{"id":23433,"date":"2022-04-18T15:09:09","date_gmt":"2022-04-18T18:09:09","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/?p=23433"},"modified":"2024-08-24T15:11:51","modified_gmt":"2024-08-24T18:11:51","slug":"teria-a-materia-escura-contribuido-para-a-extincao-dos-dinossauros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/teria-a-materia-escura-contribuido-para-a-extincao-dos-dinossauros\/","title":{"rendered":"Teria a mat\u00e9ria escura contribu\u00eddo para a extin\u00e7\u00e3o dos dinossauros?"},"content":{"rendered":"\n<p>\u00c9 desconexo o t\u00edtulo referente \u00e0 entrevista publicada na Folha de S. Paulo no dia 2 de abril de 2022 com o t\u00edtulo \u201c<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ciencia\/2022\/04\/fisica-lisa-randall-diz-que-materia-escura-matou-dinos.shtml\" title=\"\">F\u00edsica Lisa Randall diz que mat\u00e9ria escura matou dinossauros<\/a>\u201d. Tal afirma\u00e7\u00e3o n\u00e3o condiz com o conte\u00fado da entrevista com a pesquisadora e causou algum interesse e d\u00favidas que queremos abordar aqui.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro passo que deve ser tomado para verificar a qualidade de um artigo \u00e9 buscar informa\u00e7\u00f5es sobre quem o escreveu. Salvador Nogueira, autor do artigo, \u00e9 um experiente e conceituado jornalista cient\u00edfico. Lisa Randall \u00e9 professora de F\u00edsica da Universidade de Harvard, uma das mais prestigiosas do mundo. Seus trabalhos em F\u00edsica de Part\u00edculas t\u00eam grande influ\u00eancia na comunidade internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>O segundo passo \u00e9 buscar informa\u00e7\u00f5es sobre a pesquisa que est\u00e1 sendo descrita. Livros podem ser publicados por qualquer pessoa e em geral n\u00e3o passam por um crivo cient\u00edfico. \u00c9 necess\u00e1rio verificar se a pesquisa mencionada foi publicada em uma revista internacional passando pelo julgamento de cientistas da \u00e1rea. O artigo est\u00e1 baseado em um livro da autora, escrito em 2015 e rec\u00e9m lan\u00e7ado no Brasil com o t\u00edtulo: \u201cO universo invis\u00edvel: Mat\u00e9ria escura, dinossauros e a surpreendente conectividade do mundo\u201d. Como ressalva, mencionamos que um dos autores do presente texto foi o revisor t\u00e9cnico da tradu\u00e7\u00e3o do livro. Vamos agora apresentar os trabalhos cient\u00edficos que s\u00e3o a base do livro.<\/p>\n\n\n\n<p>Os primeiros trabalhos cient\u00edficos de Randall neste assunto&nbsp; foram publicados em 2013 com a colabora\u00e7\u00e3o de JiJi Fan, Andrey Katz e Matthew Reece na revista Physics of the Dark Universe (pode ser baixado no link&nbsp;<a href=\"https:\/\/arxiv.org\/abs\/1303.1521\"><\/a><a href=\"https:\/\/arxiv.org\/pdf\/1303.1521.pdf\">https:\/\/arxiv.org\/pdf\/1303.1521.pdf<\/a>) e na prestigiosa revista Physical Review Letters (pode ser baixado no link&nbsp;<a href=\"https:\/\/arxiv.org\/pdf\/1303.3271.pdf\"><\/a><a href=\"https:\/\/arxiv.org\/pdf\/1303.3271.pdf\">https:\/\/arxiv.org\/pdf\/1303.3271.pdf<\/a>) e contam com 239 e 160 cita\u00e7\u00f5es at\u00e9 o momento, respectivamente. Nestes trabalhos foram propostos novos modelos de mat\u00e9ria escura. Existem muitas evid\u00eancias observacionais, acumuladas desde a d\u00e9cada de 1930, de que cerca de 25% do conte\u00fado do Universo est\u00e1 na forma de mat\u00e9ria escura, um novo tipo de mat\u00e9ria invis\u00edvel por n\u00e3o interagir com a luz. Para maiores informa\u00e7\u00f5es sobre a mat\u00e9ria escura, assista o v\u00eddeo da<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=gpA1QL1gFBk\">&nbsp;F\u00edsica ao Vivo<\/a>&nbsp;dedicado a esse assunto. Os modelos usuais sugerem que a mat\u00e9ria escura interage muito fracamente. Essa intera\u00e7\u00e3o fraca faz com que a distribui\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria escura em nossa gal\u00e1xia tenha a forma de uma grande esfera que engloba a Via L\u00e1ctea (e outras gal\u00e1xias tamb\u00e9m). Randall e colaboradores prop\u00f5em a possibilidade de que possa haver um novo tipo de for\u00e7a da natureza que modifique a distribui\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria escura (ou de parte dela), tornando-a \u201cachatada\u201d como a mat\u00e9ria normal em nossa gal\u00e1xia. Assim, existiria um disco de mat\u00e9ria escura em adi\u00e7\u00e3o ao disco de mat\u00e9ria normal (formado por estrelas e g\u00e1s). Os t\u00edtulos dos trabalhos s\u00e3o \u201cDouble Disk Dark Matter\u201d e \u201cA Dark Disk Universe\u201d. Os autores sugerem consequ\u00eancias que podem ser testadas