{"id":21696,"date":"2024-03-07T11:16:42","date_gmt":"2024-03-07T14:16:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf-wp2027\/?p=21696"},"modified":"2024-03-07T11:16:43","modified_gmt":"2024-03-07T14:16:43","slug":"quatro-geracoes-de-fisicas-revelam-que-ha-ainda-muito-que-se-conquistar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/quatro-geracoes-de-fisicas-revelam-que-ha-ainda-muito-que-se-conquistar\/","title":{"rendered":"Quatro gera\u00e7\u00f5es de f\u00edsicas revelam que h\u00e1 ainda muito que se conquistar"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Desde o s\u00e9culo 19, as mulheres lutam por direitos iguais aos homens, mas em pleno s\u00e9culo 21 h\u00e1 ainda muito preconceito na \u00e1rea de exatas assim como em toda a sociedade<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Dois campos de refugiados, uma fuga na floresta, rastejando por estradas iluminadas em uma fronteira para fugir de soldados, que vigiavam trechos de 50 metros. A vida da cientista Alinka L\u00e9pine-Szily, 82 anos, renderia um bom filme de suspense no mundo da ci\u00eancia. Da Europa at\u00e9 o Brasil \u00e9 uma longa hist\u00f3ria, que ela conta em ricos detalhes, mas que ser\u00e1 drasticamente resumido por hora, embora mere\u00e7a aten\u00e7\u00e3o ainda mais porque ela esteve na reuni\u00e3o de cria\u00e7\u00e3o da Sociedade Brasileira de F\u00edsica (SBF), em Blumenau, em 1966.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nascida em Budapeste, na Hungria, em 1942, Alinka sofreu profundamente as consequ\u00eancias da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e da Revolu\u00e7\u00e3o H\u00fangara (1956). Seu pai faleceu em 1945 em um bombardeio americano. Filha de uma fam\u00edlia abastada antes da Segunda Guerra mundial, com grande influ\u00eancia no mundo das ci\u00eancias exatas, mas discriminada depois no per\u00edodo comunista, ela se viu na necessidade de buscar asilo no Brasil com a m\u00e3e e o irm\u00e3o ap\u00f3s o fracasso da revolta dos h\u00fangaros contra a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica em 1956.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma vez em S\u00e3o Paulo, aos 15 anos, e sem falar portugu\u00eas, ela se preparou ao exame de adapta\u00e7\u00e3o da Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o do Estado de SP nas mat\u00e9rias que ela n\u00e3o havia estudado na Hungria, como hist\u00f3ria do Brasil, geografia do Brasil, latim e portugu\u00eas. Na \u00e9poca n\u00e3o havia dicion\u00e1rio H\u00fangaro \u2013 Portugu\u00eas e cada nova palavra que ela aprendia e conseguia traduzir era anotada em um caderno, que ela guarda at\u00e9 hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>Aprovada no exame, ela ingressou no colegial cient\u00edfico que terminou em 1960 e queria seguir uma carreira em engenharia. No entanto, sua m\u00e3e, que era qu\u00edmica, sugeriu que considerasse uma profiss\u00e3o acad\u00eamica e cient\u00edfica. Ela explicou que, como j\u00e1 havia liderado muitos homens no trabalho, n\u00e3o seria f\u00e1cil para uma mulher assumir posi\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a. Foi durante uma visita ao centro acad\u00eamico na rua Maria Ant\u00f4nia que ela se encantou com um grupo de rapazes que estavam jogando xadrez e ping-pong. Todos eles estudavam f\u00edsica. \u201cEles eram muitos legais, inteligentes, e voltei e pensei: aqueles meninos muito simp\u00e1ticos eram todos f\u00edsicos, vou fazer isso.