{"id":30770,"date":"2026-03-12T19:55:36","date_gmt":"2026-03-12T22:55:36","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/?p=30770"},"modified":"2026-03-17T10:43:55","modified_gmt":"2026-03-17T13:43:55","slug":"mulheres-seguem-desafiando-dominio-masculino-na-fisica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/mulheres-seguem-desafiando-dominio-masculino-na-fisica\/","title":{"rendered":"Mulheres seguem desafiando dom\u00ednio masculino na F\u00edsica"},"content":{"rendered":"\n<p>No imagin\u00e1rio popular, a F\u00edsica costuma ser associada a nomes masculinos que se tornaram s\u00edmbolos universais da ci\u00eancia, como Einstein e Newton. Ao mesmo tempo, a hist\u00f3ria registra casos emblem\u00e1ticos de reconhecimento tardio ou contestado de mulheres que se dedicaram \u00e0 F\u00edsica. Possivelmente o mais conhecido tenha ocorrido quando o nome de Marie Curie quase ficou de fora do Pr\u00eamio Nobel de F\u00edsica de 1903, apesar de suas descobertas fundamentais sobre a radioatividade.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas, no entanto, mulheres cientistas v\u00eam ampliando sua presen\u00e7a e trabalhando duro para deixar contribui\u00e7\u00f5es fundamentais para esta \u00e1rea do conhecimento. Todavia, a equidade de g\u00eanero permanece distante de se concretizar plenamente na F\u00edsica brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p>Publicada em setembro de 2025 no Brazilian Journal of Physics, a pesquisa <em>Women in Theoretical Quantum Physics in Brazil: Demographics, Career Profiles, Recognition, and Leadership<\/em> (<a href=\"https:\/\/link.springer.com\/article\/10.1007\/s13538-025-01992-7#auth-Tatiana-Pauletti-Aff1\">Tatiana Pauletti<\/a> et al.), oferece um retrato detalhado dessa persistente realidade.<\/p>\n\n\n\n<p>O levantamento indica que as mulheres representam apenas 24% do corpo docente em F\u00edsica no pa\u00eds. Na F\u00edsica Qu\u00e2ntica, a propor\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda menor. Nesse campo espec\u00edfico, foram identificadas somente 93 pesquisadoras em atua\u00e7\u00e3o no Brasil. O grupo ficou conhecido como SheQ, jun\u00e7\u00e3o do pronome <em>she<\/em> (\u2018ela\u2019, em ingl\u00eas) com a letra inicial da palavra <em>Quantum<\/em>.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Trata-se de um contingente pequeno, mas com trajet\u00f3rias acad\u00eamicas altamente qualificadas, ampla experi\u00eancia internacional e produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica robusta. N\u00e3o obstante, a pesquisa indicou que tais cientistas ocupam poucos cargos de lideran\u00e7a, recebem menos convites para confer\u00eancias do que colegas homens e nem sempre conquistam as bolsas de maior prest\u00edgio.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Semana Internacional da Mulher, a Sociedade Brasileira de F\u00edsica buscou retomar o debate sobre a falta de equidade de g\u00eanero na ci\u00eancia brasileira. Para isso, conversou com cientistas inspiradoras de diferentes gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma delas \u00e9 a f\u00edsica Thereza Paiva, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisadora na \u00e1rea de mat\u00e9ria condensada, que sempre buscou incentivar meninas a seguirem carreira nas ci\u00eancias exatas. Com esse objetivo, ela fundou, em conjunto com as colegas de profiss\u00e3o Elis Sinnecker e Tatiana Rappoport, o projeto de extens\u00e3o \u201cTem menina no circuito\u201d, que come\u00e7ou em 2013 por meio de um edital do Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico (CNPq) e em 2022 foi o vencedor do Nature Awards for Inspiring Women in Science, promovido pela revista cient\u00edfica Nature como forma de reconhecer iniciativas voltadas justamente a estimular o interesse de meninas por ci\u00eancias exatas.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Thereza-Paiva-768x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-30771\" style=\"width:293px;height:auto\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Thereza Paiva, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisadora na \u00e1rea de mat\u00e9ria condensada.