{"id":29403,"date":"2025-10-31T11:41:35","date_gmt":"2025-10-31T14:41:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/?p=29403"},"modified":"2025-10-31T11:46:31","modified_gmt":"2025-10-31T14:46:31","slug":"o-som-interno-das-perovskitas-que-brilham-melhor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/o-som-interno-das-perovskitas-que-brilham-melhor\/","title":{"rendered":"O \u201csom\u201d interno das perovskitas que brilham melhor"},"content":{"rendered":"\n<p>As perovskitas halogenadas, que s\u00e3o cristais que v\u00eam transformando a eletr\u00f4nica e a energia solar, acabam de revelar um segredo guardado em sua estrutura at\u00f4mica. Um grupo internacional de cientistas, entre eles o qu\u00edmico brasileiro Marcos Calegari Andrade, professor assistente da Universidade da Calif\u00f3rnia em Santa Cruz, descobriu que esses materiais podem formar padr\u00f5es espont\u00e2neos de polariza\u00e7\u00e3o que se comportam como \u201cparedes invis\u00edveis\u201d, capazes de separar el\u00e9trons e lacunas e prolongar o tempo em que a luz e a eletricidade convivem. O trabalho foi publicado em 24 de setembro de 2025 na revista <em>Physical Review Letters<\/em> com o t\u00edtulo \u201c<a href=\"https:\/\/journals.aps.org\/prl\/abstract\/10.1103\/4kyt-jj6w\"><em>Carrier Localization and Spontaneous Formation of Two-Dimensional Polarization Domain in Halide Perovskites<\/em><\/a><em>\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>As perovskitas halogenadas s\u00e3o materiais h\u00edbridos compostos por elementos como chumbo, c\u00e9sio e bromo, organizados em uma rede c\u00fabica que lembra um mosaico tridimensional. Essa estrutura \u00e9 o que lhes confere propriedades excepcionais: elas s\u00e3o \u00f3timas em capturar e emitir luz. Por isso, v\u00eam sendo testadas em pain\u00e9is solares, LEDs, detectores e c\u00e9lulas fotovoltaicas de nova gera\u00e7\u00e3o. \u201c\u00c9 de extremo interesse que esses materiais tenham alta mobilidade dos portadores de carga. O mecanismo proposto pelo nosso trabalho pode, portanto, contribuir para o desenvolvimento de materiais optoeletr\u00f4nicos mais eficientes\u201d, afirma Andrade, em entrevista por e-mail ao <strong><a href=\"https:\/\/sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/boletim\/boletim-eletronico\/\" title=\"\">Boletim SBF<\/a><\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"533\" src=\"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/Marcos-Headshot-small.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-29405\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Marcos Calegari Andrade, professor assistente da Universidade da Calif\u00f3rnia em Santa Cruz.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Mas havia um mist\u00e9rio: por que as perovskitas mant\u00eam el\u00e9trons e lacunas separados por tanto tempo, sem que se recombinem rapidamente, o que seria esperado em materiais comuns? Essa \u201cpausa\u201d entre cargas el\u00e9tricas \u00e9 o que torna as perovskitas t\u00e3o eficientes, mas at\u00e9 agora o mecanismo exato por tr\u00e1s desse fen\u00f4meno era uma esp\u00e9cie de nota fora da \u201cpartitura cient\u00edfica\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Uma \u201corquestra\u201d de el\u00e9trons e \u00edons<\/h2>\n\n\n\n<p>Para resolver esse enigma, os pesquisadores simularam a dan\u00e7a dos \u00e1tomos, el\u00e9trons e f\u00f4nons (as vibra\u00e7\u00f5es da rede cristalina) de uma perovskita modelo, o CsPbBr\u2083, em escalas de dezenas de nan\u00f4metros. Eles usaram uma abordagem computacional chamada din\u00e2mica n\u00e3o adiab\u00e1tica <em>ab initio<\/em> com acoplamento <em>tight-binding<\/em>, que permite observar como el\u00e9trons e \u00edons interagem em tempo real, como m\u00fasicos improvisando juntos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAs nossas simula\u00e7\u00f5es indicam que a forma\u00e7\u00e3o de dom\u00ednios de polariza\u00e7\u00e3o em CsPbBr\u2083 favorecem a localiza\u00e7\u00e3o de el\u00e9trons e lacunas em extremidades opostas desse dom\u00ednio. O <em>exciton<\/em> formado pelo foto-excita\u00e7\u00e3o do material, portanto, seria estabilizado pela separa\u00e7\u00e3o de carga nestes dom\u00ednios, contribuindo assim a um maior tempo de recombina\u00e7\u00e3o de portadores de carga\u201d, diz Andrade. \u201cSimula\u00e7\u00f5es computacionais de mat\u00e9ria condensada atravessam com frequ\u00eancia as fronteiras de qu\u00edmica e f\u00edsica, sejam elas simula\u00e7\u00f5es com base em teoria cl\u00e1ssica ou qu\u00e2ntica. O nosso trabalho, em espec\u00edfico, estuda um material relevante para as duas ci\u00eancias usando t\u00e9cnicas que tanto f\u00edsicos quanto qu\u00edmicos te\u00f3ricos utilizam em sua pesquisa. Al\u00e9m disso, usamos tanto mec\u00e2nica cl\u00e1ssica (din\u00e2mica dos \u00edons) quanto qu\u00e2ntica (din\u00e2mica dos <em>charge carriers<\/em>) nas nossas simula\u00e7\u00f5es\u201d, explica ele, sobre como este artigo \u00e9 um exemplo de como as fronteiras entre qu\u00edmica e f\u00edsica se dissolvem quando se trata de entender a mat\u00e9ria em n\u00edvel qu\u00e2ntico.