{"id":22141,"date":"2024-05-14T15:08:19","date_gmt":"2024-05-14T18:08:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/?p=22141"},"modified":"2024-05-14T15:30:40","modified_gmt":"2024-05-14T18:30:40","slug":"os-brasileiros-que-ajudaram-a-guiar-os-olhos-do-hubble-e-do-james-webb","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/os-brasileiros-que-ajudaram-a-guiar-os-olhos-do-hubble-e-do-james-webb\/","title":{"rendered":"Os brasileiros que ajudaram a \u201cguiar os olhos\u201d do Hubble e do James Webb"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Cientistas do CBPF, SOAR e LNA participaram da detec\u00e7\u00e3o de uma explos\u00e3o rar\u00edssima de um sistema bin\u00e1rio estrela de n\u00eautron\/buraco negro fora da Via L\u00e1ctea, que uniu a comunidade cient\u00edfica mundial, inclusive do espa\u00e7o<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Era uma ter\u00e7a-feira de trabalho normal, o que significa uma jornada exigente, como ocorre sempre na vida do astr\u00f4nomo e professor Cl\u00e9cio Roque De Bom, coordenador cient\u00edfico do Laborat\u00f3rio de Intelig\u00eancia Artificial Aplicada do Centro Brasileiro de Pesquisas F\u00edsicas (CBPF). A grande expectativa de Cl\u00e9cio naquele 7 de mar\u00e7o de 2023 era comemorar \u00e0 noite o anivers\u00e1rio da esposa Patr\u00edcia. Mas, bem no fim do expediente, foi soado um alerta: havia sido identificado no espa\u00e7o um brilho intenso, uma poderosa emiss\u00e3o de raios gama, fora da Via L\u00e1ctea.<\/p>\n\n\n\n<p>Os raios gamas s\u00e3o emiss\u00f5es eletromagn\u00e9ticas 10 trilh\u00f5es de vezes mais energ\u00e9ticos que a luz vis\u00edvel, geradas em gal\u00e1xias com n\u00facleo ativo, buracos negros e explos\u00f5es de estrelas em supernovas e colis\u00f5es de estrelas de n\u00eautrons. A adrenalina cresceu rapidamente no CBPF. Os cientistas trabalham em conjunto, coordenando esfor\u00e7os para acompanhar eventos celestes, uma vez que, devido as condi\u00e7\u00f5es de observa\u00e7\u00e3o e a r\u00e1pida evolu\u00e7\u00e3o do evento, \u00e9 preciso a atua\u00e7\u00e3o de mais de um telesc\u00f3pio para investigar o fen\u00f4meno. Cl\u00e9cio lembra, inclusive, que esse tipo de trabalho se assemelha a um tipo de investiga\u00e7\u00e3o policial, que possuiu diversos protocolos e ind\u00edcios, para montar um caso.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele colocou em opera\u00e7\u00e3o a observa\u00e7\u00e3o desse evento grandioso por meio do Southern Astrophysical Research Telescope, ou simplesmente SOAR, um telesc\u00f3pio \u00f3ptico com espelho prim\u00e1rio de 4,1 metros de di\u00e2metro que se localiza em Cerro Pach\u00f3n, uma montanha dos Andes Chilenos, 2,7 mil metros acima do n\u00edvel do mar. Inaugurado em 2004, em parceria com o CNPq e institui\u00e7\u00f5es americanas, o Brasil \u00e9 s\u00f3cio majorit\u00e1rio do empreendimento, com 31% do tempo de uso do telesc\u00f3pio.<\/p>\n\n\n\n<p>Pulsos energ\u00e9ticos de raios gama s\u00e3o conhecidos entre os astr\u00f4nomos pelo nome de gamma ray burts (GRBs). E o interessante desse evento \u00e9 que ele se prolongou para al\u00e9m de dois segundos, o que significava que era um evento de longa dura\u00e7\u00e3o, o que n\u00e3o \u00e9 esperado para colis\u00f5es de estrelas de n\u00eautrons. H\u00e1, claro, um pico na emiss\u00e3o de raios gama, que ao longo do tempo vai se esvaindo na imensid\u00e3o do espa\u00e7o. Segundo Cl\u00e9cio, \u00e9 a segunda vez que os cientistas captaram uma emiss\u00e3o dessa magnitude, mas \u00e9 a primeira vez que uma explos\u00e3o t\u00e3o intensa possa provavelmente ter ocorrido da fus\u00e3o entre duas estrelas de n\u00eautrons ou de uma estrela de n\u00eautrons com um buraco negro.