{"id":28514,"date":"2025-08-28T21:58:08","date_gmt":"2025-08-29T00:58:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/?p=28514"},"modified":"2025-08-29T22:06:19","modified_gmt":"2025-08-30T01:06:19","slug":"mulher-cientista-e-inspiracao-alinka-lepine-szily-e-seus-68-anos-de-contribuicao-a-fisica-nuclear-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/mulher-cientista-e-inspiracao-alinka-lepine-szily-e-seus-68-anos-de-contribuicao-a-fisica-nuclear-no-brasil\/","title":{"rendered":"Mulher, cientista e inspira\u00e7\u00e3o: Alinka L\u00e9pine-Szily e seus 68 anos de contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 F\u00edsica Nuclear no Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p>Em julho de 2025, a cientista Alinka L\u00e9pine-Szily completou 68 anos de Brasil. Professora titular da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), ex-diretora do Laborat\u00f3rio Aberto de F\u00edsica Nuclear \u2014 que abriga o Acelerador Pelletron e o sistema RIBRAS \u2014, Alinka \u00e9 uma das refer\u00eancias em F\u00edsica Nuclear no pa\u00eds. Mas sua hist\u00f3ria de vida vai muito al\u00e9m da ci\u00eancia: \u00e9 tamb\u00e9m um testemunho de sobreviv\u00eancia, coragem e resist\u00eancia frente aos traumas da Segunda Guerra Mundial e \u00e0 repress\u00e3o pol\u00edtica que assolou a Hungria em meados do s\u00e9culo XX.<\/p>\n\n\n\n<p>Alinka tem um papel importante na hist\u00f3ria institucional da ci\u00eancia brasileira. Esteve presente na sess\u00e3o de funda\u00e7\u00e3o da Sociedade Brasileira de F\u00edsica (SBF), em Blumenau, em 1966, quando ainda era estudante de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. \u201cEu n\u00e3o era uma das figuras principais, mas estava l\u00e1.\u201d \u00c9 s\u00f3cia efetiva da SBF desde o in\u00edcio, em 1967.<\/p>\n\n\n\n<p>Filha de uma m\u00e3e qu\u00edmica e de um pai professor da Escola Polit\u00e9cnica de Budapeste, Alinka nasceu em 1942 em uma fam\u00edlia com tradi\u00e7\u00e3o nas ci\u00eancias exatas. \u201cMeu av\u00f4 j\u00e1 havia sido professor, era uma fam\u00edlia que trabalhava com ci\u00eancias exatas\u201d, lembra. Mas a guerra interrompeu brutalmente a estabilidade da fam\u00edlia. Com o fim do conflito se aproximando, e o avan\u00e7o das tropas sovi\u00e9ticas, sua m\u00e3e fugiu com os dois filhos para o oeste. O pai de Alinka morreu em abril de 1945, em um bombardeio americano.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"768\" src=\"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Alinka-Lepine-small-1024x768.jpg\" alt=\"Professora Alinka sentada em uma embarca\u00e7\u00e3o, emum dia de sol.\" class=\"wp-image-28516\" style=\"width:552px;height:auto\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Refugiada da Hungria, na d\u00e9cada de 1950, hoje, Alinka L\u00e9pine-Szily \u00e9 refer\u00eancia em F\u00edsica Nuclear no pa\u00eds, Professora titular da Universidade de S\u00e3o Paulo e ex-diretora do Laborat\u00f3rio Aberto de F\u00edsica Nuclear \u2014 que abriga o Acelerador Pelletron e o sistema RIBRAS.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Ela tinha menos de quatro anos quando passou por um campo de refugiados pr\u00f3ximo a Berlim. \u201cEra um campo mantido pelos americanos, n\u00e3o tinha comida. Est\u00e1vamos cobertas de sarna e a \u00fanica prote\u00edna era \u00f3leo de f\u00edgado de bacalhau.\u201d Parte dessa inf\u00e2ncia traum\u00e1tica foi apagada de sua mem\u00f3ria: \u201cTodo esse per\u00edodo se apagou da mem\u00f3ria. Tive uma inf\u00e2ncia razoavelmente perturbada\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Da cidade das crian\u00e7as ao ex\u00edlio<\/h2>\n\n\n\n<p>Ao retornar \u00e0 Hungria em 1946, foi acolhida por um tio materno, G\u00e1bor Sztehlo, um pastor luterano que salvou cerca de duas mil crian\u00e7as judias. Ele fundou o lar \u201cGaudiopolis\u201d \u2014 a \u201ccidade da alegria\u201d \u2014, onde as crian\u00e7as organizavam sua pr\u00f3pria vida em sistema de autogest\u00e3o. \u201cEra fant\u00e1stico. As crian\u00e7as faziam seu pr\u00f3prio governo. De 4 a 18 anos, tinham professores e total autonomia.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O sonho, no entanto, durou pouco. Em 1950, o regime comunista fechou as casas mantidas por Sztehlo. A fam\u00edlia de Alinka passou a viver com parentes no interior e, depois, retornou a Budapeste, onde a m\u00e3e voltou a trabalhar como qu\u00edmica para sustentar os dois filhos e a av\u00f3. \u201cEla trabalhava de dia em um instituto de pesquisa e \u00e0 noite fazia tradu\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas. Falava v\u00e1rias l\u00ednguas. Eu n\u00e3o me sentia prejudicada.