{"id":29408,"date":"2025-10-31T14:33:37","date_gmt":"2025-10-31T17:33:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/?p=29408"},"modified":"2025-10-31T15:23:33","modified_gmt":"2025-10-31T18:23:33","slug":"um-abraco-de-anos-luz-em-anibal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/um-abraco-de-anos-luz-em-anibal\/","title":{"rendered":"Um abra\u00e7o de anos-luz em An\u00edbal"},"content":{"rendered":"\n<p>A morte \u00e9 a nossa maior certeza e o nosso maior mist\u00e9rio, um tema que levanta pol\u00eamica entre ci\u00eancia, espiritualidade e filosofia. \u00c9 preciso respeitar tudo que h\u00e1 no mundo, mas para longe de se discutir se h\u00e1 ou n\u00e3o vida ap\u00f3s a morte, \u00e9 na fus\u00e3o da poesia concreta de Augusto de Campos com a musicalidade de Caetano Veloso em \u201cPulsar\u201d, m\u00fasica gravada pelo m\u00fasico baiano em 1986, em que se espraiaram os sentimentos da dist\u00e2ncia imensa entre a partida do professor An\u00edbal Fonseca de Figueiredo Neto, aos 67 anos, em tr\u00e1gico acidente no dia 24 de outubro e a saudade que deixa entre a fam\u00edlia, cientistas e museus nos quais o f\u00edsico de Bel\u00e9m (PA) criou um misto de arte e brinquedos cient\u00edficos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cSempre adorei ci\u00eancias e me tornei professor por acreditar que todo mundo deveria saber um pouco mais acerca dos fen\u00f4menos naturais e da tecnologia presente no nosso dia a dia. Por achar que todas as crian\u00e7as deveriam saber por que o c\u00e9u \u00e9 azul, por que a Lua n\u00e3o cai, como os \u00f3culos corrigem a nossa vis\u00e3o e uma s\u00e9rie de outras curiosidades que ainda temos mesmo depois de adulto\u201d, diz o professor An\u00edbal, em um v\u00eddeo no YouTube. Conhecido por todos como alegre, irreverente, extremamente humano, cr\u00edtico de uma suposta superioridade da F\u00edsica sobre todas as outras \u00e1reas da ci\u00eancia e apaixonado por incentivar que a ci\u00eancia seja viva, em um meio de frui\u00e7\u00e3o est\u00e9tica daquilo que \u00e9 intang\u00edvel \u00e0 matem\u00e1tica.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"644\" src=\"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Anibal-Lucas-anos-2000.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-29413\" style=\"width:382px;height:auto\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Professor Anibal com o filho Lucas, em foto do in\u00edcio dos anos 2000.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Emocionado com a partida do pai, o publicit\u00e1rio Lucas Dini lembra do carinho e do amor com os quais ele foi criado, sempre dentro do laborat\u00f3rio-f\u00e1brica de onde sa\u00edram brinquedos art\u00edstico-cient\u00edficos para museus de v\u00e1rias do Brasil. Ele nunca esquece que, desde pequeno, o pai buscava lhe explicar a f\u00edsica por tr\u00e1s de fen\u00f4menos simples do cotidiano: como o motivo de o lacre de alum\u00ednio dos copinhos de pl\u00e1stico se elevar sozinho quando se sobe uma serra ou se viaja de avi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c\u00c9 a diferen\u00e7a de press\u00e3o\u201d, dizia o pai. \u201cL\u00e1 em cima, a press\u00e3o do ar diminui, e o ar preso dentro do copo se expande, empurrando o alum\u00ednio para fora\u201d, lembra Lucas. \u201cEle explicava para mim, explicava para a aeromo\u00e7a, explicava para todos: quem estivesse passando ali, sentado na frente, sentado atr\u00e1s, ele fazia quest\u00e3o. Tem muito sentido para mim isso, desses primeiros momentos\u201d, diz o publicit\u00e1rio, que continuar\u00e1 o legado do pai. \u201cO legado que meu pai deixou \u00e9 para ter orgulho demais. Um orgulho gigantesco\u201d, afirma ele, que tamb\u00e9m \u00e9 m\u00fasico e cujo grupo de samba Camisa Feia chegava a reunir at\u00e9 400 pessoas no galp\u00e3o do antigo endere\u00e7o da empresa-laborat\u00f3rio do pai no Largo da Batata, Zona Oeste de S\u00e3o Paulo. An\u00edbal amava samba, e MPB de Caetano e Chico Buarque. Quando sa\u00eda para dan\u00e7ar, levava camisetas extras, para trocar no baile e n\u00e3o estar completamente suado quando tirasse algu\u00e9m para dan\u00e7ar.