<\/p>\n\n\n\n<p>Devido \u00e0 falta de dados sobre ondas gravitacionais nesse evento espec\u00edfico, batizado de GRB 230307A (sigla que usa a data do evento come\u00e7ando por ano, m\u00eas e dia), n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel medir diretamente as massas para determinar a presen\u00e7a de um buraco negro. O que se sabe \u00e9 que o evento poderoso resultou na chamada kilonova, uma explos\u00e3o rar\u00edssima entre astros \u201cpesos-pesados\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma estrela com mais de oito massas solares, por exemplo, termina sua vida ap\u00f3s consumir todo o seu hidrog\u00eanio em sua fus\u00e3o nuclear em uma estrela de n\u00eautrons, ou em buraco negro, tudo depende de sua massa. Esse sistema que entrou em colis\u00e3o era bin\u00e1rio, ou seja, estavam ligados gravitacionalmente. E a explos\u00e3o em Kilonova, afirma Cl\u00e9cio, \u00e9 um evento rar\u00edssimo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cProvavelmente \u00e9 uma nova popula\u00e7\u00e3o de colis\u00e3o de estrela de n\u00eautron que a gente est\u00e1 descobrindo agora. O primeiro evento longo de gamma ray burst associado a Kilonova ocorreu h\u00e1 uns dois anos. Foi a primeira vez que algu\u00e9m percebeu que isso podia acontecer. E agora foi a segunda, sendo que essa foi bem mais energ\u00e9tica\u201d, explica ele, em entrevista ao <strong><a href=\"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/boletim\/boletim-eletronico\/\" title=\"\">Boletim SBF<\/a><\/strong>. Os resultados dessa observa\u00e7\u00e3o foram publicados no artigo \u201c<a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41586-023-06979-5\">A lanthanide-rich kilonova in the aftermath of a long gamma-ray burst<\/a>\u201d na revista Nature, no dia 21 de fevereiro de 2024.<\/p>\n\n\n\n<p>Cl\u00e9cio e o cientista Mart\u00edn Makler, tamb\u00e9m do CBPF, fizeram sua parte na investiga\u00e7\u00e3o, por meio do SOAR. E assinam tamb\u00e9m o artigo junto com os pesquisadores brasileiros Felipe Navarete, astr\u00f4nomo residente no SOAR. Luciano Fraga, coordenador de astronomia do Laborat\u00f3rio Nacional de Astrof\u00edsica (LNA), colaborou nos primeiros esfor\u00e7os de estudo do fen\u00f4meno, mas preferiu n\u00e3o assinar o artigo. O coordenador do Laborat\u00f3rio de Intelig\u00eancia Artificial Aplicada do CBPF estava ansioso n\u00e3o apenas em desvendar esse mist\u00e9rio luminoso, mas tamb\u00e9m para saber se conseguiria comemorar o anivers\u00e1rio da esposa.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2019, por exemplo, Cl\u00e9cio recebeu um chamado parecido, mas sobre a detec\u00e7\u00e3o de ondas gravitacionais, o que iniciou uma investiga\u00e7\u00e3o que durou nada menos do que 15 dias e noites ininterruptas seja de an\u00e1lise ou na observa\u00e7\u00e3o com m\u00faltiplos instrumentos. \u201cConsegui comemorar o anivers\u00e1rio! A gente tinha que localizar a observa\u00e7\u00e3o, fazer o que a gente chama de \u2018finding chart\u2019, que \u00e9 voc\u00ea localizar onde est\u00e1 o evento, localizar a prov\u00e1vel gal\u00e1xia host (hospedeira do evento). Nem toda observa\u00e7\u00e3o \u00e9 o evento em si. O evento \u00e9 t\u00e3o fraco, t\u00e3o fraco, que \u00e0s vezes ele escapa em determinado filtro e da exposi\u00e7\u00e3o do limite do telesc\u00f3pio. &nbsp;Mas n\u00f3s obtemos limites no seu brilho\u201d, explica.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cE j\u00e1 passado no outro dia, a gente tinha que achar gente para observar, porque na observa\u00e7\u00e3o muitas coisas podem dar errado. Pode ter nuvem, pode acontecer mau tempo, voc\u00ea precisa de gente para reduzir o dado. Para mim, por exemplo, tem que sempre ter uma equipe de pessoas e \u00e9 mais importante ter muitos olhos olhando, porque se voc\u00ea cometer um erro durante a observa\u00e7\u00e3o, aquele dado \u00e9 invalidado, n\u00e3o serve para mais nada. Voc\u00ea precisa ter gente atenta, e normalmente no meio da noite, quando est\u00e1 todo mundo cansado, j\u00e1 trabalhou durante o dia.