{"id":24970,"date":"2024-12-05T14:47:54","date_gmt":"2024-12-05T17:47:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/?p=24970"},"modified":"2024-12-05T14:47:54","modified_gmt":"2024-12-05T17:47:54","slug":"fisicos-brasileiros-avancam-no-estudo-dos-polarons-ionicos-de-fermi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/fisicos-brasileiros-avancam-no-estudo-dos-polarons-ionicos-de-fermi\/","title":{"rendered":"F\u00edsicos brasileiros avan\u00e7am no estudo dos polarons i\u00f4nicos de Fermi"},"content":{"rendered":"\n<p>Imagine um pequeno \u00edon, part\u00edcula carregada eletricamente, do tamanho de um gr\u00e3o de areia em um oceano imenso formado por \u00e1tomos. Esse cen\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 apenas fruto da imagina\u00e7\u00e3o: ele est\u00e1 na vanguarda da f\u00edsica qu\u00e2ntica, ajudando cientistas a entender como as part\u00edculas se comportam em sistemas extremamente pequenos e complexos. Pesquisadores do Brasil e da It\u00e1lia exploraram um fen\u00f4meno chamado polaron i\u00f4nico de Fermi, que acontece quando uma impureza carregada (o \u00edon) \u00e9 inserida em um banho de part\u00edculas chamadas f\u00e9rmions, que s\u00e3o part\u00edculas fundamentais para a composi\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria e incluem pr\u00f3tons, n\u00eautrons, el\u00e9trons e quarks.<\/p>\n\n\n\n<p>Os resultados foram publicados no dia 2 de dezembro na revista Physical Review Letters (PRL) no artigo \u201c<a href=\"https:\/\/journals.aps.org\/prl\/abstract\/10.1103\/PhysRevLett.133.233002\">Fermi polaron in atom-ion hybrid systems<\/a>\u201d. Esses f\u00e9rmions seguem regras da mec\u00e2nica qu\u00e2ntica, que muitas vezes desafiam nossa intui\u00e7\u00e3o cotidiana. Por meio de simula\u00e7\u00f5es computadorizadas avan\u00e7adas, usando uma t\u00e9cnica conhecida como Monte Carlo qu\u00e2ntico, os cientistas analisaram como essas part\u00edculas interagem e como a presen\u00e7a de um \u00edon modifica o ambiente ao seu redor, conseguindo resultados at\u00e9 ent\u00e3o in\u00e9ditos na literatura sobre o tema.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO polaron \u00e9 o que a gente chama de quase-part\u00edcula. Ocorre quando voc\u00ea coloca uma impureza (\u00edon) em um banho, que \u00e9 um g\u00e1s. E essa impureza, juntamente com a sua vizinhan\u00e7a, tem um comportamento e tem propriedades t\u00edpicas de uma part\u00edcula. Ent\u00e3o, todo esse conjunto pode ser encarado como uma \u00fanica part\u00edcula, que tem uma massa efetiva, tem uma energia de liga\u00e7\u00e3o, pode interagir com outras quase-part\u00edculas, inclusive\u201d, diz Renato Pessoa, professor da Universidade Federal de Goi\u00e1s (UFG) e principal autor do artigo, que ainda \u00e9 assinado pelo professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Silvio A. Vitiello e pelo colombiano Luis A. Pe\u00f1a Ardila, da Universidade de Trieste, It\u00e1lia.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"1024\" data-id=\"24972\" src=\"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/RenatoPessoa-1024x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-24972\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Renato Pessoa (UFG).<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"570\" height=\"1024\" data-id=\"24973\" data-src=\"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/Vitiello-570x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-24973 lazyload\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" style=\"--smush-placeholder-width: 570px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 570\/1024;\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Silvio A. Vitiello (Unicamp)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"344\" height=\"460\" data-id=\"24974\" data-src=\"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/Ardila.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-24974 lazyload\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" style=\"--smush-placeholder-width: 344px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 344\/460;\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Luis A. Pe\u00f1a Ardila (Universidade de Trieste, It\u00e1lia)<\/figcaption><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<p>Antes de avan\u00e7armos, vamos entender o conceito de polaron. Pense em um polaron como uma part\u00edcula que arrasta consigo uma \u201cnuvem\u201d de outras part\u00edculas ao se mover em um material. Imagine uma bola de boliche sendo jogada em um colch\u00e3o d&#8217;\u00e1gua: enquanto a bola se move, ela deforma o colch\u00e3o ao seu redor, criando um padr\u00e3o que a segue. No caso dos polarons, o \u201ccolch\u00e3o\u201d \u00e9 o material qu\u00e2ntico, e a \u201cbola\u201d pode ser uma part\u00edcula como um \u00edon.<\/p>\n\n\n\n<p>Os pesquisadores previram no estudo te\u00f3rico um experimento usando uma \u201carmadilha de \u00edons\u201d, sistemas de lasers que aprisionam a part\u00edcula em meio ao g\u00e1s que perfaz o \u201cbanho\u201d em uma temperatura pr\u00f3xima do zero absoluto. \u201cOs experimentos normalmente s\u00e3o realizados utilizando \u00e1tomos alcalinos, de l\u00edtio ou algum outro \u00e1tomo da mesma fam\u00edlia do l\u00edtio na tabela peri\u00f3dica. Ent\u00e3o, na maioria das vezes, esses polarons s\u00e3o formados ou por part\u00edculas de mesma massa, ou is\u00f3topos, ou um \u00e1tomo como esse ionizado que \u00e9 colocado dentro do banho\u201d, explica Pessoa.