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Dos brinquedos cient\u00edficos a instala\u00e7\u00f5es robustas e belas<\/h2>\n\n\n\n<p>Lu\u00eds Carlos Bassalo Crispino, coordenador da P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em F\u00edsica da Universidade Federal do Par\u00e1 (UFPA), cultivou uma grande amizade com An\u00edbal. O seu tio, ali\u00e1s, era o professor Jos\u00e9 Maria Filardo Bassalo, que foi quem incentivou An\u00edbal a cursar F\u00edsica na Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) na d\u00e9cada de 1980. Crispino montou na UFPA o Museu Interativo da F\u00edsica com um conjunto inicial de instala\u00e7\u00f5es constru\u00eddas por An\u00edbal em 2008. An\u00edbal costumava dizer que \u201ca pessoa, quando chega diante de uma instala\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, ela tem que aprender, mas tem que se alegrar n\u00e3o s\u00f3 pelo aprendizado, ela tamb\u00e9m se alegra pela beleza pl\u00e1stica daquilo que ela est\u00e1 diante\u201d, contou Crispino, que foi vencedor do 45\u00ba Pr\u00eamio Jos\u00e9 Reis de Divulga\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica e Tecnol\u00f3gica, concedido neste ano na categoria Pesquisador e Escritor pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico (CNPq). Crispino afirma que o amigo An\u00edbal, que conheceu quando tamb\u00e9m estudava na USP, por volta de 1990, buscava construir instala\u00e7\u00f5es cient\u00edficas que causassem emo\u00e7\u00e3o. \u201cTem que ser algo que d\u00ea prazer n\u00e3o s\u00f3 para o intelecto\u201d, pensava An\u00edbal.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"485\" data-src=\"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Gerador-Van-de-Graaff-Museu-Catavento.jpg\" alt=\"Gerador Van de Graaff exposto no Museu Catavento.\" class=\"wp-image-29412 lazyload\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" style=\"--smush-placeholder-width: 800px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 800\/485;\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Gerador Van de Graaff exposto no Museu Catavento.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Segundo Crispino, An\u00edbal criava seus equipamentos cient\u00edficos com qualidade e robustez, a ponto de o Museu Interativo da F\u00edsica da UFPA manter ainda hoje os equipamentos iniciais em pleno funcionamento. \u201cTem coisas que eu comprei dele em 2008, e n\u00f3s estamos em 2025, entende? E elas continuam funcionando muito bem. Claro que passaram por manuten\u00e7\u00f5es, algumas delas \u00e0 dist\u00e2ncia, com os equipamentos aqui em Bel\u00e9m e ele em S\u00e3o Paulo, dando orienta\u00e7\u00f5es por telefone e por v\u00eddeos\u201d, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>Crispino lembra de algumas das inspira\u00e7\u00f5es na vida do amigo: An\u00edbal se encantou com as \u201cm\u00e1gicas\u201d dos camel\u00f4s do centro de S\u00e3o Paulo, chegando at\u00e9 mesmo em defender um curso de f\u00edsica para camel\u00f4s. An\u00edbal ficou encantado com os camel\u00f4s realizarem truques que (sem que eles soubessem) tinham a