atrav\u00e9s de medidas precisas do movimento de estrelas em nossa gal\u00e1xia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nestes primeiros trabalhos n\u00e3o h\u00e1 men\u00e7\u00e3o a dinossauros. Em 2014, Randall and Reece publicam \u201cDark Matter as a Trigger for Periodic Comet Impacts\u201d na revista Physical Review Letters (pode ser baixado no link&nbsp;<a href=\"https:\/\/arxiv.org\/pdf\/1403.0576.pdf\"><\/a><a href=\"https:\/\/arxiv.org\/pdf\/1403.0576.pdf\">https:\/\/arxiv.org\/pdf\/1403.0576.pdf<\/a>) com 39 cita\u00e7\u00f5es. Neste trabalho \u00e9 feito um estudo detalhado sobre o impacto deste disco duplo na chamada nuvem de Oort, uma fonte de cometas no nosso sistema solar (o rec\u00e9m descoberto cometa Bernardinelli-Bernstein, co-descoberto pelo astrof\u00edsico brasileiro Pedro Bernardinelli, foi ejetado da nuvem de Oort &#8211; para mais detalhes, assista a apresenta\u00e7\u00e3o de Bernardinelli no&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/home\/index.php\/pt\/fisica-ao-vivo\/1447-fisica-ao-vivo-pedro-bernardinelli-cometas-gigantes-e-mundos-pequenos-nos-confins-gelados-do-sistema-solar\">F\u00edsica ao Vivo<\/a>). Em particular, \u00e9 feita uma previs\u00e3o da densidade que o disco de mat\u00e9ria escura deve ter para ejetar cometas quando o sistema solar, em sua jornada pela Via L\u00e1ctea, passa pelo disco da gal\u00e1xia a cada 35 milh\u00f5es de anos. Deve-se ressaltar que a palavra \u201cdinossauros\u201d n\u00e3o aparece no artigo.<\/p>\n\n\n\n<p>Estes tr\u00eas trabalhos s\u00e3o um bom exemplo do m\u00e9todo cient\u00edfico, com a proposi\u00e7\u00e3o de um modelo de mat\u00e9ria escura que explica uma periodicidade de cerca de 35 milh\u00f5es de anos de impactos de cometas com a Terra, para a qual h\u00e1 uma certa evid\u00eancia estat\u00edstica, ainda que fraca. E esse modelo pode ser testado e falsificado com o estudo do movimento de estrelas na nossa gal\u00e1xia, como o realizado pelo sat\u00e9lite Gaia. Alguns testes foram de fato realizados e o modelo ainda n\u00e3o foi confirmado e est\u00e1 sob questionamento, pelo menos para os par\u00e2metros necess\u00e1rios para explicar a periodicidade (veja, por exemplo, o artigo publicado na revista Physical Review Letters, em 2018, dispon\u00edvel em&nbsp;<a href=\"https:\/\/arxiv.org\/abs\/1711.03103\"><\/a><a href=\"https:\/\/arxiv.org\/abs\/1711.03103\">https:\/\/arxiv.org\/abs\/1711.03103<\/a>; neste artigo, do qual Randall n\u00e3o participa, os autores apontam evid\u00eancias que desfavorecem a presen\u00e7a de um disco fino de mat\u00e9ria escura na Via L\u00e1ctea).<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje sabemos que os dinossauros foram extintos h\u00e1 cerca de 65 milh\u00f5es de anos devido ao impacto de um grande meteoro. Esta teoria, proposta por uma dupla de pai e filho (Walter Alvarez, o filho ge\u00f3logo e Luis Alvarez, pr\u00eamio Nobel de F\u00edsica), foi desacreditada at\u00e9 que a cratera deixada pelo impacto foi encontrada no M\u00e9xico, apenas em 1990. Outras extin\u00e7\u00f5es em massa ocorreram na hist\u00f3ria da Terra, provavelmente devido ao impacto de meteoros. \u00c9 poss\u00edvel, de acordo com a teoria de Randall e colaboradores, que a mat\u00e9ria escura tenha contribu\u00eddo para a eje\u00e7\u00e3o de cometas da nuvem de Oort. No entanto, n\u00e3o se pode afirmar que a mat\u00e9ria escura matou dinossauros, como talvez se possa concluir do t\u00edtulo do artigo de Nogueira. Na entrevista e no corpo do artigo isso nunca \u00e9 afirmado e, exceto pelo t\u00edtulo da mat\u00e9ria, a informa\u00e7\u00e3o passada ao leitor est\u00e1 correta.&nbsp;<a href=\"https:\/\/www1.fisica.org.br\/verifisica\/index.php\/list-cat\/10-2022\/11-a-pratica-de-aterramento-corporal-e-fisicamente-coerente-1\"><\/a><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Texto verificado<\/h2>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li><a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ciencia\/2022\/04\/fisica-lisa-randall-diz-que-materia-escura-matou-dinos.shtml\">https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ciencia\/2022\/04\/fisica-lisa-randall-diz-que-materia-escura-matou-dinos.shtml<\/a><\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Pareceristas<\/h2>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>Rog\u00e9rio Rosenfeld<\/li>\n\n\n\n<li>Equipe VeriF\u00edsica<\/li>\n<\/ul>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 desconexo o t\u00edtulo referente \u00e0 entrevista publicada na Folha de S. 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