{"id":28330,"date":"2025-08-07T14:26:54","date_gmt":"2025-08-07T17:26:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/?p=28330"},"modified":"2025-08-07T15:11:32","modified_gmt":"2025-08-07T18:11:32","slug":"tradicao-e-fisica-se-unem-na-vida-do-povo-baniwa-e-koripaco-no-alto-rio-negro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/tradicao-e-fisica-se-unem-na-vida-do-povo-baniwa-e-koripaco-no-alto-rio-negro\/","title":{"rendered":"Tradi\u00e7\u00e3o e F\u00edsica se unem na vida do povo Baniwa e Koripaco no Alto Rio Negro"},"content":{"rendered":"\n<p>A \u00e1gua de uma cachoeira fez surgir os povos Baniwa e Koripako, que vivem no Alto do Rio Negro, no Amazonas. Essa hist\u00f3ria, que sobrevive aos s\u00e9culos e \u00e9 transmitida de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m foi registrada em letras impressas no livro \u201c<a href=\"https:\/\/dantes.com.br\/produto\/umbigo-do-mundo\/\">O Umbigo do Mundo<\/a>\u201d, de Francineia Bitencourt Fontes, mais conhecida como Francy Baniwa, mulher ind\u00edgena, antrop\u00f3loga, fot\u00f3grafa e pesquisadora do povo Baniwa, nascida na comunidade de Assun\u00e7\u00e3o, no Baixo Rio I\u00e7ana, na Terra Ind\u00edgena Alto Rio Negro, no munic\u00edpio de S\u00e3o Gabriel da Cachoeira.<\/p>\n\n\n\n<p>Em meio \u00e0s investidas do homem branco e seus modelos de educa\u00e7\u00e3o, as 85 comunidades ind\u00edgenas dessa regi\u00e3o se organizaram de forma a manter suas tradi\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m acrescentar a elas a ci\u00eancia de Isaac Newton e Albert Einstein, buscando conviver em harmonia para buscar solu\u00e7\u00f5es aos problemas da comunidade e combater os reflexos do aquecimento global. Com a luta do povo pela educa\u00e7\u00e3o, h\u00e1 em suas aldeias-escolas professores de f\u00edsica, como Dzoodzo Baniwa, educador, pesquisador e l\u00edder ind\u00edgena do povo Baniwa, que vive na aldeia Santa Isabel do Rio Ayari, em S\u00e3o Gabriel da Cachoeira. Ele \u00e9 um dos vencedores 70\u00aa edi\u00e7\u00e3o do Pr\u00eamio Funda\u00e7\u00e3o Bunge de 2025, criado para homenagear cientistas e pesquisadores que desenvolvem trabalhos relevantes para o Pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>O pesquisador \u00e9 tamb\u00e9m coautor do livro \u201c<a href=\"https:\/\/acervo.socioambiental.org\/acervo\/noticias\/livro-registra-310-especies-de-aves-em-terra-indigena-no-alto-rio-negro-no-amazonas\">Esp\u00e9cies de Aves da Regi\u00e3o do Rio Cubate \u2013 Terra Ind\u00edgena do Alto Rio Negro<\/a>\u201d, <strong>vencedor do pr\u00eamio Jabuti Acad\u00eamico de 2025<\/strong>, na \u00e1rea de Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas, Biodiversidade e Biotecnologia. De acordo com o site do pr\u00eamio, o livro conta ainda com a participa\u00e7\u00e3o de \u201cCamila Cherem Ribas, Damiel Legario Pedro, Dario Baniwa, Estev\u00e3o Fontes Ol\u00edmpio, Fernando Mendon\u00e7a d&#8217;Horta, Gracilene Florentino Bittencourt, Ramiro D\u00e1rio Melinski (organizadores)\u201d.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"632\" data-id=\"28333\" src=\"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Dzoodzo-e-Estevao-em-foto-reunidos-com-grupos-de-cientistas-1024x632.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-28333\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Dzoodzo(de bon\u00e9) ao lado de Estev\u00e3o (em p\u00e9) reunidos com demais cientistas do Brasil.