f\u00edsica e a ci\u00eancia como base. Um destes truques era baseado na mec\u00e2nica dos fluidos, no experimento cl\u00e1ssico do ludi\u00e3o. O camel\u00f4 fazia press\u00e3o em um recipiente flex\u00edvel com \u00e1gua, e uma caneta descia. Aquilo parecia m\u00e1gica, mas era f\u00edsica, era ci\u00eancia. A disserta\u00e7\u00e3o de mestrado de An\u00edbal acabou n\u00e3o sendo sobre um curso de f\u00edsica para camel\u00f4s, mas teve como tema \u201cA F\u00edsica, o L\u00fadico e a Ci\u00eancia no 1\u00ba Grau\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Truques podem fascinar crian\u00e7as e motiv\u00e1-las a aprender F\u00edsica. An\u00edbal entendia muito bem a import\u00e2ncia em uma crian\u00e7a aprender brincando, da\u00ed a ideia dos brinquedos cient\u00edficos. Ali\u00e1s, empresa de An\u00edbal tinha inicialmente o nome de &#8220;Atelier de Brinquedos Cient\u00edficos&#8221;, com base nesta ideia.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o passar do tempo veio a necessidade de construir instala\u00e7\u00f5es cient\u00edficas de maior porte, para equipar os centros e museus de ci\u00eancias por todo o pa\u00eds. Mas An\u00edbal nunca abandonou os brinquedos cient\u00edficos, uma prova isso foi o projeto Brinca Ci\u00eancia, desenvolvido juntamente com a prefeitura de Santo Andr\u00e9, nas escolas municipais daquela cidade. \u201cA maior dificuldade de uma regi\u00e3o em se desenvolver, para mim e para todo mundo, est\u00e1 diretamente relacionada com a forma\u00e7\u00e3o que as crian\u00e7as e jovens deixaram de ter na educa\u00e7\u00e3o fundamental, na educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica\u201d, afirma Crispino, que defende que o projeto desenvolvido por An\u00edbal no ABC paulista, deveria ser replicado em todo o Pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">De Freire a Boal<\/h2>\n\n\n\n<p>\u201cA experi\u00eancia do An\u00edbal como f\u00edsico tem muito do contato que ele teve com Paulo Freire e outros autores que refletem sobre a condi\u00e7\u00e3o humana, em especial, a partir do momento em que a humanidade adquire um conhecimento t\u00e3o vasto que muitas pessoas acabam sendo alijadas desse conhecimento\u201d, explica o professor de f\u00edsica Arnaldo Vaz, do Col\u00e9gio T\u00e9cnico da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e ex-Secret\u00e1rio para Assuntos de Ensino da Sociedade Brasileira de F\u00edsica (SBF). \u201cEle se inspirava muito tamb\u00e9m em Augusto Boal e seu Teatro do Oprimido\u201d, explica o professor.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO Freire era categ\u00f3rico: n\u00e3o era para repetir as palavras dele, era para inspirar. E o An\u00edbal foi uma dessas pessoas que conseguiu fazer isso. Um f\u00edsico conscientizador, um f\u00edsico artista, que conseguia, \u2013 por ter sido, talvez, ator de teatro amador, ter sido, inclusive, coroinha \u2013&nbsp; ser uma pessoa que prezava pela cultura amaz\u00f4nica\u201d, complementa Vaz, lembrando das reuni\u00f5es na casa de An\u00edbal nas quais ele preparava pratos t\u00edpicos do Par\u00e1 em uma rep\u00fablica na Bela Vista. \u201cEra uma das coisas que nos unia. Ele era um grande agregador. Ao mesmo tempo, ele era muito cr\u00edtico da incoer\u00eancia dos seres humanos, apesar de todos sermos incoerentes, ele conseguia, com muita alegria, com uma capacidade de fazer rir sobre as nossas contradi\u00e7\u00f5es, isso desde a gradua\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Em plena Ditadura Militar, Vaz lembra que An\u00edbal era um cr\u00edtico dos interventores da USP impostos por Paulo Maluf, ent\u00e3o governador