{"id":21987,"date":"2024-04-11T10:35:30","date_gmt":"2024-04-11T13:35:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/?p=21987"},"modified":"2024-04-11T10:47:30","modified_gmt":"2024-04-11T13:47:30","slug":"ditadura-de-1964-asfixiou-o-cbpf-e-quase-o-levou-a-extincao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/ditadura-de-1964-asfixiou-o-cbpf-e-quase-o-levou-a-extincao\/","title":{"rendered":"Ditadura de 1964 asfixiou o CBPF e quase o levou \u00e0 extin\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Cientistas sofreram persegui\u00e7\u00f5es, demiss\u00f5es, aposentadorias compuls\u00f3rias e Jos\u00e9 Leite Lopes chegou a deixar o Brasil por figurar em uma lista de personalidades a serem assassinadas pelo regime, revela artigo do pesquisador do MAST Alfredo Tiomno Tolmasquim na Revista Brasileira de Ensino de F\u00edsica<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Para driblar a ca\u00e7a aos \u201ccomunistas\u201d empreendida pela Ditadura Civil-Militar iniciada em 1964, os cientistas que criaram em 1949 o Centro Brasileiro de Pesquisas F\u00edsicas (CBPF) decidiram al\u00e7ar \u00e0 presid\u00eancia do \u00f3rg\u00e3o personalidades que, a princ\u00edpio, defendiam o desenvolvimento cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico aut\u00f4nomo do Brasil, mas eram bem vistos aos olhos dos militares. A estrat\u00e9gia, pensada para evitar os expurgos que aconteciam em diversas universidades pa\u00eds afora, n\u00e3o deu certo. E o CBPF, que havia sido criado como uma institui\u00e7\u00e3o privada com doa\u00e7\u00f5es individuais e fundos empresariais, chegou quase \u00e0 extin\u00e7\u00e3o, contando em certo per\u00edodo com apenas tr\u00eas pesquisadores titulares.<\/p>\n\n\n\n<p>Nem Cesar Lattes, considerado her\u00f3i nacional pelas pesquisas que confirmaram a exist\u00eancia do m\u00e9son-pi, nem o renomado cientista Jos\u00e9 Leite Lopes, escaparam \u00e0s persegui\u00e7\u00f5es dos militares. Lopes, inclusive, fugiu do Brasil ap\u00f3s descobrir que seu nome estava em uma lista de personalidades a serem assassinadas pelo regime militar. Essas s\u00e3o algumas das revela\u00e7\u00f5es que est\u00e3o no artigo \u201c<a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/j\/rbef\/a\/DkzPVZC8DSTS7kkJ74RfCkd\/?lang=pt\">O Centro Brasileiro de Pesquisas F\u00edsicas durante a ditadura civil-militar: resist\u00eancias e acomoda\u00e7\u00f5es<\/a>\u201d, publicado na Revista Brasileira de Ensino de F\u00edsica pelo pesquisador do Museu de Astronomia e Ci\u00eancias Afins (Mast), Alfredo Tiomno Tolmasquim.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c\u00c9 interessante como o CBPF era visto como, entre aspas, um antro de comunistas. Por qu\u00ea? Na verdade, nenhum deles tinha uma atividade pol\u00edtico-partid\u00e1ria, mas eles tinham uma preocupa\u00e7\u00e3o com o modelo de desenvolvimento do Pa\u00eds. Naquela \u00e9poca, propor um desenvolvimento aut\u00f4nomo dos Estados Unidos, em que o Brasil n\u00e3o necessariamente precisasse ficar dependente da tecnologia americana, era muitas vezes considerado como um antiamericanismo\u201d, diz o pesquisador, em entrevista ao <strong>Boletim SBF<\/strong>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO que eu achei mais interessante, que para mim foi at\u00e9 um pouco surpreendente ao levantar a documenta\u00e7\u00e3o, foi verificar que muitos dos pesquisadores do CBPF eram monitorados desde a d\u00e9cada de 1950, ou seja, quando n\u00e3o era ainda governo ditatorial. E isso foi perpassando depois pelos governos Juscelino, J\u00e2nio&#8230; Ent\u00e3o mostra como havia um aparato de Estado para monitorar os cidad\u00e3os que eram considerados suspeitos ou contr\u00e1rios ao pensamento oficial e que funcionou independentemente dos pr\u00f3prios governos.