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>O foco \u00e9 em estudantes de escolas p\u00fablicas, principalmente na regi\u00e3o metropolitana do Rio de Janeiro. \u201cQuando come\u00e7amos, quer\u00edamos incentivar meninas a considerar carreiras nas exatas. Mas percebemos que em muitas dessas escolas o ensino m\u00e9dio \u00e9 terminal. Por esse motivo, o nosso papel passou a ser tamb\u00e9m fazer inclus\u00e3o social pela ci\u00eancia. Trazer essas meninas para o ensino superior j\u00e1 \u00e9 uma grande vit\u00f3ria.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo ela, o impacto do projeto vai al\u00e9m da sala de aula. Muitas das alunas nunca haviam tido contato com espa\u00e7os cient\u00edficos. \u201cUma vez perguntamos quantas meninas j\u00e1 tinham ido a um museu de ci\u00eancia ou a um planet\u00e1rio. Nenhuma tinha ido. \u00c0s vezes, o acesso a tais locais \u00e9 gratuito, mas eles ficam longe ou elas nem sabem que existem. Por isso a gente tamb\u00e9m tenta proporcionar esse acesso cultural.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Thereza lembra que a sua pr\u00f3pria curiosidade cient\u00edfica surgiu muito cedo, ainda que inicialmente direcionada para outra \u00e1rea. \u201cEu acho que sempre quis ser cientista. Quando eu era mais nova, eu queria ser o Indiana Jones menina, queria ser arque\u00f3loga, escavar pir\u00e2mide no Egito\u201d, conta. A mudan\u00e7a para a F\u00edsica ocorreu no ensino m\u00e9dio, quando um professor teve papel decisivo ao incentivar leituras al\u00e9m do conte\u00fado tradicional das aulas. \u201cEle me sugeriu livros extras, como o ABC da Relatividade. Acho que isso foi bem determinante na minha escolha pela F\u00edsica.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A import\u00e2ncia desse tipo de est\u00edmulo aparece na trajet\u00f3ria profissional de outra figura inspiradora da ci\u00eancia brasileira, a f\u00edsica Yvonne Mascarenhas. Nascida em 1931, em Pederneiras (SP), ela se graduou em Qu\u00edmica pela Universidade do Brasil \u2014 atual Universidade Federal do Rio de Janeiro \u2014 e em F\u00edsica pela Universidade do Estado da Guanabara, hoje Universidade do Estado do Rio de Janeiro. A pr\u00f3pria cientista atribui o desejo de atuar na \u00e1rea \u00e0 influ\u00eancia de um professor marcante do antigo Curso Cl\u00e1ssico, atual ensino m\u00e9dio. \u201cO meu interesse por exatas teve in\u00edcio quando tive aulas de qu\u00edmica com o excelente professor Albert Ebert, no Col\u00e9gio Mello e Souza, no Rio de Janeiro\u201d, recorda.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"368\" height=\"707\" data-src=\"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Yvone-Mascarenhas.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-30822 lazyload\" style=\"--smush-placeholder-width: 368px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 368\/707;width:254px;height:auto\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">A f\u00edsica Yvonne Mascarenhas, pioneira da cristalografia no Brasil.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Anos depois, Yvonne participaria da constru\u00e7\u00e3o do Instituto de F\u00edsica e Qu\u00edmica da USP em S\u00e3o Carlos (a separa\u00e7\u00e3o da F\u00edsica e da Qu\u00edmica s\u00f3 viria depois), ajudando a estruturar um dos polos de pesquisa mais importantes do pa\u00eds. \u201cViemos eu e meu marido, Sergio Mascarenhas, para a cidade de S\u00e3o Carlos, SP, em 1956, para lecionar F\u00edsica na Escola de Engenharia de S\u00e3o Carlos. As condi\u00e7\u00f5es de pesquisa no Brasil eram bastante incipientes naquela \u00e9poca. Trabalhar em pesquisa no Rio ou em S\u00e3o Carlos dependia muito do nosso entusiasmo\u201d, lembra. Segundo ela, o grupo contou com o apoio do professor Joaquim da Costa Ribeiro, que cedeu um eletr\u00f4metro Wulff, essencial para o estudo do efeito Costa Ribeiro, ao qual os pesquisadores j\u00e1 se dedicavam na FNFi, e conseguiu montar um pequeno laborat\u00f3rio de cristalografia ao trocar um equipamento m\u00e9dico de raio X, rec\u00e9m adquirido pelo professor que os antecedeu, por um aparelho de difra\u00e7\u00e3o de raio X. Isso permitiu iniciar as pesquisas e atrair novos colaboradores.