{"id":26464,"date":"2025-04-17T13:43:18","date_gmt":"2025-04-17T16:43:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/?p=26464"},"modified":"2025-04-17T13:43:19","modified_gmt":"2025-04-17T16:43:19","slug":"constantino-tsallis-sobre-os-ombros-de-gigantes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/constantino-tsallis-sobre-os-ombros-de-gigantes\/","title":{"rendered":"Constantino Tsallis sobre os ombros de gigantes"},"content":{"rendered":"\n<p>\u201cSe vi mais longe, foi por estar sobre os ombros de gigantes.\u201d Essa \u00e9 uma c\u00e9lebre frase escrita por Isaac Newton numa carta enviada a Robert Hooke no s\u00e9culo 17, no qual explicava que suas descobertas s\u00f3 foram poss\u00edveis porque ele p\u00f4de se apoiar no conhecimento acumulado por grandes cientistas antes dele, como Galileu Galilei, Johannes Kepler, Ren\u00e9 Descartes e, at\u00e9 mesmo, Cop\u00e9rnico. Se foi uma ironia destinada a Hooke, seu desafeto declarado, ningu\u00e9m sabe responder. Observando pelo lado filos\u00f3fico dos caminhos da ci\u00eancia, \u00e9 um exemplo muito bonito de rever\u00eancia a todos que o antecederam.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 com essa mesma rever\u00eancia que Constantino Tsallis, pesquisador Em\u00e9rito do Centro Brasileiro de Pesquisas F\u00edsicas (CBPF), se refere aos seus mestres, especialmente agora, que a sua q-entropia conquistou mais uma importante comprova\u00e7\u00e3o, cujos dados est\u00e3o no artigo <a href=\"https:\/\/journals.aps.org\/prresearch\/pdf\/10.1103\/PhysRevResearch.7.L012081\">Anomalous velocity distributions in slow quantum-tunneling chemical reactions<\/a>, publicado no dia 25 de mar\u00e7o no peri\u00f3dico Physical Review Research \/ Letters em coautoria com Christian Beck, diretor do Centro de Sistemas Complexos da Queen Mary University of London.<\/p>\n\n\n\n<p>No novo trabalho, a famosa teoria da q-entropia, idealizada em 1985 em um Congresso no M\u00e9xico, mas publicada somente em 1988, agora \u00e9 comprovada em rea\u00e7\u00f5es qu\u00edmicas peculiares, nas quais as leis no quadro da mec\u00e2nica estat\u00edstica de Bolztmann-Gibbs falham. \u201cNa minha sala no CBPF eu tenho a foto de tr\u00eas grandes f\u00edsicos: Boltzmann, Einstein e Galileu. Essa minha teoria n\u00e3o se op\u00f5e de jeito nenhum \u00e0 teoria de Boltzmann. Inclusive, eu tirei fotografia do t\u00famulo de Boltzmann, fiz um quadro para mim e fiz um outro quadro que dei de presente ao professor Silvio Salinas, da USP\u201d, conta Tsallis, em entrevista ao <strong>Boletim SBF<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>O cientista nasceu na Gr\u00e9cia, mas escolheu para viver no Brasil, em 1975. Capaz de aliar arte \u00e0 f\u00edsica, ele foi eleito para a Academia Europeia de Ci\u00eancias e Artes (EASA) em meados de junho de 2024. Com uma empatia \u00edmpar em um ambiente \u00e1rduo da matem\u00e1tica na qual est\u00e3o imersos os f\u00edsicos, Tsallis \u00e9 daqueles cientistas que n\u00e3o se aborrece em traduzir conceitos complexos por meio de met\u00e1foras, especialmente quando o assunto \u00e9 entropia, cuja contribui\u00e7\u00e3o ampliou os estudos de Ludwig Eduard Boltzmann, um f\u00edsico austr\u00edaco do s\u00e9culo 19, conhecido principalmente por ter desenvolvido uma formula\u00e7\u00e3o estat\u00edstica da segunda lei da termodin\u00e2mica.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cMuitas vezes me perguntam: \u2018Mas o que \u00e9 entropia?