\u201c<\/p>\n\n\n\n<p>Tolmasquim, que \u00e9 sobrinho de Jayme Tiomno, um dos fundadores do CBPF, vai ainda lan\u00e7ar no Brasil at\u00e9 o fim do primeiro semestre de 2024 o livro \u201cEntre part\u00edculas e buracos negros: Jayme Tiomno e a implanta\u00e7\u00e3o da f\u00edsica no Brasil\u201d, pela editora Livraria da F\u00edsica, em parceria com o pesquisador alem\u00e3o William Brewer. O livro far\u00e1 parte das comemora\u00e7\u00f5es dos 75 anos do CPBF, que \u00e0 \u00e9poca da ditadura, foi salvo pela escolha do general Macedo Soares, em 1974, para comandar o instituto. Soares, que j\u00e1 havia ocupado a presid\u00eancia do \u00f3rg\u00e3o entre 1955 a 1963, possibilitou ao CBPF ser incorporado ao CNPq, o que deu sobrevida ao instituto. Para Tolmasquim, o CBPF realizou ao fim da ditadura aquilo que o governo brasileiro \u00e0 \u00e9poca n\u00e3o conseguiu em decorr\u00eancia da anistia. \u201cQuando o diretor do CBPF faz, no final de 1979, uma sess\u00e3o p\u00fablica de repara\u00e7\u00e3o moral e rein\u00edcio da colabora\u00e7\u00e3o, que \u00e9 um reencontro de todos que foram demitidos, sofreram viol\u00eancias e sa\u00edram com o corpo de funcion\u00e1rios &#8211; houve um discurso muito emocionado do Tiomno relatando todas as persegui\u00e7\u00f5es que aconteceram &#8211; o CBPF estava caminhando no sentido de curar os traumas do passado e possibilitar a reintegra\u00e7\u00e3o das pessoas. Esse processo de rever o passado, por mais doloroso que seja, \u00e9 muito necess\u00e1rio.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Leia a entrevista com o pesquisador:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u00c9 muito interessante perceber que os cientistas buscaram uma forma de driblar a repress\u00e3o e, no fim, n\u00e3o teve jeito. Houve mesmo uma rela\u00e7\u00e3o da nova dire\u00e7\u00e3o com os militares?&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O que eu achei mais interessante, que para mim foi at\u00e9 um pouco surpreendente ao levantar a documenta\u00e7\u00e3o, foi verificar que muitos dos pesquisadores do CBPF eram monitorados desde a d\u00e9cada de 1950, ou seja, quando n\u00e3o era ainda governo ditatorial. E isso foi perpassando depois pelos governos Juscelino, J\u00e2nio&#8230; Ent\u00e3o mostra como havia um aparato de Estado para monitorar os cidad\u00e3os que eram considerados suspeitos ou contr\u00e1rios ao pensamento oficial e que funcionou independentemente dos pr\u00f3prios governos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>E percebi que v\u00e1rios membros do CBPF &#8211; inclusive o pr\u00f3prio C\u00e9sar Lattes, que era uma esp\u00e9cie de her\u00f3i nacional &#8211; que, para a cria\u00e7\u00e3o do CBPF, tiveram apoio de v\u00e1rios militares, de empres\u00e1rios. Cesar Lattes chegou a receber do presidente da Federa\u00e7\u00e3o das Ind\u00fastrias recursos de um fundo de combate ao comunismo, sem saber. S\u00f3 depois que ele ficou sabendo a origem dos recursos. Mas, enquanto isso acontecia, por outro lado, ele estava sendo monitorado pelos \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a e pela pol\u00edcia pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>O monitoramento de setores da popula\u00e7\u00e3o, j\u00e1 vem de antes, do per\u00edodo Get\u00falio Vargas. Talvez a partir do governo Dutra ele se torna mais sistematizado, organizado, em fun\u00e7\u00e3o da Guerra Fria, que dispara justamente nesse per\u00edodo p\u00f3s-guerra. Isso tamb\u00e9m acontecia em outras \u00e1reas da ci\u00eancia. H\u00e1 estudos mostrando que, por exemplo, professores do Departamento de Parasitologia da USP eram monitorados por relacionar as doen\u00e7as end\u00eamicas \u00e0 pobreza.