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Ela entrou para estudar F\u00edsica na USP, dividindo o tempo entre as aulas te\u00f3ricas na Maria Antonia e o laborat\u00f3rio de f\u00edsica nuclear com um acelerador Van der Graff, onde come\u00e7ou fazer inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica junto com 5 rapazes e 2 meninas da sua turma. No laborat\u00f3rio, no qual ainda nem ganhavam bolsa, foi decidido reduzir a turma de inicia\u00e7\u00e3o. Selecionaram os cinco meninos e disseram que escolheriam apenas uma das tr\u00eas mulheres. Alinka lembra com carinho das amigas, que sabiam a import\u00e2ncia da pesquisa experimental para ela, e abriram m\u00e3o da vaga para deixa-la no laborat\u00f3rio. \u201cVoc\u00ea j\u00e1 percebe a misoginia nessa decis\u00e3o. Eles n\u00e3o queriam ter oito pessoas. Mas n\u00e3o se tratava de tirar dos meninos, mas tirar das meninas\u201d, lembra ela.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela acha muito estranho que, naquela \u00e9poca, metade da classe fosse formada por meninas. Hoje, a propor\u00e7\u00e3o \u00e9 imensamente menor. \u201cN\u00e3o sei o que aconteceu\u201d, conta ela, que se formou em 1964 e, no ano seguinte, foi contratada como auxiliar de ensino e come\u00e7ou a dar aulas, aos 23 anos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ela se casou, teve duas filhas. A primeira, que nasceu em fevereiro de 1972, chegou bem quando ela estava escrevendo sua tese de doutorado. \u201cEu estava escrevendo a tese e empurrando carrinho de beb\u00ea, para dar pequeno movimento e ela dormir\u201d, lembra ela, que logo em seguida da defesa de tese foi morar na Fran\u00e7a. Fazia seu est\u00e1gio de p\u00f3s-doutoramento na CEA de Saclay. Quando engravidou seu chefe franc\u00eas parou de falar com ela. A segunda filha nasceu l\u00e1 em 1974, quando o casal retornou ao Brasil. Com duas crian\u00e7as pequenas, Alinka retomou as atividades de ensino na USP, sem, no entanto, ter tempo para pesquisa. Com o fim de seu casamento e o falecimento de sua m\u00e3e, em 1980, tudo ficou ainda mais dif\u00edcil.&nbsp; Mas com resili\u00eancia, na d\u00e9cada de 1980, aos poucos formou seu grupo de pesquisa com estudantes de mestrado e doutorado, realizando seus experimentos no laborat\u00f3rio Pelletron.&nbsp; Estudavam rea\u00e7\u00f5es nucleares diretas (espalhamento el\u00e1stico, inel\u00e1stico, transfer\u00eancia de n\u00facleos e part\u00edculas alfa) entre n\u00facleos com estrutura n-alfa, como 12C, 16O, 24Mg, 28Si, etc. Teve muitas teses e publica\u00e7\u00f5es, foi um per\u00edodo bastante produtivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre 1992 e 1994 passou dois anos na Fran\u00e7a querendo mudar de \u00e1rea, passar de feixes de n\u00facleos est\u00e1veis para n\u00facleos radioativos, a nova onda. Foi trabalhar no GANIL (Grand Accelerateur National des Ions Lourds) em Caen, levando suas filhas junto. Com seus contatos no exterior, ganhou prest\u00edgio internacional, embora acredite que, por ter levantado a voz contra injusti\u00e7as e o machismo, n\u00e3o tenha obtido o respeito merecido no Brasil. \u201cEu sou meio Europa do Leste, eu brigo e enfrento. E isso me causou muitas dificuldades, brigas que tive com certas pessoas que tinham o poder e eu botei a boca no trombone\u201d -conta ela. Atualmente \u00e9 professora titular s\u00eanior, aposentada da USP. Foi diretora do Laborat\u00f3rio Aberto de F\u00edsica Nuclear entre 2007 e 2011, que tem como principal equipamento o Acelerador Pelletron e o duplo solenoide supercondutor RIBRAS (Radioactive Ion Beams in Brasil) em cuja instala\u00e7\u00e3o teve papel importante.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre 2006-2008 representou o Brasil no Grupo de Trabalho sobre F\u00edsica Nuclear da \u201cGlobal Science F\u00f3rum\u201d da Organiza\u00e7\u00e3o para Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE). Desde 2005 \u00e9 membro do Grupo de Trabalho WG9 da International Union of Pure and Applied Physics (IUPAP), sobre Colabora\u00e7\u00e3o Internacional em F\u00edsica Nuclear. Entre 2009 e 2017 foi membro da Comiss\u00e3o de F\u00edsica Nuclear (C12) da IUPAP, sendo eleita em 2011 secretaria e em 2014 presidente da C12.