{"id":30463,"date":"2026-02-25T18:20:44","date_gmt":"2026-02-25T21:20:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/?p=30463"},"modified":"2026-02-25T18:24:52","modified_gmt":"2026-02-25T21:24:52","slug":"brasileiros-desenvolvem-abordagem-de-primeiros-principios-para-determinar-a-constante-dieletrica-em-nanoescala","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/brasileiros-desenvolvem-abordagem-de-primeiros-principios-para-determinar-a-constante-dieletrica-em-nanoescala\/","title":{"rendered":"Brasileiros desenvolvem abordagem de primeiros princ\u00edpios para determinar a constante diel\u00e9trica em nanoescala"},"content":{"rendered":"\n<p>O gelo acompanha a ci\u00eancia h\u00e1 s\u00e9culos como um arquivo que guarda os segredos da Terra. Presente em investiga\u00e7\u00f5es sobre o enigm\u00e1tico efeito Mpemba, em que a \u00e1gua quente pode congelar mais r\u00e1pido do que a fria sob certas condi\u00e7\u00f5es, e tamb\u00e9m em estudos que analisam bolhas de ar aprisionadas por mil\u00eanios para reconstruir a hist\u00f3ria clim\u00e1tica do nosso planeta, esse material, aparentemente simples, continua a nos surpreender. Agora, um novo estudo, com participa\u00e7\u00e3o de pesquisadores da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) e da Universidade Estadual Paulista (Unesp), lan\u00e7a luz sobre uma de suas propriedades fundamentais: a resposta diel\u00e9trica eletr\u00f4nica em escala nanom\u00e9trica.<\/p>\n\n\n\n<p>A pesquisa utilizou simula\u00e7\u00f5es computacionais baseadas em m\u00e9todos de primeiros princ\u00edpios para investigar como o gelo responde a campos el\u00e9tricos quando confinado em dimens\u00f5es extremamente pequenas, compar\u00e1veis a poucos \u00e1tomos de espessura. Esse tipo de investiga\u00e7\u00e3o \u00e9 essencial para compreender o funcionamento de dispositivos eletr\u00f4nicos modernos, que dependem do controle preciso de propriedades el\u00e9tricas em materiais isolantes conhecidos como diel\u00e9tricos.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o artigo cient\u00edfico do qual eles participaram, \u201c<a href=\"https:\/\/journals.aps.org\/prl\/abstract\/10.1103\/8sjg-ybfw\"><em>First-Principles Nanocapacitor Simulations of the Optical Dielectric Constant in Water Ice<\/em><\/a>\u201d, publicado em 16 de janeiro de 2026 na <em>Physical Review Letters<\/em> (PRL), esse fen\u00f4meno diel\u00e9trico est\u00e1 diretamente ligado \u00e0 capacidade do material de responder eletricamente a perturba\u00e7\u00f5es externas, justamente a propriedade investigada no novo estudo. O trabalho foi liderado pela professora Luana Pedroza, do Instituto de F\u00edsica da Universidade de S\u00e3o Paulo (IFUSP), e pela professora Marivi Fernandez-Serra (Stony Brook University, EUA). Participaram do trabalho tamb\u00e9m Graciele M. Arvelos, aluna de doutorado do Instituto de F\u00edsica Te\u00f3rica da Universidade Estadual Paulista (IFT-UNESP) e Alexandre R. Rocha, professor da mesma institui\u00e7\u00e3o de ensino e pesquisa.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"427\" src=\"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/Luanapedroza.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-30464\" style=\"width:455px;height:auto\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Professora Luana Pedroza, do Instituto de F\u00edsica da Universidade de S\u00e3o Paulo (IFUSP).<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-medium\"><img decoding=\"async\" width=\"480\" height=\"510\" data-id=\"30465\" data-src=\"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/GracieleArvelos-480x510.