do Estado, mas igualmente mordaz com partidos de esquerda que recebiam apoio estrangeiro. Al\u00e9m disso, An\u00edbal n\u00e3o reagia bem \u00e0 tend\u00eancia do F\u00edsicos de se sentirem superiores a outras \u00e1reas de atua\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de questionar a pr\u00e1tica de produ\u00e7\u00e3o de relat\u00f3rios, muitos dos quais, eram comprados pelos alunos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEle era generoso, atento, sens\u00edvel e, nesse sentido, ele conseguia fazer cr\u00edticas \u00e0 universidade, como, por exemplo, uma pr\u00e1tica de avalia\u00e7\u00e3o, que, na verdade, n\u00e3o promovia a aprendizagem\u201d, explica Vaz. \u201cAquele sistema de aprendizagem de fazer relat\u00f3rio \u00e9 importante em si, mas a percep\u00e7\u00e3o dos professores de que aquilo n\u00e3o estava funcionando n\u00e3o fazia muita diferen\u00e7a. Em parte, porque no Instituto de F\u00edsica da Universidade de S\u00e3o Paulo, v\u00e1rios professores se consideravam cientistas que tinham que dar aula, e n\u00e3o pessoas que estavam ali educando jovens para serem cientistas.\u201d<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Liceu de V\u00edcios ou de Artes?<\/h2>\n\n\n\n<p>Em webin\u00e1rio realizado por Crispino na pandemia, An\u00edbal lembra que ap\u00f3s o fim da Funda\u00e7\u00e3o Brasileira para o Desenvolvimento do Ensino de Ci\u00eancias (Funbec), na qual ele trabalhou ativamente, chegou a passar em sua cabe\u00e7a em criar um bar que se chamaria Liceu de Artes e V\u00edcios. A op\u00e7\u00e3o, no entanto, foi a de levar a irrever\u00eancia de um ambiente descontra\u00eddo de um bar para aplicar \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de brinquedos cient\u00edficos, em 1991, com a cria\u00e7\u00e3o do Atelier de Brinquedos Cient\u00edficos, hoje conhecida como Ci\u00eancia Prima. Com o sucesso da iniciativa, o f\u00edsico e divulgador cient\u00edfico Ernesto Hamburger indicou An\u00edbal para trabalhar num projeto ousado do ent\u00e3o governador Jos\u00e9 Serra: criar no Pal\u00e1cio das Ind\u00fastrias, um pr\u00e9dio de 1924, no centro de S\u00e3o Paulo, o Museu Catavento, institui\u00e7\u00e3o da Secretaria da Cultura, Economia e Ind\u00fastria Criativas de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"514\" data-src=\"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Sergio-Freitas-small.jpg\" alt=\"Presidente do Conselho de Administra\u00e7\u00e3o do Museu Catavento, Sergio Freitas.\" class=\"wp-image-29411 lazyload\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" style=\"--smush-placeholder-width: 800px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 800\/514;\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Presidente do Conselho de Administra\u00e7\u00e3o do Museu Catavento, Sergio Freitas.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>\u201cO An\u00edbal foi um companheiro de primeira hora. Desde os primeiros momentos em que tra\u00e7amos as linhas gerais aqui do Catavento como um museu de ci\u00eancias\u201d, lembra o presidente do Conselho de Administra\u00e7\u00e3o do Catavento, Sergio Freitas. Em sua concep\u00e7\u00e3o, o Catavento \u00e9 dividido em quatro se\u00e7\u00f5es: Universo, Sociedade, Vida e Engenho. Esta \u00faltima ficou a cargo de An\u00edbal construir com brinquedos cient\u00edficos, que at\u00e9 hoje encantam os visitantes. \u201cA gente dava uma ou outra sugest\u00e3o, mas, na verdade, foi ele quem fez. Ele, obviamente, adorava isso, fez isso anos e anos aqui. E n\u00e3o foi s\u00f3 na montagem do Catavento: durante os 18 anos que estamos aqui, computando os anos de constru\u00e7\u00e3o, um, dois anos, ele colaborou conosco. Al\u00e9m do mais, era muito amigo. Uma pessoa muito simp\u00e1tica, muito simples tamb\u00e9m, muito despojado. Ent\u00e3o, eu tinha uma grande admira\u00e7\u00e3o por ele\u201d, afirma Freitas. \u201cEle era uma pessoa tranquila, emotiva nesse aspecto, assim. Um homem bom. Eu sintetizo colocando-o entre os justos.