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"898\" height=\"720\" data-id=\"28334\" data-src=\"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Foto-de-Ildeu-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-28334 lazyload\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" style=\"--smush-placeholder-width: 898px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 898\/720;\" \/><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<p>\u201cEu considero que s\u00e3o duas ci\u00eancias, com suas especificidades, com suas particularidades e processos metodol\u00f3gicos diferentes. Assim como tem os ancestrais da ci\u00eancia f\u00edsica como Isaac Newton, Albert Einstein, tamb\u00e9m temos os nossos saberes ancestrais, que n\u00e3o est\u00e3o escritos muitas vezes no livro, muitas vezes est\u00e3o escritos na mem\u00f3ria ancestral, escrita nas pedras, escrita nos lugares sagrados\u201d, diz Dzoodzo, em entrevista ao <a href=\"https:\/\/sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/boletim\/boletim-eletronico\/\" title=\"\">Boletim SBF<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Dzoodzo ainda integra a Rede de Pesquisadores Ind\u00edgenas do Rio Negro, com trabalhos voltados para solu\u00e7\u00f5es sustent\u00e1veis em territ\u00f3rios ind\u00edgenas. \u201cCarrego tamb\u00e9m em mim essa palavra pesquisador. Eu acho que \u00e9 importante isso. No mundo ind\u00edgena, assim como no mundo n\u00e3o-ind\u00edgena tamb\u00e9m, temos nosso conhecimento relacionado \u00e0 astronomia, \u00e0 f\u00edsica\u201d, explica o pesquisador, ap\u00f3s receber a visita do f\u00edsico Ildeu de Castro Moreira, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e vencedor do <strong>Pr\u00eamio Ernesto Hamburger de Divulga\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica da Sociedade Brasileira de F\u00edsica<\/strong> (SBF) em 2025.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cPor alguns dias, no Alto Rio Negro, um grupo de pesquisadores da Fiocruz e de diversas universidades, ligados ao INCT de Comunica\u00e7\u00e3o P\u00fablica da C&amp;T, e mais pesquisadores ind\u00edgenas locais, fizemos uma investiga\u00e7\u00e3o em comunidades ind\u00edgenas sobre a desinforma\u00e7\u00e3o em sa\u00fade (como vacinas, sa\u00fade mental, &#8230;) e uso das m\u00eddias sociais.&nbsp; O fato de encontrar nas margens do Rio I\u00e7ana professores de f\u00edsica muito ativos, do ponto de vista educacional e de defesa de suas tradi\u00e7\u00f5es culturais e do meio ambiente, foi uma bela e enriquecedora surpresa\u201d, explica Moreira, em carta enviada \u00e0 <strong>SBF<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cFoi recompensador para um professor de f\u00edsica atuando h\u00e1 meio s\u00e9culo, ouvir de Dzoodzo Baniwa, importante e din\u00e2mica lideran\u00e7a ind\u00edgena, que para ele foi muito bom ter feito licenciatura em f\u00edsica do ponto de vista cultural e tamb\u00e9m do pr\u00e1tico. Ao possibilitar, por exemplo, que constru\u00edsse um sistema simples para a eleva\u00e7\u00e3o de \u00e1gua na comunidade (tipo carneiro hidr\u00e1ulico) ou ajudasse a consertar o motor do barco, que falha no meio do rio, ou a instalar os pain\u00e9is solares, que permitem a conex\u00e3o r\u00e1pida com a internet (via Starlink) no meio de uma regi\u00e3o imensa cercada por florestas de todos os lados.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Filho de uma fam\u00edlia semin\u00f4made e semi-escravisada, como considera Dzoodzo, ele conta que conseguiu estudar apenas aos 10 anos e se encantou pela f\u00edsica. Como para seus pais o papel de um diploma n\u00e3o tem valor pr\u00e1tico, Dzoodzo resolveu levar os saberes da ci\u00eancia \u00e0s aldeias na forma de projetos de bombeamento de \u00e1gua, energia solar e transporte pelos rios da regi\u00e3o em parceria com Instituto S\u00f3cio Ambiental (ISA), com o apoio dos Estados Unidos e outras ag\u00eancias t\u00e9cnicas e parceiros no projeto \u201cAyari Canoa Solar\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m da busca de melhorias para o seu povo, o pesquisador \u00e9 um dos professores das escolas que atendem na regi\u00e3o cerca de 2 mil crian\u00e7as ind\u00edgenas. Para ele, descobrir que n\u00e3o se deve esperar pela a\u00e7\u00e3o do Estado foi libertador, o que possibilitou a promo\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o separa aldeia da escola e da filosofia que eles criaram, o do \u201cBem Viver\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA nossa