{"id":22201,"date":"2024-05-22T15:11:15","date_gmt":"2024-05-22T18:11:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/?p=22201"},"modified":"2024-05-22T15:16:00","modified_gmt":"2024-05-22T18:16:00","slug":"fisica-e-outras-disciplinas-devem-atuar-de-forma-integrada-para-diminuir-os-impactos-das-mudancas-climaticas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/fisica-e-outras-disciplinas-devem-atuar-de-forma-integrada-para-diminuir-os-impactos-das-mudancas-climaticas\/","title":{"rendered":"F\u00edsica e outras disciplinas devem atuar de forma integrada para diminuir os impactos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Paulo Artaxo, conselheiro da Sociedade Brasileira de F\u00edsica (SBF) e membro da Comiss\u00e3o de Meio Ambiente da entidade, lembra que a f\u00edsica pode explicar os eventos extremos e alertar a sociedade com anteced\u00eancia, mas n\u00e3o deve atuar isoladamente das outras ci\u00eancias.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A trag\u00e9dia causada pelas chuvas no Rio Grande do Sul n\u00e3o \u00e9 a primeira, nem ser\u00e1 a \u00faltima, face \u00e0s altera\u00e7\u00f5es no clima como resultado do aquecimento global. E a ocorr\u00eancia de eventos clim\u00e1ticos extremos ser\u00e3o mais frequentes e mais intensos, exigindo dos cientistas uma grande atua\u00e7\u00e3o interdisciplinar na procura de solu\u00e7\u00f5es, e o fortalecimento das Defesas Civis em todos os n\u00edveis da Federa\u00e7\u00e3o. A avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 do f\u00edsico Paulo Artaxo, professor do Instituto de F\u00edsica da Universidade de S\u00e3o Paulo (IF-USP), conselheiro da Sociedade Brasileira de F\u00edsica (SBF), membro da Comiss\u00e3o de Meio Ambiente da entidade e da coordena\u00e7\u00e3o do Programa Fapesp de Pesquisa sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas Globais (PFPMCG).<\/p>\n\n\n\n<p>Artaxo fez parte do grupo de cientistas que redigiram o Quarto Relat\u00f3rio de Avalia\u00e7\u00e3o do Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (IPCC), equipe que recebeu o Pr\u00eamio Nobel da Paz, em 2007. Ele lembra que a ci\u00eancia vem alertando sobre o aumento dos eventos clim\u00e1ticos extremos h\u00e1 mais de tr\u00eas d\u00e9cadas o que, no entanto, n\u00e3o surtiu tanto efeito no meio pol\u00edtico, econ\u00f4mico e social.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c\u00c9 muito evidente para a ci\u00eancia, que alerta a sociedade e os governos, h\u00e1 v\u00e1rias d\u00e9cadas, de que os eventos clim\u00e1ticos extremos v\u00e3o aumentar de frequ\u00eancia e de intensidade, conforme aumenta a temperatura do planeta\u201d, afirma. \u201cComo nada foi feito do ponto de vista de redu\u00e7\u00e3o de emiss\u00e3o de gases de efeito estufa, o que estamos observando, de uma maneira muito clara, n\u00e3o s\u00f3 no Rio Grande do Sul, n\u00e3o s\u00f3 no Brasil, mas mundialmente falando, \u00e9 um aumento muito forte da frequ\u00eancia e da intensidade dos eventos clim\u00e1ticos extremos\u201d, afirma o cientista.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele explica que em geral, os desastres clim\u00e1ticos, como os ocorridos no Rio Grande do Sul, n\u00e3o t\u00eam uma \u00fanica causa, mas sim uma combina\u00e7\u00e3o de fatores. Segundo Artaxo, al\u00e9m do aquecimento global, outros elementos contribu\u00edram para o evento espec\u00edfico no Estado ga\u00facho. Um sistema de alta press\u00e3o estacionado sobre S\u00e3o Paulo impediu a dissipa\u00e7\u00e3o desse \u201cgigantesco volume de vapor de \u00e1gua que tinha na atmosfera vindo tanto da regi\u00e3o amaz\u00f4nica quanto do Oceano Atl\u00e2ntico superaquecido\u201d, concentrando a precipita\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o sul. Em 18 dias, choveu em alguns lugares do Estado a m\u00e9dia do que deveria ocorrer historicamente em seis meses, com volumes de chuva acima de 800 mm. Em S\u00e3o Sebasti\u00e3o, em fevereiro do ano passado, em menos de 24 horas choveu 683 mm em algumas horas, at\u00e9 ent\u00e3o um recorde.<\/p>\n\n\n\n<p>A destrui\u00e7\u00e3o da vegeta\u00e7\u00e3o nativa no Rio Grande do Sul, substitu\u00edda por planta\u00e7\u00f5es de soja, por exemplo, tamb\u00e9m agravou a situa\u00e7\u00e3o, pois essas \u00e1reas com vegeta\u00e7\u00e3o nativa poderiam ter absorvido parte das \u00e1guas. A geografia local, incluindo a Lagoa dos Patos e o Rio Gua\u00edba, dificultou o escoamento das \u00e1guas. &#8220;Ent\u00e3o, certamente, deveria ter havido a\u00e7\u00f5es do governo do Rio Grande do Sul para melhorar o escoamento da regi\u00e3o, para que, quando eventos desse tipo ocorressem, as \u00e1guas n\u00e3o ficassem t\u00e3o represadas como acabou ficando no atual evento,&#8221; aumentando a gravidade das enchentes, diz o professor.