\u2019 Porque energia, a gente at\u00e9 acha que entende, mais ou menos. Mas entropia\u2026 esse conceito t\u00e3o pr\u00f3ximo da energia costuma escapar do entendimento das pessoas. Poucos pensam, por exemplo, que tropical, troposfera e entropia t\u00eam a mesma raiz grega: trop\u00ea, que significa &nbsp; \u2018voltas\u2019 ou \u2018configura\u00e7\u00f5es\u2019. Entropia se refere a isso: um sistema com muitas formas (microsc\u00f3picas) poss\u00edveis. E um pa\u00eds tropical \u00e9 exatamente assim \u2014 agora chove, meia hora depois faz sol, daqui a pouco venta. \u00c9 m\u00faltiplo, \u00e9 variado. Por isso o nome: tropical\u201d, explica o cientista. \u201cCostumo dizer que entropia \u00e9 um conceito casado com a ideia de um clima tropical \u2014 inst\u00e1vel, cheio de possibilidades, em constante transforma\u00e7\u00e3o. E quando me perguntam: \u2018O que \u00e9 entropia, afinal?\u2019 Eu devolvo com outra pergunta: \u2018Voc\u00ea quer uma resposta de 15 segundos, de meia hora\u2026 ou de uma semana inteira?\u2019.\u201d<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Um sorvete \u201cm\u00e1gico\u201d<\/h2>\n\n\n\n<p> Imagina que voc\u00ea tem um pote de sorvete de morango, bem geladinho, bonito, uniforme, um exemplo usado uma vez pela professora p\u00f3s-doutora Krissia Zawadzki, do Instituto de F\u00edsica de S\u00e3o Carlos, da Universidade de S\u00e3o Paulo, em reportagem no <a href=\"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/fisica-de-sao-carlos-participa-de-pesquisa-que-aponta-caminhos-para-obter-o-efeito-mpemba-quantico\/\">Boletim SBF<\/a>. Com o tempo, o sorvete vai derretendo. A forma s\u00f3lida e organizada d\u00e1 lugar a um l\u00edquido meio bagun\u00e7ado, espalhado.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso \u00e9 a entropia aumentando: o sistema est\u00e1 passando de um estado mais organizado (baixa entropia) para um mais desorganizado (alta entropia). Boltzmann explicou isso acrescentando que h\u00e1 muito mais formas poss\u00edveis para as mol\u00e9culas estarem bagun\u00e7adas do que arrumadas. O sorvete derretido tem mais microestados poss\u00edveis do que o sorvete inteiro e bonito. Essa \u00e9 a entropia de Boltzmann, cl\u00e1ssica e previs\u00edvel, quando se lida com sistemas &#8220;normais&#8221; em equil\u00edbrio.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas e se o sorvete for de chocolate e pistache, duas bolas, que ao se derreterem se misturam num sabor diferente, com o pote de sorvete sob o cap\u00f4 de um ve\u00edculo preto em pleno ver\u00e3o no Rio de Janeiro? E se o pistache derreter mais devagar que o chocolate? A\u00ed come\u00e7a a mostrar a cara a q-entropia de Tsallis: ela foi criada justamente para lidar com sistemas mais complexos, onde h\u00e1 correla\u00e7\u00f5es importantes entre as partes, n\u00e3o necessariamente equil\u00edbrio t\u00e9rmico, ou fraturas na ideia de \u201ctudo se mistura igual\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O novo artigo do cientista, no entanto, n\u00e3o trata de sorvete \u2014 mas de plasma: um g\u00e1s extremamente quente, cujas part\u00edculas carregadas apresentam distribui\u00e7\u00f5es de velocidades an\u00f4malas, mais precisamente as observadas em rea\u00e7\u00f5es qu\u00edmicas ultralentas, mediadas por tunelamento qu\u00e2ntico em armadilhas de \u00edons. Esse \u201ctunelamento\u201d \u00e9 algo assim como se as duas bolas de sorvete, em vez de derreterem e se misturarem, pudessem atravessar misteriosamente para o outro lado do pote.