{"id":21175,"date":"2023-08-10T15:27:33","date_gmt":"2023-08-10T18:27:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf-wp2027\/?p=21175"},"modified":"2023-08-10T15:28:57","modified_gmt":"2023-08-10T18:28:57","slug":"rita-de-cassia-defende-cota-para-negros-na-coordenacao-de-eventos-da-fisica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/rita-de-cassia-defende-cota-para-negros-na-coordenacao-de-eventos-da-fisica\/","title":{"rendered":"Rita de C\u00e1ssia defende cota para negros na coordena\u00e7\u00e3o de eventos da F\u00edsica"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Astrof\u00edsica vencedora do Pr\u00eamio Anselmo Salles Paschoa de 2022 defende a diversidade na forma\u00e7\u00e3o de comit\u00eas da \u00e1rea e acredita que se deve ir al\u00e9m da espera por pol\u00edticas p\u00fablicas dentro e fora de universidades<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Astrof\u00edsica e professora da Universidade Federal do Paran\u00e1 (UFPR) em Palotina, no Oeste do Estado, Rita de C\u00e1ssia dos Anjos, mesmo possuindo facilidade em fazer amigos, conquistar pr\u00eamios e construir pontes dentro da \u00e1rea da F\u00edsica, bem como com campos como o ensino e a comunica\u00e7\u00e3o, descreve-se como uma pessoa muito introspectiva. Ela \u00e9 uma cientista negra que conseguiu destaque com muito esfor\u00e7o e apoio de amigos e orientadores. No entanto, no Brasil, persiste um racismo estrutural que ela precisa enfrentar e administrar constantemente, a fim de evitar confrontos incessantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Especialista no estudo da busca por respostas da proced\u00eancia de raios c\u00f3smicos, por meio da colabora\u00e7\u00e3o brasileira no Observat\u00f3rio Pierre Auger, na Argentina, Rita venceu em 2020 pr\u00eamio Para Mulheres na Ci\u00eancia 2020, promovido pela Academia Brasileira de Ci\u00eancias (ABC), L\u2019Or\u00e9al e Unesco Brasil. Ela tamb\u00e9m atua com for\u00e7a no projeto do&nbsp;<em>Cherenkov Telescope Array&nbsp;<\/em>(CTA), cerca de cem telesc\u00f3pios que estudar\u00e3o raios gama e que est\u00e3o sendo constru\u00eddos no Chile e nas Ilhas Can\u00e1rias, na Espanha. Este \u00e9 um projeto tem\u00e1tico da Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado de S\u00e3o Paulo (Fapesp), coordenado pelo f\u00edsico Luiz Vitor de Souza, professor do Instituto de F\u00edsica de S\u00e3o Carlos da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), que prev\u00ea que o Brasil construir\u00e1 at\u00e9 23 telesc\u00f3pios.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m dos recursos alocados pela FAPESP para o projeto, destinados ao pagamento de bolsas de pesquisa e \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da estrutura de nove telesc\u00f3pios, a Funda\u00e7\u00e3o Arauc\u00e1ria, do Paran\u00e1, liberou R$ 1 milh\u00e3o, que permitir\u00e1 a fabrica\u00e7\u00e3o da estrutura de mais um telesc\u00f3pio e investimento em recursos humanos. O financiamento da Funda\u00e7\u00e3o Arauc\u00e1ria foi obtido pelo empenho de Rita, que levou uma institui\u00e7\u00e3o com forte investimento em agribusiness a tamb\u00e9m dirigir seu olhar para al\u00e9m do infinito.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEu digo que n\u00e3o \u00e9 o caso de ser pesquisa b\u00e1sica ou aplicada, mas vimos uma j\u00f3ia a ser lapidada que precisava ser apoiada. Desde a primeira reuni\u00e3o, sab\u00edamos que \u00edamos apoiar\u201d, afirmou no ano passado o professor Ramiro Wahrhaftig, presidente da Funda\u00e7\u00e3o Arauc\u00e1ria, em entrevista a este jornalista&nbsp;<em>free-lancer<\/em>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ramiro explica que Rita tem o dom de aglutinar pessoas em projetos em comum, uma capacidade t\u00e3o importante para desenvolver a ci\u00eancia. \u201cVoc\u00ea aposta n\u00e3o apenas no projeto, mas nas pessoas. Os cientistas que t\u00eam mais valor s\u00e3o os que sabem se conectar. Ela \u00e9 muito jovem e quando eu tive a primeira reuni\u00e3o com ela pensei que era uma pessoa que tinha que apoiar\u201d, diz ele, que j\u00e1 participou ativamente na cria\u00e7\u00e3o de mecanismo para incentivo da pesquisa e do ensino no Paran\u00e1.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas Rita, vencedora da primeira edi\u00e7\u00e3o do Pr\u00eamio Anselmo Salles Paschoa de 2022, concedida pela Sociedade Brasileira de F\u00edsica (SBF) para incentivar jovens cientistas negros e negras, sentiu forte o racismo estrutural em diversas ocasi\u00f5es, que ela prefere n\u00e3o comentar casos isolados, explica ela em entrevista enquanto estava em um projeto de colabora\u00e7\u00e3o na B\u00e9lgica para estudar jatos relativ\u00edsticos na Universidade Ku Leuven.<\/p>\n\n\n\n<p>Por ser docente da universidade, Rita avalia que as pessoas a respeitam, embora possam n\u00e3o gostar. E, convivendo com o racismo estrutural, Rita prefere evitar certos ambientes, para evitar desgaste psicol\u00f3gico. Isso, no entanto, n\u00e3o a impede de ocupar espa\u00e7os de destaque na ci\u00eancia, especialmente para incentivar que jovens estudantes negros e negras acreditem ser poss\u00edvel alcan\u00e7ar esses postos.