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre 2009-2014 foi presidente da Comiss\u00e3o de F\u00edsica Nuclear da SBF. \u00c9 ainda presidente de Associa\u00e7\u00e3o Latino Americana de F\u00edsica Nuclear e Aplica\u00e7\u00f5es (ALAFNA) desde 2010. Em 2013 foi eleita membro externo da Academia de Ci\u00eancias da Hungria. Entre 2014-2017 foi Vice-presidente, Gender Champion da IUPAP, e membro do Conselho-Executivo da IUPAP. E membro titular da Academia de Ci\u00eancias do Estado de S\u00e3o Paulo.\u00a0 E, agora na Melhor Idade, Alinka ainda \u00e9 influencer no TikTok, com v\u00eddeos seus divulgados no projeto Mulheres na Ci\u00eancia, chegando perto da juventude, coisa que muito cientista cheio de testosterona n\u00e3o tem a m\u00ednima empatia para fazer.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf-wp2027\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/Sonia_16-scaled-1-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-21698\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto de Sonia Guimar\u00e3es<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>Para al\u00e9m do g\u00eanero<\/strong> \u2013 Sonia Guimar\u00e3es \u00e9 tamb\u00e9m outra mulher incr\u00edvel sobre a qual renderia um outro filme a respeito de supera\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m de mulher, Sonia \u00e9 negra, o que dobra o preconceito em um Pa\u00eds forjado pela escravid\u00e3o do povo africano, cujas feridas at\u00e9 hoje n\u00e3o cicatrizaram. Presidente da Comiss\u00e3o de Justi\u00e7a, Equidade, Diversidade e Inclus\u00e3o (JEDI) da SBF, Sonia conta que um question\u00e1rio que a comunidade est\u00e1 respondendo desde o ano passado ser\u00e1 apresentado para ser debatido durante o Encontro de Outono da SBF (EOSBF), que ser\u00e1 realizado em maio em Florian\u00f3polis, em Santa Catarina. E ela espera que as mulheres tenham a mesma coragem que Alinka para denunciar os casos de abuso e discrimina\u00e7\u00e3o de g\u00eanero e ra\u00e7a. Segundo ela, cerca de 800 pessoas responderam ao question\u00e1rio, que traz \u00e0 tona casos de ass\u00e9dio.<\/p>\n\n\n\n<p>Nascida em S\u00e3o Paulo, em 1956, come\u00e7ou a escrever aos quatro anos e era muito xereta, segundo a av\u00f3, o que para Sonia \u00e9 a base da ci\u00eancia, segundo ela conta em entrevista \u00e0 Funda\u00e7\u00e3o Telef\u00f4nica Vivo. Se formou em F\u00edsica em 1970 em Licenciatura em Ci\u00eancias &#8211; Dura\u00e7\u00e3o Plena pela Universidade Federal de S\u00e3o Carlos, fez mestrado em F\u00edsica Aplicada pelo Instituto de F\u00edsica e Qu\u00edmica de S\u00e3o Carlos &#8211; Universidade de S\u00e3o Paulo e doutorado (PhD) em Materiais Eletr\u00f4nicos &#8211; The University Of Manchester Institute Of Science And Technology, em 1989, a primeira mulher negra do Brasil com doutorado em F\u00edsica. E ela figura na lista das 100 Pessoas Inovadoras da Am\u00e9rica Latina de 2023, criada pela Bloomberg L\u00ednea.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso, no entanto, a custo de muito emprenho. Nascida em uma fam\u00edlia que a incentivava os estudos, sofreu preconceito no ensino m\u00e9dio quando a tiraram numa sala com bons alunos do turno da manh\u00e3 para dar lugar \u00e0 uma menina branca. Na gradua\u00e7\u00e3o, uma professora lhe dizia que nunca aprenderia F\u00edsica, sendo recusada uma bolsa de estudos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cN\u00e3o era apenas porque eu sou mulher, mas porque sou mulher negra. A aboli\u00e7\u00e3o da escravatura est\u00e1 aqui at\u00e9 hoje, escondidinha\u201d, afirma ela, em entrevista ao <strong>Boletim da SBF<\/strong>. \u201cEu sou meio antiga, mas h\u00e1 uma hist\u00f3ria recente de uma garota negra que foi impedida de se matricular num curso de uma escola militar, algo que \u00e9 inconstitucional. E ningu\u00e9m faz nada!