metodologia a gente chama de ensino-pesquisa-a\u00e7\u00e3o. A gente reconhece todo o nosso patrono educador Paulo Freire, que \u00e9 muito respeitado. Mas a gente sabe que esse nosso patrono cidad\u00e3o n\u00e3o teve oportunidade de passar no nosso territ\u00f3rio. E, assim, junto com o movimento ind\u00edgena, a gente discute bastante o termo chamado \u2018Bem Viver\u2019\u201d, explica. \u201cIsso se traduza na busca de uma boa rela\u00e7\u00e3o com a natureza, a constru\u00e7\u00e3o do conhecimento necess\u00e1rio para o Bem Viver no territ\u00f3rio, que abrange todas \u00e1reas do conhecimento, de v\u00e1rios campos da ci\u00eancia. Ent\u00e3o, por que n\u00e3o introduzir tamb\u00e9m essa perspectiva da pedagogia \u2018bem viveriana\u2019 dentro da escola? Foi nesse n\u00edvel de abordagem que a gente ressignificou a educa\u00e7\u00e3o escolar ind\u00edgena e, hoje, gra\u00e7as a Deus, a gente pode notar nos alunos, e assim nas comunidades tamb\u00e9m, que se sentem protagonizados com isso.\u201d<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A F\u00edsica e Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas<\/h2>\n\n\n\n<p>Estev\u00e3o Fontes Olimpio, da etnia Koripako, e sua companheira Virgilia Aragua Almeida, do povo Tariano, falante de l\u00edngua Nheengatu e da l\u00edngua Tucano, fizeram tamb\u00e9m Licenciatura em F\u00edsica e s\u00e3o professores na escola Estadual de Assun\u00e7\u00e3o, na comunidade de Assun\u00e7\u00e3o do I\u00e7ana, na regi\u00e3o do Rio I\u00e7ana, munic\u00edpio de S\u00e3o Gabriel da Cachoeira e Koripako. Em ambos h\u00e1 muito forte uma consci\u00eancia integrada da humanidade com a natureza, tradi\u00e7\u00f5es e ci\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Estev\u00e3o, o caminho para enfrentar as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas passa por uma alian\u00e7a profunda entre a ci\u00eancia ocidental e o conhecimento ancestral dos povos da floresta. \u201cO conhecimento que a gente tem \u00e9 um conhecimento que a gente traz de v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es, at\u00e9 hoje mantido com a gente, de como a gente preservar, principalmente, a nossa cultura, fortalecer a nossa cultura, viver a nossa cultura, a nossa tradi\u00e7\u00e3o, o nosso costume.\u201d<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-2 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"697\" data-id=\"28335\" data-src=\"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/professora-de-fisica-Virgilia-Aragua-Almeida-e-seu-artesanato-que-integra-arte-ciencia-e-tradicao-1024x697.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-28335 lazyload\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" style=\"--smush-placeholder-width: 1024px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 1024\/697;\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Professora de F\u00edsica Virgilia Aragua Almeida.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"1024\" data-id=\"28336\" data-src=\"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Estevao-Fontes-Olimpio-da-etnia-Koripaco-e-um-professor-de-fisica-preocupado-com-a-uniao-de-saberes-1024x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-28336 lazyload\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" style=\"--smush-placeholder-width: 1024px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 1024\/1024;\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Estev\u00e3o Fontes Olimpio, da etnia Koripaco \u00e9 um professor de F\u00edsica preocupado com a uni\u00e3o de saberes.<\/figcaption><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<p>Ele repete a palavra \u201crespeito\u201d como quem refor\u00e7a um alicerce: respeito pela m\u00e3e terra; respeito pelas for\u00e7as espirituais das matas; respeito pelos lugares sagrados, como a cachoeira, onde os ancestrais viveram, se originaram e onde o saber ainda pulsa.