{"id":24347,"date":"2024-10-03T15:59:53","date_gmt":"2024-10-03T18:59:53","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/?p=24347"},"modified":"2024-10-03T16:03:29","modified_gmt":"2024-10-03T19:03:29","slug":"uma-licao-de-vida-e-ciencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/uma-licao-de-vida-e-ciencia\/","title":{"rendered":"Uma li\u00e7\u00e3o de vida e ci\u00eancia"},"content":{"rendered":"\n<p>Document\u00e1rio sobre Joaquim da Costa Ribeiro \u00e9 um testemunho po\u00e9tico de uma hist\u00f3ria familiar, social e cient\u00edfica da f\u00edsica moderna no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>O sucesso ou o fracasso n\u00e3o t\u00eam import\u00e2ncia, pois o mais relevante de tudo \u00e9 a experi\u00eancia. Em s\u00edntese, \u00e9 o que o f\u00edsico Joaquim da Costa Ribeiro escreve em carta ao filho que fora reprovado no vestibular. Para al\u00e9m de uma li\u00e7\u00e3o sobre a import\u00e2ncia da viv\u00eancia, da experi\u00eancia de vida, essa ideia sem d\u00favida expressa o esp\u00edrito do fazer cient\u00edfico. Essa carta est\u00e1 no in\u00edcio do document\u00e1rio \u201cTermodiel\u00e9trico\u201d, dirigido e narrado por Ana Costa Ribeiro, neta do famoso cientista e filha do jovem que outrora reprovado no vestibular, consegue se formar em Qu\u00edmica.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"310\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/termodieletrico-cartaz.webp\" alt=\"Cartaz do document\u00e1rio &quot;Termodiel\u00e9trico&quot;.\" class=\"wp-image-24350\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Cartaz do document\u00e1rio &#8220;Termodiel\u00e9trico&#8221;.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>\u201cFiquei muito emocionada quando encontrei essa carta. Na verdade, ela vinha no final, mas depois, no processo criativo, ela veio no come\u00e7o. Eu acho que ela j\u00e1 indicava um pouco onde eu me encontrei com esse amor. E acho que a heran\u00e7a familiar que eu tive, mais importante desse av\u00f4, foi justamente essa: a experi\u00eancia que voc\u00ea faz, seja ela na \u00e1rea que for, voc\u00ea vai estar sempre correndo atr\u00e1s de conhecer mais alguma coisa e que o resultado n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o importante, o importante \u00e9 voc\u00ea estar ali fazendo, experimentando. E eu acho que isso tem muito a ver com arte processo, n\u00e3o apenas criativo e art\u00edstico, mas tamb\u00e9m cient\u00edfico\u201d, diz Ana Costa, em entrevista ao<strong> Boletim SBF. <\/strong>\u201cA sensibilidade cient\u00edfica dele e a minha sensibilidade art\u00edstica e o lugar onde a gente se encontra \u00e9 principalmente esse: \u00e9 o prazer em buscar o desconhecido\u201d, afirma a cineasta.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA ci\u00eancia \u00e9 uma busca permanente. E nessa busca tem muitas dificuldades, fracassos processos que n\u00e3o andam. O pr\u00f3prio Einstein dizia que 99% do tempo as coisas que ele tentava n\u00e3o davam certo. Mas a\u00ed tem o 1% que d\u00e1 certo. \u00c9 um processo, \u00e9 uma busca incessante. E a ci\u00eancia \u00e9 uma intera\u00e7\u00e3o complicada com a natureza\u201d, diz o f\u00edsico e divulgador cient\u00edfico Ildeu de Castro Moreira, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ex-membro do conselho da Sociedade Brasileira de F\u00edsica (SBF) e presidiu a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci\u00eancia (SBPC) entre 2017 a 2021, entidade da qual \u00e9 Presidente de Honra.