{"id":29589,"date":"2025-11-21T15:48:43","date_gmt":"2025-11-21T18:48:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/?p=29589"},"modified":"2025-11-21T15:48:43","modified_gmt":"2025-11-21T18:48:43","slug":"a-ciencia-nao-e-neutra-diop-epistemicidio-e-o-desafio-da-fisica-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/a-ciencia-nao-e-neutra-diop-epistemicidio-e-o-desafio-da-fisica-brasileira\/","title":{"rendered":"A ci\u00eancia n\u00e3o \u00e9 neutra: Diop, Epistemic\u00eddio e o Desafio da F\u00edsica Brasileira"},"content":{"rendered":"\n<p>\u201cN\u00f3s somos o \u00fatero do mundo. Mais de 80% da vida humana aconteceu no continente africano. Muitos dizem que a \u00c1frica \u00e9 o ber\u00e7o da humanidade. Mas isso reduz a nossa import\u00e2ncia. Um ber\u00e7o \u00e9 para beb\u00eas. A humanidade n\u00e3o era um beb\u00ea quando viveu na \u00c1frica; era adulta, s\u00e1bia. O que deixamos n\u00e3o foi um ber\u00e7o, foi uma casa. Um templo. Uma universidade. Uma ind\u00fastria. Deixamos sabedoria, espiritualidade, ci\u00eancia, conhecimento do cosmos. N\u00e3o apenas um ber\u00e7o.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A frase \u00e9, segundo o jornal Brasil de Fato, da rainha Diambi Kabatusuila Tshiyoyo Muata, soberana tradicional do povo Bakwa Luntu, da Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo, que no dia 12 de novembro esteve na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) a fim de participar da confer\u00eancia \u201cConflu\u00eancias do Real: um Di\u00e1logo Bantu-Brasil\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa ideia refor\u00e7a as aulas do professor Dr. Senakpon Fabrice Fid\u00e8le Kpoholo, da Rep\u00fablica do Benin, no Minicurso Africanidades, da Axovi Educa\u00e7\u00e3o. No curso, ele explica&nbsp; o florescimento da civiliza\u00e7\u00e3o na \u00c1frica, a uni\u00e3o do Nilo Alto e do Nilo Baixo, os nomes ancestrais do Egito, que foram apagados pela tradu\u00e7\u00e3o dos gregos, pela posterior domina\u00e7\u00e3o romana e europeia. E, segundo Senakpon, ap\u00f3s 17 mil anos de ascens\u00e3o e queda do Imp\u00e9rio Eg\u00edpcio, grande parte das na\u00e7\u00f5es africanas foi se formando, inspirada em muito pela experi\u00eancia do Egito antigo.<\/p>\n\n\n\n<p>O professor Senakpon n\u00e3o aborda o que a imprensa j\u00e1 amplamente divulga: fome, mis\u00e9ria, guerra e devasta\u00e7\u00e3o do continente africano, mas sim a heran\u00e7a ancestral da filosofia, da religi\u00e3o, da hist\u00f3ria da humanidade. E n\u00f3s, pela filosofia africana, j\u00e1 somos ancestrais, pois esse conceito n\u00e3o engloba apenas aqueles que j\u00e1 vieram antes de n\u00f3s, mas a heran\u00e7a que vamos deixar daqui a &nbsp;oitenta, cem anos. De acordo com Senakpon, todos temos origens na \u00c1frica h\u00e1 300 mil anos. Foi apenas h\u00e1 cerca de 200 mil anos ap\u00f3s o florescimento do &#8220;homem que sabe&#8221; (homo sapiens), que ocorreu a migra\u00e7\u00e3o para outros continentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante muito tempo, a narrativa dominante ensinou ao mundo que a ci\u00eancia nasceu na Gr\u00e9cia e floresceu na Europa. Mas documentos, inscri\u00e7\u00f5es e an\u00e1lises hist\u00f3ricas revisadas mostram que a base da matem\u00e1tica, da astronomia, da medicina, da escrita e at\u00e9 do calend\u00e1rio usado pelo Ocidente tem origem africana, especialmente no Egito negro. O professor Senalpon apresenta no curso o livro \u201cA origem africana da civiliza\u00e7\u00e3o\u201d, de Cheikh Anta Diop, que demonstra como as ra\u00edzes da ci\u00eancia moderna est\u00e3o profundamente ancoradas em sistemas de conhecimento desenvolvidos milhares de anos antes do surgimento da Europa acad\u00eamica.