{"id":21440,"date":"2023-11-06T10:14:27","date_gmt":"2023-11-06T13:14:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf-wp2027\/?p=21440"},"modified":"2023-11-06T10:16:34","modified_gmt":"2023-11-06T13:16:34","slug":"brasileiros-participam-de-estudo-que-refuta-artigo-sobre-supercondutividade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/brasileiros-participam-de-estudo-que-refuta-artigo-sobre-supercondutividade\/","title":{"rendered":"Brasileiros participam de estudo que refuta artigo sobre supercondutividade"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Pesquisadores da Escola de Engenharia de Lorena trabalharam em coopera\u00e7\u00e3o com cientistas da \u00c1ustria, It\u00e1lia e Gr\u00e3-Bretanha que prova que estudo de professor da Universidade de Rochester est\u00e1 equivocado<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Imagine um material condutor de eletricidade que, ao ser usado em condi\u00e7\u00f5es ambientes de press\u00e3o e temperatura, solucionaria os desafios que enfrentamos para combater o aquecimento global, transmitindo energia sem perdas, possibilitando trens levitarem como se estivessem voando, computa\u00e7\u00e3o qu\u00e2ntica plena e uma evolu\u00e7\u00e3o sem precedentes na medicina. Para tudo isso, o jovem professor Ranga Dias, da Universidade de Rochester, nos Estados Unidos, apresentou um s\u00f3lido que se encaixaria nos mais elevados sonhos da humanidade em busca da supercondutividade em artigo cient\u00edfico na t\u00e3o sonhada revista Nature, em mar\u00e7o deste ano.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 que n\u00e3o&#8230; Laborat\u00f3rios ao redor do mundo buscaram checar os c\u00e1lculos e fazer as experi\u00eancias feitas no laborat\u00f3rio da universidade norte-americana e chegaram a um impasse principal: Dias se precipitou em suas contas ou, na pior das hip\u00f3teses, teria agido de m\u00e1 f\u00e9. Pesquisadores do Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Engenharia de Materiais da Escola de Engenharia de Lorena (EEL), da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), trabalharam em coopera\u00e7\u00e3o com cientistas da \u00c1ustria (Graz), It\u00e1lia (Roma) e Gr\u00e3-Bretanha (Cambridge) e conseguiram comprovar, ao menos, que a pesquisa de Dias n\u00e3o tem o m\u00ednimo fundamento.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe title=\"[Destaque em F\u00edsica] Brasileiros participam de estudo que refuta artigo sobre supercondutividade\" width=\"900\" height=\"506\" data-src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/k8EQqZBe_FI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen src=\"data:image\/svg+xml;base64,PHN2ZyB3aWR0aD0iMSIgaGVpZ2h0PSIxIiB4bWxucz0iaHR0cDovL3d3dy53My5vcmcvMjAwMC9zdmciPjwvc3ZnPg==\" class=\"lazyload\" data-load-mode=\"1\"><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p>\u201cN\u00e3o h\u00e1 chance de o Ranga Dias ser \u2018O Homem que viu o infinito\u2019. Os nossos c\u00e1lculos mostram que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. Na melhor das hip\u00f3teses, foi erro dele, uma an\u00e1lise precipitada\u201d, afirma o professor da EEL Luiz Tadeu Fernandes Eleno, fazendo uma refer\u00eancia ao filme do diretor Matthew Brown sobre o indiano Srinivasa Ramanujan, o g\u00eanio autodidata da matem\u00e1tica que assombrou o rigor acad\u00eamico da Universidade de Cambridge ao fazer c\u00e1lculos que contribu\u00edram com a s\u00e9rie infinita inspirado simplesmente por uma deusa hindu. Dias \u00e9 do Sri Lanka, foi eleito pela revista Time em 2021 como uma das cem personalidades que definiriam o futuro da humanidade, e ele se nega a se retratar.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas qual \u00e9 o grande esc\u00e2ndalo da pesquisa de Dias? A supercondutividade \u00e9 a capacidade de os el\u00e9trons transmitirem energia sem qualquer resist\u00eancia. Isso ocorre porque os el\u00e9trons formam pares especiais, chamados de &#8220;pares de Cooper&#8221;, que se movem de forma coordenada e sem colidir com as vibra\u00e7\u00f5es do cristal, o que elimina a dissipa\u00e7\u00e3o de energia na forma de calor. Essa propriedade foi descoberta em 1911 pelo cientista holand\u00eas Heike Kamerlingh Onnes, que realizou experimentos com merc\u00fario a temperaturas extremamente baixas, de -269 C\u00ba. Por essa descoberta, Onnes venceu o Pr\u00eamio Nobel de F\u00edsica em 1913.<\/p>\n\n\n\n<p>E porque h\u00e1 resist\u00eancia nos materiais que conhecemos? Em fios de cobre, por exemplo, h\u00e1 el\u00e9trons que se chocam com n\u00facleos do material, uma das explica\u00e7\u00f5es do porqu\u00ea fios el\u00e9tricos esquentam. Para se alcan\u00e7ar a supercondutividade, os cientistas aplicam temperaturas negativas a materiais, como h\u00edbridos de cer\u00e2mica, por exemplo. O gasto de energia para manter as temperaturas negativas s\u00e3o um empecilho ao desenvolvimento de aplica\u00e7\u00f5es com esses materiais. E para conseguir se aproximar da temperatura ambiente, a press\u00e3o seria t\u00e3o descomunal que n\u00e3o seria pratic\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2015, um grupo liderado pelo cientista ucraniano Mikhael Eremets obteve evid\u00eancias de que o hidrog\u00eanio, quando altamente pressurizado, gera um metal que poderia exibir propriedades de supercondutividade a temperatura de \u201370 C\u00ba que, embora negativa, era mais altas que o normal. No entanto, a press\u00e3o deveria ser t\u00e3o alta, cerca da metade da press\u00e3o do n\u00facleo terrestre, que sua reprodu\u00e7\u00e3o seria invi\u00e1vel. Eleno explica que, no entanto, pesquisas foram inspiradas em associar o hidrog\u00eanio a v\u00e1rios elementos que, na cozinha dos laborat\u00f3rios, foram sendo testados na busca do elixir da supercondutividade.