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo em que observa os sinais das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas em seu territ\u00f3rio, Estev\u00e3o reconhece o valor de conectar o saber dos antigos com as ferramentas do conhecimento acad\u00eamico. \u201cA quest\u00e3o da mudan\u00e7a clim\u00e1tica, a gente aqui tamb\u00e9m j\u00e1 percebe muito na nossa regi\u00e3o. Ent\u00e3o, aliar isso ao nosso conhecimento, que \u00e9 de preservar, de manter vivo, de manter a floresta em p\u00e9, com o conhecimento cient\u00edfico que a gente tem&#8230; fica uma interroga\u00e7\u00e3o grande. Mas \u00e9 uma interroga\u00e7\u00e3o que a gente quer responder na pr\u00e1tica.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A fala de Estev\u00e3o revela uma vis\u00e3o integrada do mundo. Ele n\u00e3o dissocia a ci\u00eancia da espiritualidade, nem o conhecimento t\u00e9cnico do territ\u00f3rio. Ao contr\u00e1rio, prop\u00f5e a uni\u00e3o dessas for\u00e7as. \u201cAcho que a gente poderia encaixar esse conhecimento junto com o conhecimento cient\u00edfico para que a gente possa ter um meio de trabalhar isso com todos\u201d, afirma. Para ele, o combate \u00e0 crise clim\u00e1tica n\u00e3o \u00e9 tarefa s\u00f3 de especialistas, mas de todos os povos, especialmente daqueles que sempre souberam cuidar da terra com respeito e reciprocidade.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"637\" data-src=\"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Aldeia-dos-professores-Estevao-e-Virginia-2-1024x637.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-28338 lazyload\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" style=\"--smush-placeholder-width: 1024px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 1024\/637;\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Aldeia de Estev\u00e3o Fontes Olimpio e Virg\u00ednia Aragua Almeida, professores da Escola Estadual de Assun\u00e7\u00e3o, do munic\u00edpio de S\u00e3o Gabriel da Cachoeira.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>A espiritualidade que Estev\u00e3o menciona n\u00e3o \u00e9 simb\u00f3lica: ela se manifesta nas matas, nas \u00e1guas, nos ventos e nos cantos. \u201cA gente respeita muito aqui na nossa regi\u00e3o os lugares sagrados, por exemplo, a cachoeira. \u00c9 um lugar muito sagrado pra gente. \u00c9 um lugar onde a gente viveu, onde a gente se originou. Vivemos praticamente a nossa vida at\u00e9 hoje ali\u201d, explica. Esses espa\u00e7os s\u00e3o mais do que geogr\u00e1ficos, pois s\u00e3o v\u00ednculos de pertencimento, territ\u00f3rios de mem\u00f3ria e centros de equil\u00edbrio ecol\u00f3gico.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele conhece bem sua regi\u00e3o. Do Baixo ao Alto I\u00e7ana, passando pelo M\u00e9dio 1, M\u00e9dio 2 e Ayari, as cinco microrregi\u00f5es que comp\u00f5em essa parte do noroeste amaz\u00f4nico formam uma cartografia viva, onde cada lugar tem nome, hist\u00f3ria e import\u00e2ncia espiritual. N\u00e3o se trata apenas de geografia, mas sim de uma cosmologia.<\/p>\n\n\n\n<p>A urg\u00eancia das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas torna esse conhecimento ainda mais necess\u00e1rio. \u201cA gente j\u00e1 percebe muito isso hoje aqui na nossa regi\u00e3o\u201d, afirma ele, vivenciando o desmatamento, do calor mais intenso, das altera\u00e7\u00f5es nos ciclos das chuvas. Com isso, os povos ind\u00edgenas sentem na pele o que muitas vezes s\u00f3 aparece como estat\u00edstica em relat\u00f3rios. Para Estev\u00e3o, a resposta est\u00e1 em escutar a floresta, acolher a sabedoria dos antigos e abrir espa\u00e7o para que a ci\u00eancia reconhe\u00e7a outros modos de existir no mundo.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A F\u00edsica e a Ancestralidade<\/h2>\n\n\n\n<p>Quando entrou no curso de Licenciatura em F\u00edsica, Virgilia, do povo Tariano, descobriu que a f\u00edsica que encontrava nos livros n\u00e3o era uma novidade em sua vida. \u201cPra mim foi uma coisa que eu nunca ouvi, mas na verdade eu j\u00e1 estava vivendo a f\u00edsica da nossa tradi\u00e7\u00e3o. A nossa cultura, o nosso conhecimento \u00e9 uma f\u00edsica do nosso conhecimento.