<\/p>\n\n\n\n<p>O artigo focaliza um experimento recente e pioneiro conduzido por R. Wild e colaboradores publicado na Nature: <a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41586-023-05727-z\">Tunneling measured in a very slow ion-molecule reaction<\/a>. Eles observaram diretamente uma rea\u00e7\u00e3o qu\u00edmica de troca de pr\u00f3ton (D\u207b + H\u2082 \u2192 H\u207b + HD) ocorrendo exclusivamente via tunelamento qu\u00e2ntico \u2014 a tal \u201cpassagem m\u00e1gica\u201d das part\u00edculas atrav\u00e9s de barreiras de energia, imposs\u00edvel pela f\u00edsica cl\u00e1ssica. Para que essa rea\u00e7\u00e3o extremamente rara fosse observ\u00e1vel, foi necess\u00e1rio manter densidades alt\u00edssimas de reagentes em um volume ultrapequeno, gerando uma s\u00e9rie de efeitos t\u00e9rmicos e qu\u00e2nticos n\u00e3o triviais.<\/p>\n\n\n\n<p>O que surpreendeu os pesquisadores do experimento foi que mol\u00e9culas confinadas na armadilha n\u00e3o seguiam a tradicional estat\u00edstica de Maxwell-Boltzmann, que prev\u00ea uma distribui\u00e7\u00e3o espec\u00edfica de velocidades com forma de sino (Gaussiana). Em vez disso, os dados experimentais revelaram uma distribui\u00e7\u00e3o mais \u201cgorda\u201d, com caudas mais longas \u2014 o que significa que havia mais part\u00edculas se movendo com velocidades muito altas do que o esperado. Essa distribui\u00e7\u00e3o foi identificada como uma q-Gaussiana, exatamente como prev\u00ea a teoria da q-estat\u00edstica, proposta por Tsallis em 1988 e intensamente desenvolvida ao redor do mundo nas \u00faltimas quatro d\u00e9cadas.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Destaque internacional<\/h2>\n\n\n\n<p>O novo estudo oferece uma explica\u00e7\u00e3o detalhada para esse comportamento a partir de um conceito chamado superestat\u00edstica, que trata sistemas fora do equil\u00edbrio onde a temperatura n\u00e3o \u00e9 constante. Em volumes muito pequenos e densidades muito altas, como nas armadilhas de \u00edons, a temperatura flutua de maneira significativa \u2014 e essas flutua\u00e7\u00f5es afetam profundamente o comportamento das part\u00edculas. A teoria mostra que, ao considerar essas varia\u00e7\u00f5es, a distribui\u00e7\u00e3o de velocidades passa a ser descrita n\u00e3o pela exponencial cl\u00e1ssica, mas por uma fun\u00e7\u00e3o q-exponencial, t\u00edpica da estat\u00edstica de Tsallis. Esta fun\u00e7\u00e3o recupera os resultados cl\u00e1ssicos no limite q=1.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos resultados mais not\u00e1veis da pesquisa \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o matem\u00e1tica precisa entre a densidade de H\u2082 (n) e o \u00edndice entr\u00f3pico q, que quantifica o grau de n\u00e3o-equil\u00edbrio do sistema. Os autores mostram que quando a densidade \u00e9 muito baixa (o que equivale a um g\u00e1s ideal), o valor de q tende a 1, recuperando a estat\u00edstica cl\u00e1ssica. J\u00e1 quando a densidade aumenta, q cresce, podendo atingir valores como 1,25 (para a maior densidade experimental alcan\u00e7ada) ou mesmo 1,4 em situa\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas de densidade infinita. Nesse \u00faltimo caso, inclusive, a vari\u00e2ncia da velocidade das part\u00edculas deixaria de existir, indicando em tese uma transi\u00e7\u00e3o para um comportamento ainda mais extremo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEste novo trabalho j\u00e1 come\u00e7a a ganhar destaque internacional. Ele ser\u00e1 uma das apresenta\u00e7\u00f5es principais de um evento dedicado \u00e0 mec\u00e2nica estat\u00edstica n\u00e3o extensiva e \u00e0s entropias n\u00e3o aditivas, que acontece em Ierevan, na Arm\u00eania, <a href=\"https:\/\/nsp2025.aua.am\/\">no final de agosto<\/a>, ou seja, dentro de quatro meses. Trata-se de um encontro internacional que re\u00fane pesquisadores do Brasil e do exterior, e o estudo abordado nessa nossa entrevista ser\u00e1 um dos grandes destaques da programa\u00e7\u00e3o\u201d, diz Tsallis.