\u00a0<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"649\" src=\"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/destaque-20240411-10-1024x649.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-21992\" style=\"width:840px;height:auto\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Imagem do 1\u00ba de maio de 1968 na pra\u00e7a da S\u00e9 em S\u00e3o Paulo &#8211; Fonte BR UNICAMP IFCH &#8211; AEL BNM<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><strong>E, professor, al\u00e9m de tudo, o Darcy Ribeiro acabou dirigindo o CBPF, o que gerou ainda mais preocupa\u00e7\u00e3o no governo&#8230;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 interessante como o CBPF era visto como, entre aspas, um antro de comunistas. Por qu\u00ea? Na verdade, nenhum deles tinha uma atividade pol\u00edtico-partid\u00e1ria, mas eles tinham uma preocupa\u00e7\u00e3o com o modelo de desenvolvimento do pa\u00eds. Naquela \u00e9poca, propor um desenvolvimento cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico aut\u00f4nomo dos Estados Unidos, em que o Brasil n\u00e3o necessariamente precisasse ficar dependente da tecnologia americana, era muitas vezes considerado como um antiamericanismo. Fora isso, havia uma disputa interna na Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, onde estavam v\u00e1rios pesquisadores do CBPF e de onde sa\u00edram v\u00e1rios alunos que foram para o CBPF. Como queriam implantar na universidade o tempo integral, a pesquisa, acabar com o sistema de c\u00e1tedras, ou sejam, propunham altera\u00e7\u00f5es na estrutura e pr\u00e1tica, eram vistos como promotores de uma forma de subvers\u00e3o universit\u00e1ria. Evidentemente, n\u00e3o era uma subvers\u00e3o, mas uma forma de repensar o modelo universit\u00e1rio, o que vai acontecer depois de 1968 com a reforma do ensino universit\u00e1rio. Ent\u00e3o eles n\u00e3o estavam propondo nada que fosse absurdo, at\u00e9 porque a reforma universit\u00e1ria foi implantada pelo governo militar.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas isso era visto, na \u00e9poca, por muitos catedr\u00e1ticos como uma esp\u00e9cie de amea\u00e7a e, portanto, um sintoma de uma a\u00e7\u00e3o comunista. Elisa Frota-Pessoa e Jayme Tiomno tinham o costume de receber os alunos na sua casa, at\u00e9 porque muitos vinham de outros Estados. Era uma a\u00e7\u00e3o de acolhimento: saber como eles estavam, se estavam bem instalados, discutir sobre f\u00edsica, era uma forma de integr\u00e1-los. E alguns professores na Faculdade Nacional de Filosofia identificavam isso como uma tentativa de coopta\u00e7\u00e3o dos estudantes. Quando, na verdade, era uma preocupa\u00e7\u00e3o de acolhimento e de envolvimento na pesquisa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>E o Darcy Ribeiro?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Alguns pesquisadores do CBPF eram contra a nomea\u00e7\u00e3o do Darcy Ribeiro para a presid\u00eancia do CBPF, porque ele estava muito associado ao governo Jo\u00e3o Goulart e achavam que isso poderia ser mal visto por setores da sociedade. Fora isso, havia a ideia de que o CBPF fosse absorvido pela a UnB, o que alguns eram a favor e outros contra. Achavam que a ida do Darcy para a presid\u00eancia era uma forma de agilizar essa absor\u00e7\u00e3o do CBPF pela UnB. Ent\u00e3o, foi uma assembleia disputada, houve muita discuss\u00e3o e, no final, venceu a proposta de convid\u00e1-lo para a presid\u00eancia do CBPF. Mas ele terminou ficando pouco tempo, porque com o golpe em 1964 ele teve que sair.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"685\" data-src=\"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/destaque-20240411-20-1024x685.