<\/p>\n\n\n\n<p>No estudo, os cientistas se concentraram em sistemas onde um \u00edon carregado \u00e9 introduzido em um &#8220;banho&#8221; de f\u00e9rmions altamente organizados. Nesse banho, que \u00e9 uma sopa de part\u00edculas qu\u00e2nticas extremamente frias, os f\u00e9rmions t\u00eam uma polariza\u00e7\u00e3o de spin. O \u00edon \u00e9 inserido no \u201cbanho\u201d com spin invertido em rela\u00e7\u00e3o aos f\u00e9rmions. \u201cQuando esse \u00edon \u00e9 colocado no banho, ele interage com um potencial de longo alcance com essas part\u00edculas e o \u00edon juntamente com toda sua vizinhan\u00e7a se comporta como uma quase-part\u00edcula. E a\u00ed \u00e9 chamado de polaron\u201d, diz Pessoa.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"812\" data-src=\"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/ion-banho-fermions-1024x812.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-24975 lazyload\" style=\"--smush-placeholder-width: 1024px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 1024\/812;width:444px;height:auto\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Ao realizar os c\u00e1lculos, os cientistas mediram propriedades importantes desse sistema, como o espectro de energia, a massa efetiva (que mostra como o \u00edon \u201cpesa\u201d dentro do banho) e o comportamento estrutural das part\u00edculas ao redor do \u00edon. E descobriram que em situa\u00e7\u00f5es de forte acoplamento \u2013 onde o \u00edon interage intensamente com o banho \u2013 surgem grandes altera\u00e7\u00f5es na densidade ao redor do \u00edon, algo que as teorias existentes n\u00e3o previam.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cH\u00e1 uma literatura relativamente vasta a respeito do tema de polarons, n\u00e3o \u00e9 um assunto muito novo. No entanto, quando se coloca \u00edons e vai se estudar isso de maneira te\u00f3rica ou mesmo fazendo uma simula\u00e7\u00e3o, essas metodologias tradicionais n\u00e3o conseguem alcan\u00e7ar o que a gente alcan\u00e7a utilizando Monte Carlo, que \u00e9 o fato de que, por conta da intera\u00e7\u00e3o do \u00edon com as outras part\u00edculas, a densidade do banho se modifica muito fortemente em torno da part\u00edcula. E essa modifica\u00e7\u00e3o na densidade do banho na vizinhan\u00e7a da impureza afeta de maneira muito importante as propriedades encontradas, a massa efetiva, a energia e assim por diante\u201d, diz Pessoa.<\/p>\n\n\n\n<p>O estudo observou como o sistema pode fazer uma transi\u00e7\u00e3o suave entre dois estados diferentes: o estado de polaron (em que o \u00edon arrasta uma \u201cnuvem\u201d de part\u00edculas ao seu redor) e o estado de mol\u00e9cula, em que o \u00edon se liga mais diretamente a algumas part\u00edculas do banho. Essa transi\u00e7\u00e3o, no entanto, \u00e9 diferente do que acontece em sistemas neutros, nos quais n\u00e3o h\u00e1 carga envolvida.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora esse estudo aconte\u00e7a no mundo dos sistemas qu\u00e2nticos, ele oferece insights importantes para tecnologias muito pr\u00e1ticas. Um exemplo s\u00e3o os semicondutores finos, usados em dispositivos eletr\u00f4nicos modernos, como celulares e computadores. Al\u00e9m disso, plataformas que combinam \u00e1tomos e \u00edons est\u00e3o sendo estudadas como ferramentas para tecnologias qu\u00e2nticas, incluindo computadores qu\u00e2nticos e sensores ultrassens\u00edveis. Compreender como \u00edons e f\u00e9rmions interagem pode abrir caminho para avan\u00e7os nesses campos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas esse n\u00e3o foi o principal objetivo desta pesquisa, afirma Pessoa. \u201cA contribui\u00e7\u00e3o maior do trabalho n\u00e3o mira diretamente a aplica\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica desses sistemas, uma vez que o trabalho est\u00e1 interessado no entendimento da natureza e entender como que a ela se comporta nesse limite de um g\u00e1s extremamente frio, com a temperatura muito, muito baixa, onde voc\u00ea tem um dom\u00ednio da mec\u00e2nica qu\u00e2ntica. Ou seja, todas as propriedades do sistema s\u00f3 podem ser compreendidas \u00e0 luz da mec\u00e2nica qu\u00e2ntica, resolvendo a equa\u00e7\u00e3o de Schr\u00f6dinger para esse sistema. N\u00f3s temos um objetivo muito claro de compreender o que \u00e9 que est\u00e1 sendo alcan\u00e7ado no experimento e dar contribui\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m no entendimento da natureza nesse limite onde o experimento ainda n\u00e3o alcan\u00e7ou. Ent\u00e3o esse seria o objetivo final desse trabalho e n\u00e3o nesse momento mirar em aplica\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas imediatas.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><strong>(Colaborou Roger Marzochi)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Imagine um pequeno \u00edon, part\u00edcula carregada eletricamente, do tamanho de um gr\u00e3o de areia em um oceano imenso formado por \u00e1tomos. Esse cen\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 apenas fruto da imagina\u00e7\u00e3o: ele est\u00e1 na vanguarda da f\u00edsica qu\u00e2ntica, ajudando cientistas a entender como as part\u00edculas se comportam em sistemas extremamente pequenos e complexos. 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