<\/p>\n\n\n\n<p>O estudo vai al\u00e9m e mostra que o \u00edndice q tamb\u00e9m influencia as flutua\u00e7\u00f5es de temperatura no sistema. A temperatura m\u00e9dia dos \u00edons, por exemplo, pode ser sensivelmente diferente do que a do g\u00e1s H\u2082 que os envolve \u2014 um efeito atribu\u00eddo ao aquecimento induzido por radiofrequ\u00eancia (rf) na armadilha. A teoria prev\u00ea que essas flutua\u00e7\u00f5es t\u00e9rmicas n\u00e3o s\u00e3o \u201cru\u00eddo\u201d ou limita\u00e7\u00f5es do experimento, mas sim um fen\u00f4meno f\u00edsico fundamental resultante da estrutura qu\u00e2ntica e do confinamento extremo dos reagentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra contribui\u00e7\u00e3o importante do trabalho \u00e9 a introdu\u00e7\u00e3o de uma lei de \u00e1rea para a quantidade de graus de liberdade t\u00e9rmicos no sistema: quanto menor o volume e maior a densidade, mais dominantes s\u00e3o os efeitos de superf\u00edcie no balan\u00e7o t\u00e9rmico. Essa rela\u00e7\u00e3o, que envolve uma depend\u00eancia com o volume elevada \u00e0 pot\u00eancia 2\/3, \u00e9 an\u00e1loga a leis que aparecem em contextos como a entropia de buracos negros e a teoria do emaranhamento qu\u00e2ntico, sugerindo uma poss\u00edvel universalidade do fen\u00f4meno.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Entropia n\u00e3o aditiva no espa\u00e7o<\/h2>\n\n\n\n<p>Sobre buracos negros e cosmologia, Tsallis tamb\u00e9m obteve comprova\u00e7\u00e3o da efic\u00e1cia de uma outra entropia n\u00e3o aditiva chamada de delta-entropia que ele introduziu em 2009. Em 2013, o f\u00edsico em conjunto com um jovem colaborador publicou um artigo que se tornaria uma refer\u00eancia importante para estudos em cosmologia e astrof\u00edsica. O trabalho abordava buracos negros, e propunha uma modifica\u00e7\u00e3o na cl\u00e1ssica entropia de Bekenstein-Hawking \u2014 equa\u00e7\u00e3o que relaciona a \u00e1rea de um buraco negro \u00e0 sua entropia. \u201cIntroduzimos uma modifica\u00e7\u00e3o baseada na entropia de Bekenstein-Hawking&#8221;, explica Tsallis. &#8220;Com essa modifica\u00e7\u00e3o, ela se torna proporcional ao volume, satisfazendo assim a termodin\u00e2mica tradicional.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>A proposta, segundo o pesquisador, \u00e9 que embora a express\u00e3o original de Bekenstein-Hawking seja not\u00e1vel, ela n\u00e3o pode ser considerada a verdadeira entropia termodin\u00e2mica de um buraco negro. &#8220;\u00c9 uma entropia interessante, decididamente interessante, a \u00fanica express\u00e3o b\u00e1sica que conhe\u00e7o envolvendo as quatro constantes universais independentes da f\u00edsica te\u00f3rica contempor\u00e2nea (G, a constante gravitacional de Newton; c, a velocidade da luz no v\u00e1cuo; h, a constante de Planck e k, a constante de Boltzmann). Mas, para ser a entropia termodin\u00e2mica, precisa ser modificada.