\u201d, protesta.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNingu\u00e9m \u00e9 punido. Eu ando sem esperan\u00e7a. O que eu gosto de fazer \u00e9 dizer \u00e0s mulheres para n\u00e3o deixarem essas coisas impedirem nossa carreira. N\u00e3o deixe que as pessoas te bloqueiem, elas fazem isso para nos fazer desistir para eles possam dizer que n\u00e3o se desenvolveu porque ela n\u00e3o era boa o suficiente. Mas pelo menos eu falo para a molecada n\u00e3o desistir: lute, brigue denuncie, porque enquanto essa gente n\u00e3o for punida, isso n\u00e3o vai parar\u201d, afirma ela que atualmente \u00e9 professora Associada I do Instituto Tecnol\u00f3gico da Aeron\u00e1utica (ITA) do Departamento de Ci\u00eancia e Tecnologia Aeroespacial (DCTA), \u00e9 Conselheira Fundadora da AFROBRAS, ONG mantenedora da Universidade Zumbi dos Palmares, Conselheira do Conselho Municipal Para a Promo\u00e7\u00e3o de Igualdade Racial &#8211; COMPIR, da prefeitura da cidade de S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos e Conselheira Editorial da Revista Ensino Superior. \u201cSomos definitivamente a minoria. E as negras, a minoria da minoria. E os homens e alguns professores acham que precisamos sair. Isso est\u00e1 errado e deveria ser punido.\u201d<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"500\" data-src=\"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf-wp2027\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/Shila.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-21699 lazyload\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" style=\"--smush-placeholder-width: 600px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 600\/500;\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto de Marcilei Guazzelli<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><strong>Esfor\u00e7o redobrado \u2013<\/strong> A professora Marcilei Guazzelli, assessora de comunica\u00e7\u00e3o da SBF, come\u00e7ou a dar aulas ainda durante seu mestrado na Escola Polit\u00e9cnica da USP. Na \u00e9poca, j\u00e1 era m\u00e3e de dois filhos. E ela lembra que se os alunos, em sua maioria homens, gostassem de sua aula, era porque ela \u00e9 mulher; se n\u00e3o gostassem da aula, tamb\u00e9m era porque ela \u00e9 mulher. \u201cOu seja, qualquer coisa que acontecia, se fosse um homem iriam arrumar outras desculpas, olha a aula \u00e9 muito boa ou a aula \u00e9 muito ruim. A mulher era porque era mulher, entendeu? Ent\u00e3o, isso \u00e9 uma coisa que eu acho que existe at\u00e9 hoje em alguns ambientes, esse tipo de preconceito indireto\u201d, diz ela, hoje professora Titular no Centro Universit\u00e1rio FEI. Vale mencionar que durante o doutorado, a professora precisou lecionar F\u00edsica \u00e0 noite para complementar a renda familiar. Devido a isso, acabou perdendo a bolsa de estudos, o que agravou ainda mais a situa\u00e7\u00e3o. No entanto, ela n\u00e3o desistiu. \u201cAtualmente, os \u00f3rg\u00e3os de fomento permitem que um estudante de doutorado possa acumular bolsa e ter algumas horas dedicadas a outra atividade remunerada.