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-21993 lazyload\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" style=\"--smush-placeholder-width: 1024px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 1024\/685;\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Repress\u00e3o \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o da Faculdade de Filosofia em S\u00e3o Paulo pelos estudantes &#8211; BR UNICAMP IFCHAEL &#8211; BNM<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><strong>E, professor, o que eu achei surpreendente tamb\u00e9m no seu artigo foi aquela hist\u00f3ria de que os americanos teriam avisado o Leite Lopes de que ele estava numa lista para ser assassinado. E \u00e9 muito curioso isso, porque ele deixa o Brasil com esse receio, e quem diz que, de repente, essa lista n\u00e3o foi forjada? Se era verdadeira ou n\u00e3o? Como o senhor avalia esse epis\u00f3dio?&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os Estados Unidos foram mudando sua posi\u00e7\u00e3o ao longo da ditadura. No in\u00edcio, eles deram total apoio ao golpe militar, inclusive colocando uma frota pr\u00f3xima \u00e0 costa brasileira. Eles tinham um receio muito grande de uma esp\u00e9cie de cubaniza\u00e7\u00e3o do Brasil, que o pa\u00eds passasse para a esfera sovi\u00e9tica. Ent\u00e3o, valia qualquer coisa para derrubar o governo de Jo\u00e3o Goulart. Essa posi\u00e7\u00e3o foi se modificando ao longo do tempo, principalmente a partir do AI-5, no final de 1968, com o aumento da repress\u00e3o, a divulga\u00e7\u00e3o dos casos de tortura que come\u00e7avam a associar os Estados Unidos a essa trucul\u00eancia da ditadura.<\/p>\n\n\n\n<p>De 1964 a 1968, eles deram um apoio muito grande ao governo, inclusive com o programa USAID (United States Agency for International Development), de apoio dos Estados Unidos aos pa\u00edses em desenvolvimento. Eles injetaram bastante dinheiro no Brasil, inclusive em pesquisas tecnol\u00f3gicas. N\u00e3o estou com isso defendendo a posi\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos, eles foram copart\u00edcipes do golpe, mas eles come\u00e7aram a ficar muito insatisfeitos com a postura do governo brasileiro, principalmente ap\u00f3s o AI-5. E houve alguns casos de dar abrigo a pesquisadores e intelectuais perseguidos, como foi o caso do Leite Lopes.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Olha s\u00f3, que interessante&#8230;&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Havia v\u00e1rios grupos dentro do governo militar. Havia, por exemplo, aqueles de linha mais desenvolvimentista e outros mais liberais, defensores de menor interven\u00e7\u00e3o do Estado. Por exemplo, quando sai o Castelo Branco, assume no in\u00edcio de 1967 o Costa e Silva, que era de uma linha mais liberal. Tanto que em 67 e 68 houve um movimento do governo brasileiro para trazer de volta os intelectuais e pesquisadores que estavam no ex\u00edlio. Inclusive, o Leite Lopes, que tinha sido exilado logo ap\u00f3s o golpe, retorna em 1967, assume as fun\u00e7\u00f5es de chefe do Departamento de F\u00edsica Te\u00f3rica do CBPF e coordenador do curso de F\u00edsica da Faculdade Nacional de Filosofia. Achava-se que se estava caminhando para o fim do regime. Quando, na verdade, h\u00e1 uma esp\u00e9cie de segundo golpe, um golpe dentro do golpe, j\u00e1 capitaneado pela linha mais radical, mais dura, que vence na disputa interna e consegue instalar o AI-5 e o processo repressivo ganha uma outra dimens\u00e3o.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"665\" data-src=\"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/destaque-20240411-30-1024x665.