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Essa verifica\u00e7\u00e3o foi proposta pela primeira vez h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada. Agora, em 2025, Tsallis retomou a ideia em co-autoria com Henrik Jensen, &nbsp;coordenador do Grupo de Sistemas Complexos do Imperial College London. O novo estudo, publicado no in\u00edcio do ano, apresenta uma varia\u00e7\u00e3o da proposta de 2013, que tamb\u00e9m resulta em uma forma compat\u00edvel com a entropia termodin\u00e2mica. &#8220;Em cima da Bekenstein-Hawking, tem que fazer uma modifica\u00e7\u00e3o. Essa modifica\u00e7\u00e3o foi inicialmente feita em 2013 e foi repetida agora, com Jensen, numa situa\u00e7\u00e3o um pouquinho diferente.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>A principal previs\u00e3o dessa nova abordagem \u00e9 a emerg\u00eancia de um par\u00e2metro, o delta, que deve assumir o valor 3\/2 (tr\u00eas meios) para que a equa\u00e7\u00e3o reflita corretamente a entropia termodin\u00e2mica. No modelo original de Bekenstein-Hawking, delta \u00e9 igual a 1. &#8220;A entropia termodin\u00e2mica n\u00e3o tem delta igual a um. Tem que ter delta igual a tr\u00eas meios.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>A teoria foi posta \u00e0 prova com dados observacionais de diversas fontes. Uma delas \u00e9 o experimento IceCube, instalado no Polo Sul, especializado na detec\u00e7\u00e3o de neutrinos. Os dados do laborat\u00f3rio apontam um valor de 1,565, extremamente pr\u00f3ximo de 3\/2. &#8220;Este valor \u00e9 consistente tamb\u00e9m com os dados provenientes do Observat\u00f3rio Planck, que est\u00e1 dando voltas no sistema planet\u00e1rio solar&#8221;, acrescenta o f\u00edsico. Al\u00e9m disso, a mesma tend\u00eancia aparece em registros cosmol\u00f3gicos mais amplos, como os dados de abund\u00e2ncia dos elementos qu\u00edmicos primordiais \u2014 hidrog\u00eanio, h\u00e9lio, l\u00edtio \u2014 formados nos primeiros instantes ap\u00f3s o Big Bang. &#8220;Esses porcentuais que os experimentais conseguem medir fornecem 1,499, mais uma vez muito pr\u00f3ximo de 3\/2, e muito distante de 1.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>Com essas evid\u00eancias convergentes, a hip\u00f3tese ganha for\u00e7a como uma poss\u00edvel ponte entre a mec\u00e2nica estat\u00edstica n\u00e3o extensiva e fen\u00f4menos extremos do Universo. A ideia de que a entropia de um buraco negro precisa ser reinterpretada dentro desse novo quadro pode representar um passo fundamental para integrar as leis da termodin\u00e2mica com gravita\u00e7\u00e3o qu\u00e2ntica.<\/p>\n\n\n\n<p>A chamada q-estat\u00edstica, proposta por Constantino Tsallis, est\u00e1 longe de ser apenas uma constru\u00e7\u00e3o te\u00f3rica: ela tem sido testada \u2014 e confirmada \u2014 em alguns dos experimentos mais sofisticados j\u00e1 realizados pela humanidade. Um exemplo impressionante vem do CERN, o centro europeu de pesquisas nucleares, onde funciona o LHC (Grande Colisor de H\u00e1drons), a maior e mais poderosa m\u00e1quina j\u00e1 constru\u00edda para colis\u00f5es de part\u00edculas. \u201cEssas colis\u00f5es s\u00e3o profundamente qu\u00e2nticas\u201d, explica Tsallis. \u201cE os experimentos do CERN mostram que a curva experimental \u00e9 uma q-exponencial ao longo de 14 d\u00e9cadas. Roger, 14 d\u00e9cadas \u00e9 uma barbaridade experimental!\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Esse n\u00famero indica uma precis\u00e3o extrema: significa que a curva segue o comportamento te\u00f3rico com um controle de 1 parte em 100 trilh\u00f5es. Ou, nas palavras de Tsallis: \u201c\u00c9 uma precis\u00e3o \u2018est\u00fapida\u2019. Voc\u00ea est\u00e1 controlando o experimento com uma precis\u00e3o de 0,00000000000001. E eles verificam essa exponencial ao longo de 14 d\u00e9cadas.