\u201d<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Monalisa de cabelos arrepiados<\/h2>\n\n\n\n<p>Freitas conta com orgulho que a visita\u00e7\u00e3o m\u00e1xima do Catavento, de 15 mil pessoas por dia, \u00e9 id\u00eantica \u00e0 visita\u00e7\u00e3o m\u00e9dia do Museu do Louvre, em Paris, na Fran\u00e7a, mesmo sem a Monalisa. E, al\u00e9m de atrair gente de todo o Pa\u00eds, o Catavento tamb\u00e9m vai at\u00e9 o interior do Estado de S\u00e3o Paulo. Em parceria com a Secretaria da Cultura, o museu lan\u00e7ou neste ano um projeto de carretas que \u201cs\u00e3o basicamente da \u00e1rea do Engenho, da \u00e1rea do An\u00edbal, que viajam aqui pelos munic\u00edpios do interior e v\u00eam fazendo um bom sucesso\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Freitas lembra que o museu est\u00e1 planejando uma homenagem ao f\u00edsico. \u201cEle realmente merece porque foi uma figura \u00edmpar aqui dentro. N\u00f3s temos outras pessoas que tamb\u00e9m deram contribui\u00e7\u00f5es muito, muito grandes aqui, como a biologia, a S\u00f4nia Lopes foi quem cuidou da Biologia\u201d, afirma Freitas. \u00c9 nesse ala, ali\u00e1s, de onde vem a inspira\u00e7\u00e3o da jovem Manoela, de 14 anos, de Mogi das Cruzes, que pretende seguir a profiss\u00e3o de bi\u00f3loga. Naquele dia, a sua escola realizou duas excurs\u00f5es, uma para o Catavento e outra para o Hopi Hari, mas ela escolheu o Pal\u00e1cio das Ind\u00fastrias.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"493\" data-src=\"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Pedro-Almeida-Small.jpg\" alt=\"Pedro Almeida, Supervisor Educativo do Museu Catavento.\" class=\"wp-image-29410 lazyload\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" style=\"--smush-placeholder-width: 800px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 800\/493;\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Pedro Almeida, Supervisor Educativo do Museu Catavento.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>A entrevista ocorreu enquanto ela brincava na se\u00e7\u00e3o Engenho, criada por An\u00edbal, no brinquedo Gerador de Van de Graaff, cujas cargas el\u00e9tricas fazem com que o cabelo de quem toque o aparelho se arrepie. \u201cEu achei bem legal, uma experi\u00eancia \u00fanica. Eu j\u00e1 tinha testado esse neg\u00f3cio com bal\u00e3o, que tamb\u00e9m faz o cabelo arrepiar. A\u00ed tamb\u00e9m foi muito legal. Eu n\u00e3o gosto do meu cabelo arrepiado, mas dessa vez eu gostei\u201d, disse ela, estudante do 9\u00ba ano do Ensino Fundamental.<\/p>\n\n\n\n<p>Pedro Almeida, Supervisor Educativo do Museu, conta que o gerador \u00e9 a \u201cMonalisa\u201d do Catavento, que instiga a nossa imagina\u00e7\u00e3o sobre como ficaria os cabelos da mo\u00e7a pintada por Leonardo Da Vinci se visitasse o Van de Graaff de An\u00edbal. \u201cA gente tenta at\u00e9 desvincular um pouco (o museu do gerador) para o p\u00fablico saber que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso que a gente tem no museu, s\u00f3 para mostrar o quanto que \u00e9 o resultado que isso traz. Que \u00e9 muito procurado. Claro, tem a m\u00e1quina de fazer raio, que foi tamb\u00e9m constru\u00edda por ele (An\u00edbal), enfim, v\u00e1rios outros\u201d, explica Almeida, que