<\/p>\n\n\n\n<p>Em seu artigo cient\u00edfico, Ranga Dias realizou experi\u00eancias com o elemento qu\u00edmico lut\u00e9cio, o mais raro das terras raras, associado com nitrog\u00eanio e hidrog\u00eanio. Dessa mistura, resultaria um material supercondutor a temperatura ambiente, de cerca de 20 C\u00ba, e press\u00e3o ambiente. \u201cTodos os grupos experimentais come\u00e7am a tentar reproduzir e fazer as contas para ver se tem sentido, da China aos Estados Unidos. E ningu\u00e9m conseguiu. H\u00e1 problemas conceituais dif\u00edceis de refutar. Nem o Dias sabe a quantidade de hidrog\u00eanio e nitrog\u00eanio no composto e nem o arranjo at\u00f4mico do s\u00f3lido. Isso n\u00e3o est\u00e1 no artigo\u201d, explica Eleno.<\/p>\n\n\n\n<p>Logo ap\u00f3s o an\u00fancio do artigo na Nature, Eleno tamb\u00e9m buscou checar os dados. O seu aluno de doutorado Pedro Pires Ferreira \u00e0 \u00e9poca estava, justamente, em uma colabora\u00e7\u00e3o sandu\u00edche na Universidade T\u00e9cnica de Graz (TU-Graz), na \u00c1ustria, sob a co-supervis\u00e3o do professor Christoph Heil. Ferreira foi orientado a pausar o seu projeto de pesquisa para mergulhar nos c\u00e1lculos soltos ao vento por Ranga Dias. A equipe trabalhou meses, usando um amplo sistema computacional que analisou 200 mil combina\u00e7\u00f5es de temperatura, press\u00e3o e dosagem de lut\u00e9cio, nitrog\u00eanio e hidrog\u00eanio. Os resultados foram publicados em setembro na Nature Communications no artigo \u201c<a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/s41467-023-41005-2\">Search for ambient superconductivity in the Lu-N-H system<\/a>\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA combina\u00e7\u00e3o que apresentou melhor resultado na press\u00e3o ambiente precisaria estar na temperatura de -230 C\u00ba, muito longe dos 20 C\u00ba proposto por Dias. Se realmente a gente encontrasse um supercondutor em condi\u00e7\u00f5es ambientes salvar\u00edamos o Ranga Dias, mas n\u00e3o deu. A gente afirmou categoricamente que est\u00e1 descartado um composto com as caracter\u00edsticas propostas. E est\u00e1 agora na literatura\u201d, afirma Eleno. O <strong>Boletim da SBF<\/strong> enviou pedido de informa\u00e7\u00f5es a Ranga Dias por e-mail, mas n\u00e3o obteve retorno at\u00e9 o momento.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de 8 dos 11 cientistas que assinaram com Ranga Dias o artigo terem pedido retrata\u00e7\u00e3o da Nature, acusando o professor de manipula\u00e7\u00e3o de dados, o texto continua no site da revista. Eleno avalia que retirar o artigo talvez s\u00f3 ocorreria se houvesse comprova\u00e7\u00e3o de fraude. Mas avalia que a publica\u00e7\u00e3o se precipitou em publicar uma pesquisa dessa magnitude, com as afirma\u00e7\u00f5es que foram feitas, sem uma ampla checagem. \u201cEu acho que \u00e9 uma \u00e1rea de ponta na f\u00edsica encontrar um supercondutor em condi\u00e7\u00f5es ambientes. Nesses casos, a revis\u00e3o por pares deveria ser mais rigorosa e criteriosa. Isso gera cita\u00e7\u00e3o para a revista, mas falando mal do artigo, refutando o artigo, o que pode lan\u00e7ar d\u00favidas sobre o processo de revis\u00e3o da Nature.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><strong>(Colaborou Roger Marzochi)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisadores da Escola de Engenharia de Lorena trabalharam em coopera\u00e7\u00e3o com cientistas da \u00c1ustria, It\u00e1lia e Gr\u00e3-Bretanha que prova que estudo de professor da Universidade de Rochester est\u00e1 equivocado Imagine um material condutor de eletricidade que, ao ser usado em condi\u00e7\u00f5es ambientes de press\u00e3o e temperatura, solucionaria os desafios que enfrentamos para combater o aquecimento [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":21441,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[124],"tags":[],"class_list":["post-21440","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-destaque-em-fisica"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21440","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21440"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21440\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":21443,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21440\/revisions\/21443"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21441"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21440"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21440"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21440"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}