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"939\" data-src=\"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/joaquim-costa-ribeiro-02-1-1024x939.jpg\" alt=\"Ribeiro foi o primeiro delegado do Pa\u00eds junto ao Comit\u00ea Consultivo da ONU para uso pac\u00edfico da energia nuclear\" class=\"wp-image-24351 lazyload\" style=\"--smush-placeholder-width: 1024px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 1024\/939;width:566px;height:auto\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Ribeiro foi o primeiro  delegado do Pa\u00eds junto ao Comit\u00ea Consultivo da ONU para uso pac\u00edfico da energia nuclear.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>O cientista assistiu o document\u00e1rio na semana passada no Museu de Astronomia de Ci\u00eancias Afins (MAST) em sess\u00e3o solene e ficou emocionado com a forma como a hist\u00f3ria de Costa Ribeiro foi apresentada ao p\u00fablico, que agora poder\u00e1 tamb\u00e9m acompanhar a trajet\u00f3ria desse grande cientista. Com apoio da Emba\u00faba Filmes, o document\u00e1rio estreia nos cinemas do Brasil no dia 10 de outubro, exceto no Rio de Janeiro, cuja exibi\u00e7\u00e3o est\u00e1 marcada para o dia 17.<\/p>\n\n\n\n<p>Produzido com apoio do Projeto Rumos, do Ita\u00fa Cultural, o filme faz uma fus\u00e3o de arte e ci\u00eancia ao apresentar uma vis\u00e3o po\u00e9tica da constru\u00e7\u00e3o de Ana Costa sobre a mem\u00f3ria de sua fam\u00edlia, trajet\u00f3ria que se fortaleceu ap\u00f3s o trauma da perda de seu pai. Ao buscar essas mem\u00f3rias, ela se deparou com 11 rolos de filme de 8 mil\u00edmetros de seu av\u00f4, com cenas n\u00e3o apenas da fam\u00edlia, mas de suas viagens pelo mundo ap\u00f3s a grande descoberta do Efeito Termodiel\u00e9trico, uma propriedade de certos materiais que permite a condu\u00e7\u00e3o de corrente el\u00e9trica ap\u00f3s passarem por uma mudan\u00e7a de estado. Costa Ribeiro tamb\u00e9m foi um dos criadores do CNPq e do Centro Brasileiro de Pesquisas F\u00edsicas (CBPF).<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"749\" data-src=\"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/joaquim-costa-ribeiro-01-1024x749.jpg\" alt=\"A descoberta do Efeito Termodiel\u00e9trico levou Joaquim Costa Ribeiro a viajar pelo mundo.\" class=\"wp-image-24352 lazyload\" style=\"--smush-placeholder-width: 1024px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 1024\/749;width:545px;height:auto\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">A descoberta do Efeito Termodiel\u00e9trico levou Joaquim Costa Ribeiro a viajar pelo mundo.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Castro Moreira lembra que o f\u00edsico alem\u00e3o Bernhard Gross, que chegou ao Brasil em 1933, come\u00e7ou a estudar certos isolantes el\u00e9tricos chamados eletretos no Instituto Nacional de Tecnologia (INT) a pedido de uma companhia de energia el\u00e9trica. Os estudos avan\u00e7aram at\u00e9 Costa Ribeiro fazer experi\u00eancias com a cera de carna\u00faba, que na mudan\u00e7a do estado l\u00edquido para seu estado s\u00f3lido, apresentou carga el\u00e9trica, um material conhecido como termodiel\u00e9trico. E Moreira Castro avalia que o filme de Ana Costa ser\u00e1 muito importante para a divulga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica no Pa\u00eds porque, apesar de n\u00e3o abordar diretamente a F\u00edsica, revela uma personalidade de um cientista que \u00e9 tamb\u00e9m um ser humano.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"648\" data-src=\"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/joaquim-costa-ribeiro-03-1024x648.jpg\" alt=\"Joaquim Costa Ribeiro e a esposa Jacqueline de Leers.\" class=\"wp-image-24353 lazyload\" style=\"--smush-placeholder-width: 1024px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 1024\/648;width:685px;height:auto\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Joaquim Costa Ribeiro e a esposa Jacqueline de Leers.