<\/p>\n\n\n\n<p>Diop afirma de modo direto que a ci\u00eancia moderna n\u00e3o surge na Europa, mas deriva de um corpo de conhecimento eg\u00edpcio de origem africana. Ele escreve que ideias consideradas fundadoras da ci\u00eancia ocidental s\u00e3o, na verdade, heran\u00e7as diretas da cosmologia africana, como a matem\u00e1tica de Pit\u00e1goras, a teoria dos quatro elementos de Tales de Mileto, o materialismo epicurista, o idealismo plat\u00f4nico, o juda\u00edsmo, o islamismo e a ci\u00eancia moderna est\u00e3o enraizados na cosmologia e ci\u00eancia eg\u00edpcias.<\/p>\n\n\n\n<p>O Egito negro n\u00e3o apenas criou sua pr\u00f3pria ci\u00eancia, como fundou as bases da ci\u00eancia europeia. Diop refor\u00e7a essa tese ao afirmar que os povos africanos, particularmente os que habitaram o Vale do Nilo, criaram, antes de qualquer outra civiliza\u00e7\u00e3o, os pilares do conhecimento cient\u00edfico. Os africanos \u201cforam os primeiros a inventar matem\u00e1tica, astronomia, o calend\u00e1rio, ci\u00eancias em geral, artes, religi\u00e3o, agricultura, organiza\u00e7\u00e3o social, medicina, escrita, t\u00e9cnica e arquitetura.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cQuando aprendemos que povos africanos desenvolveram matem\u00e1tica, astronomia, engenharia e medicina antes mesmo de muitos avan\u00e7os europeus, rompemos com uma narrativa colonial que nos convenceu de que pessoas negras \u201cchegaram atrasadas\u201d \u00e0 ci\u00eancia. N\u00e3o \u00e9 verdade. N\u00f3s sempre estivemos l\u00e1\u201d, afirma o f\u00edsico Neilo Marcos Trindade, professor do Instituto de F\u00edsica da USP e vencedor do Pr\u00eamio Anselmo Salles Paschoa de 2024, concedido pela Sociedade Brasileira de F\u00edsica (SBF).<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"280\" height=\"280\" src=\"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Neilo-Trindade.jpg\" alt=\"Neilo Marcos Trindade, professor do Instituto de F\u00edsica da USP e vencedor do Pr\u00eamio Anselmo Salles Paschoa de 2024.\" class=\"wp-image-29591\" style=\"width:402px;height:auto\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Neilo Marcos Trindade, professor do Instituto de F\u00edsica da USP e vencedor do Pr\u00eamio Anselmo Salles Paschoa de 2024.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>\u201cIsso, para um estudante negro, muda tudo: a autoestima, o sentido de pertencimento, a ambi\u00e7\u00e3o profissional. A escola e a universidade deixam de ser espa\u00e7os em que ele est\u00e1 \u2018de favor\u2019 e se tornam espa\u00e7os de herdeiros do conhecimento. Para mim, o ensino de hist\u00f3ria da ci\u00eancia no Brasil s\u00f3 ser\u00e1 completo quando incluir essa dimens\u00e3o ancestral, que fortalece identidades e democratiza o futuro da ci\u00eancia\u201d, afirmou o cientista, em entrevista por e-mail ao <strong>Boletim SBF<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Trindade lembra que sua trajet\u00f3ria come\u00e7ou na periferia, no interior de S\u00e3o Paulo. \u201cCresci em condi\u00e7\u00f5es dif\u00edceis, s\u00f3 com a minha m\u00e3e, ouvindo que estudar \u2018n\u00e3o levaria a lugar nenhum\u2019. Quando comecei a apresentar trabalhos em congressos e a circular em espa\u00e7os acad\u00eamicos, senti que a minha presen\u00e7a era sempre colocada \u00e0 prova: desconfian\u00e7a, hostilidade, avalia\u00e7\u00f5es diferentes das de colegas brancos. O racismo raramente era direto; surgia em frases como: \u2018N\u00e3o \u00e9 o seu momento agora.