<\/p>\n\n\n\n<p>Pioneira da cristalografia no Brasil, Yvonne aprofundou seu interesse pela \u00e1rea ap\u00f3s um curso ministrado pelo professor Elisi\u00e1rio T\u00e1vora e realizou est\u00e1gios de pesquisa no exterior, como na University of Pittsburgh e na Princeton University. Doutora pela Universidade de S\u00e3o Paulo em 1963, ajudou a estruturar o grupo de cristalografia em S\u00e3o Carlos e foi uma das fundadoras da Sociedade Brasileira de Cristalografia, em 1971. Professora titular a partir de 1981 e diretora do Instituto de F\u00edsica de S\u00e3o Carlos da USP de 1994 a 1998, orientou dezenas de pesquisadores e publicou mais de 150 artigos cient\u00edficos. Membro da Academia Brasileira de Ci\u00eancias, recebeu diversas honrarias, entre elas a Ordem Nacional do M\u00e9rito Cient\u00edfico, e permanece ativa na pesquisa e na divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica mesmo ap\u00f3s a aposentadoria.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">N\u00famero baixo<\/h2>\n\n\n\n<p>A despeito de <em>role models<\/em> como Yvonne Mascarenhas, a baixa presen\u00e7a feminina em diferentes \u00e1reas da F\u00edsica surpreende at\u00e9 quem acompanha o tema de perto. Quando participou do estudo sobre equidade de g\u00eanero na F\u00edsica Qu\u00e2ntica, Thereza Paiva conta que os resultados ficaram abaixo das expectativas. \u201cQuando as meninas me chamaram para participar desse artigo, eu pensei que a gente n\u00e3o ia conseguir nomear todas as mulheres da \u00e1rea. E o fato de termos conseguido identificar essas pesquisadoras j\u00e1 foi espantoso. S\u00e3o 93 mulheres trabalhando com teoria nas \u00e1reas que usam mec\u00e2nica qu\u00e2ntica. Menos de cem. Eu acho um n\u00famero muito baixo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Para chegar a esse levantamento, a pesquisa utilizou diferentes bases de dados acad\u00eamicas e uma an\u00e1lise detalhada dos curr\u00edculos dispon\u00edveis na plataforma Lattes. \u201cO CNPq liberou recentemente uma base de dados da qual voc\u00ea consegue extrair muita informa\u00e7\u00e3o, como n\u00famero de bolsistas por g\u00eanero. Mas, para identificar uma \u00e1rea espec\u00edfica, foi preciso olhar os curr\u00edculos e usar marcadores e palavras-chave relacionadas \u00e0 mec\u00e2nica qu\u00e2ntica\u201d, explica Paiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m do n\u00famero reduzido de pesquisadoras, alguns resultados curiosos apareceram no estudo. \u201cTem um per\u00edodo ali por volta de 2000 em que h\u00e1 um aumento grande no n\u00famero de teses nessas \u00e1reas. A gente conversou com v\u00e1rias pessoas tentando entender o motivo, mas ningu\u00e9m encontrou uma explica\u00e7\u00e3o que satisfizesse completamente.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar da desigualdade persistente, Thereza percebe mudan\u00e7as importantes em rela\u00e7\u00e3o ao in\u00edcio de sua carreira. Para ela, um dos avan\u00e7os mais significativos \u00e9 a presen\u00e7a maior de mulheres nos espa\u00e7os de decis\u00e3o da comunidade cient\u00edfica. \u201cQuando eu comecei, era muito mais raro ver mulheres sentadas \u00e0 mesa da discuss\u00e3o. Hoje a gente come\u00e7a a ter mulheres em posi\u00e7\u00f5es importantes. Isso muda o olhar sobre v\u00e1rias quest\u00f5es.\u201d Um exemplo citado por ela s\u00e3o mudan\u00e7as recentes nas avalia\u00e7\u00f5es de bolsas de produtividade cient\u00edfica. \u201cAgora, quando a pessoa teve filhos no per\u00edodo analisado, o tempo de avalia\u00e7\u00e3o pode ser ampliado. A cada filho se acrescentam dois anos. Esse tipo de cuidado faz muita diferen\u00e7a na carreira das mulheres, porque evita que elas sejam penalizadas.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a desigualdade de g\u00eanero na ci\u00eancia n\u00e3o pode ser compreendida apenas a partir das estruturas acad\u00eamicas. Segundo Thereza, ela est\u00e1 profundamente ligada \u00e0 forma como meninas e meninos s\u00e3o educados desde cedo. \u201cA gente vive num pa\u00eds onde ainda existe um machismo estrutural muito forte. As meninas s\u00e3o educadas para o cuidado. Voc\u00ea d\u00e1 para uma menina uma boneca, uma cozinha, ensina a cuidar da casa. Isso se reflete nas escolhas profissionais mais tarde.\u201d Ela observa que esse padr\u00e3o aparece, inclusive, nas estat\u00edsticas das bolsas de pesquisa. \u201cSe voc\u00ea olha o total de bolsas do CNPq, o n\u00famero de homens e mulheres \u00e9 parecido. Mas, quando divide por \u00e1rea, nas \u00e1reas da sa\u00fade tem mais mulheres. Nas exatas, elas s\u00e3o minoria.