ficou amigo do f\u00edsico paraense logo em seus primeiros dias de trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEle fazia com muito carinho, pensava muito bem nos projetos para que tivesse o melhor resultado poss\u00edvel e se encantar ao ver uma crian\u00e7a, n\u00e3o s\u00f3 a crian\u00e7a, a gente est\u00e1 focando na crian\u00e7a, mas sim, na verdade, todo o p\u00fablico\u201d, diz. \u201cDe ver aquela intera\u00e7\u00e3o com aquele experimento, alguns experimentos de f\u00edsica, mostrar aquele resultado que a gente quebra um pouco essa ideia de que f\u00edsica \u00e9 s\u00f3 para quem est\u00e1 na academia cient\u00edfica, aquela coisa de um g\u00eanio, n\u00e9? Tirar esse misticismo da ideia de ter um g\u00eanio para poder estudar ou interagir com o conte\u00fado de f\u00edsica.\u201d<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Inspira\u00e7\u00e3o e legado<\/h2>\n\n\n\n<p>Marco Andr\u00e9 Almeida Pacheco, professor do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ) criou o projeto Ludoci\u00eancia inspirado por An\u00edbal. \u201cEu tive a ideia de montar um pequeno centro de ci\u00eancias em Volta Redonda dentro do campus do Instituto Federal do Rio de Janeiro e o nome do An\u00edbal me veio \u00e0 mente na \u00e9poca, e assim criamos o Trilha da Ci\u00eancia. Eu conheci o An\u00edbal h\u00e1 mais ou menos uns 20 anos atr\u00e1s numa palestra que ele deu na USP, durante o Simp\u00f3sio Nacional de Ensino de F\u00edsica. Eu assisti aquela palestra e falei assim: esse cara \u00e9 um g\u00eanio e um vision\u00e1rio, porque de fato a gente via as instala\u00e7\u00f5es dos museus de ci\u00eancia\u201d, explica.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Pacheco, o grande legado do An\u00edbal est\u00e1 na arte que ele trouxe para o Brasil. \u201cEle foi um dos pioneiros em juntar esses fen\u00f4menos das ci\u00eancias com essa beleza pl\u00e1stica e o encantamento. E eu ouso dizer que n\u00e3o h\u00e1 quem tenha conhecido o An\u00edbal e quem n\u00e3o tenha se encantado com ele. O An\u00edbal poderia gerir melhor seus neg\u00f3cios, mas acho que ele n\u00e3o estava preocupado com isso. Ele queria sobreviver. Se desse para pagar as contas e sobreviver estava \u00f3timo, ele estava querendo fazer os equipamentos dele e tentava ajudar e encantar todo mundo. Muitas das vezes ele dava brinquedos de gra\u00e7a e n\u00e3o se preocupava com lucro.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Na semana do acidente com An\u00edbal, Pacheco havia tentado traz\u00ea-lo a um evento em Volta Redonda, e se lamenta de n\u00e3o ter insistido para que o amigo estivesse presente, para que o tr\u00e1gico destino fosse evitado. \u201cPassei o s\u00e1bado inteiro, o final da tarde e a noite chorando muito, porque eu achava que eu deveria ter insistido um pouco mais para o Lucas e o An\u00edbal estarem comigo. Mas hoje eu entendo que talvez as coisas aconteceram porque tinha que acontecer e n\u00e3o seria ir para a Volta Redonda que mudaria o rumo das coisas\u201d, lamenta Pacheco.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m sabe os mist\u00e9rios da vida, mas h\u00e1 uma certeza. A inspira\u00e7\u00e3o que An\u00edbal promoveu em tantos professores, cientistas e visitantes dos museus de sua arte educativa continuar\u00e3o vivos. Embora triste com a despedida do amigo, Pacheco comemora o an\u00fancio da inaugura\u00e7\u00e3o da sua primeira exposi\u00e7\u00e3o no Museu Espa\u00e7o Ci\u00eancia em Recife, Pernambuco, no dia 18 de novembro. A ideia \u00e9 continuar estimulando a ci\u00eancia em crian\u00e7as, adolescentes e adultos, como a estudante Lu\u00edsa Cruz Marcon, estudante de Biomedicina da USP.