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-30465 lazyload\" style=\"--smush-placeholder-width: 480px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 480\/510;aspect-ratio:1\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Graciele M. Arvelos, aluna de doutorado do Instituto de F\u00edsica Te\u00f3rica da Universidade Estadual Paulista (IFT-UNESP).<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-medium\"><img decoding=\"async\" width=\"480\" height=\"510\" data-id=\"30466\" data-src=\"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-content\/uploads\/2026\/02\/AlexandreRocha-480x510.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-30466 lazyload\" style=\"--smush-placeholder-width: 480px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 480\/510;aspect-ratio:1\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Alexandre R. Rocha, professor do IFT-UNESP.<\/figcaption><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<p>Materiais diel\u00e9tricos desempenham um papel central em capacitores, componentes capazes de armazenar energia el\u00e9trica e presentes em praticamente todos os circuitos eletr\u00f4nicos. A capacidade de armazenamento depende diretamente da constante diel\u00e9trica do material, uma grandeza que mede o quanto ele se polariza na presen\u00e7a de um campo el\u00e9trico. Embora essa propriedade seja bem compreendida em materiais macrosc\u00f3picos, sua determina\u00e7\u00e3o em nanoescala ainda apresenta desafios conceituais e t\u00e9cnicos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em entrevista ao <strong>Boletim SBF<\/strong>, Luana explica que, no mundo macrosc\u00f3pico, pode-se calcular a capacit\u00e2ncia de um material utilizando elementos geom\u00e9tricos, a qual a f\u00edsica cl\u00e1ssica consegue determinar. Mas no caso do mundo qu\u00e2ntico, isso \u00e9 algo muito mais complexo; torna-se dif\u00edcil determinar com precis\u00e3o onde termina o eletrodo e onde come\u00e7a o diel\u00e9trico, o que leva a ambiguidades na defini\u00e7\u00e3o da capacit\u00e2ncia e, consequentemente, da constante diel\u00e9trica. Essa dificuldade decorre de uma separa\u00e7\u00e3o imprecisa das cargas el\u00e9tricas entre as diferentes regi\u00f5es do sistema. Essa indefini\u00e7\u00e3o pode gerar interpreta\u00e7\u00f5es equivocadas, incluindo a aparente exist\u00eancia de efeitos interfaciais que, na realidade, s\u00e3o artefatos do m\u00e9todo de an\u00e1lise.<\/p>\n\n\n\n<p>Os pesquisadores desenvolveram uma abordagem computacional que combina a teoria do funcional da densidade, amplamente utilizada na f\u00edsica da mat\u00e9ria condensada, com o formalismo das fun\u00e7\u00f5es de Green fora do equil\u00edbrio, uma ferramenta essencial para descrever sistemas submetidos a tens\u00f5es el\u00e9tricas. Esse arcabou\u00e7o permitiu simular nanocapacitores contendo gelo cristalino como material diel\u00e9trico e analisar sua resposta el\u00e9trica com precis\u00e3o sem precedentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Luana Pedroza, o m\u00e9todo exigiu adapta\u00e7\u00f5es importantes em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s formula\u00e7\u00f5es j\u00e1 existentes. \u201cPartimos de uma abordagem j\u00e1 conhecida baseada em fun\u00e7\u00f5es de Green fora do equil\u00edbrio, mas foi necess\u00e1rio modific\u00e1-la para que fosse adequada ao estudo da resposta diel\u00e9trica em sistemas nanom\u00e9tricos\u201d, explica.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo a professora, o gelo foi escolhido como sistema modelo em decorr\u00eancia da ordena\u00e7\u00e3o do material em uma rede cristalina, uma vez que a \u00e1gua l\u00edquida apresenta, em sua estrutura at\u00f4mica, grande desordem. \u201cMas agora a gente est\u00e1 avan\u00e7ando nessa dire\u00e7\u00e3o de estudar isso tamb\u00e9m na \u00e1gua l\u00edquida\u201d, conta a professora do IFUSP, lembrando que o fato do gelo ser tamb\u00e9m \u00e1gua gerou na hist\u00f3ria de evolu\u00e7\u00e3o da f\u00edsica discuss\u00f5es violentas desde o s\u00e9culo 16, com pesquisadores \u00e0 \u00e9poca partindo para o duelo com armas. \u201cA \u00e1gua \u00e9 uma das coisas mais dif\u00edceis de estudar. E a hist\u00f3ria do gelo, por si s\u00f3, j\u00e1 \u00e9 muito interessante.