\u2019; \u2018Voc\u00ea n\u00e3o est\u00e1 pronto para essa vaga.\u2019; \u2018USP ou Unesp n\u00e3o s\u00e3o para voc\u00ea.\u2019 Foram experi\u00eancias duras, mas tamb\u00e9m formadoras. Elas me ensinaram que o cientista negro n\u00e3o luta apenas com equa\u00e7\u00f5es e experimentos, mas com barreiras invis\u00edveis que tentam apagar nosso protagonismo. Isso me fortaleceu e me deu consci\u00eancia do compromisso que tenho em abrir espa\u00e7o para quem vem depois.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Trindade acredita que a f\u00edsica brasileira poderia se beneficiar de uma integra\u00e7\u00e3o maior entre epistemologias africanas, saberes tradicionais e pesquisa acad\u00eamica contempor\u00e2nea. \u201cEu acredito profundamente que diversidade \u00e9 motor de excel\u00eancia cient\u00edfica. Cada trajet\u00f3ria carrega uma forma de ler o mundo, e isso impacta diretamente o tipo de pergunta que fazemos e os problemas que buscamos resolver. Integrar epistemologias africanas e saberes tradicionais na f\u00edsica n\u00e3o significa abandonar o rigor cient\u00edfico, mas significa expandir nossas possibilidades de investiga\u00e7\u00e3o. Uma ci\u00eancia constru\u00edda por pessoas de diferentes origens se torna mais inovadora e mais conectada com a sociedade real. Ela se torna uma ci\u00eancia que serve a todos.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Taneska Cal, mulher preta cis, m\u00e3e de Makini, f\u00edsica, pesquisadora e integrante da comiss\u00e3o de Justi\u00e7a, Equidade, Diversidade e Igualdade (JEDI) da Sociedade Brasileira de F\u00edsica (SBF), afirma que em \u201cum contexto hostil de estruturas declaradamente colonialistas, racista e a cultura antinegro institucionalizada, o cientista africano Cheikh Anta Diop assumiu o embate acad\u00eamico\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEle \u00e9 uma inspira\u00e7\u00e3o! Diop apresentou modelos, experi\u00eancias, evid\u00eancias e narrativas a partir de epistemologias contra-hegem\u00f4nicas. Foi um cientista com perspectivas inter- e transdisciplinares que sustentou a tese de que as ci\u00eancias surgiram na \u00c1frica. Sendo a humanidade oriunda do continente africano. Perseguido durante sua vida, ele teve seus achados e trabalhos confirmados em v\u00e1rias pesquisas. Atualmente, virou jarg\u00e3o para chamar o continente africano de ber\u00e7o da humanidade, nem sempre foi assim\u201d, explica Taneska.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"352\" height=\"413\" data-src=\"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Taneska-Cal.jpg\" alt=\"Taneska Cal, integrante da comiss\u00e3o de Justi\u00e7a, Equidade, Diversidade e Igualdade (JEDI) da SBF.\" class=\"wp-image-29592 lazyload\" style=\"--smush-placeholder-width: 352px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 352\/413;width:446px;height:auto\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Taneska Cal, integrante da comiss\u00e3o de Justi\u00e7a, Equidade, Diversidade e Igualdade (JEDI) da SBF.