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, o trabalho das equipes que observaram o evento, contribuiu para montar o caso, criar os ind\u00edcios e evid\u00eancias de que est\u00e1vamos olhando para uma Kilonova para que seja poss\u00edvel habilitar outros telesc\u00f3pios para observa\u00e7\u00e3o como o Hubble e James Webb. Com esses ind\u00edcios, foi poss\u00edvel parar a programa\u00e7\u00e3o de observa\u00e7\u00f5es previstas desses telesc\u00f3pios no espa\u00e7o para olhar para esse evento espec\u00edfico. \u00c9 por isso que, segundo Cl\u00e9cio, esse trabalho se assemelha a uma investiga\u00e7\u00e3o policial, por exemplo. A cada etapa \u00e9 preciso cumprir uma s\u00e9rie de protocolos para se ter a certeza de que estamos diante de um evento raro, que seja motivo suficiente para direcionar o olhar de n\u00e3o apenas outros telesc\u00f3pios na Terra, mas aqueles que est\u00e3o no espa\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c\u00c9 como montar um caso, cumprindo v\u00e1rias etapas, reunindo provas\u201d, explica. \u201cEsse tipo de explos\u00e3o \u00e9 um evento rar\u00edssimo. A gente n\u00e3o espera ver nada aqui perto da Via L\u00e1ctea. Mas, na verdade, a gente at\u00e9 tem dificuldade de associ\u00e1-la a uma gal\u00e1xia. Quando a gente olha a imagem, tem aquela imagem bonita do James Webb, voc\u00ea v\u00ea em cima de um offset, uma dist\u00e2ncia grande entre o brilho que voc\u00ea est\u00e1 vendo e a gal\u00e1xia que seria a hospedeira, a host. Ent\u00e3o, existe toda uma discuss\u00e3o sobre qual \u00e9 a gal\u00e1xia que \u00e9 a host, ou seja, onde ela aconteceu. Tem uma gal\u00e1xia que certamente \u00e9 a mais prov\u00e1vel, mas os mecanismos que fizeram ela ficar t\u00e3o longe ainda s\u00e3o discutidos. Como \u00e9 que ela foi parar l\u00e1? Ser\u00e1 que ela foi ejetada da gal\u00e1xia?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O evento demonstrou tamb\u00e9m que essa explos\u00e3o provocou a cria\u00e7\u00e3o das chamadas terras raras e at\u00e9 mesmo de ouro, explica Cl\u00e9cio, membro da Academia Brasileira de Ci\u00eancias (ABC) desde janeiro de 2024. \u201cIsso transforma o nosso trabalho de certa forma po\u00e9tica, porque todo mundo tem um pouquinho de ouro, um anel de ouro, ou fez um folheado \u00e0 ouro, tem alguma coisa na sua m\u00e3o, no seu colar, em alguma coisa, que muito provavelmente foi formado durante esse tipo de evento que antecedeu a forma\u00e7\u00e3o do nosso sistema solar. Ent\u00e3o, isso provavelmente, em algum momento do passado c\u00f3smico, houve uma coalesc\u00eancia, ou seja, uma colis\u00e3o de dois objetos compactos que provavelmente s\u00e3o duas estrelas de n\u00eautrons que geraram esses elementos que, durante a forma\u00e7\u00e3o do nosso sistema solar, acabaram na Terra e que em algum momento a gente usa esses metais para fazer bateria de carro, para fazer anel, esse tipo de coisa.\u201d A alian\u00e7a de ouro, naquele dia de mar\u00e7o de 2023, foi amplamente comemorada no anivers\u00e1rio da esposa de Cl\u00e9cio, assim como no trabalho colaborativo de cientistas ao redor do mundo, que nos permite conhecer cada vez mais sobre o Universo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por Roger Marzochi<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cientistas do CBPF, SOAR e LNA participaram da detec\u00e7\u00e3o de uma explos\u00e3o rar\u00edssima de um sistema bin\u00e1rio estrela de n\u00eautron\/buraco negro fora da Via L\u00e1ctea, que uniu a comunidade cient\u00edfica mundial, inclusive do espa\u00e7o. 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