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"768\" data-src=\"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Van-de-Graaff-Luisa-estudante-Biomedicina-da-USP-1024x768.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-29417 lazyload\" style=\"--smush-placeholder-width: 1024px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 1024\/768;width:546px;height:auto\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">A estudante de Biomedicina da USP Lu\u00edsa Cruz Marcon (blusa listrada) junto amigas em visita ao Museu Catavento. <\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>\u201cAcho importante ter museus assim, principalmente para as crian\u00e7as, pois faz um apelo maior para a educa\u00e7\u00e3o, que hoje em dia a gente sabe que \u00e9 muito complicada. E tem muita informa\u00e7\u00e3o falsa tamb\u00e9m na internet. Ent\u00e3o, eu acho que \u00e9 importante ter um apelo maior e as crian\u00e7as se interessam mais principalmente pelas ci\u00eancias, e essas partes que n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o abordadas hoje em dia na educa\u00e7\u00e3o do Brasil\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e9rgio Freitas, ao falar tamb\u00e9m sobre o setor de astronomia, mantido pelo Instituto de Astronomia da USP, lembrou da c\u00e9lebre frase que ganhou destaque na voz de Carl Sagan: h\u00e1 mais estrelas no c\u00e9u do que gr\u00e3os de areia na Terra. H\u00e1, ainda, um pulsar quase mudo, abra\u00e7o de anos-luz, n\u00e3o na poderosa estrela de n\u00eautrons, mas na can\u00e7\u00e3o de Caetano: \u201conde quer que voc\u00ea esteja, em Marte ou Eldorado, abra a janela e veja\u201d que, apesar das dist\u00e2ncias de anos-luz, o amor aqui semeado \u00e9 o que nos mant\u00e9m para sempre conectados no prop\u00f3sito da busca pelo desconhecido.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Assista as entrevistas<\/h2>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe title=\"Um abra\u00e7o de anos-luz em An\u00edbal\" width=\"900\" height=\"506\" data-src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/q83KoJjdewo?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" data-load-mode=\"1\"><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>(Colaborou Roger Marzochi)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A morte \u00e9 a nossa maior certeza e o nosso maior mist\u00e9rio, um tema que levanta pol\u00eamica entre ci\u00eancia, espiritualidade e filosofia. \u00c9 preciso respeitar tudo que h\u00e1 no mundo, mas para longe de se discutir se h\u00e1 ou n\u00e3o vida ap\u00f3s a morte, \u00e9 na fus\u00e3o da poesia concreta de Augusto de Campos com [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":12,"featured_media":29409,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[669],"tags":[1564],"class_list":["post-29408","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-mundo-da-fisica","tag-museu-catavento"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29408","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/users\/12"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29408"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29408\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":29419,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29408\/revisions\/29419"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/media\/29409"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29408"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29408"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29408"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}