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A aus\u00eancia de refer\u00eancias femininas na ci\u00eancia \u00e9 outro fator que influencia a trajet\u00f3ria de jovens estudantes. Thereza lembra que uma das figuras decisivas em sua forma\u00e7\u00e3o foi a f\u00edsica Belita Koiller, que \u00e9 especialista em teoria da mat\u00e9ria condensada e foi a primeira mulher eleita membro titular da Academia Brasileira de Ci\u00eancias na \u00e1rea de Ci\u00eancias F\u00edsicas, em 1995. \u201cEu tive aula com ela na gradua\u00e7\u00e3o e aquilo foi determinante para eu escolher minha \u00e1rea. Foi a primeira vez que eu olhei para uma mulher e vi que ela n\u00e3o era s\u00f3 uma professora dando aula, mas uma grande pesquisadora.\u201d Para ela, essa visibilidade \u00e9 essencial. \u201cSe voc\u00ea n\u00e3o v\u00ea uma coisa, voc\u00ea n\u00e3o acha que pode ser essa coisa. As meninas sabem quem \u00e9 Einstein ou Newton, mas quase nunca conhecem cientistas mulheres.\u201d<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Rigor matem\u00e1tico<\/h2>\n\n\n\n<p>Primeira mulher a assumir a diretoria do Instituto de F\u00edsica (IF) da USP, a professora Kaline Coutinho, que \u00e9 graduada em F\u00edsica pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), mestre pela mesma institui\u00e7\u00e3o e possui doutorado em F\u00edsica pela USP, lidera o IF desde dezembro de 2023. Para ela, a baixa presen\u00e7a feminina na F\u00edsica Qu\u00e2ntica Te\u00f3rica pode estar relacionada \u00e0 pr\u00f3pria natureza da \u00e1rea. \u201cEla \u00e9 basicamente te\u00f3rica, existe uma parte muito forte de rigor matem\u00e1tico. E se a gente olha o percentual de mulheres na matem\u00e1tica no Brasil, ele tamb\u00e9m \u00e9 baixo\u201d, afirma. Atuando em \u00e1reas como efeito solvente, propriedades eletr\u00f4nicas e estruturais, interfaces, misturas l\u00edquidas, materiais porosos, agregados moleculares e nanotecnologia, Kaline corrobora a ideia de que tal cen\u00e1rio pode ter rela\u00e7\u00e3o com fatores culturais e com a forma\u00e7\u00e3o escolar. \u201cAs meninas muitas vezes s\u00e3o estimuladas desde pequenas a irem para \u00e1reas mais criativas ou de rela\u00e7\u00f5es humanas. Talvez essa \u00e1rea mais dura, que envolve mais teoria e matem\u00e1tica, acabe afastando um pouco.\u201d<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"554\" height=\"725\" data-src=\"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Kaline-Coutinho.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-30772 lazyload\" style=\"--smush-placeholder-width: 554px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 554\/725;width:301px;height:auto\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">A diretora do Instituto de F\u00edsica (IF) da USP,  professora Kaline Coutinho.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Por outro lado, Kaline lembra que as pesquisadoras que atuam na \u00e1rea apresentam forte produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e elevada experi\u00eancia internacional, ainda que o reconhecimento institucional nem sempre acompanhe esse desempenho. \u201cNo in\u00edcio da carreira, a avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 muito baseada em indicadores quantitativos, como n\u00famero de publica\u00e7\u00f5es, cita\u00e7\u00f5es e orienta\u00e7\u00e3o de alunos. Mas quando voc\u00ea chega \u00e0s etapas mais altas da carreira, entra um elemento importante que \u00e9 a visibilidade. E nesse aspecto as mulheres acabam sendo prejudicadas.\u201d Segundo ela, a pr\u00f3pria forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da comunidade cient\u00edfica contribuiu para isso. \u201cNo in\u00edcio da \u00e1rea no Brasil, ela era composta basicamente por homens. Ent\u00e3o, a tradi\u00e7\u00e3o de convidar homens para confer\u00eancias, comit\u00eas cient\u00edficos e bancas acabou se perpetuando.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Nos \u00faltimos anos, no entanto, ela acredita que essa situa\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a mudar. \u201cHouve um movimento muito forte para exigir representatividade feminina em bancas de concursos, comit\u00eas cient\u00edficos e confer\u00eancias. E isso tem aumentado a visibilidade das mulheres\u201d, afirma Kaline. Ela pr\u00f3pria faz parte desse movimento de mudan\u00e7a: al\u00e9m de ser a primeira mulher a dirigir o IF, ocupa cargos importantes em ag\u00eancias de avalia\u00e7\u00e3o e fomento \u00e0 pesquisa.