e2mica qu\u00e2ntica (QCD), teoria que descreve a intera\u00e7\u00e3o forte\u201d, sintetiza o pesquisador.<\/p>\n\n\n\n<p>Quarks e gl\u00faons, nunca \u00e9 demais lembrar, s\u00e3o os constituintes elementares dos pr\u00f3tons e n\u00eautrons, que, por sua vez, formam os n\u00facleos at\u00f4micos e correspondem a cerca de 99% da massa vis\u00edvel do universo. No entanto, diferentemente de el\u00e9trons e f\u00f3tons, que podem ser detectados isoladamente, quarks e gl\u00faons nunca s\u00e3o observados livres. \u201cA gente n\u00e3o enxerga os quarks e gl\u00faons da mesma maneira que a gente enxerga os el\u00e9trons e os f\u00f3tons\u201d, afirma o pesquisador. Esse fen\u00f4meno \u00e9 conhecido como confinamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de sua centralidade na estrutura da mat\u00e9ria, a din\u00e2mica desses constituintes ainda guarda mist\u00e9rios fundamentais. Um deles diz respeito ao comportamento dos gl\u00faons. Formalmente, as equa\u00e7\u00f5es da QCD, expressas por meio de sua Lagrangiana, indicam que os gl\u00faons n\u00e3o possuem massa. No entanto, c\u00e1lculos realizados em supercomputadores mostram um cen\u00e1rio diferente. \u201cA gente sabe isso atrav\u00e9s de simula\u00e7\u00f5es num\u00e9ricas que mostram que, aparentemente, esses gl\u00faons, tecnicamente, t\u00eam um gap de massa\u201d, diz Krein.<\/p>\n\n\n\n<p>O desafio, portanto, \u00e9 explicar esse fen\u00f4meno de forma anal\u00edtica, ou, como o pr\u00f3prio f\u00edsico coloca, \u201cna ponta do l\u00e1pis\u201d. \u00c9 justamente essa lacuna que o novo trabalho busca preencher.<\/p>\n\n\n\n<p>A chave para essa explica\u00e7\u00e3o est\u00e1 na pr\u00f3pria natureza do v\u00e1cuo qu\u00e2ntico. Longe de ser um espa\u00e7o vazio, o v\u00e1cuo \u00e9 um ambiente din\u00e2mico, repleto de flutua\u00e7\u00f5es de campos. \u201cO v\u00e1cuo, na realidade, \u00e9 cheio de quarks e gl\u00faons, f\u00f3tons e outras part\u00edculas virtuais\u201d, explica Krein. Essas flutua\u00e7\u00f5es constantes criam um meio efetivo que afeta a propaga\u00e7\u00e3o das part\u00edculas.<\/p>\n\n\n\n<p>A analogia proposta pelo pesquisador ajuda a visualizar esse cen\u00e1rio. \u201cVoc\u00ea tem que imaginar que o v\u00e1cuo, na realidade, \u00e9 como se fosse um fluido. Se voc\u00ea tenta mover algo atrav\u00e9s desse fluido, ele oferece uma oposi\u00e7\u00e3o ao movimento\u201d. Devido a esse fator, os gl\u00faons n\u00e3o se propagam livremente como fariam em um espa\u00e7o vazio ideal. Em vez disso, interagem com esse \u201cmeio\u201d, adquirindo uma esp\u00e9cie de in\u00e9rcia efetiva, interpretada como massa.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">V\u00f3rtices de centro e monop\u00f3los<\/h2>\n\n\n\n<p>Embora essa ideia qualitativa j\u00e1 fosse conhecida, o avan\u00e7o do trabalho est\u00e1 em identificar quais estruturas espec\u00edficas do v\u00e1cuo s\u00e3o respons\u00e1veis por esse efeito. \u00c9 aqui que entram os chamados v\u00f3rtices de centro e monop\u00f3los.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o artigo, simula\u00e7\u00f5es em QCD na rede e an\u00e1lises te\u00f3ricas j\u00e1 indicavam que essas configura\u00e7\u00f5es n\u00e3o perturbativas desempenham um papel central no confinamento e na din\u00e2mica de longo alcance da teoria. Ao calcular, pela primeira vez, correlatores de campos dentro de um formalismo baseado nesses v\u00f3rtices, o novo estudo d\u00e1 um passo al\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>Krein descreve esses objetos de forma intuitiva como \u201credemoinhos\u201d ou \u201cturbilh\u00f5es\u201d nas flutua\u00e7\u00f5es do v\u00e1cuo. \u201cTem uma classe de flutua\u00e7\u00f5es parecida com redemoinhos e, dentro desta classe, existem os chamados v\u00f3rtices de centro\u201d, explica. Esses v\u00f3rtices possuem propriedades topol\u00f3gicas espec\u00edficas associadas \u00e0 estrutura matem\u00e1tica da teoria, em particular ao centro do grupo de simetria de gauge.<\/p>\n\n\n\n<p>Um aspecto crucial destacado no trabalho \u00e9 a import\u00e2ncia dos v\u00f3rtices n\u00e3o orientados, configura\u00e7\u00f5es nas quais a orienta\u00e7\u00e3o do \u201credemoinho\u201d muda ao longo do espa\u00e7o. \u201cEsses n\u00e3o orientados mudam de dire\u00e7\u00e3o. E os locais onde isso acontece, a gente interpreta que tem cargas magn\u00e9ticas l\u00e1\u201d, afirma o f\u00edsico.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas \u201ccargas magn\u00e9ticas\u201d, ou monop\u00f3los, n\u00e3o s\u00e3o part\u00edculas no sentido usual, mas defeitos nas configura\u00e7\u00f5es de campo. Ainda assim, desempenham um papel decisivo na din\u00e2mica da teoria. \u201cEles s\u00e3o cruciais, pois s\u00e3o diretamente respons\u00e1veis pela gera\u00e7\u00e3o de massa\u201d, diz Krein.