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Esses resultados, no entanto, n\u00e3o surgiram a partir de uma proposta te\u00f3rica enviada ao laborat\u00f3rio. Eles emergiram diretamente dos dados experimentais, com curvas que se ajustavam consideravelmente melhor \u00e0 q-estat\u00edstica do que \u00e0 exponencial padr\u00e3o. \u201cEssas verifica\u00e7\u00f5es nasceram deles. N\u00e3o fui eu que fui ao CERN propor nada. Eles fizeram os experimentos e encontraram as q-exponenciais.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Durante anos, os valores observados, sob diversas circunst\u00e2ncias, para o par\u00e2metro q \u2014 1,14; 1,11 e 1,07 \u2014permaneceram um mist\u00e9rio. Por que esses n\u00fameros apareciam? O que significavam? A resposta veio recentemente, gra\u00e7as ao trabalho de um grupo brasileiro. \u201cEsse enigma permaneceu por uns dez anos. E quem resolveu isso brilhantemente foi um colega nosso da USP, Airton Deppman.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A descoberta de Deppman, segundo Tsallis, foi not\u00e1vel. Com uma f\u00f3rmula extremamente simples, ele e seus colaboradores conseguiram relacionar o valor de q com dois par\u00e2metros fundamentais da f\u00edsica de part\u00edculas: o n\u00famero de cores e de sabores dos quarks que emergem nas colis\u00f5es. \u201cEles publicaram uma formulazinha que eu acho fascinante. Porque ela liga o q com o n\u00famero de sabores e o n\u00famero de cores. E com isso, explicam o 1,14, o 1,11 e o 1,07.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O trabalho <a href=\"https:\/\/journals.aps.org\/prd\/abstract\/10.1103\/PhysRevD.101.034019\">Fractals, nonextensive statistics, and QCD<\/a> foi assinado por Airton Deppmann, D\u00e9bora Menezes \u2014 ex-presidente da Sociedade Brasileira de F\u00edsica e atual integrante do CNPq \u2014 e pelo pesquisador espanhol Eugenio Meg\u00edas, da Universidade de Granada. A simplicidade da f\u00f3rmula surpreende: \u201c\u00c9 desse tamanhezinho, simples, mas poderosa.\u201d Esse estudo tamb\u00e9m ser\u00e1 destaque na confer\u00eancia internacional sobre mec\u00e2nica estat\u00edstica n\u00e3o extensiva que ocorrer\u00e1 em agosto, na Arm\u00eania. \u201cN\u00e3o tenha d\u00favida. O Airton vai a Ierevan apresentar esse resultado. \u00c9 um marco. Essa verifica\u00e7\u00e3o experimental vem se somar \u00e0s muitas outras que estavam esperando por uma explica\u00e7\u00e3o.&nbsp; Agora t\u00eam.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Antes, em 2015, um experimento conduzido por um grupo franc\u00eas em Grenoble levou \u00e0 verifica\u00e7\u00e3o precisa de uma previs\u00e3o feita por Constantino Tsallis quase duas d\u00e9cadas antes. \u201cFoi um experimento com meios granulares \u2014 um sistema muito complexo\u201d, lembra Tsallis. \u201cEles tinham uma c\u00e2mera impressionante, que filmava e processava simultaneamente as posi\u00e7\u00f5es e as velocidades de todos os gr\u00e3os. Um neg\u00f3cio que eu achei espantoso.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O estudo confirmou, com apenas 2% de erro, uma predi\u00e7\u00e3o te\u00f3rica feita por Tsallis 19 anos antes. O artigo, assinado por Ga\u00ebl Combe e colaboradores, foi publicado na Physical Review Letters. \u201cO artigo n\u00e3o s\u00f3 foi publicado, como recebeu o prestigioso selo de Editors Suggestions. Quer dizer: os pr\u00f3prios editores recomendam aos leitores que leiam aquele paper.