{"id":30430,"date":"2026-02-24T13:13:28","date_gmt":"2026-02-24T16:13:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/?p=30430"},"modified":"2026-02-24T13:13:29","modified_gmt":"2026-02-24T16:13:29","slug":"fisica-biologica-a-ciencia-que-usa-modelos-matematicos-para-entender-a-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/fisica-biologica-a-ciencia-que-usa-modelos-matematicos-para-entender-a-vida\/","title":{"rendered":"F\u00edsica biol\u00f3gica: a ci\u00eancia que usa modelos matem\u00e1ticos para entender a vida"},"content":{"rendered":"\n<p><em>William Bialek, professor da Universidade de Princeton, discute as transforma\u00e7\u00f5es dessa \u00e1rea<\/em><strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O que t\u00eam em comum a maneira como prote\u00ednas assumem formas espec\u00edficas dentro das c\u00e9lulas, o desenvolvimento de um embri\u00e3o e o comportamento coletivo de p\u00e1ssaros? De acordo com o f\u00edsico te\u00f3rico William Bialek, professor da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, esses temas podem ser investigados a partir de um mesmo esfor\u00e7o cient\u00edfico: aplicar as ferramentas da f\u00edsica \u00e0 compreens\u00e3o de sistemas vivos. Em entrevista, o pesquisador explicou o campo da f\u00edsica biol\u00f3gica, suas aplica\u00e7\u00f5es e novos desafios enfrentados pela \u00e1rea.<\/p>\n\n\n\n<p>Bialek esteve recentemente no Brasil como um dos palestrantes da \u201cEscola de F\u00edsica Biol\u00f3gica em escalas: transi\u00e7\u00f5es de fase\u201d, realizada entre 12 e 23 de janeiro de 2026 pelo Centro Internacional de F\u00edsica Te\u00f3rica\/Instituto Sul-americano para Pesquisa Fundamental (ICTP-SAIFR), do qual ele integra o Conselho Cient\u00edfico. O centro \u00e9 vinculado ao Instituto de F\u00edsica Te\u00f3rica (IFT) da Unesp.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o pesquisador, predominava durante a sua forma\u00e7\u00e3o a ideia de que procurar uma f\u00edsica te\u00f3rica da vida era perda de tempo, posicionamento que refletia barreiras cient\u00edficas e culturais. \u201cEm parte, era uma afirma\u00e7\u00e3o cient\u00edfica real, de que n\u00e3o parecia ser o momento certo para fazer isso, e em parte era uma afirma\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica: as pessoas tinham culturas diferentes e tinham dificuldade em encontrar uma forma de conversar entre si\u201d, afirmou.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse cen\u00e1rio come\u00e7ou a mudar com o avan\u00e7o no estudo de sistemas complexos e quando novas tecnologias experimentais permitiram observar processos biol\u00f3gicos em n\u00edveis de detalhe in\u00e9ditos. Para ele, o progresso n\u00e3o veio como resultado de um \u00fanico marco hist\u00f3rico, mas de um processo gradual, que combinou ousadia intelectual, melhorias t\u00e9cnicas e transforma\u00e7\u00f5es dentro da pr\u00f3pria comunidade cient\u00edfica. \u201cAcho interessante porque parte disso \u00e9 a coragem de tentar coisas novas. Olhava-se para um sistema que era muito complexo e pensava-se: \u2018n\u00e3o, eu n\u00e3o quero fazer isso, \u00e9 dif\u00edcil demais\u2019. Ent\u00e3o algumas pessoas simplesmente foram mais corajosas e tentaram mesmo assim\u201d, disse.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos focos de pesquisa do professor est\u00e1 em entender como embri\u00f5es se organizam com extrema precis\u00e3o em poucas horas. Ele usa como modelo larvas de moscas, que passam de uma \u00fanica c\u00e9lula a um organismo funcional em apenas um dia. \u201cQuando uma mosca p\u00f5e um ovo, de forma surpreendente, a pequena larva consegue se mover sozinha apenas 24 horas depois\u201d, explicou. Segundo o f\u00edsico, o processo come\u00e7a ainda mais cedo: \u201cse voc\u00ea observar tr\u00eas horas depois de o ovo ser colocado, se souber como olhar, voc\u00ea j\u00e1 consegue ver uma esp\u00e9cie de plano b\u00e1sico da estrutura do corpo sendo escrito\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O objetivo de Bialek e seus companheiros de pesquisa \u00e9 medir quanta informa\u00e7\u00e3o est\u00e1 envolvida nas decis\u00f5es celulares e por que a evolu\u00e7\u00e3o favoreceu sistemas que reproduzem estruturas sempre com a mesma precis\u00e3o. Esse grau de organiza\u00e7\u00e3o extrema, observa, \u00e9 o que mais desafia a f\u00edsica. \u201cPorque muitas vezes pensamos que a biologia \u00e9 meio bagun\u00e7ada e complicada. Mas ent\u00e3o vemos esses comportamentos extremamente definidos e \u2018limpos\u2019\u201d, ressaltou, concluindo que: \u201cN\u00e3o seria surpreendente se fosse bagun\u00e7ado. O surpreendente \u00e9 que seja t\u00e3o preciso\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Novas tecnologias e limites<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Embora parte da pesquisa em f\u00edsica biol\u00f3gica pare\u00e7a abstrata, William Bialek destacou que seus efeitos s\u00e3o vistos cotidianamente. Um exemplo \u00e9 a evolu\u00e7\u00e3o dos exames m\u00e9dicos por imagem. \u201cDentro dessa caixa h\u00e1 um dispositivo que os f\u00edsicos desenvolveram para fazer experimentos com raios-X uma gera\u00e7\u00e3o atr\u00e1s\u201d, explicou, ao comentar a substitui\u00e7\u00e3o dos antigos filmes fotogr\u00e1ficos por detectores digitais usados hoje em hospitais.