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-21994 lazyload\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" style=\"--smush-placeholder-width: 1024px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 1024\/665;\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Imagem do arquivo BR UNICAMP IFCHAEL &#8211; BNM<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><strong>E \u00e9 interessante voc\u00ea notar tamb\u00e9m que cientistas que eram acusados pelo regime dentro do CBPF tinham apoio de alguns militares e civis, mais por quest\u00f5es de relacionamento pessoal do que ideol\u00f3gico, necessariamente&#8230;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre pessoas foi muito forte, como sempre no Brasil. Os antrop\u00f3logos chamam de sociedade relacional. No caso da ditadura n\u00e3o foi diferente.&nbsp; No pr\u00f3prio processo de aposentadorias compuls\u00f3rias em 1969, alguns nomes entraram e sa\u00edram das listas preparadas pelo governo. Isso tamb\u00e9m aconteceu no CBPF com pessoas que apoiavam o regime militar, mas defendiam seus amigos e colegas. Um exemplo \u00e9 do Jacques Danon, que tinha uma hist\u00f3ria de atua\u00e7\u00e3o na esquerda e foi protegido pelo Octac\u00edlio Cunha que era a favor do governo militar.&nbsp; O Otac\u00edlio Cunha, inclusive, terminou sendo uma surpresa muito triste. Logo ap\u00f3s o golpe, ele foi escolhido para vice-presid\u00eancia do CBPF, com quase a totalidade dos votos da Assembleia. Afinal de contas, era um militar da linha nacional-desenvolvimentista, tinha sido presidente do CNPq e da CNEN. Imaginava-se que era uma pessoa que tinha uma vis\u00e3o muito favor\u00e1vel ao desenvolvimento cient\u00edfico aut\u00f4nomo e que daria suporte \u00e0 institui\u00e7\u00e3o durante o governo militar. Contudo, ele deixou aflorar um lado autorit\u00e1rio que o pessoal do CBPF n\u00e3o conhecia, e durante o per\u00edodo da ditadura, ele come\u00e7a a perseguir, abrir processos e criar um clima de muito medo. Muita gente saiu do CBPF.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>E o M\u00e1rio Schenberg n\u00e3o conseguiu escapar da aposentadoria compuls\u00f3ria, por exemplo.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O M\u00e1rio Schenberg era visado, pelo menos, desde 1948. Em 1946, ap\u00f3s a sa\u00edda de Get\u00falio Vargas, o Partido Comunista Brasileiro foi posto na legalidade. Schenberg concorreu \u00e0 Assembleia Legislativa de S\u00e3o Paulo e foi eleito como suplemente. Com a sa\u00edda do titular, ele chegou a assumir, mas ficou apenas alguns dias. O partido foi novamente colocado na ilegalidade, Schenberg foi preso e depois se exilou na Europa. Ele era muito visado por sua atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. N\u00e3o que isso justifique alguma coisa, n\u00e3o \u00e9 justificativa para nada, mas n\u00e3o causou tanta surpresa como outras pessoas que n\u00e3o tinham uma atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica partid\u00e1ria e foram demitidos ou aposentados compulsoriamente.\u00a0<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"665\" data-src=\"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Foto-do-arquivo-BR-UNICAMP-IFCHAEL-BNM-1024x665.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-21995 lazyload\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" style=\"--smush-placeholder-width: 1024px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 1024\/665;\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto do arquivo BR UNICAMP IFCHAEL &#8211; BNM<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><strong>Essa influ\u00eancia da ditadura no CBPF atrasou muito o Brasil nessas pesquisas relacionadas \u00e0 energia at\u00f4mica, \u00e0 pr\u00f3pria f\u00edsica qu\u00e2ntica?