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A publica\u00e7\u00e3o, de 2015, teve grande impacto tanto na Fran\u00e7a quanto fora dela. Ga\u00ebl Combe \u00e9 atualmente diretor de um novo e avan\u00e7ado laborat\u00f3rio em Grenoble, especializado no estudo de sistemas tecnol\u00f3gicos complexos. \u201cEle pediu financiamento ao CNRS \u2014 que \u00e9 o an\u00e1logo ao nosso CNPq \u2014 e recebeu apoio para promover uma colabora\u00e7\u00e3o com o Brasil. Os franceses vir\u00e3o ao CBPF, no Rio de Janeiro, e n\u00f3s iremos a Grenoble. Tudo pago pela Fran\u00e7a. Veja s\u00f3 o impacto desse trabalho.\u201d Essa verifica\u00e7\u00e3o experimental ilustra a abrang\u00eancia da q-estat\u00edstica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Um novo convite \u00e0 ci\u00eancia &#8211; <\/strong>Agora, o novo estudo publicado sob licen\u00e7a aberta e com valida\u00e7\u00e3o matem\u00e1tica rigorosa na Physical Review Research\/Letters, Tsallis e Beck convidam a comunidade cient\u00edfica a testar suas previs\u00f5es em novos experimentos com armadilhas de \u00edons, variando sistematicamente a densidade dos reagentes e medindo tanto as distribui\u00e7\u00f5es de velocidade quanto as flutua\u00e7\u00f5es de temperatura. Os autores apontam que cada classe de experimentos ter\u00e1 sua \u201cequa\u00e7\u00e3o de estado\u201d particular, ou seja, sua pr\u00f3pria forma funcional para q(n), dependendo de detalhes como a geometria da armadilha e os par\u00e2metros de estabilidade do sistema.<\/p>\n\n\n\n<p>A pesquisa refor\u00e7a o papel central da q-estat\u00edstica no entendimento de fen\u00f4menos que fogem ao dom\u00ednio da f\u00edsica tradicional. E \u00e9 tamb\u00e9m mais um exemplo da contribui\u00e7\u00e3o duradoura de Constantino Tsallis \u00e0 ci\u00eancia contempor\u00e2nea: ele faz quest\u00e3o de lembrar que de modo algum destronou Boltzmann \u2014 apenas p\u00f4de enxergar mais longe gra\u00e7as aos grandes mestres que o antecederam. Mestres que nos ensinam que a beleza pode at\u00e9 ser quantificada\u2026 mas nunca limitada.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>(Colaborou Roger Marzochi)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cSe vi mais longe, foi por estar sobre os ombros de gigantes.\u201d Essa \u00e9 uma c\u00e9lebre frase escrita por Isaac Newton numa carta enviada a Robert Hooke no s\u00e9culo 17, no qual explicava que suas descobertas s\u00f3 foram poss\u00edveis porque ele p\u00f4de se apoiar no conhecimento acumulado por grandes cientistas antes dele, como Galileu Galilei, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":12,"featured_media":26465,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[124],"tags":[1153,273,274,1155,466,1154,1156],"class_list":["post-26464","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destaque-em-fisica","tag-anomalous-velocity-distributions-in-slow-quantum-tunneling-chemical-reactions","tag-cbpf","tag-centro-brasileiro-de-pesquisas-fisicas","tag-christian-beck","tag-constantino-tsallis","tag-physical-review-research","tag-queen-mary-university-of-london"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26464","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/users\/12"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26464"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26464\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":26466,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26464\/revisions\/26466"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/media\/26465"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26464"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26464"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26464"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}