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Segundo ela, a F\u00edsica j\u00e1 era desenvolvida por civiliza\u00e7\u00f5es africanas em per\u00edodos que antecedem as demarca\u00e7\u00f5es ocidentais sobre a natureza das ci\u00eancias. \u201cEntender isso pode ajudar a romper com esse modo discriminat\u00f3rio de construir, ensinar e divulgar ci\u00eancias. Para Katemari Rosa, Alan Alves Brito e B\u00e1rbara Carine no texto \u201c<a href=\"https:\/\/scispace.com\/pdf\/pos-verdade-para-quem-fatos-produzidos-por-uma-ciencia-4v8q5kw4yj.pdf\">P\u00f3s-verdade para quem? Fatos produzidos por uma ci\u00eancia racista<\/a>\u201d, publicado no Caderno Brasileiro de Ensino de F\u00edsica (2020), a hist\u00f3ria da ci\u00eancia moderna e contempor\u00e2nea promoveu o epistemic\u00eddio, demarca\u00e7\u00e3o das ci\u00eancias hegem\u00f4nicas e euroc\u00eantricas. Essas que foram fundamentalmente constitu\u00eddas pela apropria\u00e7\u00e3o ind\u00e9bita, invisibilidade de povos africanos e a cultura antinegro\u201d, afirma a pesquisadora, em texto enviado por e-mail.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Escravizados e Imigrantes<\/h2>\n\n\n\n<p>O colonialismo, fundamentado na ideia de que haveria uma evolu\u00e7\u00e3o natural das civiliza\u00e7\u00f5es e que, portanto, tudo o que fosse diferente da sociedade europeia era considerado como atrasado, devastou a \u00c1frica e criou um dos maiores crimes da humanidade ao transformar em escravos o povo negro. Segundo o jornalista Laurentino Gomes, no livro \u201cEscravid\u00e3o::do primeiro leil\u00e3o de cativos em Portugal at\u00e9 a morte de Zumbi dos Palmares\u201d (Editora Globo), 12,5 milh\u00f5es de pessoas foram violentamente retiradas da \u00c1frica e enviadas para as Am\u00e9ricas, de acordo com o banco de dados Slave Voyages.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais de 2 milh\u00f5es de pessoas morreram s\u00f3 na travesseia do Oceano Atl\u00e2ntico e, dos que sobreviveram, 4,9 milh\u00f5es desembarcaram no Brasil entre 1500 e 1850 para serem escravos em planta\u00e7\u00f5es de cana-de-a\u00e7\u00facar, minas de ouro e lavouras de algod\u00e3o e caf\u00e9. Regina Maria D\u2019Aquino Fonseca Gadella em sua tese de doutorado, defendida em 1982, pela Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica (PUC) de S\u00e3o Paulo \u201cOs N\u00facleos Coloniais e o Processo de Acumula\u00e7\u00e3o Cafeeira (1850-1920): Contribui\u00e7\u00e3o ao Estudo da Coloniza\u00e7\u00e3o em S\u00e3o Paulo\u201d relata n\u00e3o apenas a busca por imigrantes ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o, mas d\u00e1 um panorama sobre os horrores do pensamento da \u00e9poca.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com a tese, a prosperidade do Segundo Reinado na segunda metade do s\u00e9culo 19 era reflexo, em grande medida, da expans\u00e3o do cultivo e aumento das exporta\u00e7\u00f5es brasileiras de caf\u00e9. Entre 1850 e 1860 haviam sido exportadas 26.253 milh\u00f5es de sacas de caf\u00e9, representando 48,7% das exporta\u00e7\u00f5es totais. No dec\u00eanio entre 1880 e 1890, as exporta\u00e7\u00f5es somaram 48,217 milh\u00f5es de sacas, representando 60,2% da pauta exportadora do Pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>A expans\u00e3o do pre\u00e7o do caf\u00e9, segundo a autora, ocorrida em 1857, retardou por tr\u00eas d\u00e9cadas a ado\u00e7\u00e3o do trabalho livre e aprofundou a explora\u00e7\u00e3o dos escravos, mesmo quando o tr\u00e1fico internacional africano havia sido proibido. Isso acabou elevando o pre\u00e7o dos escravos, levando os fazendeiros a elevarem a propor\u00e7\u00e3o do capital imobilizado, transformando o escravo em verdadeiro \u201ccapital fixo\u201d, sobre o qual banqueiros aceitavam garantias hipotec\u00e1rias. O valor do escravo chegava a representar at\u00e9 90% da fazenda.