<\/p>\n\n\n\n<p>Se a li\u00e7\u00e3o deixada pelo desastre na Regi\u00e3o Serrana do Rio de Janeiro, em 11 de janeiro de 2011, que matou 918 pessoas, foi a cria\u00e7\u00e3o do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden), Artaxo avalia que agora \u00e9 preciso refor\u00e7ar as Defesas Civis. Para ele, apesar dos alertas antecipados dos modelos clim\u00e1ticos emitidos pelo Cemaden para o Rio Grande do Sul, a atua\u00e7\u00e3o das defesas civis foi praticamente inexistente, exacerbando os preju\u00edzos em vidas e destrui\u00e7\u00e3o em geral.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, mais uma li\u00e7\u00e3o para o Brasil de que temos que nos preparar muito melhor para o inevit\u00e1vel aumento da frequ\u00eancia e da intensidade de eventos clim\u00e1ticos extremos. At\u00e9 o dia 21 de maio, havia o registro de 161 mortes, 85 desaparecidos e 806 feridos. Mais de 580 mil pessoas foram desalojadas, com preju\u00edzos incalcul\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Desafios para a F\u00edsica<\/h2>\n\n\n\n<p>A f\u00edsica, embora crucial para compreender os princ\u00edpios por tr\u00e1s dos modelos clim\u00e1ticos, deve agir em parceria com outras disciplinas. O professor enfatizou a necessidade de uma abordagem cient\u00edfica interdisciplinar para enfrentar as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. \u201cN\u00e3o \u00e9 a quest\u00e3o de um trabalho para os f\u00edsicos em particular, mas para a ci\u00eancia interdisciplinar como um todo. Eu acho que a gente tem que deixar essa vis\u00e3o de isolar a f\u00edsica, qu\u00edmica, biologia, ci\u00eancias sociais, psicologia e assim por diante, mas temos que ter uma vis\u00e3o sist\u00eamica da ci\u00eancia,\u201d disse ele. Temos que fazer Ci\u00eancia e n\u00e3o somente f\u00edsica.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEu sei que os f\u00edsicos t\u00eam uma vis\u00e3o muito para o pr\u00f3prio umbigo, o que trouxe preju\u00edzos enormes para a pr\u00f3pria \u00e1rea de f\u00edsica pela falta de uma vis\u00e3o mais sist\u00eamica da import\u00e2ncia da ci\u00eancia interdisciplinar, onde a f\u00edsica possa interagir com outras disciplinas e contribuir muito mais efetivamente para a sociedade como um todo\u201d, avalia.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa vis\u00e3o integrada \u00e9 essencial para desenvolver solu\u00e7\u00f5es eficazes e integradas para os problemas ambientais. \u201cN\u00e3o h\u00e1 a menor d\u00favida de que, por exemplo, todos os modelos clim\u00e1ticos s\u00e3o baseados em princ\u00edpios f\u00edsicos, mas eles sozinhos, obviamente, n\u00e3o resolvem nada da quest\u00e3o. Ent\u00e3o, esse evento clim\u00e1tico no Rio Grande do Sul, mostrou a import\u00e2ncia, primeiro, de respeito \u00e0 ci\u00eancia, porque a ci\u00eancia alerta que esses eventos clim\u00e1ticos v\u00e3o ocorrer mais frequentemente. E essa ci\u00eancia tem que estar voltada para as reais necessidades da sociedade como um todo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Outro desafio significativo \u00e9 o negacionismo das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, as quais Artaxo atribui a interesses econ\u00f4micos. Para ele, a manipula\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica \u00e9 uma ferramenta poderosa utilizada para negar a ci\u00eancia quando seus resultados n\u00e3o beneficiam certos grupos econ\u00f4micos, religiosos ou pol\u00edticos. \u201cBasicamente, n\u00e3o \u00e9 negacionismo generalizado. Se a ci\u00eancia dissesse que, voc\u00eas podem desmatar quanto quiser a Amaz\u00f4nia, que n\u00e3o vai haver nenhuma consequ\u00eancia para o meio ambiente, isso seria aplaudido por alguns grupos econ\u00f4micos. Ela s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 aplaudida quando suas conclus\u00f5es v\u00e3o contra os interesses econ\u00f4micos de determinados grupos,\u201d explicou.<\/p>\n\n\n\n<p>Os desafios impostos pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas s\u00e3o vastos e complexos, exigindo uma resposta coordenada e informada da comunidade cient\u00edfica, dos governos e da sociedade. A f\u00edsica, em colabora\u00e7\u00e3o com outras disciplinas, tem um papel crucial a desempenhar na transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, na modelagem e previs\u00e3o de eventos clim\u00e1ticos extremos e muitas outras \u00e1reas. \u00c9 necess\u00e1rio que suas descobertas sejam reconhecidas e integradas em pol\u00edticas p\u00fablicas eficazes. Somente atrav\u00e9s de uma abordagem interdisciplinar e um compromisso global com a sustentabilidade planet\u00e1ria ser\u00e1 poss\u00edvel construir uma sociedade sustent\u00e1vel e mais justa.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>(Colaborou Roger Marzochi)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Paulo Artaxo, conselheiro da Sociedade Brasileira de F\u00edsica (SBF) e membro da Comiss\u00e3o de Meio Ambiente da entidade, lembra que a f\u00edsica pode explicar os eventos extremos e alertar a sociedade com anteced\u00eancia, mas n\u00e3o deve atuar isoladamente das outras ci\u00eancias. 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