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro ponto importante apontado por Kaline \u00e9 o impacto das responsabilidades familiares na trajet\u00f3ria das cientistas. \u201cA internacionaliza\u00e7\u00e3o da carreira, por exemplo, muitas vezes depende da disponibilidade do marido ou do companheiro e tamb\u00e9m da quest\u00e3o dos filhos\u201d, explica, acrescentando que per\u00edodos prolongados no exterior podem se tornar dif\u00edceis de conciliar com a vida familiar. \u201cNo meu caso, o processo de internacionaliza\u00e7\u00e3o aconteceu antes de eu ter filha. Depois que tive, passei cerca de sete anos com atividade internacional bastante reduzida.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Esse tipo de interrup\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria pode influenciar diretamente o ritmo da carreira cient\u00edfica. \u201cMuitas mulheres acabam sentindo tamb\u00e9m uma cobran\u00e7a social maior em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 presen\u00e7a na vida dos filhos\u201d, observa. \u201cExiste at\u00e9 um sentimento de culpa que muitas cientistas relatam, de estar trabalhando demais.\u201d Ainda assim, Kaline acredita que as novas gera\u00e7\u00f5es j\u00e1 apresentam mudan\u00e7as importantes nesse aspecto. \u201cHoje a gente j\u00e1 v\u00ea mais casos de casais em que o marido fica em casa enquanto a esposa est\u00e1 no exterior. Isso est\u00e1 mudando.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m das mudan\u00e7as institucionais, redes de apoio entre pesquisadoras t\u00eam desempenhado papel cada vez mais relevante. Para Kaline, compartilhar experi\u00eancias \u00e9 fundamental para enfrentar as dificuldades da carreira cient\u00edfica. \u201cConhecer outras mulheres e conversar com outras pesquisadoras, mais jovens ou mais experientes, s\u00e3o atitudes que ajudam muito. \u00c0s vezes voc\u00ea tenta explicar uma ang\u00fastia para algu\u00e9m que nunca passou por aquilo e a pessoa nem consegue entender.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Na avalia\u00e7\u00e3o de Yvonne Mascarenhas, houve progressos importantes na participa\u00e7\u00e3o feminina na ci\u00eancia brasileira, embora desafios ainda permane\u00e7am. \u201cCreio que avan\u00e7amos bastante em termos de igualdade de g\u00eanero. Mas persistem problemas relacionados principalmente \u00e0 diferen\u00e7a na educa\u00e7\u00e3o dos meninos e das meninas, que n\u00e3o favorece o surgimento do interesse das mulheres pelas ci\u00eancias exatas, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>Para as novas gera\u00e7\u00f5es de cientistas, as tr\u00eas pesquisadoras deixam conselhos semelhantes. A persist\u00eancia \u00e9 um deles. \u201cA ci\u00eancia n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil e n\u00e3o \u00e9 trivial\u201d, diz Thereza Paiva. \u201cQuem desiste de primeira perde a oportunidade de fazer grandes descobertas depois.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Kaline Coutinho destaca a import\u00e2ncia de cada pesquisadora compreender seus pr\u00f3prios objetivos e construir sua trajet\u00f3ria de forma consciente. \u201cO que foi sucesso para mim n\u00e3o quer dizer que ser\u00e1 sucesso para outra pessoa. O importante \u00e9 entender quem voc\u00ea \u00e9 e correr atr\u00e1s dos seus sonhos.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Yvonne Mascarenhas, que atravessou d\u00e9cadas da hist\u00f3ria da ci\u00eancia brasileira, resume a mensagem em poucas palavras dirigidas \u00e0s meninas interessadas pela carreira cient\u00edfica: \u201cN\u00e3o desistam e trabalhem mantendo o foco, apesar das dificuldades que poder\u00e3o ter que superar.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por Leandro Haberli<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No imagin\u00e1rio popular, a F\u00edsica costuma ser associada a nomes masculinos que se tornaram s\u00edmbolos universais da ci\u00eancia, como Einstein e Newton. Ao mesmo tempo, a hist\u00f3ria registra casos emblem\u00e1ticos de reconhecimento tardio ou contestado de mulheres que se dedicaram \u00e0 F\u00edsica. 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