<\/p>\n\n\n\n<p>No campo da intelig\u00eancia artificial, mencionou o AlphaFold, sistema capaz de prever a estrutura de prote\u00ednas a partir da composi\u00e7\u00e3o qu\u00edmica que ela possui. \u201cAgora, voc\u00ea pode simplesmente perguntar ao AlphaFold qual ser\u00e1 a estrutura dessa prote\u00edna, e provavelmente estar\u00e1 correto\u201d, destacou. Para o f\u00edsico, essa capacidade de treinar redes neurais ou usar sistemas de IA pr\u00e9-treinados para analisar dados tamb\u00e9m muda o tipo de pergunta que os cientistas podem fazer.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar disso e mesmo com as vantagens, fez um alerta: automatizar tarefas n\u00e3o equivale a produzir compreens\u00e3o cient\u00edfica. \u201cO fato de eu conseguir fazer um sistema de intelig\u00eancia artificial fazer algo por mim significa que eu entendo o que est\u00e1 acontecendo? E acho que a resposta curta \u00e9: n\u00e3o\u201d, declarou.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Horizontes<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Com entusiasmo evidente, Bialek acredita que a f\u00edsica biol\u00f3gica deve ganhar ainda mais espa\u00e7o nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas, n\u00e3o como substituta de outras \u00e1reas, mas como uma ponte entre diferentes tradi\u00e7\u00f5es cient\u00edficas. Ele observa que sua pr\u00f3pria trajet\u00f3ria acompanha essa transforma\u00e7\u00e3o ao pontuar que sua \u201cvida cient\u00edfica acompanhou a transi\u00e7\u00e3o do campo, que passou de algo meio indefinido, na fronteira entre f\u00edsica e biologia, para algo que hoje, pelo menos em parte, realmente parece fazer parte da f\u00edsica\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A empolga\u00e7\u00e3o do pesquisador tamb\u00e9m aparece ao falar sobre as novas gera\u00e7\u00f5es. Segundo ele, o futuro da \u00e1rea depende n\u00e3o apenas de avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos, mas da forma\u00e7\u00e3o de cientistas dispostos a enfrentar a complexidade e dialogar entre campos distintos. \u201cEu me sinto privilegiado porque n\u00f3s continuamos a receber estudantes brilhantes, e eles acham isso empolgante\u201d, disse. Esse interesse renovado, acredita, indica que a f\u00edsica biol\u00f3gica ainda tem um longo caminho de descobertas pela frente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Escola em F\u00edsica Biol\u00f3gica em Escalas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Com duas semanas de dura\u00e7\u00e3o, a escola contou, al\u00e9m das aulas de William Bialek sobre a f\u00edsica estat\u00edstica de redes biol\u00f3gicas, com aulas do professor Mauro Copelli (UFPE) sobre criticidade cerebral; de Patricia Bassereau (Instituto Curie, Fran\u00e7a) sobre biomembranas; de Christoph Weber (Universidade de Augsburg, Alemanha) sobre got\u00edculas ativas na biologia celular; e de Juan Carlos Rocha (Centro de Resili\u00eancia de Estocolmo, Su\u00e9cia) sobre transi\u00e7\u00f5es cr\u00edticas em ecossistemas. O evento reuniu 51 participantes entre estudantes de gradua\u00e7\u00e3o, p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e pesquisadores de sete pa\u00edses dos continentes americano, asi\u00e1tico e europeu interessados em compreender transi\u00e7\u00f5es de fase em sistemas vivos, de mol\u00e9culas e organelas at\u00e9 organismos e ecossistemas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sobre o ICTP-SAIFR<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O Instituto Sul-Americano para Pesquisa Fundamental (ICTP-SAIFR) \u00e9 um centro internacional na cidade de S\u00e3o Paulo criado por meio de uma colabora\u00e7\u00e3o entre o Centro Internacional de F\u00edsica Te\u00f3rica (ICTP) na It\u00e1lia, o IFT-Unesp e a Fapesp. Suas atividades incluem pesquisa em F\u00edsica Te\u00f3rica e suas aplica\u00e7\u00f5es, bem como escolas e workshops para alunos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e pesquisadores. O ICTP-SAIFR tamb\u00e9m promove divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e a\u00e7\u00f5es de extens\u00e3o junto a professores e estudantes de Ensino M\u00e9dio e p\u00fablico geral. Mais informa\u00e7\u00f5es sobre os projetos desenvolvidos est\u00e3o dispon\u00edveis no site <a href=\"https:\/\/www.ictp-saifr.org\/\">ictp-saifr.org<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>William Bialek, professor da Universidade de Princeton, discute as transforma\u00e7\u00f5es dessa \u00e1rea O que t\u00eam em comum a maneira como prote\u00ednas assumem formas espec\u00edficas dentro das c\u00e9lulas, o desenvolvimento de um embri\u00e3o e o comportamento coletivo de p\u00e1ssaros? 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