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Os resultados da atual pesquisa revelaram um aspecto importante do comportamento eletr\u00f4nico do gelo: mesmo quando confinado em dimens\u00f5es nanom\u00e9tricas, suas propriedades diel\u00e9tricas eletr\u00f4nicas permanecem essencialmente inalteradas. Em outras palavras, o gelo mant\u00e9m sua resposta eletr\u00f4nica intr\u00ednseca independentemente do grau de confinamento, o que indica uma not\u00e1vel robustez de sua estrutura eletr\u00f4nica.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cDiferentemente da \u00e1gua l\u00edquida, o gelo tem uma estrutura muito bem definida, o que nos ajudou a estud\u00e1-lo. A gente conseguiu fazer um estudo muito mais aprofundado para ver se a metodologia estava correta, para entender melhor a metodologia\u201d, afirma Luana.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro ponto relevante \u00e9 que a contribui\u00e7\u00e3o eletr\u00f4nica \u00e0 constante diel\u00e9trica se mostrou insens\u00edvel \u00e0 chamada ordem dos pr\u00f3tons, que se refere \u00e0s diferentes poss\u00edveis configura\u00e7\u00f5es das posi\u00e7\u00f5es dos \u00e1tomos de hidrog\u00eanio na rede cristalina do gelo. Essa caracter\u00edstica j\u00e1 era conhecida em condi\u00e7\u00f5es macrosc\u00f3picas, mas sua confirma\u00e7\u00e3o em escala nanom\u00e9trica refor\u00e7a a compreens\u00e3o fundamental desse material.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses achados t\u00eam implica\u00e7\u00f5es que v\u00e3o al\u00e9m do pr\u00f3prio gelo. O estudo fornece uma base conceitual mais s\u00f3lida para interpretar medi\u00e7\u00f5es el\u00e9tricas em sistemas de baixa dimensionalidade, incluindo filmes ultrafinos e outros materiais emergentes utilizados em nanoeletr\u00f4nica. \u00c0 medida que os dispositivos eletr\u00f4nicos continuam a diminuir de tamanho, compreender o comportamento diel\u00e9trico em escalas at\u00f4micas torna-se cada vez mais importante.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, a nova metodologia pode ser aplicada a uma ampla gama de materiais isolantes, contribuindo para o desenvolvimento de capacitores mais eficientes e de novas tecnologias baseadas em estruturas nanom\u00e9tricas. Ao refinar a forma como se interpreta a resposta el\u00e9trica desses sistemas, o trabalho abre caminho para avan\u00e7os tanto na pesquisa fundamental quanto em aplica\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, o gelo, que h\u00e1 muito tempo ajuda cientistas a compreender fen\u00f4menos clim\u00e1ticos, propriedades da \u00e1gua e at\u00e9 enigmas t\u00e9rmicos, agora tamb\u00e9m contribui para esclarecer quest\u00f5es fundamentais sobre o comportamento el\u00e9trico da mat\u00e9ria em suas menores escalas. Mais uma vez, esse material familiar mostra que ainda tem muito a ensinar \u00e0 f\u00edsica contempor\u00e2nea. Quando voc\u00ea retirar do congelador o gelo para resfriar sua bebida, lembre-se h\u00e1 mais segredos na natureza do que sup\u00f5e a nossa v\u00e3 vontade de nos refrescarmos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>(Colaborou Roger Marzochi)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O gelo acompanha a ci\u00eancia h\u00e1 s\u00e9culos como um arquivo que guarda os segredos da Terra. 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