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO sistema escravagista s\u00f3 entraria em crise ap\u00f3s 1879, quando se esgotam as fontes externas, fornecedoras de escravos provindos do Norte e Nordeste do Pa\u00eds, proporcionando grande eleva\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o desta \u2018mercadoria\u2019. Tudo indica que tamb\u00e9m dobrou a explora\u00e7\u00e3o do trabalho escravo, neste per\u00edodo, aumentando o \u00edndice de mortalidade da popula\u00e7\u00e3o infantil, sobretudo ap\u00f3s a promulga\u00e7\u00e3o da Lei do Ventre Livre\u201d, explica a autora, em pesquisa que este rep\u00f3rter realizou no documento original, na Biblioteca da PUC-SP, em 2015.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o alto pre\u00e7o dos escravos, os fazendeiros os concentraram na lavoura de exporta\u00e7\u00e3o, tendo a necessidade de comprar alimentos b\u00e1sicos como milho, feij\u00e3o e arroz nos centros urbanos, que por sua vez os importavam dos Estados Unidos e da Europa. Com a aboli\u00e7\u00e3o, aliada obviamente aos altos pre\u00e7os da escravid\u00e3o, o Pa\u00eds come\u00e7a a receber mais imigrantes europeus, que uma vez aqui, eram mantidos em regime an\u00e1logo \u00e0 escravid\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Um equil\u00edbrio distante<\/h2>\n\n\n\n<p>H\u00e1, no entanto, uma grande diferen\u00e7a entre ex-escravizados e imigrantes brancos europeus; estes, chegaram com a ideia de fazer fortuna no Pa\u00eds, apesar de tantas barreiras e viol\u00eancias; aqueles, j\u00e1 exauridos pelo crime que sofriam, carregaram o preconceito baseado na cor, e viveram \u00e0 mingua, sem terra para plantar, sem comida, sem futuro.\u00a0 E as injusti\u00e7as continuam at\u00e9 hoje, com falta de moradia, educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e condi\u00e7\u00f5es dignas de desenvolvimento. Pol\u00edticas p\u00fablicas t\u00eam sido implementadas, mas ainda n\u00e3o \u00e9 suficiente.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cBuscar reflex\u00f5es sobre as bases da Ci\u00eancia Moderna e Contempor\u00e2nea com criticidade para entender que a l\u00f3gica das rela\u00e7\u00f5es raciais e suas estruturas s\u00e3o excludentes, e ainda presentes em nossa sociedade. Os fatores sociais, pol\u00edticos, culturais, econ\u00f4micos, entre outros, atuam diretamente na constru\u00e7\u00e3o, divulga\u00e7\u00e3o e acesso \u00e0s ci\u00eancias. Afinal, a F\u00edsica \u00e9 um construto humano. Nesse sentido, os esfor\u00e7os para tornar esse campo cient\u00edfico com mais justi\u00e7a, diversidade, igualdade e equ\u00e2nime\u201d, afirma Taneska.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cUm estudo diagn\u00f3stico da Sociedade Brasileira de F\u00edsica (SBF) identificou disparidades verticais de exclus\u00e3o que vinculam mulheres negras na F\u00edsica \u00e0 invisibilidade (ANTENEADO; BRITO; ALEXANDRE; D&#8217;AVILA, 2020). Os desafios persistentes na representa\u00e7\u00e3o permanecem, como a baixa propor\u00e7\u00e3o de mulheres e pessoas negras na F\u00edsica, bem como as dificuldades estruturais que esses grupos enfrentam em ambientes acad\u00eamicos e pesquisas de ponta\u201d, afirma ela.