\u201d Ao aprofundar os estudos acad\u00eamicos, ela passou a fazer pontes entre o saber cient\u00edfico e os saberes ancestrais de sua aldeia no Rio I\u00e7ana.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela acredita que arte, tradi\u00e7\u00e3o e ci\u00eancia n\u00e3o precisam ser caminhos separados. \u201cEu digo assim que n\u00f3s tamb\u00e9m somos cientistas dentro da nossa cultura\u201d, afirma. Para ela, a f\u00edsica da universidade e a f\u00edsica dos povos ind\u00edgenas podem dialogar, se compreendermos que somos seres integrados \u00e0 natureza e que a curiosidade, a observa\u00e7\u00e3o e a busca por entender o mundo s\u00e3o universais. \u201cTudo que a gente veio trabalhando dentro das nossas curiosidades \u00e9 uma f\u00edsica. Hoje eu trabalho com arte, arte eu busco a sua origem e fa\u00e7o o processo e eu transformo esse trabalho em uma arte de artesanato, n\u00e9.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Foi ao observar essa conex\u00e3o entre sua cultura e os conte\u00fados da faculdade que Virg\u00edlia sentiu o desejo de repassar esse entendimento \u00e0s crian\u00e7as e jovens de sua comunidade. \u201cEu tive essa oportunidade tamb\u00e9m de ter um conhecimento a mais, pra gente poder hoje estar tamb\u00e9m ajudando a juventude, a nova gera\u00e7\u00e3o dentro da escola.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Ela acredita que ensinar f\u00edsica \u00e0s crian\u00e7as ind\u00edgenas \u00e9 tamb\u00e9m ajud\u00e1-las a sonhar com possibilidades. \u201cA f\u00edsica traz isso, n\u00e9. Um pequeno, uma pequena folha, se voc\u00ea for ver, uma pequena folha simples, mas l\u00e1 voc\u00ea vai dizer para a crian\u00e7a que essa folha, ela \u00e9 uma folha redonda, que ela tem v\u00e1rios significados e talvez ela pode ser uma planta medicinal.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Com sensibilidade e for\u00e7a, Virgilia mostra que a f\u00edsica n\u00e3o est\u00e1 apenas nos laborat\u00f3rios ou nos livros, mas tamb\u00e9m no tran\u00e7ado das artes ind\u00edgenas, nos ciclos da natureza e nas formas de cuidar do territ\u00f3rio. \u201cA gente mostra a nossa origem, quantos povos n\u00f3s temos, quantas l\u00ednguas a gente fala, qual \u00e9 a arte que a gente mostra para o mundo ver&#8230; a natureza, o meio ambiente, como que a gente vai cuidar da nossa natureza.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Para ela, ensinar f\u00edsica \u00e9 tamb\u00e9m fortalecer esse v\u00ednculo com a terra e o saber coletivo. \u201cFalta muita coisa ainda pra gente mostrar o mundo da nossa realidade comparando com conhecimento que a gente estuda nos livros&#8230; Ent\u00e3o a gente traz essa compara\u00e7\u00e3o com a cosmologia que a gente vive aqui na nossa realidade, na nossa comunidade.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Quando se depara com a ideia ocidental de que a arte, a ci\u00eancia e a espiritualidade devem ser compartimentadas, Virg\u00ednia responde com simplicidade e sabedoria: \u201c\u00c9 um s\u00f3 mesmo, porque quando a gente v\u00ea, a gente est\u00e1 s\u00f3 num mundo s\u00f3. Tem v\u00e1rios ramos que voc\u00ea precisa entender que esses ramos tamb\u00e9m t\u00eam as suas origens e o futuro que a gente busca mostrar.