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Formada em F\u00edsica em 1994 pelo Instituto de F\u00edsica da USP (IFUSP), concluiu o mestrado em 1999 e o doutorado em f\u00edsica em 2004, tamb\u00e9m no IFUSP. Realizou ainda est\u00e1gio de p\u00f3s-doutorado no Instituto Nacional de F\u00edsica Nuclear, na It\u00e1lia. Concluiu um p\u00f3s doutorado em 2006 na USP, onde \u00e9 colaboradora. No Centro Universit\u00e1rio FEI, ela coordena o Laborat\u00f3rio de F\u00edsica das Radia\u00e7\u00f5es &#8211; LAFIR, onde s\u00e3o desenvolvidos projetos para o estudo da Radia\u00e7\u00e3o Natural, meio ambiente e sustentabilidade. Participa de outros projetos de pesquisa em t\u00e9cnicas nucleares utilizadas em an\u00e1lise e caracteriza\u00e7\u00e3o de materiais. Ela ainda \u00e9 coordenadora do Laborat\u00f3rio de Efeitos da Radia\u00e7\u00e3o Ionizante &#8211; LERI, dedicado ao estudo da robustez de materiais e dispositivos eletr\u00f4nicos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 radia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Com atua\u00e7\u00e3o ainda em outros projetos, Shila, como \u00e9 chamada, explica que a mulher geralmente precisa trabalhar mais, estudar mais e ainda sofrer discrimina\u00e7\u00e3o direta ou indireta dentro de um ambiente majoritariamente masculino. Ela conta que em 2016 foi abrir uma confer\u00eancia no M\u00e9xico, comunicando-se com a dire\u00e7\u00e3o do evento por e-mail. Quando ela chegou no pa\u00eds, houve gente que se espantou ao ver uma \u201cmulher normal\u201d. Segundo ela, a mulher na F\u00edsica enfrenta o estere\u00f3tipo de uma pessoa louca, esquisita, um Einstein de saias mostrando a l\u00edngua.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA mulher que faz F\u00edsica \u00e9 normal? Ah, para muitos, isso n\u00e3o d\u00e1, isso n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, se \u00e9 uma mulher normal isso quer dizer que n\u00e3o \u00e9 inteligente. \u00c9 uma coisa chata isso. H\u00e1 um monte de tipo de estere\u00f3tipo: a mulher \u201cpadr\u00e3o\u201d tem que ser princesa, linda, usar vestidos longos e cor-de-rosa. Mas n\u00e3o se espera que a mulher na F\u00edsica seja assim, e nem que seja vaidosa, e isso tamb\u00e9m \u00e9 um preconceito\u201d, lamenta Shila.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"819\" height=\"1024\" data-src=\"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf-wp2027\/wp-content\/uploads\/2024\/03\/Roberta-Duarte-819x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-21700 lazyload\" style=\"--smush-placeholder-width: 819px; --smush-placeholder-aspect-ratio: 819\/1024;width:378px;height:auto\" src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto de Roberta Duarte<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><strong>O preconceito continua \u2013<\/strong> Aos 27 anos, Roberta Duarte \u00e9 uma cientista conhecida e uma grande influencer das redes sociais. Mas ela tamb\u00e9m sofreu com o machismo. Nascida em Mogi das Cruzes, no interior de S\u00e3o Paulo, sua paix\u00e3o pela ci\u00eancia nasceu com hist\u00f3rias da Turma da M\u00f4nica. E foi incentivada pelo pai a desde cedo brincar com a matem\u00e1tica e a ci\u00eancia, al\u00e9m do est\u00edmulo para videogames.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela concluiu o bacharel em F\u00edsica com habilita\u00e7\u00e3o Te\u00f3rica-Experimental do Instituto de F\u00edsica de S\u00e3o Carlos da Universidade de S\u00e3o Paulo e desenvolveu a experi\u00eancia em f\u00edsica computacional e mestrado em Astrof\u00edsica. Atualmente \u00e9 aluna de doutorado do Instituto de Astronomia e Geof\u00edsica da Universidade de S\u00e3o Paulo (IAG-USP) aonde trabalha na \u00e1rea de Buracos Negros e Machine Learning.