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1956, Alinka viveu intensamente a Revolu\u00e7\u00e3o H\u00fangara, uma insurrei\u00e7\u00e3o contra o controle sovi\u00e9tico. \u201cEu afirmo que n\u00e3o era uma revolu\u00e7\u00e3o antissocialista, era anti-imperialista. A Hungria era explorada pela Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, que levava nosso g\u00e1s, nosso ur\u00e2nio, sem liberdade alguma.\u201d Ap\u00f3s dias de euforia, os tanques sovi\u00e9ticos voltaram \u00e0 cidade e esmagaram a revolta. A fam\u00edlia decidiu fugir.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cSa\u00edmos de Budapeste no dia 1\u00ba de dezembro. Pegamos um trem at\u00e9 perto da fronteira, descemos no meio do caminho e caminhamos at\u00e9 uma aldeia.\u201d Um campon\u00eas guiou a fam\u00edlia at\u00e9 a fronteira, passando por patrulhas sovi\u00e9ticas. \u201cNunca vou me esquecer: rastejamos de barriga por uma pista asfaltada iluminada, com soldados a cada 50 metros. Eu com 14 anos, meu irm\u00e3o com 17, minha m\u00e3e com 40 e poucos, bebendo conhaque depois.\u201d<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Chegada ao Brasil<\/h2>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s passagens pela \u00c1ustria e Alemanha, onde viveram em campos de refugiados e conventos, Alinka, sua m\u00e3e e seu irm\u00e3o decidiram vir para o Brasil. Um tio da fam\u00edlia j\u00e1 havia imigrado para c\u00e1 nos anos 1940, quando o governo Get\u00falio Vargas contratou engenheiros h\u00fangaros para trabalhar na F\u00e1brica Presidente Vargas, em Piquete (SP). \u201cFomos ao consulado brasileiro em Viena, e ficamos esperando de janeiro at\u00e9 julho de 1957. Durante este per\u00edodo de espera, vivemos em vag\u00f5es abandonados, com salvo-conduto que nos permitia usar o transporte p\u00fablico de gra\u00e7a. A gente ia a muitos cinemas, restaurantes davam comida. Levamos uma vida de refugiados, at\u00e9 que foi divertida.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Alinka desembarcou no Brasil aos 15 anos, com o gin\u00e1sio completo. \u201cTivemos muita sorte. Havia muitos h\u00fangaros em S\u00e3o Paulo.\u201d No Brasil, Alinka trilhou um caminho acad\u00eamico de excel\u00eancia. Graduou-se em F\u00edsica pela Faculdade de Filosofia, Ci\u00eancias e Letras da USP em 1964 e obteve o doutorado no Instituto de F\u00edsica da mesma universidade em 1972. Desde ent\u00e3o, construiu uma carreira s\u00f3lida na \u00e1rea de Estrutura e Rea\u00e7\u00f5es Nucleares, com foco em espalhamento el\u00e1stico, rea\u00e7\u00f5es entre \u00edons pesados e n\u00facleos inst\u00e1veis e ex\u00f3ticos.<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, \u00e9 professora titular e dirige o Laborat\u00f3rio Aberto de F\u00edsica Nuclear, onde atua com o acelerador Pelletron e o sistema RIBRAS, que permite a produ\u00e7\u00e3o de feixes radioativos para estudos de fronteira na f\u00edsica nuclear.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Ci\u00eancia, democracia e mem\u00f3ria<\/h2>\n\n\n\n<p>Apesar de ter vivido os horrores do comunismo autorit\u00e1rio, Alinka mant\u00e9m uma posi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica e equilibrada: \u201cSou de esquerda, apesar de ter vivido no comunismo. Mas \u00e9 necess\u00e1rio democracia e liberdade\u201d. Ela distingue o ideal de autogest\u00e3o e igualdade da repress\u00e3o pol\u00edtica. \u201cNa revolu\u00e7\u00e3o de 56, as f\u00e1bricas n\u00e3o iam voltar para os antigos donos. Havia autogest\u00e3o, era maravilhoso.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Sua trajet\u00f3ria pessoal e acad\u00eamica \u00e9, acima de tudo, uma afirma\u00e7\u00e3o da possibilidade de construir ci\u00eancia de ponta mesmo depois de experi\u00eancias extremas. \u201cMinha m\u00e3e perdeu o marido na guerra e nos criou sozinha. Quando apareceu a oportunidade de vir para o Brasil, ela dizia: \u2018o futuro \u00e9 aqui\u2019..\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Seja pelas contribui\u00e7\u00f5es \u00e0 f\u00edsica nuclear, pela incans\u00e1vel defesa da ci\u00eancia e da liberdade ou por sua trajet\u00f3ria de supera\u00e7\u00e3o, Alinka L\u00e9pine-Szily \u00e9, h\u00e1 68 anos, um verdadeiro s\u00edmbolo de inspira\u00e7\u00e3o, especialmente para as mulheres na ci\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>(Colaborou Roger Marzochi)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em julho de 2025, a cientista Alinka L\u00e9pine-Szily completou 68 anos de Brasil. Professora titular da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), ex-diretora do Laborat\u00f3rio Aberto de F\u00edsica Nuclear \u2014 que abriga o Acelerador Pelletron e o sistema RIBRAS \u2014, Alinka \u00e9 uma das refer\u00eancias em F\u00edsica Nuclear no pa\u00eds. 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