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Excelente pergunta. O CBPF enfrentou dois problemas ao mesmo tempo. Um, era uma dire\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria; e dois, havia uma car\u00eancia muito grande de recursos. O CBPF, como se sabe, era uma sociedade civil, n\u00e3o tinha recursos or\u00e7ament\u00e1rios, eram recursos de emendas parlamentares e de \u00f3rg\u00e3os de fomento. Essas duas quest\u00f5es juntas produziram um esvaziamento muito grande do \u00f3rg\u00e3o. Muita gente saiu, muita gente boa, tanto porque havia um clima persecut\u00f3rio, como por quest\u00f5es financeiras, que n\u00e3o tinha como financiar pesquisas ou mesmo sal\u00e1rios. Era muito dif\u00edcil. Isso provocou um esvaziamento e uma queda no CBPF. N\u00f3s fizemos um estudo sobre solicita\u00e7\u00f5es de bolsas do CBPF ao CNPq e vimos que h\u00e1 quedas significativas em 64, em 69, e a partir de 72, quando a institui\u00e7\u00e3o vai entrando quase que numa situa\u00e7\u00e3o de extin\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O senhor escreve no artigo, inclusive, que chegaram a restar s\u00f3 tr\u00eas pesquisadores&#8230;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Exato. E eu acho que, nesse sentido, lideran\u00e7as acad\u00eamicas, como Tiomno, Leite Lopes, e outros que foram para o exterior, fizeram muita falta no sentido de viabilizar solu\u00e7\u00f5es, de unir a equipe em torno de um caminho. Percebe-se nesse caso como uma lideran\u00e7a acad\u00eamica \u00e9 importante, tanto interna como externamente. No final, o problema vai ser resolvido com o general Macedo Soares, que retorna para a presid\u00eancia do instituto ap\u00f3s o falecimento de Octac\u00edlio Cunha e consegue montar uma estrat\u00e9gia em que o CBPF \u00e9 extinto enquanto sociedade civil e \u00e9 criado enquanto unidade de pesquisa do CNPq. E os pesquisadores, o patrim\u00f4nio, m\u00f3veis, instrumentos, tudo passa para o CNPq. Sem isso o CBPF n\u00e3o teria resistido a esse per\u00edodo.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"551\" height=\"709\" data-src=\"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Cartaz-da-Anistia-no-arquivo-BR-UNICAMP-IFCHAEL-BNM-CPDS.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-21991 lazyload\" style=\"--smush-placeholder-width: 551px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 551\/709;width:453px;height:auto\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Cartaz da Anistia no arquivo BR UNICAMP IFCHAEL &#8211; BNM &#8211; CPDS<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><strong>Como o senhor avalia, por exemplo, o que a gente vive hoje? Porque \u00e9 claro que quando a gente busca a hist\u00f3ria, a gente busca mostrar o que aconteceu para a gente n\u00e3o repetir como farsa&#8230; Mas como o senhor avalia hoje a situa\u00e7\u00e3o do Brasil? O senhor acredita que uma situa\u00e7\u00e3o dessas poderia voltar a acontecer como a gente sentiu nos \u00faltimos anos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O fim do regime no Brasil foi diferente, por exemplo, da Argentina. O governo militar argentino invadiu as Malvinas como uma forma de angariar o apoio da popula\u00e7\u00e3o para se manter no poder. Quando perderam a guerra para o Reino Unido, o governo caiu. E houve na Argentina um processo de julgamento, de penaliza\u00e7\u00e3o daqueles que colaboraram com a ditadura ou que empreenderam atos de terrorismo de Estado. No caso do Brasil, houve uma abertura lenta e gradual e uma anistia ampla e irrestrita. A anistia reca\u00eda tanto sobre aqueles que foram exilados, perseguidos, aposentados, demitidos, como sobre aqueles que participaram da pol\u00edcia pol\u00edtica, torturaram, mataram. Com isso, o Brasil n\u00e3o fechou esse cap\u00edtulo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez esse cap\u00edtulo esteja sendo fechado agora com o