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a pesquisadora, as pol\u00edticas de a\u00e7\u00f5es afirmativas s\u00e3o necess\u00e1rias para reparar as exclus\u00f5es e combater o racismo estrutural. A pol\u00edtica de cotas raciais \u00e9 essencial para reduzir desigualdades raciais estruturais, pois ataca a base do sistema de barragem brasileiro; \u00e9 um efeito da dificuldade de ordem estrutural, institucional e subjetiva.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNo significado estrito barragem s\u00e3o barreiras que impedem o fluxo, cont\u00e9m, restringe, impede e interrompem um sistema historicamente projetado para expulsar, filtrar e controlar o acesso da popula\u00e7\u00e3o negra aos circuitos formais de poder simb\u00f3lico, segundo argumentei na <a href=\"https:\/\/repositorio.ufba.br\/bitstream\/ri\/35131\/1\/dissertacao%20repositorio.pdf\">minha disserta\u00e7\u00e3o<\/a> de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o na Universidade Federal da Bahia e Universidade Estadual de Feira de Santana para obten\u00e7\u00e3o de grau de mestre em Ensino, Filosofia e Hist\u00f3ria das Ci\u00eancias em 2021\u201d, explica a pesquisadora.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA Sociedade Brasileira de F\u00edsica, a partir de seus associados, comiss\u00e3o, estudos, apoios, vem compondo a\u00e7\u00f5es para enfrentar as desigualdades impostas nas rela\u00e7\u00f5es raciais. Busca contribuir para a promo\u00e7\u00e3o de maior equidade no campo da F\u00edsica no Brasil, especialmente a comiss\u00e3o JEDI, que visa incentivar maior diversidade na comunidade cient\u00edfica\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>Em novembro de 2024, Taneska teve a miss\u00e3o de representar a f\u00edsica brasileira na <a href=\"https:\/\/nsbp.org\/page\/2024conferencewrapup\">NSBP Joint Conference<\/a>, reaizada em Houston, no Texas. Em painel apresentou \u201cPhysics in Brazil: Profile and Diversity in Science\u201d. Essa foi uma oportunidade de aproximar as f\u00edsicas e os f\u00edsicos negros brasileiros, norte-americanos e esp\u00e2nicos. De 3 a 5 de dezembro de 2025, em Salvador (BA), ir\u00e1 acontecer <a href=\"https:\/\/www1.fisica.org.br\/wffn\/2025\/index.php\/pt\/\">1\u00ba Workshop de F\u00edsicas(os) Afrodescendentes Brasileiras(os) e Americanas(os) (WFA)<\/a>. Esse evento \u00e9 um marco hist\u00f3rico que reunir\u00e1 f\u00edsicas e f\u00edsicos negros diasp\u00f3ricos para dialogar sobre pesquisas, formar redes e projetar a\u00e7\u00f5es futuras.<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, a JEDI abriu <a href=\"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/boletim\/2025_042.html\">sele\u00e7\u00e3o de novos membros<\/a>, no per\u00edodo de 07 a 24 de novembro, para pessoas interessadas em integrar a comiss\u00e3o. A JEDI trabalha transversalmente nas atividades da SBF, realiza encontros tem\u00e1ticos, participa de sele\u00e7\u00f5es e premia\u00e7\u00f5es. A finalidade \u00e9 garantir espa\u00e7o de di\u00e1logos e a\u00e7\u00f5es para a supera\u00e7\u00e3o do racismo e de outras formas de exclus\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEu quero ver mais pessoas negras entrando (nas ci\u00eancias exatas), permanecendo e liderando na ci\u00eancia brasileira. Para isso, considero essenciais programas de apoio estudantil, redes de mentoria, financiamento espec\u00edfico para grupos sub-representados e pol\u00edticas institucionais que assegurem protagonismo e n\u00e3o apenas presen\u00e7a. Meu compromisso \u00e9 contribuir para que jovens negros encontrem portas abertas na ci\u00eancia, com caminhos mais justos e resultados que transformem comunidades e o pa\u00eds\u201d, afirma Trindade.