\u201d<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O que move \u00e9 o sagrado<\/h2>\n\n\n\n<p>Dzoodzo, que fez a entrevista enquanto estava a caminho de S\u00e3o Paulo para o comparecer ao Pr\u00eamio Jabuti Acad\u00eamico na \u00faltima ter\u00e7a-feira, fez um convite \u00e0 sociedade brasileira, \u00e0s universidades e aos institutos de pesquisa para colaborarem na inser\u00e7\u00e3o dos povos origin\u00e1rios na ci\u00eancia, destacando que eles est\u00e3o come\u00e7ando a produzir artigos cient\u00edficos sem, no entanto, deixarem de lado seus saberes tradicionais. \u201cN\u00f3s estamos dispostos a colaborar nos debates, precisamos participar de espa\u00e7os de tomada de decis\u00e3o, precisamos tamb\u00e9m ocupar espa\u00e7o, seja no mundo da escrita, nos artigos cient\u00edficos, de come\u00e7ar a participar dessa discuss\u00e3o de conhecimento e de saberes. Eu fa\u00e7o esse convite para a gente fortalecer esses nossos la\u00e7os, tanto em conhecer mais os territ\u00f3rios ind\u00edgenas, assim como os ind\u00edgenas cada vez mais tamb\u00e9m precisam conhecer o mundo n\u00e3o-ind\u00edgena, principalmente nos espa\u00e7os das universidades, institutos de pesquisa e, sobretudo, no campo da ci\u00eancia\u201d, diz Dzoodzo.<\/p>\n\n\n\n<p>Se s\u00e3o exatamente nos territ\u00f3rios ocupados por povos origin\u00e1rios os lugares onde a preserva\u00e7\u00e3o ambiental \u00e9 sagrada, porque n\u00e3o seria tamb\u00e9m na ci\u00eancia um espa\u00e7o importante para ressignificar o mundo em que vivemos? N\u00e3o por acaso, Beto Guedes lembra que \u201ctudo que move \u00e9 sagrado\u201d: \u201cSim, todo amor \u00e9 sagrado \/ E o fruto do trabalho \/ \u00c9 mais que sagrado \/ Meu amor!\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cFoi muito legal aprender com Estevam, Virgilia, Dzoodzo, Alfredo, Arm\u00ednio, Carlos, Nelson&#8230; &nbsp;ind\u00edgenas antenados com os conhecimentos cient\u00edficos e profundamente integrados em seu ambiente natural e desafiador. E ver que o conhecimento de f\u00edsica pode fazer diferen\u00e7a!\u201d, comemora Moreira. \u201cDevemos responder ao convite que eles nos fazem, na voz de Dzoodzo, de buscarmos conex\u00f5es e sinergias entre a ci\u00eancia, a f\u00edsica, os conhecimentos que eles possuem e a possibilidade de mudar a realidade das condi\u00e7\u00f5es de vida desses habitantes da Amazonia e de ajudar a preservar as florestas.\u201d<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Assista \u00e0s entrevistas na \u00edntegra<\/h2>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed aligncenter is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe title=\"Tradi\u00e7\u00e3o e F\u00edsica se unem na vida do povo Baniwa e Koripaco no Alto Rio Negro\" width=\"900\" height=\"506\" data-src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/1NF3mxDiP34?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" data-load-mode=\"1\"><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>(Colaborou Roger Marzochi)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00e1gua de uma cachoeira fez surgir os povos Baniwa e Koripako, que vivem no Alto do Rio Negro, no Amazonas. Essa hist\u00f3ria, que sobrevive aos s\u00e9culos e \u00e9 transmitida de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m foi registrada em letras impressas no livro \u201cO Umbigo do Mundo\u201d, de Francineia Bitencourt Fontes, mais conhecida como Francy Baniwa, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":12,"featured_media":28335,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[669],"tags":[1376,1374,308,1379,1378,1375,1377,1380],"class_list":["post-28330","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-mundo-da-fisica","tag-alto-rio-negro","tag-baniwa","tag-ensino-de-fisica","tag-escola-estadual-de-assuncao","tag-jabuti-academico","tag-koripaco","tag-povos-indigenas","tag-sao-gabriel-da-cachoeira"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28330","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/users\/12"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28330"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28330\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":28350,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28330\/revisions\/28350"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/media\/28335"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28330"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28330"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28330"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}