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEu acredito que ainda h\u00e1 estere\u00f3tipo da mulher na sociedade. Mas desde crian\u00e7a meu pai incentivava computador, videogame, brinquedos que tinham mais l\u00f3gica, a matem\u00e1tica. Eu nunca senti essa coisa que mulher tem que ir para Humanas. Mas quando eu fui para divulga\u00e7\u00e3o cientifica, eu percebi que a realidade \u00e9 bem diferente: recebo mensagens de meninas que fazem Ensino M\u00e9dio que t\u00eam medo, porque o ambiente \u00e9 machista. Depois disso, comecei a refletir mais sobre essa quest\u00e3o e \u00e9 verdade: elas t\u00eam receio porque foram criadas para ir para Humanas e\/ou \u00e1reas de medicina e cuidados com o outro, e que mat\u00e9rias que trabalham com m\u00e1quinas \u00e9 coisa mais de homem\u201d, explica Roberta ao <strong>Boletim SBF<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante a faculdade, ela se sentiu muito mal por causa do machismo. Ela lembra que passava o final de semana todo fazendo listas de exerc\u00edcio de mec\u00e2nica qu\u00e2ntica, mas os compartilhava com os amigos. \u201cAt\u00e9 que um dia um veterano me abordou afirmando que eu estava sendo carregada pelos meus amigos, por isso que passava na disciplina, porque eu era a \u00fanica mulher da turma, sendo que eram eles que estavam copiando de mim. Essa foi uma situa\u00e7\u00e3o descarada, mas j\u00e1 rolaram situa\u00e7\u00f5es parecidas\u201d, lembra ela. De 40 alunos na sala, havia somente duas mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNo IAG tem um lado positivo, tem muita mulher. Foi a primeira vez que entrei em uma sala de aula com 50% de mulher, algo que nunca tinha presenciado, isso me surpreendeu positivamente. H\u00e1 muitas mulheres, n\u00e3o \u00e9 geral na Astronomia, mas ainda \u00e9 pequena a participa\u00e7\u00e3o da mulher de forma geral na \u00e1rea\u201d, explica Roberta.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de todas as dificuldades, al\u00e9m de Roberta ter se transformado em uma das principais refer\u00eancias das meninas que desejam trilhar o mundo da ci\u00eancia, com suas apari\u00e7\u00f5es nas redes sociais usando uma linguagem clara e direta \u00e0 juventude, ela tamb\u00e9m atua usando a intelig\u00eancia artificial para simular o que acontece nos Buracos Negros, sua principal paix\u00e3o. De Alinka \u00e0 Roberta, inclusive duas companheiras do mundo das redes sociais, a mulher vai superar as barreiras arbitr\u00e1rias impostas pelos homens que, vez ou outra, acabam deixando escapar o que realmente pensam sobre uma rela\u00e7\u00e3o que ainda tem muito que se aprimorar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>(Colaborou Roger Marzochi)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde o s\u00e9culo 19, as mulheres lutam por direitos iguais aos homens, mas em pleno s\u00e9culo 21 h\u00e1 ainda muito preconceito na \u00e1rea de exatas assim como em toda a sociedade Dois campos de refugiados, uma fuga na floresta, rastejando por estradas iluminadas em uma fronteira para fugir de soldados, que vigiavam trechos de 50 [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":21697,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[127],"tags":[],"class_list":["post-21696","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-acontece-na-sbf"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21696","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21696"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21696\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":21701,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21696\/revisions\/21701"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21697"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21696"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21696"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21696"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}