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNa academia, o racismo se manifesta principalmente de forma velada: d\u00favidas constantes sobre a compet\u00eancia, crit\u00e9rios subjetivos de avalia\u00e7\u00e3o e barreiras ocultas para a ocupa\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os de lideran\u00e7a. \u00c9 indispens\u00e1vel reconhecer que essa estrutura desigual existe e que precisa ser combatida com pol\u00edticas cont\u00ednuas, forma\u00e7\u00e3o antirracista, transpar\u00eancia em processos de progress\u00e3o na carreira e valoriza\u00e7\u00e3o efetiva da diversidade. O objetivo \u00e9 que pesquisadores negros n\u00e3o precisem provar o tempo todo que merecem estar onde est\u00e3o, que possam exercer seu trabalho com dignidade e oportunidades iguais\u201d, afirma o cientista da USP.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Um canto de afirma\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>A Semana da Consci\u00eancia Negra n\u00e3o basta para discutir o tema, que deveria ser debatido o ano todo, o que tem sido feito gra\u00e7as ao JEDI. E essa luta ecoa um sonho antigo e importante, com representatividade forte tamb\u00e9m na arte: um evento marcante ocorreu na noite de 22 de novembro de 1981, em plena Ditadura Militar. Milton Nascimento e setores progressistas da Igreja Cat\u00f3lica realizaram na Pra\u00e7a do Carmo, no Centro do Recife, a \u201c<a href=\"https:\/\/open.spotify.com\/intl-pt\/album\/0Mq1xwdNhx0ytGC63PywJd?si=mI9hVxp1Tp-pjXOjc3b4Ww\">Missa dos Quilombos<\/a>\u201d, que virou disco em 1982, com a fus\u00e3o dos tambores e melodias que penetram fundo na alma.<\/p>\n\n\n\n<p>Organizada por Dom H\u00e9lder C\u00e2mara, arcebispo de Olinda e Recife, a missa reuniu mais de 6 mil cat\u00f3licos progressistas, com a participa\u00e7\u00e3o do poeta Pedro Tierra, no mesmo lugar onde a cabe\u00e7a do l\u00edder quilombola Zumbi dos Palmares foi exibida depois de sua execu\u00e7\u00e3o, em 20 de novembro de 1695.<\/p>\n\n\n\n<p>Em discurso corajoso e inspirador, Dom Helder C\u00e2mara evocou a defesa dos negros, lembrando tamb\u00e9m que seus problemas est\u00e3o ligados a todos os problemas da humanidade, na m\u00fasica \u201cMarcha Final (De Banzo e Esperan\u00e7a) \/ Invoca\u00e7\u00e3o \u00e0 Mariama\u201d, que antecede ao \u00e1pice da can\u00e7\u00e3o \u201cPai Grande\u201d. Ele defendeu ainda, de forma emocionante, o fim da \u201cmaldita produ\u00e7\u00e3o de armas\u201d e um mundo sem escravos, mas de irm\u00e3os. Que a chama da vela dessa reza nunca se apague para que a igualdade racial e econ\u00f4mica e a paz se tornem uma realidade no Pa\u00eds e no mundo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>(Colaborou Roger Marzochi)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cN\u00f3s somos o \u00fatero do mundo. Mais de 80% da vida humana aconteceu no continente africano. Muitos dizem que a \u00c1frica \u00e9 o ber\u00e7o da humanidade. Mas isso reduz a nossa import\u00e2ncia. Um ber\u00e7o \u00e9 para beb\u00eas. A humanidade n\u00e3o era um beb\u00ea quando viveu na \u00c1frica; era adulta, s\u00e1bia. 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