julgamento e penaliza\u00e7\u00e3o daqueles que participaram da tentativa do golpe de 8 de janeiro. \u00c9 quase como um fechamento de um ciclo, de um per\u00edodo. Voc\u00ea n\u00e3o resolve um trauma jogando-o para baixo do tapete. Isso todos os terapeutas sabem. Voc\u00ea resolve o trauma enfrentando. N\u00e3o adiantava o Brasil simplesmente dizer que o que passou, passou, vida que segue, vamos esquecer o que aconteceu. N\u00e3o d\u00e1, isso fica impregnado na sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>E o que eu acho muito interessante, voltando \u00e0 quest\u00e3o do CBPF, \u00e9 como o CBPF soube fazer isso. Quando o diretor do CBPF faz, no final de 1979, uma sess\u00e3o p\u00fablica de repara\u00e7\u00e3o moral e rein\u00edcio da colabora\u00e7\u00e3o, que \u00e9 um reencontro de todos que foram demitidos, que sofreram viol\u00eancias e sa\u00edram com o corpo de funcion\u00e1rios &#8211; houve um discurso muito emocionado do Tiomno relatando todas as persegui\u00e7\u00f5es que aconteceram &#8211; o CBPF estava caminhando no sentido de curar os traumas do passado e possibilitar a reintegra\u00e7\u00e3o das pessoas. Esse processo, por mais doloroso que seja, \u00e9 muito necess\u00e1rio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 importante ressaltar que havia uma diferen\u00e7a muito grande entre os militares e golpistas de 1964 e os militares e golpistas de 2023. Neste segundo caso, eram negacionistas, contra a ci\u00eancia, a cultura, a vacina, a medicina, e achava que a educa\u00e7\u00e3o tinha que se dar dentro de conceitos ideol\u00f3gicos. Enquanto que os militares de 1964, n\u00e3o. Quer dizer, boa parte deles era nacional-desenvolvimentista.<\/p>\n\n\n\n<p>Por mais que tenham intervindo nas universidades, nos institutos de pesquisa, que tenham perseguido, demitido, em alguns casos assassinado professores, eles eram a favor da ci\u00eancia: aumentaram o n\u00famero de bolsas, criaram a reforma universit\u00e1ria, ampliaram o n\u00famero vagas nas universidades, fortaleceram o CNPq, criaram a Embrapa, ou seja, eles mantinham a mesma ideia desenvolvimentista de antes, que teria acontecido numa democracia. Pena que isso tenha acontecido numa ditadura. Era um processo que estava em curso e continuou em curso. Enquanto que em 2023, os discursos indicavam uma tentativa de mudan\u00e7a do processo civilizat\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>(Colaborou Roger Marzochi)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cientistas sofreram persegui\u00e7\u00f5es, demiss\u00f5es, aposentadorias compuls\u00f3rias e Jos\u00e9 Leite Lopes chegou a deixar o Brasil por figurar em uma lista de personalidades a serem assassinadas pelo regime, revela artigo do pesquisador do MAST Alfredo Tiomno Tolmasquim na Revista Brasileira de Ensino de F\u00edsica Para driblar a ca\u00e7a aos \u201ccomunistas\u201d empreendida pela Ditadura Civil-Militar iniciada em [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":21988,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[124],"tags":[],"class_list":["post-21987","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destaque-em-fisica"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21987","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21987"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21987\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":21996,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21987\/revisions\/21996"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21988"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21987"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21987"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21987"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}