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>\u201cA exibi\u00e7\u00e3o do filme no MAST foi presenciada por v\u00e1rios cientistas l\u00e1. E eles me agradeceram. Eles falaram: voc\u00ea botou um cientista que \u00e9 gente tamb\u00e9m, n\u00e9? \u00c9 humano. Ele tem uma mulher por quem ele \u00e9 apaixonado, que t\u00e1 dando uma bronca nele porque ele t\u00e1 viajando demais, ele tem os filhos para sustentar. Um cara que descobriu um super fen\u00f4meno important\u00edssimo, mas que tinha uma vida normal, como todos n\u00f3s: saia de manh\u00e3 pra trabalhar, tinha uma esposa, tinha suas quest\u00f5es familiares tamb\u00e9m. Ent\u00e3o, eu acho que o filme tem muito essa proposta de integra\u00e7\u00e3o mesmo entre as disciplinas, entre a arte, a ci\u00eancia, a natureza, a vida, a filosofia e o trabalho. Tudo um mesmo mundo\u201d, diz Ana Costa.<\/p>\n\n\n\n<p>A cineasta buscou tamb\u00e9m ressaltar a import\u00e2ncia das mulheres na ci\u00eancia, contando sobre a visita de Marie Curie ao Brasil em 1926. Apesar de n\u00e3o ter provas de que seu av\u00f4 tenha participado das palestras da cientista polonesa, a primeira mulher a vencer dos Pr\u00eamios Nobel pela descoberta da radioatividade, Costa Ribeiro foi um estudioso dos minerais radioativos um grande cr\u00edtico da entrega desses recursos sem muitos crit\u00e9rios a grandes pot\u00eancias estrangeiras. A refer\u00eancia feminina tamb\u00e9m est\u00e1 no relato da av\u00f3 e das 42 cartas de amor trocada entre eles. E Ana Costa decidiu narrar o filme em primeira pessoa mesmo n\u00e3o sendo locutora ou atriz, mas como uma forma de marcar o terreno da mulher na arte.<\/p>\n\n\n\n<p>A arte de contar hist\u00f3rias foi sendo lapidada aos poucos na experi\u00eancia de vida de Ana Costa. Primeiro, ela se formou Bacharel em Comunica\u00e7\u00e3o Social pela UFRJ, Mestrado em Comunica\u00e7\u00e3o na mesma universidade, depois Mestrado em Fine Arts em Cinema pela San Francisco State University e, depois, se tornou Doutora em Arte e Cultura Contempor\u00e2nea pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). \u201cTermodiel\u00e9trico\u201d \u00e9 o seu primeiro longa-metragem. E a experi\u00eancia de filmar sobre ci\u00eancia foi t\u00e3o boa, que a cineasta sonha em novas realiza\u00e7\u00f5es, especialmente em \u00e1reas ligadas ao meio ambiente e sustentabilidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Lembrando da carta que Costa Ribeiro envio ao filho, o cientista Castro Moreira lembra que al\u00e9m de ser uma li\u00e7\u00e3o de vida reconhecer a import\u00e2ncia da experi\u00eancia, h\u00e1 nesse impulso tamb\u00e9m um incentivo ao filho de nunca desistir de seus sonhos, e buscar mais, e mais uma vez. \u201cEle mostra tamb\u00e9m, para a vida individual das pessoas, a import\u00e2ncia da resili\u00eancia, de n\u00e3o desistir. E podemos pensar isso no \u00e2mbito social e pol\u00edtico. Voc\u00ea pode prestar novamente o vestibular e passar. O tempo individual \u00e9 uma coisa, o tempo coletivo \u00e9 outro. S\u00f3 que o nosso tempo coletivo est\u00e1 muito devagar. A gente tem um potencial imenso, a gente sente que o pa\u00eds tem um potencial na f\u00edsica, na ci\u00eancia em geral, na melhoria das qualidades de vida, e n\u00f3s estamos vivendo momentos muito dif\u00edceis no pa\u00eds, que anda muito lento\u201d, analisa Castro Moreira. Que a uni\u00e3o entre arte e ci\u00eancia possa colaborar para aprimorar as condi\u00e7\u00f5es de desenvolvimento de um Pa\u00eds t\u00e3o rico e, ao mesmo tempo, t\u00e3o pobre quanto o Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>(Colaborou Roger Marzochi)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Document\u00e1rio sobre Joaquim da Costa Ribeiro \u00e9 um testemunho po\u00e9tico de uma hist\u00f3ria familiar, social e cient\u00edfica da f\u00edsica moderna no Brasil. O sucesso ou o fracasso n\u00e3o t\u00eam import\u00e2ncia, pois o mais relevante de tudo \u00e9 a experi\u00eancia. 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