<\/p>\n\n\n\n<p>A Pesquisa Nacional por Amostragem de Domic\u00edlio Cont\u00ednua (PNAD) \u2013 Educa\u00e7\u00e3o de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE) revelou grandes desigualdades. A taxa de analfabetismo de pessoas de 15 anos ou mais era de 3,4% de pessoas brancas enquanto que chega a 7,4% na popula\u00e7\u00e3o negra. A diferen\u00e7a \u00e9 maior na faixa acima dos 60 anos: 9,3% para branco, 23,3% para negros. Em 2022, 36,7% das pessoas brancas na faixa et\u00e1ria dos 18 aos 24 anos estavam estudando, enquanto apenas 26,2% dos negros. Dentro dessa faixa, entre os brancos estudando, 29,2% estavam na gradua\u00e7\u00e3o e apenas 15,3% entre os pretos e pardos. E 70,9% dos negros nessa idade n\u00e3o estudavam nem tinham conclu\u00eddo o ensino superior, enquanto a taxa entre os brancos foi de 57,3%. \u201cA popula\u00e7\u00e3o negra representa cerca de 60% da popula\u00e7\u00e3o brasileira, mas atua em trabalhos de baixa escolaridade. Uma pesquisa antiga do IBGE mostrava que apenas 3% dos pesquisadores de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o s\u00e3o mulheres negras. Esse dado n\u00e3o deve ter mudado tanto, \u00e9 muito pouco\u201d, lamenta Rita.<\/p>\n\n\n\n<p>Para ela, pesquisas como a da cientista D\u00e9bora Peres Menezes, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e ex-presidente da SBF, que revela a baixa participa\u00e7\u00e3o das mulheres em comit\u00eas de organiza\u00e7\u00e3o dos principais eventos de F\u00edsica e como palestrantes, s\u00e3o muito importantes. E, al\u00e9m de concordar com uma cota para mulheres nessas posi\u00e7\u00f5es, Rita tamb\u00e9m defende uma cota para cientistas negros e negras. \u201cEu acho importante, pode gerar bons resultados. Eu j\u00e1 vi eventos nos quais todo o comit\u00ea era formado de homens e os convidados eram homens, isso gera uma falta de identidade muito grande. Voc\u00ea acaba frequentando espa\u00e7os que, pela falta de diversidade, voc\u00ea se pergunta se est\u00e1 no lugar certo. E n\u00f3s j\u00e1 passamos por muitos caminhos, a gente n\u00e3o volta. Homens e mulheres negras v\u00e3o at\u00e9 o fim e levam essa bandeira. S\u00f3 o fato de ser mulher ou homem negro j\u00e1 \u00e9 representatividade.\u201d E, para ela, h\u00e1 muito que se fazer no incentivo de cientistas negros e negras dentro de institui\u00e7\u00f5es e universidades, sem a necessidade de esperar por pol\u00edticas p\u00fablicas. \u201cIsso d\u00e1 voz e oportunidade a todos.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>As pol\u00edticas de cotas deixaram ainda mais evidente na sociedade brasileira o preconceito de grande parte da popula\u00e7\u00e3o, que se julga superior por causa da cor da pele. Cida Bento, cofundadora do Centro de Estudos das Rela\u00e7\u00f5es de Trabalho e Desigualdades (CEERT), revela no livro \u201cO Pacto da Branquitude\u201d (Companhia das Letras), a forte rela\u00e7\u00e3o do colonialismo e do capitalismo com o racismo, mostrando que a luta dos negros por igualdade na sociedade alimenta nos brancos o medo de perder privil\u00e9gios, que respondem a esse movimento com o mito da meritocracia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAs institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, privadas e da sociedade civil definem, regulamentam e transmitem um modo de funcionamento que torna homog\u00eaneo e uniforme n\u00e3o s\u00f3 processos, ferramentas, sistemas de valores, mas tamb\u00e9m o perfil de seus empregados e lideran\u00e7as, majoritariamente masculino e branco. Essa transmiss\u00e3o atravessa gera\u00e7\u00f5es e altera pouco a hierarquia das rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o ali incrustadas. Esse fen\u00f4meno tem nome, branquitude, e sua perpetua\u00e7\u00e3o no tempo se deve a um pacto de cumplicidade n\u00e3o verbalizado entre pessoas brancas, que visa manter privil\u00e9gios\u201d, afirma Cida. \u201cDe fato, branquitude, em sua ess\u00eancia, diz respeito a um conjunto de pr\u00e1ticas culturais que s\u00e3o n\u00e3o nomeadas e n\u00e3o marcadas, ou seja, h\u00e1 sil\u00eancios e oculta\u00e7\u00e3o em torno dessas pr\u00e1ticas culturais.\u201d E, Rita de C\u00e1ssia, vem com esse pr\u00eamio, fazer com que jovens negros e negras brasileiras sonhem al\u00e9m para quebrar com o preconceito.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;(Colaborou Roger Marzochi)<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Astrof\u00edsica vencedora do Pr\u00eamio Anselmo Salles Paschoa de 2022 defende a diversidade na forma\u00e7\u00e3o de comit\u00eas da \u00e1rea e acredita que se deve ir al\u00e9m da espera por pol\u00edticas p\u00fablicas dentro e fora de universidades Astrof\u00edsica e professora da Universidade Federal do Paran\u00e1 (UFPR) em Palotina, no Oeste do Estado, Rita de C\u00e1ssia dos Anjos, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":21176,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[127],"tags":[],"class_list":["post-21175","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-acontece-na-sbf"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21175","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21175"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21175\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":21177,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21175\/revisions\/21177"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21176"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21175"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21175"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sbfisica.org.br\/v1\/sbf\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21175"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}