<\/p>\n\n\n\n<p>O mecanismo f\u00edsico por tr\u00e1s desse efeito guarda semelhan\u00e7as com fen\u00f4menos conhecidos na F\u00edsica da mat\u00e9ria condensada, como a supercondutividade. Nesses sistemas, um condensado de pares de Cooper impede a propaga\u00e7\u00e3o livre de campos magn\u00e9ticos, gerando um comprimento de correla\u00e7\u00e3o finito, o que pode ser interpretado como uma massa efetiva para o f\u00f3ton. \u201c\u00c9 exatamente o mesmo tipo de mecanismo\u201d, afirma o pesquisador.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso da QCD, o papel do condensado \u00e9 desempenhado por essas estruturas topol\u00f3gicas do v\u00e1cuo. A presen\u00e7a de v\u00f3rtices n\u00e3o orientados e monop\u00f3los magn\u00e9ticos da carga de cor (equivalente \u00e0 usual carga el\u00e9trica do eletromagnetismo) \u201celimina as correla\u00e7\u00f5es de longo alcance\u201d, o que caracteriza um comportamento massivo. O resultado principal do artigo \u00e9 mostrar, de forma anal\u00edtica, que esse conjunto de flutua\u00e7\u00f5es gera um correlator de campo com comportamento t\u00edpico de uma part\u00edcula com massa.<\/p>\n\n\n\n<p>Tal avan\u00e7o \u00e9 particularmente relevante porque conecta duas linhas de evid\u00eancia at\u00e9 ent\u00e3o parcialmente separadas. De um lado, as simula\u00e7\u00f5es num\u00e9ricas que indicavam a exist\u00eancia de uma escala de massa. De outro, a identifica\u00e7\u00e3o de v\u00f3rtices como elementos importantes no confinamento. \u201cN\u00f3s mostramos analiticamente que eles v\u00eam precisamente dessas flutua\u00e7\u00f5es no v\u00e1cuo\u201d, resume Krein.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar da profundidade conceitual, Krein ressalta que aplica\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas diretas desse tipo de estudo ainda n\u00e3o s\u00e3o vis\u00edveis. \u201cSob o ponto de vista estritamente dos fen\u00f4menos que acontecem dentro do pr\u00f3ton e do n\u00eautron, eu n\u00e3o vejo nenhuma aplica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica por enquanto\u201d, afirma. Ainda assim, ele destaca que a busca por respostas fundamentais frequentemente impulsiona avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos indiretos.<\/p>\n\n\n\n<p>Um exemplo \u00e9 a crescente interface com a computa\u00e7\u00e3o qu\u00e2ntica. Problemas como confinamento e gera\u00e7\u00e3o de massa pertencem \u00e0 classe dos fen\u00f4menos n\u00e3o perturbativos, que n\u00e3o podem ser tratados por m\u00e9todos tradicionais de aproxima\u00e7\u00e3o. \u201cOs computadores atuais n\u00e3o s\u00e3o capazes de simular o que acontece com os quarks e os gl\u00faons\u201d, explica. A expectativa \u00e9 que computadores qu\u00e2nticos possam, no futuro, lidar com essas din\u00e2micas de forma mais eficiente.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse sentido, a pesquisa em F\u00edsica fundamental n\u00e3o apenas amplia o conhecimento sobre a natureza da mat\u00e9ria, mas tamb\u00e9m cria demandas por novas tecnologias. \u201c\u00c9 um problema intelectual demandando uma tecnologia\u201d, resume Krein.<\/p>\n\n\n\n<p>Os pr\u00f3ximos passos da pesquisa apontam para uma amplia\u00e7\u00e3o do modelo. At\u00e9 agora, o trabalho considerou apenas o setor dos gl\u00faons da teoria. O objetivo futuro \u00e9 incorporar os quarks ao formalismo, completando o quadro da gera\u00e7\u00e3o de massa na mat\u00e9ria vis\u00edvel. \u201cN\u00f3s estamos trabalhando para explicar a gera\u00e7\u00e3o de massa dos quarks\u201d, afirma o pesquisador. Como a massa dos quarks contribui com apenas uma pequena fra\u00e7\u00e3o da massa total dos pr\u00f3tons e n\u00eautrons, compreender esse mecanismo \u00e9 essencial para fechar o ciclo da origem da massa no universo vis\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Em \u00faltima inst\u00e2ncia, estudos como este ajudam a responder uma pergunta fundamental: de onde vem a massa da mat\u00e9ria que comp\u00f5e tudo ao nosso redor. Ainda que as respostas completas estejam em constru\u00e7\u00e3o, avan\u00e7os como os apresentados por Krein e colaboradores, mostram que o caminho passa por compreender, em detalhe, a rica e complexa estrutura do v\u00e1cuo qu\u00e2ntico, um \u201cvazio\u201d que, longe de ser simples, guarda os segredos mais profundos da F\u00edsica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por Leandro Haberli<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um dos problemas mais persistentes da F\u00edsica contempor\u00e2nea, a origem da massa das part\u00edculas que comp\u00f5em a mat\u00e9ria vis\u00edvel, ganhou um novo avan\u00e7o te\u00f3rico a partir de um trabalho de um grupo de f\u00edsicos do Instituto de F\u00edsica Te\u00f3rica da Unesp (IFT-Unesp) ) e da Universidade Federal Fluminense (UFF). 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