<\/p>\n\n\n\n<p>A metodologia da equipe de pesquisa foi essencial porque, nos materiais reais, a estrutura at\u00f4mica vibra constantemente. Os el\u00e9trons n\u00e3o se movem em um palco est\u00e1tico, eles precisam seguir o ritmo imposto pelos f\u00f4nons. Entender como essa coreografia acontece \u00e9 fundamental para explicar o que d\u00e1 \u00e0s perovskitas sua not\u00e1vel performance em dispositivos optoeletr\u00f4nicos.<\/p>\n\n\n\n<p>O estudo revelou que, em temperaturas abaixo de 100 kelvins (ou -173 \u00b0C), as perovskitas passam por uma transforma\u00e7\u00e3o. Mesmo sendo, em princ\u00edpio, materiais n\u00e3o polares, elas formam espontaneamente gr\u00e3os de polariza\u00e7\u00e3o local, regi\u00f5es em que os \u00e1tomos se alinham de modo desigual, criando dom\u00ednios el\u00e9tricos bidimensionais. Esses dom\u00ednios funcionam como \u201cparedes de energia\u201d, capazes de reter el\u00e9trons de um lado e lacunas do outro, evitando que se encontrem e recombinem. \u00c9 como se o cristal criasse, sozinho, salas \u201cac\u00fasticas internas\u201d que impedem que duas notas (a positiva e a negativa) se cancelem. Essa separa\u00e7\u00e3o natural explica o longo tempo de vida dos portadores de carga, uma das caracter\u00edsticas mais intrigantes e valiosas das perovskitas.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">No ritmo dos f\u00f4nons<\/h2>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, os cientistas observaram que o transporte el\u00e9trico em baixas temperaturas n\u00e3o acontece por um fluxo livre, mas por um mecanismo conhecido como salto assistido por f\u00f4nons (<em>phonon-assisted variable-range hopping<\/em>). Nesse processo, os el\u00e9trons \u201cpulam\u201d de uma regi\u00e3o a outra seguindo o compasso das vibra\u00e7\u00f5es da rede cristalina, assim como m\u00fasicos que s\u00f3 podem mudar de tom quando o ritmo permite. A frequ\u00eancia desses saltos est\u00e1 diretamente relacionada ao espectro de pot\u00eancia dos f\u00f4nons, que muda com a temperatura, e \u00e0s oscila\u00e7\u00f5es de energia observadas nas simula\u00e7\u00f5es. Em outras palavras, \u00e9 o pr\u00f3prio som interno do cristal (suas vibra\u00e7\u00f5es microsc\u00f3picas) que dita a forma como a eletricidade se move.<\/p>\n\n\n\n<p>Os resultados conectam, pela primeira vez, a forma\u00e7\u00e3o de dom\u00ednios de polariza\u00e7\u00e3o, o acoplamento el\u00e9tron-f\u00f4non e a din\u00e2mica dos portadores de carga, oferecendo uma explica\u00e7\u00e3o coerente para o comportamento das perovskitas em baixas temperaturas. Essa liga\u00e7\u00e3o entre estrutura e fun\u00e7\u00e3o ajuda a compreender por que as perovskitas continuam funcionando bem mesmo quando imperfeitas, e abre caminho para novos desenhos de materiais optoeletr\u00f4nicos mais est\u00e1veis e eficientes. Ao entender como os el\u00e9trons se organizam e se separam naturalmente, os pesquisadores podem \u201cafinar\u201d os par\u00e2metros de s\u00edntese desses materiais, como se ajustassem a tens\u00e3o das cordas de um instrumento.<\/p>\n\n\n\n<p>A descoberta de Andrade e seus colaboradores mostra que as perovskitas s\u00e3o mais do que cristais \u00fateis: s\u00e3o sistemas din\u00e2micos que, sob determinadas condi\u00e7\u00f5es, comp\u00f5em sua pr\u00f3pria melodia el\u00e9trica. Cada vibra\u00e7\u00e3o, cada dom\u00ednio de polariza\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma nota nessa sinfonia invis\u00edvel que determina como a luz se transforma em corrente. Para o futuro, a equipe acredita que compreender esse \u201critmo interno\u201d pode levar a novos dispositivos que aproveitem o acoplamento entre vibra\u00e7\u00e3o e eletricidade, como sensores ultrassens\u00edveis e emissores de luz ajust\u00e1veis por temperatura. O estudo \u00e9 um lembrete de que, no mundo qu\u00e2ntico, at\u00e9 o sil\u00eancio tem som: e que dentro de um cristal aparentemente im\u00f3vel pode haver uma orquestra microsc\u00f3pica regendo o brilho que chega aos nossos olhos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>(Colaborou Roger Marzochi)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As perovskitas halogenadas, que s\u00e3o cristais que v\u00eam transformando a eletr\u00f4nica e a energia solar, acabam de revelar um segredo guardado em sua estrutura at\u00f4mica. 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